Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A bem da Nação

REACCIONÁRIO ME CONFESSO...

 

Escola Primária Oficial.png

 

A pressa (qual é a pressa?) de legislar para acabar com o exame da "quarta classe" (sou de um outro tempo, pois claro) é algo que não consigo entender. Ou melhor: posso perceber que estas micro-agendas dos "compagnons de route" do PS possam fazer sentido para eles, mobilizados por temáticas modernaças e de "contemporaneidade". Mas não entendo por que é que o PS vai a reboque delas.

 

O exame colocava "stress" nas criancinhas? Claro que sim! E depois? Lembro-me de ter dormido muito mal antes do meu exame da "quarta classe", de ter tido pesadelos nas vésperas do "exame de admissão" ao liceu (e fiz também à Escola Comercial e Industrial, não fosse dar-se o caso de reprovar no liceu). E o que eu passei, entre angústias e insónias, antes da montanha de exames do 2º ano do liceu, com os meus pobres 12 anos. E as noites longas, a "marrar" temas áridos de História do Matoso (do outro) no 5º ano? Ou a decorar as funções da Câmara Corporativa, no exame de OPAN (Organização Política e Administrativa da Nação) do 7º ano? (Saí com 20 - vinte, ouviram?)

.

Tive suores frios, tomei Fosfero Ferrero, desesperei, perdi horas, sublinhei, reli alto, decorei montes de coisas inúteis, para poder estar preparado para todos os muitos exames que fiz ao longo da minha vida? Claro que sim. E também "chumbei" em alguns, perdi um ano inteiro, tive de repetir cadeiras (em segunda e terceira "época") e, nem por isso, tive depressões ou me suicidei ou sequer fiquei psicologicamente afectado. E, claro, fiz exames para o meu primeiro emprego público, passei na prova exigentíssima para a minha segunda e última profissão e, querem saber?, dei-os a todos por muito bem empregados. Endureci na vida, "saiu-me do pêlo", aprendi (sem gravurinhas para amenizar a dificuldade dos temas) o que tinha de aprender, se calhar ainda menos do que devia mas, de certeza!, muito mais do que aquilo que observo (e mais não digo!) na esmagadora maioria dos alunos que agora tenho. E, com tudo isso, construí uma carreira e progredi e tive nela o sucesso que consegui ter - sempre com todas essas chatices, essas tensões, essas exigências, essas muitas horas de trabalho e de esforço. Teria tudo sido melhor se tivesse tido menos exames, se tudo fosse de avaliação mais "diacrónica" e menos "sincrónica"? Não sou dado a teses de que "no meu tempo é que era bom", mas que não vejo a menor desvantagem nessa aferição pontual de conhecimentos que os exames constituem, lá isso é verdade.

 

Volto ao princípio. Percebo que o Bloco de Esquerda tenha esse tipo de agendas. Já percebo menos que o PS se deixe ir nessa onda "modernaça", que entre pelo facilitismo, que queira reverter a obrigatoriedade dos exames para a miudagem, os quais, é sabido, podem provocar stresses, angústias e tremores, mas que não matam ninguém e ajudam os miúdos a perceber que a vida não é um armazém do Toys r Us e que não há nenhum direito divino às playstations, às roupas de marca e aos hamburgers na Disneylândia.

 

E já agora, também não percebo que se volte atrás na exigência dos exames àqueles que querem ser professores. Eu também fiz um exame de admissão profissional, depois de acabado o curso. Às tantas, talvez valesse mesmo a pena que alguns dos docentes actualmente em actividade, que por vezes andam aí com um ar que converte os arrumadores de carros em "gentlemen" do Downton Abbey, que devem funcionam como "belos" exemplos e modelos para as crianças, fossem também obrigados a efectuar provas a meio da carreira. E a alguns outros profissionais, tal como os diplomatas, menos do que avaliação contínua muito deficiente como a que hoje têm com o famigerado Siadap, talvez uns examezitos a meio do percurso lhe não fizesse mal e os forçasse a actualizarem-se e a ler mais.

 

Isso, aliás, devia ser obrigatório para os ex-professores que "sindicalizaram" grande parte da sua vida, por forma a se aferir se já "perderam a mão". Ou não será estranho que esse tal de Mário Nogueira, que regularmente agita o bigode, a raiva e o verbo pelas grades da multidão com cartazes na 5 de Outubro, tenha dado a sua última aula presumo que ainda antes do novo = ministro da Educação nascer?

 

"Estás um bom reaccionário, estás!", já estou a ouvir de algumas amigas e amigos, daqui a horas, quando lerem este post. E então dos corajosos anónimos que por aí pululam vai ser um fartote. Mas, como costumava dizer uma sobrinha minha, na sua infância: e a mim que me importa!

