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A bem da Nação

O CAOS E O TOHUWABOHU

ACDJ-caos.jpg

 

 Do Reino da Desordem sem Forma nem Espírito para o Ser integral

 

Caos ocupa um lugar importante na teogonia e na cosmogonia grega e nas tradições de outras culturas. Nelas, é manifesta a tendência para, através da força da razão/inteligência, se encontrar um fio ordenador e condutor da vida e do universo e uma explicação para ele na Terra que deixou de ser organismo vivo para se tornar em palco das lutas das forças das trevas contra as forças da luz.

 

Na mitologia grega, Caos (fenda, ou força da confusão) é o contrário do Eros (a força ordenadora); Caos é o contrário do mundo, do cosmos, é o estado primordial antes do cosmos. O mundo pressupõe uma ordem, uma estrutura organizada e uma força ordenadora ou um ordenador. Os princípios do caos e da ordem expressam-se como antagónicos no conceito polar da dialéctica grega dos opostos.

 

Nalgumas tradições, do caos, no início do início onde reina a desordem, a treva espiritual, a falta de harmonia, origina-se a Terra.

 

No hebraico aparece a palavra „Tohuwabohu“ (grande confusão) para designar a grosseria (o sem forma) e o vazio (vazio espiritual) primordial, como se encontra descrito no Génesis 1-2; aqui, Deus, no primeiro momento da criação, criou os Céus e a Terra e a Terra é qualificada com os atributos: deserta (sem forma) e vazia (sem espírito). Num processo de desenvolvimento, no estado primordial, o primeiro momento era o caótico; o Criador deu-lhe forma criando luz através da separação. [O filho da aurora (Lúcifer) caiu no sheol devido à soberba; ele é o princípio das trevas e ao mesmo tempo filho da liberdade, criado por Deus.]

 

À treva espiritual do início segue-se a criação da luz natural visível e, finalmente, no sexto dia da criação, a luz espiritual será colocada em Adão. A luz natural conduz finalmente ao acordar de Adão para a luz da razão (apelo de Eva) que o conduz à luz espiritual.

 

Há também uma magia do caos que se baseia na arbitrariedade.

 

Nestes tempos conturbados por que se passa, chega a ter-se a impressão que nos encontrarmos numa fase histórica em que as forças caóticas perpassam os vários sistemas ordenados.

 

Não chega a luz natural visível nem a luz da razão para chegarmos à plenitude da criação (à natureza crística); na perspectiva bíblica, para se chegar à felicidade da realização, é necessária também a luz espiritual, a energia do Espírito. A evolução da natureza (cosmos) e das espécies (do Alfa para o Ómega) culminará no Homem espiritual e no dizer de Teilhard de Chardin no “Cristo cósmico”. Ao Homem cumpre um papel especial e de responsabilidade no desenvolvimento da humanidade e da ecologia de forma responsável. Como imagem de Deus, somos chamados, como Deus a distinguir e separar as trevas da luz, a prolongar com Ele e n’Ele a criação. No Apocalipse 3:20 é clara a mensagem: "Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, eu entrarei em sua casa, cearei com ele e ele comigo"

António Justo.jpg

António da Cunha Duarte Justo

                   Teólogo

MUITAS E DESVAIRADAS GENTES – 9

 

No princípio era o Verbo...

 

Sim, tudo começou por não existir e assim foi que também o Budismo começou por ser apenas uma filosofia e hoje é uma das mais importantes religiões neste mundo dos homens.

 

O Senhor Buda sempre afirmou ser um homem totalmente terreno, não divino. Como Cristo, nada escreveu: pensou por si próprio e ensinou os contemporâneos deixando aos discípulos a missão de escreverem os seus ensinamentos. E são estes ensinamentos que constituem a base do budismo como filosofia e que mais tarde se transformou em religião.

 

Dambulla, Sri Lanka.jpg

 Santuário de Dambulla

 

O que distingue a filosofia budista da religião budista são a característica terrena da filosofia e o carácter divinal da religião. Assim, pode-se ser filosoficamente budista sem se ter a fé budista mas não se pode ser crente budista sem se abraçar a filosofia budista. Mas é claro que, na prática, há muita fé que existe por si própria sem a específica base filosófica. Lá, como em toda a parte, como em todas as religiões.

