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A bem da Nação

E AGORA?

 

casal_conversando.jpg

  

Ela (estrangeira) – Ouvi dizer que anda desconsolado. Posso saber porquê?

Eu (português) – Porque constato uma inversão dos critérios democráticos com os derrotados a formarem Governo e os ganhadores a passarem para a Oposição. Só isso. Acha pouco?

Ela – Não, é claro que não acho pouco. E como é que esse absurdo foi possível?

Eu – Pois foi-o mesmo com base na Constituição em vigor.

Ela – Mas se a inversão dos princípios democráticos é constitucional...

Eu – ... então é a Constituição que está errada.

Ela – E está errada em que ponto?

Eu – Eu acho que tem que estar errada em muitos pontos e não apenas num só.

Ela – Mas vejo um problema: quem há-de corrigir o que está errado? A Assembleia da República que aprovou esses erros?

Eu – Sim, estamos como a pescadinha que tem o rabo na boca.

Ela – Qualquer revisão constitucional feita na Assembleia ou vai dar mais do mesmo ou agrava os erros. Como sair desse imbróglio?

Eu – Sim, apetece fazer como nos jogos de cartas: mandar o jogo a baixo, baralhar e voltar a dar. Sabe como se chama isso em política?

Ela – Cheira-me a golpe de Estado.

Eu – Não, não vou tão longe. Chamo-lhe interregno e lembro-me do de 1383-1385. Fico-me por um interregno de discussão pública sobre diversos projectos constitucionais por que o eleitorado possa optar em votação livre e vinculativa ganhando o projecto mais referendado, com exclusão dos outros. Um pouco à maneira americana: quem ganha, ganha; quem perde, perde. Espero bem que um desses projectos bana de vez o método de Hondt que facilita a criação de salganhadas em que ninguém se entende e de que não resulta uma política perfeitamente clara. Mais: admito que um tal referendo constitucional possa ser feito em duas voltas de modo a promover uma vitória inequívoca.

Ela – E como é que depois a governação se entendia com a Assembleia?

Eu – Do mesmo modo que o Presidente americano se entende com o Senado e com o Congresso.

Ela – Mas isso é num regime presidencialista...

Eu – ... e por cá haveria um regime semelhante para o Primeiro Ministro, «regime primo ministrista».

Ela – E acha que isso seria suficiente para evitar o absurdo por que Vocês estão a passar e em que os espanhóis vão brevemente cair?

Eu – Sim, acredito que sim. O que eu acho é que o Hamlet tinha toda a razão quando se lastimava de que «algo está podre no reino da Dinamarca» e que é imprescindível encontrar uma solução alternativa a esta que permite os absurdos democráticos.

Ela – E se ganhasse um projecto constitucional que não tomasse em consideração essas suas opções?

Eu – Seria uma maçada e a bagunça continuaria a abrir as portas a soluções não democráticas. Lastimavelmente, começo a ter dúvidas sobre a validade da democracia como ela vem sendo praticada num povo tão permeável a sugestões desvairadas, hedonistas e demagógicas. E olhe que não somos só nós os desvairados, hedonistas e demagogos: espanhóis, italianos e gregos não deixam de nos pedir meças. Uma maçada!

Ela – E acha que não correríamos o perigo do retorno aos regimes totalitários?

Eu – Se deixarmos o absurdo constitucional continuar a inverter os valores democráticos, então sim, corremos o sério risco de se instalar um sentimento de desorientação geral e de «não te rales» que permita algum aventureiro de se alcandorar a patamares de caudilhismo salvador. Isso, sim, é perigoso. Mais vale que discutamos os assuntos em liberdade do que virmos a ser nomeados voluntários para nos submetermos a qualquer disparate não democrático.

Ela – Sim, também me parece melhor tratar de discutir o assunto em liberdade. Mas estou preocupada com o desânimo de tanta gente que se sente ludibriada por jogos de bastidores como os que aconteceram cá em Portugal e se preparam em Espanha.

Eu – Se Você, que não é portuguesa nem espanhola nem italiana nem grega, está preocupada, imagine como estou eu que sou vítima directa da trapaça em curso.

Ela – E agora?

Eu – Agora, vamos ter que continuar na próxima conversa pois está na hora de passar esta nossa conversa a escrito, antes que me esqueça.

