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A bem da Nação

A NOVA NORMALIDADE

 

Exames Nacionais.jpg

 

Esta fobia aos exames não é nova. Em 1975, numa série de faculdades, inaugurou-se o período das passagens administrativas.

 

Aos 38 anos sabe-se, praticamente, tudo. E quando se tem um doutoramento em áreas complexas e se nomadizou uma década pelo mundo fora, por instituições dos mais altos saberes, culminando com uma estada prologada no Olimpo de Cambridge, então, aos 38 anos, sabe-se mesmo tudo.

 

Tiago Brandão Rodrigues é assim. Já o foram outros prodígios académicos como Poiares Maduro, Miguel Morgado e Bruno Maçães que, do alto das cátedras, chegados aos silêncios alcatifados dos gabinetes, se atiraram com ousadia à experimentação social em busca das ‘Novas Normalidades’ das suas cartilhas ideológicas.

 

Como se não houvesse pessoas.

 

Como se tudo se passasse como em modelos matemáticos, ou na electroforese de proteínas ou nas hipóteses jurídicas realmente hipotéticas.

 

Só que, na vida real, há gente. Não há hipóteses. Há realidades. Há entropias surpreendentes e desgovernadas onde a ideologia pouco conta. E acreditar que o problema da iliteracia nacional está na existência de exames, mais do que ingenuidade inerente a 38 anos de grande sabedoria específica, é um perigo.

 

Em Março de 2011, com Portugal prestes a ser intervencionado pelos credores internacionais, o The Wall Street Journal publicou um artigo de fundo com o título A Nation of Dropouts Shakes Europe.

 

Traduzido livremente, será qualquer coisa como Uma Nação de Cábulas Abala a Europa.

 

A tese do artigo é que Portugal nunca conseguiria pagar as dívidas do Estado porque, com os níveis de insucesso escolar que tinha, a população portuguesa não obteria emprego de qualidade suficiente para, com os impostos, ir pagando o que devia. Em síntese, Portugal não tinha, nem teria a médio prazo, capital humano de qualidade para guarnecer uma economia moderna endividada.

 

O artigo do WSJ, profético como foi, fez um levantamento exaustivo de casos, desde sucessos do ensino privado com professores exigentes escolhidos por mérito, aos malogros e calamidades organizativas produzidas pelo obreirismo docente em escolas públicas, de onde emana a maior parte do insucesso escolar. Em parte alguma do artigo se referem os exames como sendo a causa da iliteracia portuguesa.

 

Esta fobia aos exames, redescoberta agora no Governo PS, não é nova.

 

Em 1975 inaugurou-se o período das passagens administrativas numa série de faculdades portuguesas, com particular incidência nas escolas das áreas de economia e finanças.

 

Nunca em tão pouco tempo se produziu tanto licenciado com médias de dez, lançadas nas pautas pelas secretarias das faculdades onde os alunos tinham, em muitos casos, expulso os professores.

 

Levou vários anos até a sanidade voltar ao país. Mas o mal estava feito. Os resultados deste facilitismo sentem-se no desastre económico e financeiro do Portugal pós-revolucionário.

 

Mais recentemente, esta fobia aos exames e a queda para o oportunismo teve episódios caricatos nas licenciaturas de membros de governos, conseguidas com ‘planos de estudos’ e ‘equivalências’ que deram continuidade ao processo administrativo de credenciação das competências académicas imaginárias dos anos 70.

 

Não deixa de ser curioso registar (embora não se fale disso) que há hoje, sorrateiramente acomodados na nossa sociedade, um número muito razoável de jornalistas ‘mestrados’ e ‘doutorados’ por várias universidades, até públicas, sem terem licenciaturas ou mesmo estudos secundários adequados.

 

Agora o ministro Brandão Rodrigues quer dar continuidade a estes milagres da multiplicação do conhecimento transpondo-os para toda a escola portuguesa, exortando docentes e alunos a «não treinar para os exames» porque é «altamente pernicioso e até nocivo», alicerçando estes soturnos projectos numa fé inabalável. Diz o ministro: «(...) não tenho nenhuma dúvida relativamente à seriedade dos alunos, dos professores e das escolas (...)».

 

E com esta ausência de dúvidas de quem raramente se engana estão criadas as bases para uma ‘Nova Normalidade’ que, tal como a de Passos Coelho, é de um Portugal que teria que continuar a ‘empobrecer’. O que aconteceu mesmo.

 

Só que agora não é só na bolsa que nos vamos exaurir. Nesta Nova Normalidade que nos desenham, o português é pobre e iletrado – mas com um ‘plano de estudos’ pode acabar com um mestrado ou mesmo doutoramento.

 

SOL | 18/01/2016

Mário Crespo.png

 Mário Crespo

 

TUDO TÃO LONGE

 

Moçambique.jpgA propósito de um texto publicado no “A Bem da Nação”- uma entrevista a Marcelino dos Santos, e em resultado de uma conversa telefónica que o Dr. Salles da Fonseca manteve com João Cabrita, autor do livro “Mozambique”, The tortuous road to Democracy”, o qual lhe telefonou de Mbabane (Suazilândia), para saber mais dados sobre Joana Simeão, após ter lido no “A Bem da Nação” um seu texto sobre a sua relação pontual com aquela, propôs-me o Dr. Salles , sabendo que eu a conhecera, que escrevesse sobre Joana Simeão. Mas o meu conhecimento só resulta de memórias, mais ou menos apagadas, embora não esquecidas, de uma voz estridente numa mulher vistosa e espampanante, na cabeça um espectacular turbante, e isso ficou registado em texto vagamente poético “Assim é Joana” de “Pedras de Sal”. Foi uma altura de muito sofrimento, ou antes, de muito terror e estupefacção que vivi em esperança de reversão, continuando a trabalhar e a ironizar por escrito, tal como agora se faz também, a respeito do que se pratica na nossa democracia laracheira – mas não criminosa, como a que se tentou implantar em Moçambique. Só para rir o afirmá-lo – democracia – ou, pelo contrário, para chorar. A entrevista de Emílio Manhique com Marcelino dos Santos mostra a crueza de um regime comunista implantado nessa ex-colónia, como, mais ainda, talvez, em Angola:

