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A bem da Nação

LIDO COM INTERESSE – 67

 

 

JS-As vinhas da ira.jpg

 

Título – AS VINHAS DA IRA

 

Autor – John Steinbeck

 

Tradutora – Virgínia Motta

 

Editor – LIVROS DO BRASIL, reedição de Novembro de 2014

 

 

 

Depois de, na juventude, ter lido esta obra na língua original e de então não ter sido capaz de a perceber completamente tanto pelo insuficiente domínio da língua que então tinha como pela falta de maturidade, agora reli-a em português e, é claro, gostei apesar de um ou outro brasileirismo. Mas como este particular só se verifica numa expressão que aparece poucas vezes («Pois não», significando «Sim», o que já não é corrente em Portugal), estou em afirmar que se trata duma boa tradução.

 

E foi com o maior gosto que retomei a leitura de obras sob a chancela dos «Livros do Brasil», editora que se dizia estar pelas ruas da amargura e que em boa hora foi relançada pela «Porto Editora». Para sorte minha, agora que me deu novamente o gosto pela literatura pura.

 

É para mim claro que todo o enredo – despejo dos agricultores do midwest devedores da banca, sua fuga para a mítica Califórnia, desencanto com as condições laborais ali encontradas – tem forte influência da célebre crise dos anos 30 mas também é claro que todo o Ocidente se muniu entretanto de políticas que lhe permitem evitar tantas das misérias tão cruamente descritas por Steinbeck.

 

Sim, agradeço a John Steinbeck ter escrito esta história com tanta crueza por assim ter alertado multidões de leitores para a necessidade de evolução. Na minha juventude eu não estava amadurecido para perceber o alerta político implícito neste livro. Para mim, tudo o que fosse americano era bom, tudo o que soasse a socialismo era mau e o que soasse a comunismo era péssimo. Uma preocupação social como esta que passámos a ter na Europa depois da segunda guerra mundial era impensável em Portugal nos idos de 60 do séc. XX e, afinal, foi essa impreparação que nos conduziu como doces ovelhas para a mão dos comunistas no seu golpe de Estado em 25 de Abril de 1974.

 

E depois desta releitura, ocorre-me confabular sobre as relações de John Steinbeck com Edgar Hoover e mesmo com o Senador McCarthy. O que lhe teria acontecido se o Prémio Nobel não lhe tivesse sido oportunamente conferido? Não sei e não vou perder tempo com especulações sobre um tema que hoje só poderá ter interesse académico e, mesmo assim, reduzido. De qualquer modo, creio que Steinbeck estava muito «vermelhusco» quando escreveu este romance. Estava ou era?

 

Se não fosse «vermelhusco» não teria certamente sido nobelizado.

 

Mas, enfim, apesar dos exageros dramáticos, gostei de reler.

 

Das passagens que chamaram a minha atenção, retenho:

 

«(...) ninguém se põe a magicar no que diz um pregador.» - pág. 17;

 

«- Sim, tudo é muito estranho – ponderou o [agricultor]. – Mas se um homem possui uma pequena propriedade, essa propriedade é parte dele, é semelhante a ele. (...) pode andar sobre ela, tratar dela, ficar triste quando ela não produz e sentir-se alegre quando a chuva a rega (...) Mas se um homem adquire uma propriedade que não vê, nem dispõe de tempo para lhe pôr os dedos nem lá pode ir para a sentir debaixo dos pés, a propriedade sobrepõe-se ao homem. (...) Só as suas possessões são grandes e ele é servo da sua propriedade.» – pág. 47;

 

«Olhava admirado para as pessoas encolerizadas, extasiado, inquieto como uma pessoa normal olha para um louco.» - pág. 96;

 

«Não eleves a fé até à altura do vôo dos pássaros e não rastejarás depois como os vermes.» - pág. 110 (por cá, dizemos: «Fia-te na Virgem e verás o trambolhão que dás»);

 

«(...) – receiem a hora em que o homem não queira sofrer mais e morrer por um ideal, pois esta é a qualidade base da Humanidade, é  o que a distingue entre todas as coisas do Universo.» - pág. 185 (julgo que esta é a hora portuguesa actual).

