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A bem da Nação

CONVERSA DOMÉSTICA

 

 

Elderly-couple-on-porch-of-farmhouse.jpg

 

 

Pergunta – Será que esta gente que se candidata à Presidência da República fez algum estudo de mercado para saber com o que podia contar?

Resposta – Não.

Pergunta – Mas que ideia lhes passará pela cabeça?

Resposta – A certeza de que são o centro das atenções dos eleitores, que são os melhores da Nação, que os basbaques lhes rendem todas as homenagens.

Pergunta – E então são esses inconscientes que nos querem governar?

Resposta – Sim.

Pergunta – Então como é que eles se abalançam a despesas tão grandes?

Resposta – Porque contam com o ovo no «sim senhor» da galinha, ou seja, com o subsídio público.

Pergunta – E a Maria de Belém que fará agora, que o Estado nada lhe pagará?

Resposta – Vai mobilizar a pensão vitalícia que ajudou a repor.

Pergunta – E é isto que nós temos que aturar?

Resposta – Sim, é.

Pergunta – Até quando?

Resposta – Até que se reponha a ética e o sentido da responsabilidade e se combata o facilitismo, o «vale tudo», o hedonismo e a demagogia.

Pergunta – Volto a perguntar: até quando?

Resposta – Não durante a governação dos actuais usurpadores nem sequer durante a vigência de uma Constituição que permite a inversão da lógica democrática.

Pergunta – Então, que devemos fazer?

Resposta – Ter fé.

Comentário – Como escreveu o Steinbeck nas “Vinhas da ira”, «Não eleves a fé até à altura do vôo dos pássaros e não rastejarás depois como os vermes.»

Resposta ao comentário – Pois.

 

Lisboa, 26 de Janeiro de 2016

 

Henrique Salles da Fonseca (Santiago do Chile)JPG

Henrique Salles da Fonseca

REPÓRTER DE GUERRA

 

Os historiadores futuros respigarão dos jornais presentes estes artigos que nos elucidam sobre a época que vivemos, sobre as pessoas que somos, sobre as ignorâncias de que sofremos, que Vasco Pulido Valente se apressa em descrever, olho arguto, sentado na comodidade da sua cadeira, consultando os seus livros e os seus jornais e a sua traquinice retratista. Histórias das nossas guerras, afinal, histórias dos nossos tempos, histórias de todos os nossos tempos. Creio que já ouvi – ou li – a Clara Ferreira Alves, que só os jornalistas hoje em dia, e muito especialmente os repórteres de guerra são aptos a descrever a vida, a romancear as vidas. E a apimentá-las com o seu muito saber, que Camões também revelou, na sequência do seu muito saber, de Fernão Lopes aos historiadores da sua época, e às suas experiências de vida, e à sua leitura dos clássicos de outras eras.

Fernão Lopes.png

 

Clara Ferreira Alves sabe aplicar com muita arte essas suas experiências também, não se limitando às crónicas a que nos habituou, mas lançando-se na versatilidade do romance, através da sua experiência de repórter de guerra, no palco do oeste asiático, e do seu conhecimento do mundo e da psicologia, com originalidade e sem inibições. Leio o seu “Pai Nosso” com um prazer religioso, mais uma prenda de Natal de que a vida não permite a leitura rápida que o espírito apetece. Há muito já que um livro não me seduzia tanto, de escritores portugueses actuais.

CFA-Pai nosso.jpg

 

Lembro um livro de Lídia Jorge que logo pus de parte, tão tenebroso é o desejo dos considerados escritores de criar originalidade através da obscuridade e da sofisticação. Clara Ferreira Alves é clara e rica de saber e arte, ao revisitar os lugares do oriente, que Eça já tinha romanceado com a sua graça e o seu realismo, lugares que o olhar atento de Clara desmonta nas incomodidades e medos da sua guerra, actual e mais antiga, documento original de beleza, psicologia, contraste do saber bíblico caseiro e a realidade do palco desses conflitos desmistificados dos nossos tempos, de terror e incomodidade e maus cheiros e destruição e separação de famílias que não se reconhecem mais, na distância e hábitos de outros espaços e costumes. E da responsabilidade de americanos e outros na sua “ajuda” interesseira, apontada aqui e ali, pela voz submissamente revoltada dos naturais, despojados do seu mundo antigo, e sem mais esperança.

