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A bem da Nação

A RATOEIRA

 

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A situação económica nacional parece uma armadilha montada para caçar o próximo Governo. Apesar disso, a atracção pelo poder é tal, que todos os partidos se atropelam para entrar na ratoeira. A insólita circunstância deve mais ao acaso do que ao planeamento, mas o resultado é iniludível.

 

Comecemos pelo queijo que atrai a vítima incauta. A situação conjuntural mostra-se promissora. A economia cresce há dois anos e o país saiu com sucesso do programa de estabilização há um; a balança externa é positiva e o défice orçamental aproxima-se dos requisitos europeus. Tudo aponta para uma época favorável, aproveitando os próximos governantes os sacrifícios impostos pelos anteriores.

 

O petisco, porém, é mero engodo, pois os sinais positivos são em grande medida aparentes. A realidade é muito diferente da imagem que a coligação PSD-CDS usou como bandeira nas últimas eleições, e que lhe deu a vitória. Há várias bombas retardadas que gerarão problemas graves nos próximos tempos, exigindo medidas duras.

 

O crescimento não é suficiente ou sequer sustentável. O desemprego continua altíssimo e perdeu a dinâmica de descida, enquanto o investimento se recusa a atingir um nível decente. No Orçamento, depois de tanto esforço, atingiu-se apenas o limite máximo do intervalo permitido. Pior, a indiscutível redução do défice foi conseguida sobretudo à custa de medidas contingentes e temporárias, com poucas reformas na máquina. Preferiram-se cortes em salários e pensões, que na campanha todos os candidatos se propuseram eliminar. Por isso a tão falada consolidação orçamental está ainda muito longe. Por sua vez, o lado privado da situação financeira não é mais favorável. As empresas continuam descapitalizadas, os bancos permanecem frágeis e a taxa de poupança das famílias encontra-se no mínimo histórico. A conjuntura só é boa se comparada com a anterior.

 

Dois elementos agravam o quadro periclitante. Primeiro, o cansaço da austeridade. O país, embora longe de ter suportado o ajustamento necessário, sente-se com o dever cumprido e merecedor de alívio. O segundo é a vontade explícita que todos os partidos manifestaram na campanha de lho conceder, prometendo tudo o que a ilusão exige.

 

Assim, qualquer Governo que resultar da negociação pós-eleitoral vai ficar mal, faça o que fizer. Se cumprir as promessas, verá a troika regressar em breve; se tiver juízo e proceder como a situação exige, é crucificado por engano aos eleitores. Esses não perdoarão o terrível choque quando a dureza da realidade for compreendida por um país mergulhado em ilusão. A surpresa será fatal para quem estiver no poder, que só então compreenderá ter caído numa armadilha.

 

A culpa da ratoeira é do anterior executivo, que mostrou incapacidade para realizar reformas verdadeiramente sólidas e duradouras. Mas a esquerda não se pode dizer inocente, pois sempre negou a emergência nacional e foi-se opondo violentamente até às tímidas medidas ensaiadas.

 

Se a Coligação PSD-CDS se mantiver no poder, haverá uma certa justiça poética, sofrendo ela as consequências da sua timidez reformista. Mas a situação mais irónica é a de um Governo do PS. Presidindo ao longo desequilíbrio que precipitou a crise e vendo-se forçado a pedir ajuda externa, esteve na oposição durante a execução da austeridade. Então fingiu hipocritamente opor-se às medidas indispensáveis. Agora, com a limpeza feita, quer regressar para beneficiar do equilíbrio arduamente conquistado. Não contava perder as eleições mas, emendando com a inesperada unidade à esquerda, mantém o plano de aproveitar o próximo surto de progresso.

 

Quando a expectativa se mostrar cruelmente falsa, o Governo anterior, agora na oposição, dirá credível mas hipocritamente que deixou o país em boas condições, pelo que a culpa dos sofrimentos, realmente inevitáveis, cabe toda à liderança de esquerda. A qual, por sua vez, carrega dois problemas adicionais. O primeiro é a falta de credibilidade junto de mercados e parceiros, seja pela sua aberrante composição ideológica seja pelas promessas ilusórias que insiste em apregoar. O segundo é que António Costa tem de enfrentar todas as dificuldades enquanto executa um número de verdadeiro malabarismo político. Precisa de, com as duas mãos, manter no ar, sem nunca se tocarem, pelo menos quatro bolas: PCP, BE, ala esquerda e ala direita do PS, os inimigos mais irredutíveis da política portuguesa.

