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A bem da Nação

A MAIORIA INTERMITENTE

parlamento-Portugal.jpg

 

Afinal de contas, e de resto sem grande surpresa, a nova maioria de esquerda está condenada a viver em estado de intermitência. Não podia ser de outra forma, dadas as profundas divergências que a atravessam, as quais se manifestarão sempre que estiverem em causa decisões nos domínios das políticas europeia, económica e financeira. Ontem, o que estava em causa no Parlamento era a aprovação de uma proposta de Orçamento Rectificativo apresentada pelo Governo a propósito do processo de resolução de um banco que já tinha sido anteriormente objecto de intervenção pública. No futuro surgirão outros temas e outras decisões propiciadores de idênticas expressões de desagregação política da base de sustentação parlamentar do actual Executivo. Uma conjectura desta natureza não envolve qualquer exercício de adivinhação, funda-se estritamente num simples acto de constatação da realidade. O Bloco de Esquerda e o PCP, partidos que até agora se tinham auto-excluído do famigerado “arco da governação”, não alteraram – e disso têm mesmo feito gala – os seus respectivos posicionamentos doutrinários a ponto de se constituírem como parceiros constantes de uma solução parlamentar investida de responsabilidades governativas. Quando se trata de revogar, de reverter ou de repor – tudo situações que remetem para uma apreciação crítica da acção do Governo anterior – é relativamente fácil associar os votos de toda a esquerda parlamentar; já será diferente sempre que os verbos forem outros – reformar e realizar.

 

O Partido Comunista e o Bloco de Esquerda não poderiam ter actuado de outra forma relativamente ao Orçamento Rectificativo, sob pena de cometerem verdadeira apostasia política. Reconheça-se, aliás, que uma parte significativa do país se identifica com o posicionamento crítico por eles adoptado. O PCP manteve-se fiel ao propósito de nacionalização do sistema bancário e o Bloco de Esquerda colocou condições congruentes com o seu discurso histórico sobre esta matéria. Quanto a isso nenhum deles pode ser objecto de censura. Pelo contrário, mereceriam ser vergastados se renunciassem à sua identidade mais profunda. A questão não se coloca, por isso, no plano da apreciação da legitimidade do comportamento de cada um dos partidos de esquerda mas, antes, na avaliação do mérito de um projecto político baseado no pressuposto de um entendimento entre eles. Sobre isso já escrevi o suficiente em ocasiões anteriores.

 

Pedro Passos Coelho já o tinha anunciado na semana passada e na votação do Orçamento Rectificativo tornou-se oficial: a coligação de direita acabou. O CDS-PP, votando ao lado da extrema-esquerda parlamentar, iniciou o caminho de regresso a um tipo de discurso não isento de uma boa dose de populismo, algo que o caracterizou em épocas anteriores. Nisso irá muitas vezes disputar tempo de antena com o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista. Até que ponto se afastará o CDS de alguns consensos a que se viu constrangido por força da sua conjuntural condição de partido do Governo? Esta questão é das mais interessantes que se colocam neste processo de reorganização do sistema partidário português. Não é impossível que Paulo Portas venha a recuperar a prazo um discurso de tom marcadamente nacionalista, com a consequente adopção de um comportamento muito crítico face à evolução do projecto europeu. É da natureza das coisas que assim venha, provavelmente, a acontecer.

 

Já o PSD, superada que esteja uma primeira fase marcada pelo ressentimento em relação ao Governo socialista, tenderá a estabelecer com este uma relação mais complexa do que desejaria. Aquilo que separa estruturalmente o PS dos partidos situados à sua esquerda é precisamente o mesmo que o aproxima substancialmente do PSD: a Europa, a economia de mercado, o primado da iniciativa individual. Por muito que ambos protestem insanáveis divergências, a realidade encarregar-se-á de realçar os pontos de entendimento. É tudo uma questão de tempo. É claro que são partidos com horizontes, referências e projectos distintos, um marcadamente de centro-esquerda e outro inquestionavelmente de centro-direita. Têm, porém, muito em comum, como o comprova a história das democracias contemporâneas. Saber valorizar o que os afasta e o que os aproxima revelar-se-á da maior importância para a saúde do nosso regime político. No imediato esse exercício não será de realização fácil por razões atinentes à interpretação dos recentes resultados eleitorais. Por um lado, qualquer esforço de aproximação explícita estará condenado ao fracasso, por outro, qualquer tentativa de exacerbamento das distâncias colidirá com a pressão da realidade envolvente. Basta uma ligeira evolução na Europa no sentido da consumação de um acréscimo de federalismo institucional (coisa que bem pode acontecer no domínio da União Económica e Monetária) para que se redescubram os traçados das velhas fronteiras que à esquerda e à direita separam diferentes abordagens do projecto europeu. Então lá assistiremos ao regresso do velho bloco central europeísta rodeado de soberanistas por todos os lados.

 

A criação de uma comissão de inquérito ao que se passou com o BANIF é absolutamente imprescindível. Muito para além do jogo partidário há muitas coisas que têm que ser esclarecidas. É obviamente inadmissível, à luz de diversos princípios – nomeadamente os que se filiam na melhor tradição liberal – que o Estado venha socorrer sistematicamente instituições privadas levadas à insolvência pela ganância dos seus gestores e accionistas.


Público, 24/12/2015

Francisco Assis.pngFrancisco Assis

SE A MINHA ILHA SOUBESSE…

Juniperus-brevifolia-ilha-das-Flores.jpg

 

 


Ah meu irmão
Que longe andas, que não voltas a casa…
À sombra do velho cedro
Olho sentada no muro
A escarpa lá em baixo
Até onde o olhar alcança
E revejo dias de Primavera
Da nossa meninice
Em grandes brincadeiras
Ao seu redor…
Nesse tempo, meu Ginjinhas
Eramos ambos tão felizes!...