 

Por isso me sinto feliz lendo esses escritores das nossas realidades, como a da Pluma Caprichosa, na sua clareza e riqueza, sem pedantismo ou sofisma, mas com uma constante ironia, em frase breve, de anotação e paradoxo, que se casa com a seriedade que as tragédias reais merecem.

 

Assim também Vasco Pulido Valente, capaz de nos dar da nossa realidade caseira, o retrato cruel e sem ilusões, síntese perfeita de banalidades e misérias, que apetece guardar. Em desesperança sempre.

 

Berta Brás.jpg Berta Brás

 

Posições

Vasco Pulido Valente.png Vasco Pulido Valente

Público, 23/01/2016

 

Durante a campanha eleitoral os comentaristas não pararam de falar da “esquerda”, da “direita” e do “centro” e das combinações que se podiam fazer entre estes “conceitos” sem sentido. O vocabulário disfarça a ignorância, parece rigoroso e facilita a vida a quem escreve. Mas não quer dizer nada. Comecemos pela “direita”. Por causa do exacerbamento ideológico do PREC, ainda hoje ninguém se atreve a reconhecer que é de “direita” (com a excepção de Paulo Portas). Ser de “direita” ainda hoje serve de insulto e convoca o desprezo. Pior do que isso, cobre tendências diferentes de um grande bloco de opinião, que só se define pelo facto de não ser de “esquerda”. Autoritários, democráticos, liberais, dirigistas cabem todos nesse grande cesto de opróbrio.

 

Os políticos portugueses preferem assim proclamar que pertencem ao “centro” ou mesmo ao “centro-direita” e, por cerimónia, os jornalistas aceitam submissamente esta descrição. O ponto fraco desta tese está em que o “centro” não existe, excepto como noção geométrica ou lugar de compromisso; e oscila para um lado ou o outro conforme as circunstâncias do momento. É a razão porque em épocas de tensão e de crise também a “esquerda” gosta de se declarar “centro-esquerda”. Ali naquele lugar vazio fica mais protegida e menos responsável pelo que der e vier. Claro que esta brincadeira com as posições de cada um não tem um fim visível ou lógico. Nada impede uma criatura de se definir como da “extrema-esquerda da direita” ou como a “extrema-direita da esquerda”. A asneira é livre.

 

De resto, nunca houve na verdade uma “esquerda”. Houve desde o princípio facções, com uma caracterização teórica miudinha, separadas por um odium theologicum, difícil de imaginar para quem não leu Marx ou Lenine e o rebanho dos seus seguidores. Quem é capaz de explicar o que separa, por exemplo, o Bloco e o PC? Ninguém; nem sequer, desconfio, os desmiolados que por lá andam. Ou as divisões do PS não directamente relacionadas com a carreira e as promoções da militância mais zelosa do seu próprio interesse? E, no entanto, o sopro romântico da “esquerda” continua eficaz na sociedade romântica em que vivemos. É essa a sua força essencial, que se distribuiu ao acaso pelos “corações sensíveis”. Politicamente quase nunca faz sentido ou é seguramente classificável. Mas persiste na sua barafunda. Ser de “esquerda” não deixou de ser um certificado de virtude.

 

Hélas...