 

Lisboa, 22 de Janeiro de 2016

 

Henrique Salles da Fonseca, Hanói, NOV14.JPG

 Henrique Salles da Fonseca

ENTREVISTA A ALMEIDA SANTOS

Almeida Santos.jpg

 

"Quem mandou no processo de descolonização foi o MFA"

 

 

Público, 10/04/2004 

 

https://www.publico.pt/politica/noticia/quem-mandou-no-processo-de-descolonizacao-foi-o-mfa-1720702

 

Presidente do PS e ex-presidente da Assembleia da República, António de Almeida Santos, hoje com 78 anos, foi um dos protagonistas da descolonização como ministro da Coordenação Interterritorial.

 

Iliba Mário Soares e a si mesmo também das "culpas" na descolonização. Confessa que tentou "influenciar" no sentido da "moderação". Não poupa, porém, Spínola – cujas teses "à altura eram inviáveis eram impossíveis e que envenenaram o processo" – e lembra que em Lisboa se vivia um clima de esquerdismo que não dava azo a outras soluções.

Paulo Portas tem feito críticas a Mário Soares sobre a descolonização. As criticas, ao longo dos anos, têm-no atingido também a si. Quais são as suas culpas?
Tenho encarado as críticas com uma grande serenidade porque sempre tive e continuo a ter bons argumentos para poder defender-me. Simplesmente, para me defender eu tenho de acusar.

Bom, mas então...
O problema é que quem tem consciência do valor das instituições, quando tem que fazer acusações que podem envolver o desprestígio de algumas instituições, por exemplo a instituição militar, as Forças Armadas Portuguesas, tem que pensar um pouco se deve fazê-lo e em que momento. Por isso, eu deixei passar 30 ano, não vou deixar muito mais porque estou exactamente a escrever um livro em que, sem preocupações defensivas - não é a minha alegação de defesa longe disso -, eu digo a verdade sobre a descolonização, doa a quem doer. Não identifico pessoas, não digo o senhor fulano de tal fez isto ou aquilo, mas digo aconteceu isto, aconteceu aquilo. A simples ocorrência de determinados factos absolve os descolonizadores. Não tenho a menor dúvida em poder demonstrar e demonstrarei que os descolonizadores, nomeadamente o doutor Mário Soares que, como disse, está a ser objecto de críticas actuais, indirectamente eu próprio também, teve uma responsabilidade mínima, eu diria mesmo nula na descolonização e teve até uma actuação positiva.

Até que ponto é que Spínola estava isolado na ideia de uma África branca e de uma África federal?
O Spínola era um patriota, não há dúvida nenhuma sobre isso. Sonhou com a ideia de comunidade, um bocado fora de época, mas é uma ideia nobre, generosa. Foi pena que as ex-colónias não tivessem concordado com isso, porque teriam vivido estes trinta anos muito melhor do que viveram e quando fosse de cortar o cordão umbilical cortava-se sem dor. Ele esqueceu-se de que quando há guerra só podemos obter a paz negociando com quem nos faz a guerra. Ele queria negociar não só com quem nos fazia a guerra, mas com todos os partidos que surgiram, com todas as forças sociais, com a comunidade em geral. É uma ideia bonita, simplesmente irrealizável.

Ele chegou a reunir-se com a comunidade branca de Angola, não foi?
Teve aqui uma reunião, dois dias antes de renunciar ao mandato de Presidente. Mas era uma ideia fora de época porque o MFA não concordava com isso, nem concordavam os três movimentos de libertação de Angola, que exigiam negociações directas com eles próprios. Por isso é que a lei 7/74 foi publicada, um pouco a "contre-coeur" do Spínola.

Foi tirada muito a ferros?
Não, nem foi. O que acontece é que houve a crise Palma Carlos. [O primeiro-chefe de Governo pós-25 de Abril] Palma Carlos tentou uma solução de legitimação do Presidente da República através de um referendo. Tentou também a aprovação referendária de uma Constituição. O MFA e a generalidade dos partidos, tirando quatro ministros que se solidarizaram com o primeiro-ministro, estavam contra.

