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A bem da Nação

CONTOS TRADICIONAIS DA CPLP

 

perua do mato.png

A Mungomba que punha ovos

Angola

 

 

A mungomba, isto é, a perua do mato, punha os seus ovos junto à nascente de um rio. Cada vez que punha um, ao sair do ninho, cantava: - Sou eu, sou eu e mais ninguém.

 

Certo dia, os outros animais reuniram-se no intuito de saber qual seria o motivo da mungomba cantar sempre daquela maneira e decidiram mandar a cobra Ndakakanda ao seu ninho. Quando lá chegou, não encontrou a dona porque esta tinha ido procurar alimentos.

 

Então, a cobra enrolou-se no ninho e com o seu brilho fazia com que as coisas à volta parecessem águas caudalosas. Quando a mungomba voltou, encontrou no seu ninho uma coisa brilhante e disse assustada:

 

– Ai, meu Deus! Que mal fiz eu? Por que é que a cobra está sobre os meus ovos?

 

Não sabendo o que fazer, correu para sua majestade o Tigre e disse-lhe:

 

– Majestade! Eu saí à procura de alimentos e, quando voltei, encontrei a cobra Ndakakanda sobre os meus ovos. Diga-me o que devo fazer com ela. Se pensa que estou a mentir, venha comigo para ver.

 

O Tigre respondeu-lhe:

 

– O problema é teu. Já alguma vez vieste aqui a minha casa visitar-me? Aliás, tenho-te ouvido cantar todas as manhãs. Diz-me lá, como é que costumas cantar?

 

Respondeu-lhe a mungomba:

 

Costumo cantar o seguinte: “Sou eu, sou eu e mais ninguém”.

 

Respondeu sua majestade, o Tigre:

 

– Tu não sabes cantar. Deverias cantar da seguinte maneira: “Somos nós, somos nós e mais ninguém”. Quando cantas “Sou eu, sou eu e mais ninguém”, não achas que estás a humilhar os outros animais? Ou pensas que só tu é que vives neste deserto? Agora ficas a saber que somos muitos. Um ocupou o teu ninho e a um outro te vens queixar. Mas ainda somos muitos mais. Tantos, que nem os conheço a todos. Agora digo-te que vás cantar: “Somos nós, somos nós e mais ninguém”, e verás que a cobra deixará os teus ovos.

 

Voltando a mungomba para junto do seu ninho, cantou:

– Somos nós, somos nós e mais ninguém.

 

A cobra, ao ouvir a mungomba cantar: - Somos nós, somos nós e mais ninguém, levantou a cabeça e deixou os seus ovos.

 

Então, a mungomba foi até ao seu ninho, sentou-se sobre os seus ovos até os chocar e, depois, levou os seus filhos para outro lugar.

OFIUZA

  

Serpente, colar da sabedoria.jpg

 

 

Era uma vez uma praia branda que se estendia junto a um penhasco altivo. Era Ofiuza, a terra da serpente. Corriam os tempos megalíticos e ali acabava a terra e começava o mar.

 

Serpente, símbolo da sabedoria, refugia-se no extremo da terra para se isolar da pequenez dos que se instalaram ao longo do caminho do Sol. E porque o Sol é a luz, a serpente segue-lhe no rasto e chega ao penhasco do fim.

 

Aqui chegada, ebule por não mais poder seguir a luz que se põe no horizonte, ralha com todos a propósito de tudo e de nada, não quer suportar os que tem por medíocres ao contentarem-se com a sedentarização, sente-se grande perante a pequenez desses sossegados, sente-se pequena perante a imensidão do oceano, ferve-lhe o sangue. E pensa que mais valera ignorar e ser feliz como todos os que ficaram para trás do que saber e não conseguir valer-se nas ambições que a atormentam. Até que se zanga consigo própria porque já não tem mais ninguém com quem se zangar.

 

E é nessa zanga consigo própria que se dá conta de que só ela pode descobrir uma solução para as suas ânsias. Não serão os da capito deminutia que a poderão ajudar, ela é a sabedoria. Mas a sabedoria, sendo determinada, é serena e a ebulição é sinónimo de inferioridade.

 

Medita e determina-se durante séculos a fio contra os que a querem esmagar e roubar-lhe a praia e o penhasco do fim.

 

Até que certo dia, passadas muitas amarguras, conclui que o fim das suas frustrações está na continuação da viagem em direcção às novas paragens desconhecidas como fórmula única de ganhar a dimensão que lhe falta para aguentar as investidas dos encostados.

 

Deixa um velho no Restelo a guardar a praia límpida e o penhasco altivo, encomenda-se e determina-se na ida.

 

Mas a dúvida invade-a: terá o velho a garra suficiente para guardar a praia? E, no regresso, quem regerá o penhasco?

 

Mas foi...

 

E andou, viveu, suou, chorou, riu e cresceu mas disseram-lhe que voltasse porque a praia estava suja e o penhasco tinha sido ocupado por quem não lhe queria bem.

 

Voltou com a determinação de retomar Ofiuza mas andara por fora tempo de mais e os que tinham ficado não lhe reconheceram o mérito de ter dado novos mundos ao mundo, de ter sido sábia e compassiva. Pior, disseram-lhe que tinha sido imperialista e exploradora dos submissos, que perdera o lugar.

 

E a serpente enroscou-se à espera de que os medíocres se entregassem à autofagia para poder, então, ressurgir, colocar os madraços em sentido e fazer a glória de Ofiuza.

 

Mas, perdida a dimensão do mar e à mercê dos hedonistas, a serpente duvida que os usurpadores sejam capazes de viver num sistema que lhes garante a liberdade porque esta pode, infelizmente, ser a grilheta da sabedoria.

 

Chardin.jpg

 

A questão é agora a de saber quando será a hora da serpente. E também resta saber se então ainda haverá Ofiuza.

 

Fevereiro de 2016

 

Porto Santo-MAI15-B.jpg

 Henrique Salles da Fonseca

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