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A bem da Nação

ABAIXO OS EXAMES!

 

BB-palhaçadas.jpg

 

Dá prazer saber que neste país ainda há pessoas que se interessam pela Educação e acompanham os filhos em exigências de comportamento escolar que julgava de menor valia, desde que, numa tal revolução florida, o país silenciou, curvando docilmente o dorso perante a nova ordem que, na questão da metodologia para o Ensino aboliu exames e igualou competências com passagens administrativas que, se favoreceram a mândria, muito deve ter revoltado os alunos cumpridores, assim irmanados e desconsiderados. Era um tempo de reboliço, que, por alturas de 76, Ramalho Eanes conseguiu minorar. Mas o termo democracia ganhou terreno desde então e ainda não parou de avassalar os espíritos, pelo que a imposição de um ensino em modelo de camaradagem e afabilidade para poupar as susceptibilidades das criancinhas, que tornou os professores dóceis e os alunos arrogantes – (no estágio que fiz por essas alturas aprendi que os saberes dos alunos eram tão importantes como os dos professores, o que criou em mim, durante uns tempos, uma psicose de imperícia e inutilidade docente que, felizmente, consegui com o tempo ultrapassar) – o modelo da igualdade, fraternidade e liberdade, repito, foi-se insinuando com força crescente, no meio do laxismo, da indisciplina, do desinteresse progressivos pelo significado do saber.

 

As coisas foram-se compondo, escudadas por livros escolares progressivamente mais completos, com textos, imagens e exercícios de apoio, que deviam encantar os alunos, se a educação fosse um lema nas famílias e nas escolas, estas desautorizadas por normas vindas dos sucessivos ministérios sucedâneos à implantação dos cravos.

 

Mas chegámos novamente à reviravolta trazida pela constituição de um governo de igual tendência melindrosa e puritana desse governo dos cravos, embora sem cravos, agora, que a estação do ano não possibilitou. Novamente vêm à tona as frases do carinho pelas criancinhas cujas sensibilidades e tremores as televisões captam com desvelo, falando de nervos e interrogando sobre os traumas dos exames. E o primeiro ministro autodefinido, concorda que os estudos são supérfluos, e que os exames só servem para criar mártires nas criancinhas. Abaixo, pois, os exames, embora a candidata do Bloco da Esquerda, Marisa Matias, tenha explicado que a escola a ela ajudou muito, no tempo em que também guardava cabras, que não possibilitavam, todavia, um convívio de tão intensa projecção como aquele que a escola com as colegas de turma lhe facultou. É certo que não falou no que deveu aos mestres, mas por isso mesmo os seus recursos culturais primam pelo afecto das suas participações como candidata à presidência da república, na estrada, nos meios de transporte, em Coimbra, o que prova quanto é estimada, porque também estima, defendendo o direito dos pobres a subir na vida e os das criancinhas de não fazer exames, não sei se também para subir melhor, ou pelo menos mais rapidamente.

 

João Miguel Tavares parece aborrecido com a abolição dos exames e prova-o, denunciando desrespeitos. Com muita coragem, que admiro. Mas o tempo está para as Marisas, ex-guardadoras de rebanhos, que pretende conduzir o povo, agora. O que é muito da actualidade, convenhamos. Eu até tenho uma peçazinha de teatro – já falei nela, que as conversas são, muitas vezes, como as cerejas – em que uma ex-pastora também se transforma em condutora do seu povo. Chama-se “Exercício Escolar”, (a peça, não a pastora, com que terminam os meus “Cravos Roxos”), e termina assim, que se me perdoe a repetição, pois:

 

Coro do Partido

 

Neste país transformado

Por revolução de flores

Que aniquilou prepotências

E irmanou ricos e pobres

Trabalhadores e gestores  

Num ideal renovado

De comum realização,

Só se escuta o martelar

Dos malhos dos ferradores

Dos maços dos calceteiros

E os gritos dos operários

E os olés dos boieiros

E o chocalhar das ovelhas

E os protestos dos doutores

E os risos dos proletários

E os discursos partidários

E o gorjear dos cantores.

Pelas ruas transformadas

Em caminhos pedregosos

Onde as flores são espontâneas

E os frutos tão saborosos,

Brotam as almas mais cândidas

E os sentimentos mais soltos.

Eis a mensagem, senhores,

Da nossa festa das flores.

 (Assim fenece a farsa.)

