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A bem da Nação

EXPRESSÕES CURIOSAS DA LÍNGUA PORTUGUESA

 

casa grande e senzala.jpg

 

VAI TOMAR BANHO

 

Em "Casa Grande & Senzala", Gilberto Freyre analisa os hábitos de higiene dos índios versus os do colonizador português. Depois das Cruzadas, como corolário dos contactos comerciais, o europeu contagiou-se de sífilis e de outras doenças transmissíveis e desenvolveu medo ao banho e horror à nudez, o que muito agradou à Igreja. Ora, o índio não conhecia a sífilis e lavava-se da cabeça aos pés nos banhos de rio, além de usar folhas de árvore para limpar os bebés e lavar no rio as redes nas quais dormiam. Ora, o cheiro exalado pelo corpo dos brancos, abafado em roupas que não eram trocadas com frequência e raramente lavadas, aliado à falta de banho, causava repugnância aos índios. Então os índios, quando estavam fartos de receber ordens dos patrões, mandavam que fossem "tomar banho".

 

 

TITANIC

Titanic-Cobh-Harbour-1912.jpg

  https://www.youtube.com/watch?v=EV-C2zKWW0k

 

 

O navio da economia portuguesa chocou com um icebergue em 2008. Há anos que eram evidentes os perigos de navegar em águas de endividamento, coalhadas de credores gélidos, mas até ao desastre ninguém no país parecia dar atenção. Aliás, mesmo após o choque, que arrombou o casco em mais de 10%, o capitão andou dois anos a dizer que o problema era controlável. Só em Abril de 2011, com o navio já adornado, se assumiu a emergência.

 

Nessa altura o afundamento estava iminente. Foi preciso ligar a embarcação a um enorme flutuador de 78 mil milhões e instalar bombas potentíssimas para começar a extrair a imensa quantidade de água que invadia as zonas inferiores. Mesmo com essa intervenção desesperada, durante meses permaneceu o risco de a economia ficar encalhada, como acontecia ao navio grego. A emergência exigiu largar muito lastro e alijar carga. Muita gente perdeu a ocupação, pela submersão dos locais onde trabalhava. Milhares de habitantes tiveram de ser deslocados para outros navios, num processo de emigração que não se via há décadas. A nau portuguesa enfrentou a maior crise desde a guerra.

 

Inicialmente a catástrofe centrou todas as atenções, absorvidas no complexo e perigoso processo de tapar o rombo e bombear a água. Apesar do sofrimento, a crise uniu os esforços nacionais. Tripulantes e passageiros, sob enorme pressão, fizeram o que tinham de fazer: suportaram cortes, perda de bagagem e apertos nas instalações, enfrentaram desemprego, evacuação, ferimentos e os inúmeros encargos necessários à salvação do navio. Naturalmente houve queixas e protestos, mas foram poucos, esparsos e moderados. A unidade nacional, mesmo renitente, foi notável.

 

Ao fim de três anos foi possível retirar o flutuador, pois o navio, ainda com um rombo de mais de 4%, o dobro do previsto, já se conseguia aguentar sem apoios. Mas os problemas continuavam assustadores, mesmo com as taxas de juro na região geladas pela política do BCE. Não só a brecha exterior permanecia como o embate no icebergue criara outras rachas na estrutura do navio, que o tempo viria a revelar. Dias após a retirada do flutuador, cedeu um dos vaus centrais da embarcação, conhecido como BES, o que reabriu o rasgão no casco e implicou novas fatalidades. Certas partes da carcaça ameaçavam ruptura, forçando até uma intervenção na viga do Banif.

 

Um outro problema, menos visível, era ainda mais assustador. Devido à necessidade de deslocar passageiros das zonas alagadas, os tanques de combustível começaram a ser usados como camarotes. De facto, para aliviar o peso sem largar carga, muito combustível fora deitado ao mar. Assim a mistura de poupança e investimento que impulsionava a embarcação viu-se reduzida a níveis críticos, o que permitia pouco mais do que navegação de cabotagem.

 

A fragilidade do navio era tal que a menor tempestade seria fatal. E as nuvens negras acumulavam-se na região... Apesar disso, a retirada do flutuador mudou a atitude e minou a unidade anterior. Cada vez mais dominava a voz daquela elite que inicialmente negara o rombo e depois conseguira, com a sua oposição, evitar várias das medidas de ajustamento. Recusara sempre o alijamento de carga e cortes na tripulação, protestando contra qualquer incómodo dos passageiros e até com o ruído das bombas de água. O trabalho para tapar o rombo era considerado uma mera imposição externa.