 

 

Janeiro de 2016

 

Porto Santo-MAI15-B.jpg

Henrique Salles da Fonseca

O QUE OS COMUNISTAS FAZEM A QUEM SE LHES OPONHA

 

Marcelino dos Santos.pngEntrevista com Marcelino dos Santos por Emílio Manhique, Televisão de Moçambique.

Data: 19 de Setembro de 2005

Programa: “No Singular”

(Excertos)

 

Emílio Manhique: Lázaro Nkavandame, Gwenjere, Joana Simeão foram mortos depois da independência, mas a Frelimo tinha dito que iam ser reeducados, que iam servir de exemplo. Porque é que foram mortos sem sequer nenhum julgamento?

Marcelino dos Santos: Naturalmente... primeiro porque consideramos que era justiça.

Manhique: Justiça popular?

Marcelino dos Santos: Altamente popular, exercida...

Manhique:... mas foi uma justiça de um movimento guerrilheiro, não de um partido.

Marcelino dos Santos: Justiça contra traidores porque qualquer um deles se aliou ao colonialismo português.

Manhique: Mas porque é que a Frelimo primeiro disse que iam servir de exemplo?

Marcelino dos Santos: Sim, e depois sobreveio a acção, a tentativa do inimigo de buscar elementos moçambicanos descontentes, em particular aqueles que pudessem ser-lhes bastante úteis. Então, aquela consciência que nós tínhamos inicialmente de que são traidores e que, portanto, deveriam ser executados. Bom, numa certa medida podemos dizer que surgiram as condições que forçaram a implementação de uma preocupação e de um sentimento muito, muito, muito antigo porque é bom não esquecer que Lázaro Nkavandame...

Manhique: E porque é que não se informou o povo?

Marcelino dos Santos: Porque aí é preciso ver o momento em que isso acontece e naturalmente embora nós sentíssemos a validade da justiça revolucionária, aquela construída, fecundada pela luta armada revolucionária de libertação nacional, havia, no entanto, o facto de que já estávamos em Estado independente. Quer dizer, Moçambique se tinha ja constituído em Estado embora a Frelimo fosse realmente a força fundamental desse Estado. Então foi isso, talvez, que nos levou, sabendo precisamente ainda que muita gente não estava certamente apta a entender bem as coisas, que nós preferimos guardar no silêncio esta acção realizada. Mas que se diga bem claramente que nós não estamos arrependidos da acção realizada porque agimos utilizando a violência revolucionária contra os traidores e contra traidores do povo moçambicano.

 

JC-The tortuous Road to Democracy.jpg

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(colaboração de João Cabrita, Mbabane, Suazilândia)

EXPLICAÇÕES

 AO90-NÃO.jpg

 

O texto de Vasco Pulido Valente, publicado em 16 de Janeiro no Público, só pode pedir um comentário de apreço. Um homem culto e inteligente, que procura as fontes para as suas razões. É certo que, num país de traição tantas vezes cometida, onde a mesquinhice e a inveja se casam lindamente com a pequenez intelectual, não são de estranhar estas novas reformas no ensino em função da tal massificação que se introduziu há muito, que o restabelecimento do bom senso conseguiu em parte minimizar, mas que a nova viragem a uma esquerda cujos valores se resumem – ficticiamente, é certo, pois há sempre os espertos que desejam mais para si – a uma tolhida generosidade para um igualitarismo ideal para os com menos valia.

 

Vasco Pulido Valente informa sobre a tese do livro “Les Héritiers” de Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron, publicado em 1970, que serviu aos nossos revolucionários de 74, e a Tiago Brandão Rodrigues na revolução de 2016.

