Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A bem da Nação

COISAS DA ESCRITA

 

 

 

É sabido (para os que sabem) que a primeira escrita com caracteres fonéticos terá nascido com os fenícios e apareceu primeiro em Biblos – uma palavra que nos lembra alguma coisa de escrita! Povo marítimo e comerciante, expandindo-se através do Mare Nostrum e não só, criando colónias com quem tinha necessidade de se comunicar, os caracteres ideográficos, como os hieróglifos, além de darem um intenso trabalho, conduziam muitas vezes a interpretações erróneas. Os fenícios não usavam vogais, mas entendiam-se bem e foram os gregos, igualmente povo do mar, que pouco mais tarde, com os mesmos problemas de comunicação dos fenícios, introduziram as vogais e tornaram a escrita naquilo que é conhecida até hoje, quer o alfabeto seja romano, grego ou cirílico.

 

Os tipos de letra destes inovadores eram complicados. Os romanos, práticos, organizados, criaram um tipo de letra que, gravada na pedra, podia ser vista a qualquer hora do dia: linhas rectas, gravações profundas que permitiam praticamente em todas as horas que uma sombra se projectasse no fundo da letra e a tornasse bem legível e inteligível. A este tipo de letra se chamou, como é óbvio, lapidar, gravada na pedra.

 

Atribui-se mais tarde aos santos Cirilo e Metódio a criação dum alfabeto próprio para as línguas eslavas e hoje utilizadas também em alguns países da antiga União Soviética, com a finalidade de transcreverem para esses povos a Bíblia. O alfabeto cirílico.

 

Ainda no mesmo século IX, Carlos Magno impôs o uso de letras minúsculas, que igualmente foram baptizadas de carolinas¸ a que hoje se chamam, em tipografia, letras de caixa baixa.

 

No século XII surgem as universidades e com elas imensa demanda de pergaminhos, para a necessidade da divulgação, arquivo, consulta e troca do conhecimento. Os godos, face a essa penúria de base onde escrever, criaram uma letra especial, angulosa, estreita, que ocupava menos espaço do que as conhecidas até então, economizando assim os tais pergaminhos, e essa letra, que resiste nalguns lugares – meio exóticos – está-se mesmo a ver que se chama gótica. Letra cheia de maneirismos, difícil de ler, criou também um cursivo, chamado bastardo!

 

No sentido de economizarem os pergaminhos chegaram a criar uma letra tão miúda que só se lia com óculos!

 

Os humanistas italianos não foram na conversa dos godos. Petrarca dizia que aquele tipo de letra embaraçava e fatigava os olhos como se fora feita para qualquer outra finalidade que não a leitura e a Renascença procura então um novo tipo de letra.

 

Com a conquista de Mogúncia, terra de Gutemberg, onde nasceu a tipografia no Ocidente, muitos artistas se espalharam pela Europa. O franco-alemão, da Alsácia, Nicola Jenson, instala-se em Veneza e vai-se inspirar no alfabeto romano: letras simples, bem legíveis, rectas, estilo puro, o romano. Um dos seus herdeiros, Aldus Manutius, encomendou mais tarde ao seu gravador um tipo mais delicado, inclinado, que começou por se chamar aldine, mas que “herdou” o nome da terra onde nasceu: o itálico.

 

Francisco I, rei de França, confiou a Claude Garamont uma encomenda real, para edição de textos gregos, os famosos grecs du roi¸ que criou caracteres romanos e itálicos, hoje presentes em todos os computadores: o Garamond.

 

Em 1692 foi o “humilde” Roi Soleil, Luis XIV, que encarregou o abade Jacques Jaugeon de criar um novo tipo, reservado em exclusivo, à impressão real, o romain royal. Este tipo de letra, mais elegante e rebuscada, como seria de esperar, não durou mais de meio século. Apagou-se a meio do reinado de Luis XV!

 

No século XVIII foram os ingleses que primaram pela elegância. Mas todos se basearam no “velho” romano, dando-lhe um pequeno toque aqui, outro além, o que se pode constatar correndo as várias “fontes” disponíveis nos computadores.

 

E veio depois a Art Nouveau, a Bauhaus, o Peignot, o Bifur, e tantos outros artistas criadores de tipos de letras, que as gráficas, hoje baseadas em computadores, podem alterar e realizar.

 

E... os chineses? Como conseguem eles escrever num computador? Levou tempo para que chegassem a uma conclusão, mas, determinados e inteligentes, obtiveram o resultado desejado.

 

Pode parecer um pouco preconceituoso dizer que os chineses têm problema para digitar, mas a verdade é que até hoje eles não possuem um sistema padrão para desenvolver teclados, como o nosso ABNT2. E esse problema é mais antigo que os computadores: ele vem desde a época das máquinas de escrever.