Vasco Pulido Valente

Público, 22/01/2016

 

Depois de meses a ouvir falar as dez criaturas que se resolveram candidatar à Presidência da República continua a não haver uma campanha à Presidência da República, excepto aquela que os jornalistas se esforçaram por inventar. Na televisão dúzias de entrevistadores, comentadores e uns tantos políticos quase anónimos não se calam com a “táctica”, com o “posicionamento” e o “carácter” dos candidatos. Vivemos dois meses numa ilusão ou, se preferem, numa falsificação. E hoje continuamos a não saber nada sobre eles. Para dar uma ajuda ao cidadão perplexo aqui vai uma pequena lista:

 

Henrique Neto – Industrial da Marinha Grande. Escreveu um livro sobre a maneira infalível de salvar a Pátria, que não pára de exibir (fechado) a benefício do cidadão comum.

Sampaio da Nóvoa – É e não é o candidato da esquerda do PS. Repete, sem se rir, os mesmos lugares-comuns desde o princípio da campanha. Dado a voos líricos, lembra um baladeiro sem capa e sem guitarra.

Marisa Matias – Uma senhora excitável que grita, a propósito e a despropósito, contra a injustiça do mundo como se estivesse numa religião evangélica. Jura Pablo Iglésias que ela “avança” para o Céu.

Edgar Silva – Outro padre laico. Este recita com unção o catecismo do PC, com os maneirismos da Santa Madre Igreja.

Jorge Sequeira – Parece um vendedor de automóveis, que se enganou na porta e se recusa a sair.

Vitorino Silva (o Tino de Rans) – É o intermédio cómico; e não percebeu. A seguir ao colega Sequeira, o maior exibicionista do rancho.

Maria de Belém – É e não é a candidata da direita do PS. Obcecada por se fazer valer, chega constantemente ao patético, sem passar pelo grave.

Paulo de Morais – Quer varrer a corrupção da política portuguesa. Vamos conversar sobre isso em 3016.

Cândido Ferreira – Muito conhecido nos cafés de Leiria e da Nazaré, queria uma atenção proporcional à sua importância e dignidade. Como não a teve, amuou.

E falta alguém? Falta o Prof. Marcelo, que Portugal inteiro conhece e não é preciso descrever, hélas.

ÚLTIMO DESABAFO ELEITORAL

 

Onde esteve até agora o respeito pela Constituição?

 

A evolução da dívida pública portuguesa revela ter sido superior a 60% do PIB até cerca de 1930, portanto início do Estado Novo e atingiu o valor mínimo em 1975 de cerca de 14% tendo a partir desta data subido nos dez anos seguintes para 60%.

 

Até 2000 oscilou abaixo dos 60% atingindo então o valor de 50% do PIB, mas daí em diante foi subindo até atingir 90% no ano 2000, e continuou a subir até hoje.

 

No entanto o valor do PIB pouco variou.

 

Duas perguntas surgem de imediato:

 

1ª Para onde foi o dinheiro que entrou no País, não esquecendo que além da dívida publica havia e há dívidas privadas e estatais quase da mesma ordem de grandeza?

 

divida-publica-portuguesa-1850-2010 (O Insurgente)

 (in O Insurgente)

 

2ª Como grande parte das decisões políticas que originaram estas dívidas estavam expressas nos orçamentos do Estado anualmente aprovados na AR e promulgados pelo PR e o aumento excessivo da dívida pública põe sempre em risco a independência financeira do País, era dever constitucional dos Órgãos de Soberania evitar tal risco. Como não foi assim que aconteceu, isso significa que todos esses orçamentos foram inconstitucionais. E no entanto nenhum dos Presidentes durante este período deu qualquer sinal quanto a esta infracção da Constituição. Porquê?

 

As respostas a estas perguntas podem ser várias desde ignorância, distracção, desinteresse, interesses conflituantes, falta de tempo, leitura diferente da Constituição, ou outra qualquer que o leitor consiga descobrir mas em que é interessante meditar em plena campanha eleitoral.

 

Lisboa, 21 de Janeiro de 2016

Eng. J.C. Gonçalves VianaJosé Carlos Gonçalves Viana

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