 

Não será aqui que abordarei o Budismo e a sua exegese mas posso sugerir que os interessados consultem, por exemplo, https://pt.wikipedia.org/wiki/Budismo

 

Um dos ensinamentos budistas que mais prezo é o da práctica da compaixão, o mesmo comportamento a que os cristãos chamam amor: a preocupação com o próximo, o desapego do egocentrismo.

 

Como assim?

 

Muito bem, passo a explicar contando uma pequena história que em tempos li sobre um monge seguidor do Dalai Lama: perguntado sobre o que é a compaixão budista, o monge pediu a quem o escutava que imaginasse entrar numa sala e ver uma flor num vaso.

 

- Todos pensaremos em primeiro lugar se gostamos ou não daquela flor, se ela é bonita, enfim, se de algum modo nos satisfaz. Ou seja, todos teremos raciocínios ego centristas, egoístas, no limite. Todo o nosso raciocínio habitualmente se desenvolve em torno de nós próprios, dos nossos parâmetros e interesses. Mas se ao vermos a flor naquele vaso pensarmos que ela estaria muito melhor se pudesse apanhar directamente a luz do Sol e o ar fresco, se pudesse estar entre as outras da sua espécie... Então nós abdicávamos do nosso egoísmo, do egocentrismo e focávamos o nosso raciocínio no interesse da flor. Ou seja, interessávamo-nos pelo outro e não mais apenas por nós. Esta motivação pelo bem alheio é a compaixão budista.

 

Este, pois, um código de conduta totalmente terreno. Mas ao longo dos séculos as multidões divinizaram Buda a quem reconhecem muitos milagres e grande intercepção com o Ser Supremo a que nós, nas outras religiões, chamamos Deus ou Alá.

 

Portanto, com pontos de pura bondade tão fundamentais em comum, muita razão teve o Arcebispo de Goa quando se insurgiu violentamente contra o Padre que há uns quantos séculos queria destruir o dente de Buda roubado do templo de Kangy não descansando enquanto não assegurou a devolução da relíquia à origem.

  

Polonnaruwa.jpg

 

Impressionou-me o fervor que vi nos crentes a rezarem num ofício religioso a que me deixaram assistir próximo de Polonnaruwa e se eu tinha a mania de que o Budismo era apenas uma filosofia, aqui fiquei sem quaisquer dúvidas de que é mesmo uma religião. E muito importante!

 

Foi à porta desse templo que pela primeira vez um homem me ofereceu uma flor. Era para eu depositar na base da estátua de Buda dentro do templo, o que fiz. Será uma das que se vêem na foto sobre a mesa do altar. À saída, o fulano esperava-me para eu lhe dar uma moeda, o que também fiz.

 

Felizes os que têm fé.

 

Lisboa, 7 de Dezembro de 2015

 

Henrique no Jardim Botânico Peradeniya, Sri Lanka

 Henrique Salles da Fonseca

(Jardim Botânico de Peradeniya, Sri Lanka, NOV15)

LA ROYAUTÉ DES BORGNES

 

BB-VERGONHA ZERO.jpg

 

João Miguel Tavares generaliza ao país inteiro a característica de sonsice, no seu artigo do Público “No país dos sonsos”. Creio que ela tem a ver com o nosso complexo ancestral de inferioridade. Existe o de Édipo, existe o de Electra, mas esses são demasiado eruditos, têm mais a ver com as fases de desenvolvimento das crianças e o seu apego sentimental ao progenitor do sexo oposto, que os gregos enfatizaram nas suas tragédias e o Freud decifrou na sua psicanálise.

 

O nosso complexo é mais de ordem cultural, e usamos a sonsice como defesa. Costuma-se dizer que “Au royaume des aveugles, les borgnes sont rois”, e os sonsos são, talvez, os tais zarolhos que ocupam a realeza, como processo inteligente de contornar os seus complexos, ocultando, pela evasiva, pela insinceridade, pelo cinismo, pela esperteza saloia, em suma, um pensamento que não queremos admitir, embora saibamos que é correcto.