Quem eram?
Sá Carneiro, Magalhães Mota, Firmino Miguel e Vasco Vieira de Almeida, que também pediram a demissão. A crise Palma Carlos fragilizou o Presidente da República. Foi ele próprio quem propôs aquilo aos partidos e ao Governo. O Conselho de Estado aproveitou essa fase de fragilização de Spínola para lhe propor a lei 7/74. A lei tem uma génese curiosa porque aparece publicada no "Diário de Governo" sem eu ter sido ouvido. Eu era o ministro da pasta, fui direitinho a Belém dizer ao Spínola: "Eu venho aqui pedir a demissão.". Ele perguntou porquê. "Por isto, sempre defendi o que a lei diz, sem ser ouvido vejo isto consagrado numa lei, sou como os maridos enganados, sou o último a saber, não posso admitir". E ele diz-me assim: "Mas eu não assinei essa lei.". Mandamos vir o dossier e de facto a lei não estava assinada.

Mas foi publicada como? Quem mandou?
Não me peça para explicar como foi publicada que eu não sei, não faço ideia, nem sei qual foi a intenção. O que sei é que eu próprio fiz algumas críticas à lei. E disse: "Além do mais, está mal redigida e precisa de um artigo terceiro que diga como se faz a descolonização." É o tal artigo terceiro que diz que é por acordo negociado e assinado pelo Presidente da República. Não estava previsto o formalismo da negociação directa com os movimentos. Anulou-se a lei anterior, publicou-se a lei. No dia seguinte, Spínola faz um discurso histórico de elogio fabuloso à lei. Defendeu aquilo que nunca tinha defendido, há uma mudança radical na sua posição. Naquele momento, recuperou a confiança do MFA. Quando voltou a perdê-la? Quando reuniu com as forças vivas de Angola. Foi quando ele declarou: "Agora Angola é comigo!" Aí ele ditou a sua sentença como Presidente da República. Pouco depois, virá a renunciar depois do 28 de Setembro. O 28 de Setembro não está muito bem explicado, mas, digamos assim, foi a ultima tentativa que ele fez de poder retomar o processo de descolonização nas mãos. Renunciou. Veio o Costa Gomes que estava mais identificado com os pontos de vista do MFA.

Há um outro protagonista da época a quem se refere sempre, que é a Comissão Nacional da Descolonização.
Foi um órgão criado sob sugestão de Veiga Simão, que era muito amigo de Spínola. Foi útil. Reunia para os problemas da descolonização, na Presidência da República. Era constituída pelo Presidente da República, pelo primeiro-ministro, por Melo Antunes, por mim, pelo Mário Soares. O Governo, enquanto órgão, nunca quis saber da descolonização.

Não eram aí tratados os problemas da descolonização?
Pôs-se à margem. Quando eu queria levar lá qualquer problema não encontrava eco.

Portanto, quem tratava da descolonização era este órgão.
Não direi que tratava, mas acompanhava, dava consulta. Antes de irmos para Lusaka [Zâmbia] discutimos o documento que o Melo Antunes tinha pré-negociado com a Frelimo.

Todas as personagens que integravam esse órgão concordavam com o processo em curso?
É evidente. Reconheciam que não havia mais nada a fazer senão aquilo que se fez, que apesar de tudo o que se fez era o melhor que havia a fazer.

Quando se a analisa o processo de descolonização, o discurso dos civis envolvidos é que aquilo foi o fruto da vontade dos militares.
Mas não tenha dúvidas nenhumas, quem mandou no processo de descolonização em relação aos principais processos foi o MFA. Não tanto em relação à Guiné, estava arrumado.

A ideia que passa muitas vezes é que os militares eram todos esquerdistas, mas quando se vê os militares envolvidos temos: Moçambique, Vítor Crespo; Angola, Silvino Silvério Marques; Timor, Lemos Pires; São Tomé, Pires Veloso. Não são esquerdistas.
Não são esquerdistas, mas o ambiente em geral no pós-25 de Abril foi um ambiente de esquerda. Mesmo os que não eram esquerdistas defendiam, sem esforço nenhum, posições de esquerda.

Silvino Silvério Marques defendia uma Angola branca, uma solução rodesiana.
Sempre foi um homem de direita, não sei se defendia uma Angola branca. Antes defendeu, depois não sei. Mas todos não faziam esforço em tomar posições de esquerda. Toda a gente em Portugal.

Era então uma questão de espírito do tempo?
O clima geral era de esquerda, era difícil que alguém dissesse: "Eu não sou de esquerda." Antes disso tinha ido para o Brasil.

Na sua opinião, a descolonização podia ter sido melhor, foi o melhor possível ou foi o pior possível?
Pior possível não foi. Se comparar com outras descolonizações, a França só apertou a mão ao Governo da Argélia 13 anos depois. As pontes ficaram lançadas.