 

 

Francisco Seixas da Costa

            Embaixador

NADA

 

Como sempre, Vasco Pulido Valente acerta em cheio nas suas análises enriquecidas por um saber histórico que distende a nossa visão pelos cordelinhos dos comos e dos porquês das nossas andanças políticas. Desta vez é sobre a impossibilidade visceral de uma aliança do PS à esquerda, dentro dos moldes clássicos de um PS risonho e franco e dado às benesses da vida, como foi o estabelecido por Mário Soares, que prezou a liberdade folgazã e necessitou da Europa para a estabelecer – a liberdade em bonança. Daí que, se António Costa desejar defender a mesma dama prazenteira, terá que se haver com o seu novo patrão, daqueles patrões que ganharam o mesmo fácies e até a mesma voz do primitivo, de Álvaro Cunhal, resultado da muita insistência num discurso jamais mudado da sua doutrinação fechada a quaisquer achegas, apesar do abate da muralha em má hora erguida e em boa hora destruída, por esse homem superior que se chamou Gorbachev. Não, tanta é a fervente comunhão de António Costa com o seu amo e senhor, embora finja ser livre, que até inventou uma metáfora de sentido inverso: o muro derrubado não fora, afinal, o criado pela URSS, de significado separatista e amputador da paz, fora o criado por uma Europa inimiga figadal da ideologia russa, que ele, Costa, se propôs aniquilar, mesmo em condições pouco dignas de aceitação e que todos acabámos por aceitar, em mansidão de apreço e relaxe.

 

Contrariamente, pois, a Vasco Pulido Valente, que ainda se indigna – porque talvez tenha vivido em euforia o 25 de Abril e não tenha atentado nos que viraram rapidamente para a nova ordem – eu não me indigno, nem admiro, experiente que sou dessas démarches de viradeira, que vivi em desconfiança – nem condeno Costa por preferir a esquerda, que lhe proporcionou o bem-estar de que usufrui presentemente, por concordar, afinal, com os pontos essenciais da doutrinação comunista: os direitos dos trabalhadores – assim entendendo sobretudo os das classes desprotegidas, que os que mais estudaram parece não terem direito – às vezes até com razão, embora a incompetência seja um traço comum nosso – a esse estatuto distintivo – a condenação da propriedade e do capital e por isso da Europa rica e dos ricalhaços, incluindo os trabalhadores de lá que proporcionaram o bem-estar de cá – a defesa dos velhos e de todos os pobrezinhos e isso tudo são traços de bom carácter, de muita bondade, até já apercebidas em Cristo e no Buda e nos dois S. Franciscos.

 

De resto, ao ouvir o “ponto final parágrafo” com que Marcelo Rebelo de Sousa, o nosso próximo presidente, apimentou a sua entrevista ontem (3DEZ), julgo que não foi nada inferior a Costa em vilania e banalidade no seu discurso de “fala-barato”, como lhe chamava a minha mãe. Sendo apoiado pelo PSD, propõe-se desligar-se do partido, para melhor se definir como “presidente de todos os portugueses”. Apartidariamente. Um homem contente consigo, igual a todos os outros concorrentes ao cargo, um amigo de todos, um amigo de si. E nada mais: «ene a, dê, a», como frisou em certo contexto, muito comum, muito saloio, muito nervoso: NADA – «ene a, dê, a». O mesmo.

Berta Brás.jpgBerta Brás

 

Os dois governos

Vasco Pulido Valente.pngVasco Pulido Valente

Público, 4/12/2015

 

Depois dos temores do professor Vítor Bento, ninguém se deu ainda ao trabalho de examinar o que resta hoje do partido de Álvaro Cunhal, que sempre seguiu, dentro das suas fracas forças, a ortodoxia da Internacional ou, se quiserem, da Igreja Comunista. Nesta última crise, nunca se tocou em alguns pontos que, no entanto, são essenciais. Um deles é o chamado “centralismo democrático”. Quando se discutia a ilegitimidade da “frente de esquerda” ou a “legitimidade” da coligação CDS-PSD, em nenhuma das gritarias que por aí houve se mencionou o facto de o PC continuar solidamente a ser um partido antidemocrático, em que os dirigentes superiores decidem e determinam tudo, desde o pessoal ao que dizer em cada altura e em cada lugar. Se o PS existe, se todo o socialismo existe, é por terem recusado esta espécie de tirania.

 

Não vale a pena fazer aqui a longa lista da gente que saiu do partido por não conseguir aguentar a vida de caserna que ele universalmente impunha e os métodos policiais com que vigiava os seus vários suspeitos de indisciplina ou dissidência. Mas vale a pena registar para memória futura que o PS procurou e, mais do que isso, aceitou depender de uma máquina que só dura hoje em Portugal e que é sem dúvida uma das piores aberrações do século XX. António Costa insistiu na “democratização” dos socialistas (ou seja, nas “primárias”) para remover Seguro e se instalar ele no cobiçado assento de secretário-geral. Infelizmente os resultados 4 de Outubro apagaram esses compromissos, que se julgavam sérios, para permitir uma aliança torpe e o levar depressa a primeiro-ministro, dignificando de caminho um método político, o “centralismo democrático”, que matou milhões.

 

Mas, tarde ou cedo, Costa pagará esse erro infame. Está agora suspenso das lutas da meia dúzia de potentados que mandam no PC. Nem ele pode por puro desconhecimento intervir nelas, nem se pudesse o deixariam intervir. Fica assim à mercê de um corpo estranho que ele próprio instalou na sua maioria, insensível a qualquer argumento que venha de fora ou a qualquer tipo de sedução. Não há em última análise um governo socialista. O que há são dois governos sob a estranha designação de “maioria”: um do PS, sem força própria para se sustentar, e outro do PC, que estará quieto e cooperante, enquanto lhe derem o que ele pedir (conste ou não conste o que ele pedir das ridículas “posições conjuntas” que por formalidade assinou). Costa e a sua gente vão aprender muito nos próximos meses.

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2006
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2005
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2004
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D