 

A maior dificuldade enfrentada pelos chineses actualmente é fazer um teclado que consiga produzir o maior número possível de ideogramas e que ainda possa usar os caracteres do alfabeto latino, predominantes nas culturas ocidentais e, portanto, na Internet. Para resolver o enigma, algumas soluções foram pensadas.

 

Uma delas, o método Cangjie é apenas o mais famoso dos chamados “Shape-based methods” (Métodos baseados na forma). Existem vários outros, cada um adaptado para uma região, contexto e língua diferente.

 

Cada tecla recebe um símbolo que é chamado de “radical” ou “raiz”. Existem 24 desses radicais e a partir deles você pode usar outros sub-radicais, formando praticamente todos os ideogramas. Para uni-los há que pressionar dois ou mais botões ao mesmo tempo!

 

FGA-teclado chinês.png

 

Complicado, né? Eles lá se vão entendendo, mas a escrita ideográfica... começa a cair em desuso. E isso é um bem cultural chinês de valor inestimável, que, como é evidente eles não podem, nem querem perder.

 

29/02/2016

 

FGA-2OUT15.jpg

 Francisco Gomes de Amorim

 

Fontes:

- Robert Druet – La civilisation de l’écriture – 1977

- Internet

CURTINHAS CXXXIII

 

FRASES FEITAS & EUFEMISMOS

 

Funcionário público.jpg

 

"Foi a Função Pública que suportou o maior fardo da austeridade"

(Daniel Oliveira)

 

 

  • Não, não foi.

 

  • Na Função Pública houve: (i) cortes salariais (certamente penalizadores, mas, apesar de tudo, moderados); (ii) algumas centenas de funcionários públicos (em mais de 700,000) que foram transferidos para um quadro de mobilidade especial (a imaginação para os eufemismos, essa, nunca conhece austeridade) com redução do vencimento; (iii) pressão para reformas antecipadas (que, por norma, falhava o alvo); (iv) muitos contratos de prestação de serviços que não foram renovados (só que os tarefeiros não pertencem aos quadros da Função Pública).

 

  • Mas despedimentos na Função Pública, não houve.

 

  • Quem sofreu a austeridade em todo o seu rigor (e ela nem sequer foi especialmente rigorosa no plano “macro”, mas isso são outros contos) foram: (i) os que perderam o emprego - sobretudo aqueles que ainda hoje estão desempregados e sem perspectivas de arranjar trabalho novamente; (ii) os jovens que não encontram, por cá, onde trabalhar.

 

  • E é isto que tem levado muita gente (jovens, e outros não tão jovens assim) a emigrar. Tanto quanto a estatísticas mostram, os funcionários públicos que têm emigrado fazem-no, não para encontrar, no estrangeiro, o trabalho que aqui perderam, mas porque lhes acenam de lá com melhores condições de trabalho e remunerações mais aliciantes.

 

  • Convenhamos que ver o vencimento encolher, não ser beneficiado com promoções nem com actualizações salariais (mesmo quando a inflação é, apenas, residual), por muito desagradável que seja (e é certamente), não se compara a ficar desempregado numa economia em recessão.

 

  • Por outro lado, ver fechar a porta da Função Pública a filhos, parentes e amigos, quando tudo parecia bem encaminhado para um emprego, talvez mal pago, mas não excessivamente intenso - e, acima de tudo, garantido para a vida - é, de facto, uma arrelia. Mas só isso (porém, as clientelas partidárias lá continuaram a arranjar um lugarzinho aqui, outro ali, na esperança de melhores dias).

 

  • O surpreendente é que ao fim de 5 anos, ninguém páre para reflectir nestas questões simples, mas essenciais: (i) Como queremos exercer a nossa soberania num mundo que é impiedoso para os países irrelevantes? (ii) Como organizarmo-nos para esse fim? (iii) Com que meios dotar essa organização e qual a sua expressão financeira? (iv) Qual a carga fiscal máxima compatível com o modelo de desenvolvimento escolhido? (v) Fará sentido continuar a aplicar o mesmo estatuto (e, consequentemente, a mesma tabela salarial) nas funções de soberania (totalmente incompatíveis com conflitos de interesses) e na restante Função Pública (onde o problema dos conflitos de interesses se coloca com muito menor acuidade, tal como acontece em qualquer actividade privada)?

 

  • E isto leva-nos a nova frase…

 

tap.jpg

 

"A TAP oferece um serviço público e, por isso, deve ser do Estado"

(Catarina Martins)

(Nota: O caso da TAP é aqui simples pretexto)

 

  • Na sua pureza, a tese que esta frase perfilha pode ser sintetizada assim: “Serviços públicos têm de ser prestados por funcionários públicos”.