Mas foi o melhor possível ou podia ter sido melhor?
O melhor possível não digo que fosse, podia ter sido melhor necessariamente. Houve condicionalismos. Se em Portugal não existisse o clima político que existiu, todo ele propenso a um esquerdismo extremo a influenciar as decisões,a entusiasmar tudo o que era de esquerda, a condenar tudo o que era moderado, já não digo de direita. Fomos vítimas do clima que se vivia em Portugal, quer nas Forças Armadas quer no civil. Eu posso reivindicar para mim que me mantive sempre com uma certa moderação.

O senhor, que era ministro da Coordenação Interterritorial, lutava por quê, o que eram os seus desejos, o que era essa moderação?
Era, no fundo, lutar pelas soluções mais harmoniosas e mais sensatas, dentro do condicionalismo em que eu tinha que trabalhar. Eu não tinha a decisão isolada, havia o MFA, havia o Presidente da República. Durante o Spínola havia o Spínola, que era um decisionista, depois havia o MFA, que tinha os seus centros de decisão, nos quais eu não mandava nada, mas procurei sempre influenciar. Onde pude influenciar, fui para soluções moderadas e sensatas. Mas quem tinha o poder era o MFA.

Foi sempre da opinião que não havia outra coisa senão descolonizar?
Não havia outra coisa a fazer e mais: tive muita pena que não se descolonizasse depressa. Repare, a lei 7/74 veio permitir negociações directas com quem nos fazia a guerra e aí podemos fazer a paz e a partir da paz a descolonização. Eu estava em Portugal quando foi o 25 de Abril, o "Século" pediu-me uma entrevista e eu nessa entrevista defendo negociações directas com os movimentos de libertação. Antes de ser ministro defendi aquilo que veio a ser consagrado na lei 7/74. Portanto, eu não tenho culpa que tenhamos perdido aqueles três meses que envenenaram completamente a situação militar, provocaram a indisciplina militar.

Há uma responsabilidade maior do Spínola?
Responsabilidade sim, culpa não. Ele fê-lo por bem, a intenção dele era saudável e era boa e tinha apoiantes, não estava isolado. Dentro das Forças Armadas tinha quem o apoiava, o Firmino Miguel. Foi pena que ele tivesse de defender aquelas teses que à altura eram inviáveis, eram impossíveis e que envenenaram o processo. A prova disso é que ele veio a corrigir a atitude e assinou e elogiou a lei 7/74.

O senhor está ligado à democratização portuguesa por dois pilares, um que é a via jurídica, como autor da maior parte do edifício jurídico do regime de Direito pós-25 de Abril, e outro que é a descolonização. Se pudesse voltar atrás o que faria de novo ou de diferente o que corrigiria para ficar de bem com a história?
Se fosse egoísta não tinha aceitado a pasta da descolonização, mas não só capaz de ser egoísta, nem sou capaz de ser calculista. Sei fazer cálculo, lá burro não sou. Sabia que a descolonização ia ser uma fogueira, sabia isso. Mas, também me atraem as dificuldades, o fugir às dificuldades por comodismo, não sou capaz disso. O desafio da descolonização de algum modo seduziu-me por ser difícil. Depois vim aceitar a pasta pior: comunicação social. Por que é que aceitei? Porque ninguém a queria. Era uma pasta terrível na altura, os órgãos de comunicação social estavam todos na mão da esquerda. Tirá-los da mão da esquerda não era fácil sem ser acusado de fascista como fui muitas vezes. Mas tirei e deixei a comunicação social normalizada, ainda que tendo de recorrer a um instrumento que eu não gostava que foi a nacionalização das partes não públicas da televisão e da rádio e dos jornais, para poder nomear novos administradores e eles poderem nomear novos directores. Depois a Justiça, era uma pasta terrível, era a adaptação de toda a legislação portuguesa à nova Constituição. De momento tudo ficou inconstitucional. Tinha ano e meio para regularizar aquilo, revi os códigos, reorganizei a organização judiciária, o Ministério Público, o estatuto dos magistrados, o estatuto dos Açores e da Madeira, tudo isso, a lei sindical. Era o desafio que me seduzia. 