 

O certo é que há sempre os filhos mais protegidos, os alunos mais curiosos ou mais trabalhadores que hão-de sempre distinguir-se. E isso dá-nos coragem para esperar que tudo mude novamente, ainda que não no meu tempo.

 

Mas de facto, ao ouvir há dias António Costa, posto perante a pergunta de Pacheco Pereira, sobre se se propunha mudar o AO e responder que não, pois já houvera outro AO a que ele se submetera e não morrera por isso, dando uma imagem de ignorância sobre o cariz de idiotia que este AO comporta, ou ao ouvi-lo larachar no Parlamento sobre a inutilidade dos exames, não sei se haverá razões fortes para esperar ainda.

 

Eu confiei na sensatez de Passos Coelho e do seu Governo, mas também ele se mostrou fechado à eliminação do Acordo, embora explicadas as suas anomalias por cabeças gradas do país. E o desrespeito pela língua pátria é bem símbolo da nossa miséria moral e intelectual, a acrescentar à material, que de nós faz contínuos devedores, sem pruridos de consciência, também aí, eliminado o governo anterior que os tinha. Tudo isso relacionado com a tolice dos exames que se eliminam nuns anos e se propõem em outros, nem se percebe porquê.

 

Berta Brás.jpgBerta Brás

 

 

Revoluções 

Vasco Pulido Valente.pngVasco Pulido Valente

 

Público, 16/01/2016

 

Não se percebe como Cambridge, uma cidade universitária, tranquila e campestre nos mandou um primitivo português como Tiago Brandão Rodrigues. Verdade que o homem trabalhava lá e se passeava pelas mesmas ruas e pela mesma relva por onde tinham andado Newton, Wittgenstein e Russel. Só que nada disso lhe deu um grão de modéstia e de prudência. Chamado por Costa, não hesitou em virar do avesso o sistema de ensino que por aqui encontrou e que levara vinte e tal anos de esforço e de polémica a chegar a um relativo equilíbrio. O valente trazia um plano no saco e não hesitou em escaqueirar tudo, para abrir um “novo ciclo” de justiça para a Pátria e os professores. Pode haver quem ache esta maneira de fazer a felicidade do próximo um pouco extravagante. Se há, é gente pérfida, com razões malévolas.

 

heritiers.jpgA coisa vem de um livro, publicado por volta de 1970, por Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron (talvez por Bourdieu sem Passeron), com um título prometedor, “Les Héritiers”. A tese geral desta obra era simples: a “classe dominante” tinha reproduzido a sua tirania transferindo o capital para a descendência; mas no mundo moderno passara a transferir o “saber” e não o “capital”. Ou seja, o seu método de “reprodução” mudara e o dever do verdadeiro socialista estava agora em destruir essa nova maquinação da burguesia. Ora como esta venenosa manobra da “classe dominante” assentava, por um lado, nos privilégios que se “herdavam” da família e, por outro, no carácter selectivo da escola, que o exame e a nota simbolizavam, o objectivo essencial era obviamente transformar a escola num lugar de prazer e acabar com o exame e a nota.

 

Que as criancinhas ficassem num estado de completa ou quase completa ignorância interessava pouco. A operação pelo menos destruía os filhos da “classe dominante”, que sem “capital” e sem “saber” seriam absorvidos por um igualitarismo militante; e também alegrava os professores que deixavam de responder pelo seu trabalho perante o Estado da burguesia (Bourdieu detestava os professores que ensinavam e em 1968 tentou correr com Aron da Sorbonne). Como se calculará, esta perfeita idiotia foi recebida em Portugal por meia dúzia de profetas, que durante o PREC arrasaram a “escola” a pretexto de a “sanear” primeiro e de a “salvar” a seguir. A balbúrdia que estabeleceram liquidou a vida a muita gente. As reformas do ministro Tiago liquidarão mais.

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