 

O QUE OS COMUNISTAS FAZEM A QUEM SE LHES OPONHA

Entrevista com Marcelino dos Santos por Emílio Manhique, Televisão de Moçambique.

http://abemdanacao.blogs.sapo.pt/o-que-os-comunistas-fazem-a-quem-se-1563511

(colaboração de João Cabrita, Mbabane, Suazilândia)

 

O que posso fazer, é transcrever outro texto de “Pedras de Sal” (contido em “Cravos Roxos”), com um parágrafo que se refere a Joana Simeão. E como contém referência a Almeida Santos, servirá justamente para o homenagear, lembrando acções passadas, do agrado de toda a gente agora, como é costume quando se morre, mas que justamente reconhece nele o homem inteligente que foi e que teve ocasião de continuar a revelar-se por cá, protegendo os seus amigos, com a sua voz maviosa, que – mais uma voz – ficaria gravada na minha lembrança, através do fado doce que lhe ouvi cantar em Lourenço Marques, e que a internet me faz ressuscitar:

 

Almeida Santoshttps://www.youtube.com/watch?v=msY5uo4p0I0

 

Lá Longe

 

Lá longe ao cair da tarde

Vejo nuvens d'oiro que são os teus cabelos

Lá longe ao cair da tarde

Vejo nuvens d'oiro que são os teus cabelos

Fico mudo ao vê-los, são o meu tesoiro

Lá longe ao cair da tarde

Lá longe ao cair da tarde

Quando uma saudade se esvai ao sol poente,

Lá longe ao cair da tarde

Quando uma saudade se esvai ao sol poente,

Como canção dolente duma mocidade

Lá longe ao cair da tarde.

 

Transcrevo pois, o texto – “Movimentação” - sobre um passado morto, lamentando a crueldade com que foi tratada a figura esplendorosa de Joana Simeão, e, afinal, recordando uma figura marcante, de voz branda e expressiva, Almeida Santos, cuja morte inesperada chocou, após o gesto de apoio a Maria de Belém, como acto de cavalheirismo e amizade que o elevou, para mim, por altivamente se revelar indiferente aos comparsas do apoio a Nóvoa.

 

Movimentação

 

Desde 25 de Abril, aproximadamente, toda a gente se movimenta para fazer coisas – partidos, manifestos, comunicados, discursos, reuniões, pareceres, propostas de saneamento, peditórios, tentativas de ilustração das massas..

 

Os peditórios e as tentativas cabem às senhoras, por natureza generosas e apóstolas da tentação, como as sereias.

Cá por mim, sinto-me baralhada, pois as opiniões são muito desencontradas.

 

Os partidos que se apelidam de democratas, parece que são mais que um, pois por vezes desmentem-se. Uns mandam telegramas de repúdio a umas palavras elegantemente levianas – e parecem, pois, repudiar a leviandade. Logo outros democratas desmentem tal telegrama – o que parece apoiar a leviandade. Por outro lado, um dos partidos democratas propõe saneamentos onde não se inclui o da prostituição e logo outro partido democrata inclui o saneamento da prostituição.

 

Um outro chamado MIMO deseja mimosamente a independência total, mas em idêntico telegrama de repúdio às mesmas palavras levianas expõe que jamais renegará a pátria portuguesa – contradição que me deixa atordoada pela desorientação de princípios manifesta.

 

Um partido chefiado por uma mulher – nem só os peditórios e os partidos são pertença das senhoras – experimenta auto determinar a massa negra informando-a de que se não deve amotinar contra a massa branca – maneira cavilosa de lhe lembrar que pode.

 

Um ilustre advogado, num artigo de muito génio que ficará na posteridade como marco simbólico das qualidades humanitárias e cavalheirescas de um povo – aconselha com muita finura a que deixemos estas terras aos seus naturais, afirmando que se ele fosse negro era isso mesmo que desejaria. Esqueceu-se de analisar a questão do outro ponto de vista – do seu – e de se afirmar numa atitude corajosa e não cordialmente desleixada, de quem se está nas tintas, ou prefere uma retirada elegante, porque teve tempo de se estruturar melhor “ailleurs” durante o regime tão criticado, mas com tantos resultados positivos para si próprio e tantos outros, derrotistas como ele.

 

Um homem igualmente chique – tem-me chamado muito a atenção o pormenor do requinte de maneiras (com raras excepções) em todo este fervilhar – depois de se mostrar, reservadamente embora, conivente com a Junta, manifesta agora, decididamente, a sua não adesão a respeito do Ultramar. Como é um homem, ao que se tem visto, habituado a levantar voo frequentemente, cuida tarefa fácil levantarmos todos voo com ele, e aconselha resignação e calma ordeira, para tudo se fazer com compostura, na hora do embarque, de acordo com os seus ideais.

 

E no meio de tanta leviandade e garotice com que se debatem os destinos de um povo, de tanto egoísmo e cobardia mascarados de filantropia, de tanto partido apressado, poucos deles seguem o da sensatez e do respeito pelas normas do seu Governo, o partido daqueles cidadãos verdadeiramente livres, ou seja, os que sabem obedecer.

 

Berta Brás.jpg

 Berta Brás

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