São José Almeida.pngSão José Almeida

 

Esta entrevista foi publicada no PÚBLICO a 10 de Abril de 2004

TRÊS TEMAS

 

O primeiro sobre os “pândegos” da candidatura à presidência da República e os motivos por que, apesar das suas farsas de alinhamento à esquerda, com o deprimente abandono do seu partido, sob o pretexto irrisório da assumpção de um cargo presidencial abrangente na questão das empatias, pairando, pois, acima de quaisquer partidarismos – (na minha interpretação desconfiada, um posicionamento significativo, antes, de indiferença, desdém, vaidade pessoal, traição a valores antes admitidos, ou pura matreirice eleitoralista) – apesar pois de todos esses dados e outros que envolvem um temperamento popularucho ao modo do nosso D. Pedro I, que não se limitou a amar a linda Inês e a matar os seus assassinos, pois também dançou nas ruas, Marcelo Rebelo de Sousa ainda parece superiorizar-se – pelo menos na capacidade expressiva e na rapidez de raciocínio a que nos habituou – aos demais “pândegos” da expressão de Alberto Gonçalves, o que faz que seja o que menos nos envergonhará como representante máximo, face aos desconchavos ou aberrações a que tal campanha nos tem sujeitado, pobre pátria ao que chegou.

 

Trata o segundo texto das relações de dependência do partido no poder face aos que aparentemente o apoiam, pau mandado de todos, até mesmo dos comentadores de futebol. O futuro a Deus pertence, não sei se a nós também.

 

Mas é, sobretudo, a referência ao Charlie Hebdo, aquando do massacre pelos jihadistas há um ano e ao apoio de todos os que então vibraram no repúdio a esse e na fraternidade bem gritada no conceito da defesa da liberdade de expressão, em identificação com os seus defensores mortos, que trata o terceiro texto de Alberto Gonçalves, no esvaziamento, um ano após, dessa empatia, em que por toda a parte se alinhou, até mesmo por cá, num “Je suis Charlie” de puro arrebatamento mediático e inconsequente. Mas a liberdade de expressão, ao ferir a religiosidade de uma seita sem religião nenhuma, como essa do Estado Islâmico, que só espera pretextos para usar da sua própria liberdade de manifestação, em cenas de crueldade e ameaça constante ao mundo, por toda a parte se infiltrando e alastrando, em vingança selvática e sinistramente encoberta, revela-se, afinal, um chamariz de adeptos, mais do que os defensores de Charlie Hebdo.

 

E até mesmo os muitos desenhos e escritos da revista Charlie Hebdo, festejando-a e apoiando-a, no aniversário do massacre, no seu “Numéro Spécial”, parecem tristes amostras de uma impotência ocidental, como ocos chavões defensores de uma liberdade que é apenas chamariz do caos.

Berta Brás.jpg

 Berta Brás

 

 

Qualquer coisa que não seja de esquerda

Alberto Gonçalves.jpgAlberto Gonçalves

DN, 17/1/16

 

orcamento_presidenciais_2016_mc.jpg"Diz qualquer coisa de esquerda" é qualquer coisa que a esquerda gosta muito de dizer. A frase é retirada de Abril, filme do italiano Nanni Moretti, cuja personagem assiste a um debate televisivo entre Berlusconi e o socialista Massimo d"Alema. A prece destina-se naturalmente a D"Alema e naturalmente não adianta de nada. Moretti enerva-se. Não precisava de se enervar: se viesse para Portugal teria imensa dificuldade em descobrir frases que não fossem do seu agrado (por isso é que nós somos o que somos e a Itália é uma potência mundial).

 

Exemplos são inúmeros, mas para não fugirmos da "actualidade" basta lembrar que, por cá, temos a suprema originalidade de uma campanha presidencial em que nove dos dez aspirantes são de esquerda e o restante finge que também não anda longe. Desde a peregrinação à Festa do Avante! que Marcelo Rebelo de Sousa tomou por garantidos os votos da direita (com e sem aspas) e, entre a bajulação da espécie de governo em funções e a vergonha das próprias origens políticas, partiu à conquista dos outros. Antes de se consagrar como o presidente de todos os portugueses, o prof. Marcelo quis tornar-se o candidato de quase todos. Pelo meio, deixou desamparados os eleitores menos entusiasmados com a golpada do dr. Costa e mais convencidos, inicialmente, de que o ex-comentador da TVI devolveria num instante o país à normalidade democrática.