 

Para além da questão das afirmações laudatórias de Paulo Rangel sobre um maior equilíbrio da Justiça no governo de Passos Coelho, que João Miguel Tavares defende e Ricardo Costa ataca, o que justifica todo o artigo daquele, tomo como exemplo do genérico título “No país dos sonsos” o extraordinário caso da auto eleição do governo de esquerda, sem que um resquício de vergonha faça corar as faces dos salteadores da barca perdida, nem dos que aceitam isso, que somos todos nós, sem que peguemos em armas contra a vilania impune.

 

Berta Brás.jpgBerta Brás

 

No país dos sonsos

João Miguel Tavares.jpgJoão Miguel Tavares

Público, 03/09/2015

 

Paulo Rangel foi à Universidade de Verão do PSD proferir duas afirmações óbvias e uma provocação. Afirmação óbvia 1: “Não é obra deste Governo, não é mérito deste Governo, mas foi durante este Governo que pela primeira vez em Portugal houve um ataque sério, profundo e consistente à corrupção e à promiscuidade.” Afirmação óbvia 2: “O ar democrático em Portugal hoje é mais respirável e nós somos um país mais decente.” Provocação: “Alguém acredita que se os socialistas estivessem no poder haveria um primeiro-ministro sob investigação?”

 

Não há dúvidas de que a provocação é uma joelhada eleitoralista, até porque se trata de uma declaração impossível de aferir. Universos paralelos só nos filmes da Marvel, e ninguém consegue adivinhar o que aconteceria a Sócrates se o governo fosse outro. No entanto, estando tudo o resto correcto, fazem pouco sentido as reacções ultrajadas das associações de magistratura e de socialistas como Francisco Assis, mas sobretudo de vários jornalistas e comentadores, unidos contra o terrível perigo da “partidarização da justiça” — que seria, de facto, um terrível perigo… se ela não tivesse já sido vergonhosamente partidarizada.

 

É isso que me encanita. Compreendo muito mal que um jornalista tão estimável quanto Ricardo Costa afirme no Expresso que as declarações de Paulo Rangel (que, aliás, as explicou excelentemente no PÚBLICO de terça-feira) são “muito pouco inteligentes”, “erradas” e “perigosas”. E isto porquê? Porque “um político experiente tem a obrigação de saber que a questão, depois de se levantar, tem perna longa e faz ricochete”. Ou seja, Ricardo Costa aconselha Rangel a estar caladinho porque um dia a justiça ainda vai bater à porta do PSD. E aí somos obrigados a perguntar: e então? E se for? O que é que um jornalista tem a ver com isso? Acaso a função dos jornalistas é proteger as costas dos partidos do sistema? Não será que a sua primeira obrigação é lutar por uma sociedade mais justa e transparente? Aquilo que me interessa saber nas declarações de Paulo Rangel não é se são incómodas para o statu quo ou se podem vir a tramar o PSD. É se são verdadeiras.

 

Ora, se alguém está em boa posição para responder a essa questão é o próprio Ricardo Costa, director do Expresso e um dos mais influentes jornalistas portugueses — porque ele sofreu os anos socráticos na pele. É ou não verdade, caro Ricardo, que o ar em Portugal é hoje mais respirável do que nos tempos de José Sócrates? É ou não verdade que, por muitos defeitos que Pedro Passos Coelho tenha, ao menos ele não andou a enfiar o nariz nas redacções e a berrar com jornalistas? É ou não verdade que a relação com a comunicação social nada tem a ver com a época 2005-2011? É ou não verdade, para citar o actual primeiro-ministro, que “há hoje uma percepção de que a justiça funciona melhor”?

 

Que os juízes não o possam admitir, eu até percebo. Mas nós, jornalistas, deveríamos reconhecer o óbvio — o ar está mesmo mais respirável —, em vez de andarmos a brincar às equidistâncias, que servem apenas para pôr em prática a velha não-inscrição de José Gil: fingimos que os acontecimentos nunca aconteceram para continuarmos a disfarçar as nossas profundas falhas políticas, sociais e de cidadania. Em vez de assumirmos os erros, optamos pelo silêncio. E, no entanto, Paulo Rangel está cheio de razão: a partidarização da justiça existiu mesmo. E é uma pena, acrescento eu, se ela não vier a ser discutida na campanha eleitoral.

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