 

Este é o aspecto mais bizarro dessa posição: como nunca atenderam ao buraco no casco, à falta de combustível, rachas na estrutura e perigo de afundamento do navio, os sacrifícios pareciam-lhes meros caprichos, impostos pelas regras da frota e totalmente alheios ao interesse nacional. Por isso ficavam irritados quando se dizia que, devido à brecha e ao peso da água, não existia alternativa à austeridade. Nunca chegavam a explicar qual era, afinal, a sua opção credível e viável de flutuação, mas enfurecia-os a afirmação de que o risco de afogamento não deixava escolhas.

 

Em 2015 essa elite conseguiu controlar a escolha do novo capitão, prometendo acabar com a crise e retomar a navegação de longo curso. As suas prioridades eram repor feriados, baixar preços nos restaurantes, redecorar camarotes de funcionários e pensionistas e fazer umas obras de beneficiação no convés. Precisamente nessa altura aproximava-se uma terrível tempestade na região, que punha todos os navios de sobreaviso. Mas, tal como em 2008, este capitão assegurava que o problema era controlável. O importante é aumentar o consumo, reduzir os preços dos restaurantes e retomar a festa.

 

18 de Fevereiro de 2016

João César das Neves.jpg

 João César das Neves

HOSPITAL DA MISERICÓRDIA DE BAÇAIM

 

 

Baçaim 1.png

 

Junto da parede oriental da Catedral, o canto sudeste do forte acaba numa torre redonda na qual se encontra um velho canhão.

 

A cerca de 150 passos para nordeste, ao longo do cimo da muralha, a torre oriental com dois velhos canhões domina a vista sobre o Revdanda em direcção a sul e, através do mangal, o caminho para Chaul.

 

Baçaim 2.png

 

A alguma distância da parede leste e para norte da Catedral, os restos das muralhas que foram construídas em volta do castelo entre 1521 e 1524 estão em ruínas admitindo-se que as pedras em falta tenham sido usadas na construção do novo muro em 1577 ou 1638. A norte desta antiga muralha há um edifício com uma porta encimada por uma cruz.

 

O edifício é térreo, tem janelas laterais de grandes dimensões e tecto abobadado mas está cheio de detritos como se provenientes de um andar superior que tivesse ruído. Os habitantes chamam-lhe kothi que na língua indiana significa celeiro. Contudo, as grandes janelas mostram que não era um celeiro e a cruz sobre a porta mostra à evidência que se tratava de um edifício religioso; de certeza, o Hospital da Misericórdia.

 

Baçaim 3.png

 

As Misericórdias foram introduzidas em Goa no ano de 1514 por Afonso de Albuquerque e a sua expansão ficou a dever-se a Nuno da Cunha sobretudo a partir de 1532.

 

A Misericórdia de Baçaim é das mais antigas da Índia e a Fazenda Real portuguesa contribuía com dinheiro e arroz pagando também os serviços de um médico, um cirurgião e um barbeiro. Em 1546 recebeu mesmo um subsídio excepcional de 200 pardaos devido ao elevado número de feridos ali tratados na sequência do segundo cerco de Diu. De início administrada pelos franciscanos, a partir de 1580 passou para os jesuítas. A partir de 1634 o seu financiamento mensal passou a ser o correspondente ao valor de treze candis de arroz.

 

Baçaim 4.jpg

 

A cerca de 140 metros do hospital, o canto nordeste do forte é protegido por um grande baluarte com vista para um pequeno patamar conhecido por Pagareka Bandar ou alto Revdanda. Do lado norte, há um fosso e a cerca de 100 metros há a torre nordeste que é uma das grandes obras de todo o conjunto. No interior do recinto há grandes edifícios abobadados que terão servido como casernas ou armazéns. Através de um desses edifícios tem-se passagem para a muralha onde actualmente crescem ervas devido à lastimável falta de manutenção.

 

A cerca de vinte metros para oeste da entrada do forte, uma abertura de cerca de 1,2 metros de altura, conduz a uma passagem para o exterior que se diz passar por baixo do fosso.

 

Esta, a engenharia militar portuguesa de então, restos de um passado ainda hoje sentido que leva muitos habitantes de Baçaim a estudarem a História e a dizerem-se portugueses.

 

E nós, que fazemos por eles?

 

 

Fevereiro de 2016

 

Henrique-Arco dos Vice-Reis, Velha Goa-NOV15 (2).j

Henrique Salles da Fonseca

(frente ao Arco dos Vice Reis, Goa, Novembro de 2015)

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