 

A ilusão do povo "reaccionário", digamos uns 40% dos cidadãos, era infundada e durou pouco. Quanto às ambições do prof. Marcelo, que a certa altura pareceram tremidas, sobreviveram e talvez se prolonguem por um ou dois mandatos em Belém. Porquê? Por duas razões.

 

A primeira é o carácter exótico das criaturas que o desafiam. Por muito que o regime já se arraste com dificuldade, ainda não estão criadas as condições de completo desconchavo suficientes para se imaginar Maria de Belém, o reitor Nóvoa ou algum dos demais pândegos no lugar de chefe de Estado. É claro que à esquerda haverá sempre gente disposta a votar na primeira curiosidade antropológica que o partido ou a desdita lhes ponham à frente. Com sorte, porém, essa gente não chegará a metade da população.

 

A segunda razão prende-se com a opinião pública e publicada. Quando se percebeu que as vénias do prof. Marcelo à esquerda não o resguardariam dos ataques desta, boa parte da direita (com e sem aspas) decidiu subjugar a desconfiança em favor do empenho. Isto é, cada insulto dos adversários recorda às pessoas que pior do que um presidente provisoriamente resignado ao dr. Costa seria um presidente que lhe venerasse a incompetência pela eternidade afora.

 

Não sei a quantidade de potenciais abstencionistas assim arregimentados. Sei que, por mim, nunca me ocorreu nenhuma vantagem na vitória do prof. Marcelo até ponderar os perigos da sua derrota. E que mesmo que ele não diga nada de "direita", tudo é preferível a ouvirmos a única coisa de esquerda que nos falta: apertem os cintos, senhores passageiros, que dentro de momentos aterraremos em Caracas. Ou o Portugal do futuro, nas palavras do reitor Nóvoa.

 

Quinta-feira, 14 de Janeiro

 

Pressão baixa

 

É um disparate achar-se que o governo só atende a ordens do PCP. E do Bloco de Esquerda. E dos sindicatos. E de economistas gregos. E de visionários bolivarianos. E de astrólogos devidamente habilitados. Ao que tudo indica, o governo também obedece a comentadores de futebol.

 

Eduardo Barroso.pngVeja-se o caso do popular Eduardo Barroso, o qual tem o poder de anular decisões do ministro da Saúde. Este havia feito determinados convites para a direcção de um hospital lisboeta. Por razões decerto imperiosas, as escolhas não agradaram ao dr. Barroso, pelo que, segundo os jornais, o ministro naturalmente voltou atrás e optou por nomes simpáticos ao fervoroso adepto do Sporting.

 

Daqui em diante, é de admitir que algumas decisões governamentais aguardem pelo aval de Rui Santos, daquele sujeito forte que gosta do Benfica e de dizer "Ó Sousa Martins!" e do rapaz do Porto que canta numa banda de tributo aos Pearl Jam. Desde que, escusado acrescentar, todos possuam competências técnicas reconhecidas, como uma relação de parentesco com Mário Soares ou assim.

 

A palavra final a Ana Catarina Mendes, senhora vista com assiduidade nas imediações de António Costa: "O PS mostrou em apenas um mês que é possível governar de forma diferente." Se alguém conseguir desmentir tamanha evidência merece um lugar no Conselho de Ministros ou no Trio d"Ataque.

 

Sexta-feira, 15 de Janeiro

 

Charlie Hebdo.pngCheckpoint Charlie

 

Dos milhões que se diziam "Charlie" há um ano sobram uns poucos distraídos, quase ninguém. Sobretudo após o semanário publicar, há dias, um cartoon que transforma a criança síria afogada numa praia turca num muçulmano adulto que persegue mulheres na Alemanha. Mau gosto? Possivelmente. Mas nunca devia ter sido o "gosto", mau ou bom, a motivar a defesa da revista, aliás fraquinha. O que em Janeiro de 2015 estava em causa era o direito a dizermos o que quiséssemos, que tarados quiseram abolir e que o Ocidente pareceu defender. Pareceu. Afinal, o que se exibiu em vigílias e nas ditas "redes sociais" não passou de sentimentalismo contagioso. Afinal, as inúmeras profissões de fé na liberdade de expressão esvaíram-se no exacto momento em que a expressão excedeu os limites que impomos à liberdade. Afinal, embora não partilhemos os meios, partilhamos os princípios dos assassinos. Os fins não prometem.

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