 

É claro que hoje não penso tanto assim, visto que os calceteiros e os boieiros esmoreceram com o tempo, e já nem se apanha um simples desentupidor de canos, talvez vivendo do subsídio, ou, se for mais ambicioso, preparando-se para bem servir o país em cargos de mais relevo, o que é sempre prestigiante, como o Tino de Rans e mais uma catrefa de companheiros têm provado no nosso impasse eleitoral.

 

Mas é tempo, naturalmente, de ler o protesto de João Miguel Tavares contra as leis do bota-abaixo instituídas pelo governo da usurpação sobre as leis anteriores do partido ganhador. É claro que concordo com ele. E admiro o facto de, jovem como é, entenda ainda que a escola é um espaço de obrigação em função de uma formação ética e em função de uma vida futura que imporá obrigações e exigirá competências. O querer retirar à escola esse empenhamento formativo, de que os exames naturalmente fazem parte, como preparação para a vida, não passa de cinismo astuto e estulto do mundo adulto, o qual, no nosso país, ao que se tem visto, é certo, se apoia muito no nepotismo, ou, como me disse um dia o meu ex-colega do liceu, posteriormente filósofo, Fernando Gil, na «tiologia», designando o termo, naturalmente, o apoio nos tios, mais do que nas competências resultantes do saber.

Berta Brás.jpgBerta Brás

 

A palhaçada

João Miguel Tavares.jpgJoão Miguel Tavares

Público, 12/01/2016

 

Eu tenho quatro filhos, três deles em idade escolar. A Carolina tem 11 anos e está no 6.º ano. O Tomás tem nove e está no 4.º ano. O Gui tem sete e está no 2.º ano. Na passada sexta-feira, fiquei a saber que os meus dois filhos que iam ter exames daqui a cinco meses afinal não vão ter, e que o meu filho que não ia ter exames daqui a cinco meses afinal vai ter uma prova de aferição. A isto se chama uma colossal palhaçada.

 

Na SIC, Marques Mendes afirmou que fazer estas alterações a meio do ano lectivo era uma “falta de respeito por professores e directores de escolas”. Os professores e os directores de escolas que me perdoem: isto é, em primeiro lugar, uma absoluta falta de respeito para com os alunos e as suas famílias. E como o ministro da Educação deve perceber imenso de bioquímica, de oncologia e de como dar graxa à Fenprof, mas muito pouco do que significa gerir uma família e educar filhos, eu assumo a patriótica missão de o tentar esclarecer.

 

Numa família, explicamos às crianças que a escola é o seu trabalho, e que ele deve ser levado tão a sério quanto os pais levam o seu. Explicamos que a roupa, a comida e os brinquedos chegam sem qualquer esforço da parte deles, e que em troca os pais só pedem bom comportamento e empenho escolar. Explicamos que a mesma energia que é investida nos momentos de lazer é para ser aplicada nos momentos de trabalho. E ao explicarmos tudo isto, tentamos criar desde cedo uma cultura onde felicidade e exigência sejam actividades compatíveis (sim, Catarina Martins, é possível!). Um ano de exames e de fim de ciclo é sempre um ano diferente, e trabalha-se para isso durante nove meses. Para uma criança empenhada na escola, o ano lectivo que está a frequentar não é, como para um adulto licenciado, apenas um de entre 15 anos de estudo – é a vida dela, toda, inteira, naquele momento.

 

E essa vida planeia-se, desde o início do ano lectivo. Por incrível que possa parecer a Tiago Brandão Rodrigues e à frente de esquerda que nos governa, há pais que entendem que a educação que o Estado propõe aos seus filhos não é toda a educação que querem para eles. Os meus filhos frequentam a escola pública, mas fora dela estudam música e inglês, que têm avaliações próprias. Essas avaliações articulam-se com as da escola, e há opções que se tomam logo em Setembro em função dos exames de Maio. Mais: a escola tem também implicações profundas na vida de lazer das famílias. Há pais que viajam com os filhos, marcando férias com meses de antecedência – e para isso contam que o calendário escolar seja respeitado (a prova de aferição do oitavo ano acaba de ser marcada para a semana seguinte ao fim das aulas). Sim: há vida para além do Estado.