 

  • Uma tese que nos tem acompanhado desde a Revolução Liberal - o cruel episódio que substituiu uma monarquia absolutista, porque “iluminada”, por uma Administração Pública que se reclamava herdeira dessas mesmas “luzes”, logo tendencialmente absolutista.

 

  • Foi assim durante o Constitucionalismo, onde os sucessivos Governos bem tentavam, mas não conseguiam dominar uma Administração Pública retalhada por interesses partidários em permanente litígio e absolutamente disfuncional. Foi assim nos tempos da 1ª República, impotente para corrigir a herança que o regime monárquico lhe legara. E o Estado Novo mais não foi que o triunfo desta tese - agora, com a Administração Pública sob a vontade férrea de Salazar.

 

  • Para manter os funcionário públicos sossegados, mesmo se não de todo comprazidos (porque as remunerações eram modestas), Salazar mimou-os com um regime de excepção: (i) vencimentos pagos a tempo e horas, garantidos pelas receitas fiscais; (ii) despedimentos (e aposentações compulsivas), só com justa causa (quase sempre por infidelidade política, raramente por incompetência ou desonestidade); (iii) reforma garantida (por inteiro e actualizável); (iv) promoções automáticas por antiguidade; (v) assistência total na doença (ADSE); (vi) incentivos à aquisição de casa própria; (vii) até, para algumas categorias de funcionários, habitação gratuita (ou com rendas simbólicas). Só os maiores grupos empresariais conseguiam oferecer aos seus empregados benesses comparáveis - e mesmo assim...

 

  • Trata-se, porém, de uma tese prenhe de equívocos, na exacta medida em que cultiva, de forma deliberada, a confusão entre a organização (o Estado), os órgãos que a tornam efectiva e a fazem funcionar (com destaque para o órgão executivo, o Governo) e os meios de que se serve (a Administração Pública com a sua estrutura hierárquica, a Função Pública).

 

  • O Estado a que a frase faz referência não é a sociedade políticamente organizada, orientada para a segurança colectiva, a convivência pacífica e a cooperação em busca do bem comum no território nacional. Porque, nessa concepção, nada é estranho ao Estado, tudo acontece no seu âmbito.

 

  • É, sim, uma vontade política: (i) que tem por evidentes os benefícios a que eventualmente conduza (por isso, não os enumera, nem cuida demonstrá-los); (ii) que não se preocupa com os correlatos custos (por isso, não os estima). Apenas, uma figura eminentemente ideológica, intolerante e totalmente assente no contribuinte como “pagador de último recurso”.

 

  • O que transparece da frase comentada é a dicotomia Estado/Sociedade Civil, um resquício da dicotomia Soberano/Súbditos característica do “Ancien Régime”. Dicotomias que colocam quem exerce o poder (antes, em nome próprio; hoje, como órgão do Estado) ao abrigo das críticas, evitando-lhe o incómodo de ter de se explicar e de convencer.

 

  • “Serviço público” é a etiqueta com que uma tal vontade aparece justificada. Aliás, a tese bem poderia acolher a figura do “Estado-financiador (de serviços públicos)” - que exige uma Função Pública de menor dimensão. Mas não. Só admite a figura de “Estado-prestador (de serviços públicos)” - porque só assim a Função Pública poderá ultrapassar sem rebuço qualquer limite.

 

  • Mais recentemente, a tese começou a ser lida às avessas: já não é o serviço público que mobiliza funcionários públicos, mas são as actividades que se quer exercidas por funcionários públicos que passam a ser qualificadas, ipso facto, “serviços públicos”.

 

  • Mas porquê este apetite pela Função Pública?

 

  • A razão é óbvia. Emprego garantido para a vida - em que a aposentação compulsiva é uma possibilidade muito, mas mesmo muito, remota e o despedimento por razões políticas uma absoluta impossibilidade. Remuneração garantida pelos contribuintes. Reforma garantida, idem. Avaliações ténues. Promoções automáticas. E tudo o mais que havia no Estado Novo. Possibilidade de contestar (isto não havia no Estado Novo) sem nada arriscar, porque nunca nível remuneratório, estatuto e emprego são postos em causa.

 

  • Enfim, o melhor da Função Pública que o Estado Novo nos legou (e que tem sido mantida intacta com grande cuidado), sem a teimosia, o olhar severo e o espírito poupado de Salazar.

 

  • Não me deixa de me surpreender que sejam justamente aqueles que mais esconjuram Salazar a querer perpetuar o modelo de Função Pública legado pelo Estado Novo.

 

Palhinha Machado.jpg

 A. Palhinha Machado

MARÇO de 2016

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2006
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2005
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2004
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D