Maria Mamede - 3.jpgMaria Mamede

QUANDO AS AMIGAS CONVERSAM...

 

RICO BAGO DA NOSSA ALMA

 

Falou-se um pouco de tudo, como pessoas aclimatadas aos tempos, saúde de pessoas conhecidas, os netos, notícias de jornais, tudo muito actual com o seu quê de mexerico bem intencionado, como, aliás é pertença habitual dos mexericos, ditados pelas pessoas de boa formação moral, que somos todos nós no mundo cristão. Falou-se do Banif em maus lençóis, mas logo a nossa amiga embirrou com a designação, achando que os maus lençóis pertenciam antes aos que tinham confiado ao tal Banco as suas poupanças, os donos do Banco sempre dormindo em lençóis de cambraia, metaforicamente falando e ambas – a minha irmã e eu – concordámos, embora sugeríssemos que a cambraia devia ser pouco macia, mesmo a metafórica. Eu pelo menos há muito que aderi aos térmicos, pelo menos no Inverno, e não dispenso mesmo assim o saco cheio de água quente, pensando virtuosamente, do meu “quentinho”, nos sem abrigo e sem saco. Falámos nas figuras ridículas de Sócrates e a minha irmã informou que ultimamente se tem debruçado sobre o Correio da Manhã que não poupa o Sócrates, mas a nossa amiga, de olhos faiscantes de malícia e bem-estar, agora que o Costa do seu poleiro promete obra, explicou que o cavaleiro não da triste figura mas das figuras tristes «- Ainda vai ser presidente da república! Ainda o governo o vai indemnizar.» Mas acho que o disse só para nos provocar, que às vezes até parece que não se lhe dava que assim acontecesse, o que me deu raiva, tal como ao Solnado, e lembrei mesmo as coisas perversas que a esquerda vai erguendo em cada dia sobre os anteriores governantes, os de direito próprio, para ver se os trama e enterra de vez.

 

Já a minha irmã tinha falado de Macau, segundo um artigo que lera, a propósito das muitas terras que perdêramos, Macau mais próspero agora, e até mais amplo, a ilha conquistando terras ao mar – como fizera a Holanda com os seus polders – para dilatar os seus espaços e construir os seus edifícios, os seus casinos, numa era de riqueza e modernidade. Dantes, parece que também dava dinheiro mas aos habitués do costume, que o arrecadavam em sítios pessoais - como fazem por cá ainda hoje os donos dos bancos, os dos lençóis de cambraia - e por isso não poderemos nunca construir polders, o mar, pelo contrário, é que nos vai engolindo, como polders às avessas.

 

Mas a minha irmã saiu-se com uma frase plena de doçura e abismei-me com ela, que atribuí a esta quadra natalícia - embora, na questão dos pratos, cada dia sejamos marcados com a realidade saborosa da cozinha portuguesa nas programações televisivas: «- Somos um exemplo para o mundo. Tudo o que tivemos entregámos em paz» - mas eu nem tive tempo de unir as mãos em doce respeito e fervor, porque ela logo acrescentou: «- Mas agora aquilo está péssimo, com milhões de gente pelas ruas…»

 

E a nossa amiga de acrescentar: «- O Maputo está igualzinho, se não pior que Luanda. As pessoas deixaram de conviver.» Falava da população branca. «- Aquilo foi-se abaixo das canetas. Baixou o petróleo … a filha do coiso não é dona de Portugal? O coiso, o Zé…» e a minha irmã a dar-lhe troco: «-Há 40 anos no poder! Como é possível?»

 

Timidamente alvitrei que nisso, de longevidade governativa, o Alberto João também quase chegara aos calcanhares do Zé, e fizera obra, ao que parece, mas argumentaram que, sem petróleo não poderia ter ido longe se lhe não tivesse ido parar às mãos o dinheiro exterior que viera parar primeiro aos do continente. E a nossa amiga tristemente, voltando ao coiso: -«Ui!, minha nossa! Angola podia ser um país riquíssimo!»

 

O sacrossanto dinheiro! E lá voltamos ao mesmo, nesta roda giratória, o bago que já utilizara um tal Gonçalo da Redacção da Tarde, onde Ega fora suster a publicação de um artigo obsceno de Palma Cavalão contra Carlos da Maia: “Hoje é o facto positivo, - o dinheiro, o dinheiro! o bago! a massa! A rica massinha da nossa alma, menino! O divino dinheiro!» Ou, como a “Boneca” do irmão da “Ofeliazinha” de Fernando Pessoa, Carlos Queirós, a ocupar todos os interstícios das vidas modernas: «A boneca! A boneca!», o rico bago…

 

Teatro da boneca

 

A menina tinha os cabelos louros.

A boneca também.

A menina tinha os olhos castanhos.

Os da boneca eram azuis.

A menina gostava loucamente da boneca.

A boneca ninguém sabe se gostava da menina.

Mas a menina morreu.

A boneca ficou.

Agora também já ninguém sabe se a menina gosta da boneca.

E a boneca não cabe em nenhuma gaveta.

A boneca abre as tampas da todas as malas.

A boneca arromba as portas de todos os armários.

A boneca é maior que a presença de todas as coisas.

A boneca está em toda parte.

A boneca enche a casa toda.

É preciso esconder a boneca.

É preciso que a boneca desapareça para sempre.

É preciso matar, é preciso enterrar a boneca.

A boneca.

A boneca.

Carlos Queirós.jpgCarlos Queirós

 

Berta Brás.jpg Berta Brás

 

NOTA: Para saber mais sobre Carlos Queirós, ver por exemplo em https://pt.wikipedia.org/wiki/Carlos_Queir%C3%B3s_Ribeiro

 

 

 

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