 

Reparem que deixo propositadamente de fora deste texto as vantagens dos exames de 4.º ou 6.º ano, o número de alterações às avaliações do ensino básico desde o ano 2000, a pressa e a opacidade com que esta nova revolução foi feita ou as inenarráveis contradições socialistas. O meu argumento é prévio a tudo isso – é sobre o profundo desrespeito que o Estado dedica aos seus cidadãos, tenham eles sete ou 77 anos. Invocar razões ideológicas para a direita preferir avaliar crianças no 4.º, 6.º e 9.º anos e a esquerda no 2.º, 5.º e 8.º é absolutamente patético. A única ideologia está no método: só mesmo quem acredita que o Estado é o alfa e o ómega da existência humana pode dispor da vida dos cidadãos com a vergonhosa leviandade que o ministério da Educação acaba de exibir.

LEGUMINOSAS

 

 

Leguminosas.jpg

 Leguminosas

 

A FAO declarou 2016 o Ano internacional das leguminosas. O objectivo é aumentar o cultivo e o consumo das plantas deste grupo, com vantagem para a melhoria do solo agrícola onde são cultivadas, e da saúde das pessoas e animais que as consomem.

 

As leguminosas são das plantas com maior teor de proteínas, variadíssimos compostos químicos formados por um grande número de aminoácidos. Estes são apenas 20 mas, tal como peças de Leggo, é possível formar com eles variadíssimas proteínas.

 

Os animais não são capazes de fabricar aminoácidos, que são apenas sintetizados pelas plantas. Como são essenciais à vida, os animais têm de comer plantas ou animais que comeram plantas para os adquirirem.

 

O valor das leguminosas para a melhoria dos solos resulta de viverem em simbiose – uma associação com benefício para ambos – com bactérias capazes de captarem o azoto do ar e sintetizarem compostos azotados, algo que o homem é capaz de fazer, mas com elevado consumo de electricidade, para produzir os nitratos, adubos muito usados na agricultura.

 

A bactéria, de seu nome científico Rhizobium leguminosarum, forma pequenos nódulos nas raízes, fáceis de ver quando se arranca uma faveira, um trevo ou qualquer outra leguminosa. Vive à custa da planta. Mas cede-lhe grande parte dos compostos azotados que fabrica a partir do azoto do ar pelo que, ao contrário das gramíneas, como o trigo, não necessitam de adubos azotados. E os resíduos que deixam no solo, tornam este mais fértil que antes dessa cultura.

 

Como quaisquer outros seres vivos, também as bactérias apresentam variabilidade genética e algumas são mais eficientes que outras na captação do azoto do ar. A investigação agronómica seleccionou estirpes mais eficientes do que as que geralmente existem no solo e hoje não se justifica a cultura de leguminosas sem inocular as sementes com uma estirpe apropriada do Rhizobium. Nos artigos sobre “O azoto”, que publiquei no Linhas de Elvas em 2010, relatei os ensaios realizados na década de 1950, na Estação de Melhoramento de Plantas, em Elvas, pelo Prof. Villax, ensaios que acompanhei e fotografei. Como se pode ver nas fotografias, é espectacular a diferença de desenvolvimento entre os talhões das plantas inoculadas e das não inoculadas.

 

Quando me encontrava a trabalhar na tese então necessária, descansava um tanto desse trabalho escrevendo um pequeno livrinho, que editei em 1954, intitulado “Uma guerra entre as plantas”. Embora também entrem humanos, as principais personagens são plantas de duas famílias, a das Gramíneas e a das Leguminosas, que travam entre elas uma guerra surda. O chefe das Gramíneas é o Senhor Trigo, que mostra um certo desdém pelas Leguminosas. Estas, sentindo-se diminuídas, enviam uma delegação aos engenheiros agrónomos da Estação de investigação para saber como podem melhorar a sua situação. Quando lhes são referidas as verrugas nas raízes, confessam-se envergonhadas por esse “defeito”. É-lhes explicado que, ao contrário, devem orgulhar-se de tão valiosa qualidade.

 

Gramíneas.jpg

Gramíneas

 

Ao fim de alguns ensaios e demonstrações em que entram membros das Gramíneas e das Leguminosas, compreendem que não há razão para se guerrearem mas antes para colaborarem. O que era uma guerra entre as duas famílias termina com um final feliz, num almoço de confraternização.

 

A pesar de tudo isto, que já é tão antigo, creio que a agricultura portuguesa ainda semeia muitas leguminosas sem inoculação.

 

Publicado no "Linhas de Elvas" de 15 de Janeiro de 2016

 

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 Miguel Mota

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