 

Por ilusão do povo e cobiça política, estamos a entrar num período de surpresa e desilusão, até a troika voltar com maioria absoluta.

 

Outubro de 2015

 

João César das Neves.png João César das Neves

QUANDO AS AMIGAS CONVERSAM...

«QUEM FAZ UM FILHO FÁ-LO POR GOSTO»!?

 

 Já várias questões tínhamos tocado, toques ligeiros, não direi de puro afloramento, que, para borboletas, já se nos foi a graça por elas emprestada ao seu repasto floral, e nunca, ai de nós, poderíamos equiparar-nos à leveza dos passos da Leonor do Rodrigues Lobo, com poderes de autêntica magia revitalizadora das verduras, pesem embora os exageros retóricos da sua sensibilidade a tender para o barroco:

 

Francisco Rodrigues Lobo.jpg 

Francisco Rodrigues Lobo (Leiria, 1580 — Lisboa, 1622; estátua em Leiria)

 

As flores, por onde passa,

Se o pé lhe acerta de pôr,

Ficam de inveja sem cor,

E de vergonha com graça;

Qualquer pegada que faça

Faz florescer a verdura:

Vai formosa, e não segura.

 

Até para equiparação, porque somos todas dadas aos trabalhos caseiros – a nossa amiga menos – e eu própria jamais poderia aspirar a um prémio dos que sempre distinguiram as mulheres autênticas, no amor do lar – mas a minha irmã em tudo o que toca cria beleza e sabor, coisa que chega para nos abranger às três, daí que, se não poisamos quais borboletas ou pés mágicos de Leonor, não se nos daria de sermos equiparadas a abelhas operosas sugando néctar para a colmeia, que até é mais consistente e generoso do que o que a borboleta absorve em proveito próprio.

 

Afloráramos a política, esperançadas em Francisco Assis, ao que ouvíramos, decidido a intervir para favorecer a coligação da direita, que é como quem diz, o país, que a Catarina, para obter simpatias a favor da sua, da esquerda, vai repetindo monocordicamente, – direi mesmo, apatetadamente, o nosso ofício de obreiras não nos favorecendo a expressão oral – que vai repor ordenados descongelando-os etc., como primeiro passo dos seus acordos com Costa e o outro PC que ela derrotou, mariposa sortuda.

 

Outra questão que pus na mesa do nosso prândio foi a dos vencimentos dos locutores televisivos, segundo e-mail que recebi, que chegam aos 40.000 euros mensais do vencimento do Goucha, muitos acima dos 30 mil, mas todos eles superiores aos 10 mil, ordenados esplêndidos em programas cujos apresentadores têm de repetir exaustivamente a necessidade do toque telefónico de 6o cêntimos com IVA, para o prémio diário. Mais do que abelha, senti-me no papel de vespa avançando sobre os programadores televisivos que reduzem a sociedade portuguesa a ouvintes cretinos, e os coitados dos locutores a oradores de feira, simples vendedores de banha de cobra, para poderem auferir desses vencimentos obscenos, num país que a Catarina chama de gente com fome e por isso faz questão em repor o que foi tirado, sem explicar onde o vai buscar. Como é possível descer-se tanto de nível, sem qualquer respeito pela formação desse povo, na lorpice de tão cansativos apelos de 60 cêntimos e mais IVA?! E os programas até pretendem ser culturais, mostrando aspectos e empreendimentos das terras, mas sobretudo o esplendor das comidas, das coxas das donzelas dançarinas, e a profusão carinhosa dos beijinhos para as famílias.

 

Todas nos passámos um pouco com estas referências, mas a conversa desandou, (depois da sobre os migrantes com cenas de arrepelar os cabelos), para os telemóveis, um instrumento que, segundo a nossa amiga, até já serve para pagar as contas, sem necessidade de cartão Multibanco, o que me deixou de boca aberta, momentaneamente livre de libações.

 

E fez um gesto com as mãos, gesto de quem folheia a caixinha mágica, a marcar o número:

-No futuro, será assim: Quer um filho? Vai ao telemóvel e escolhe.

 

O Ari e a Simone não passam de uns anjinhos, Santíssimo Sacramento! Como diria a minha mãe…

 

Berta Brás 2.jpg Berta Brás

INIMIGOS E ADVERSÁRIOS

 

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Uma das qualidades essenciais em política sob uma democracia é conhecer a diferença entre um inimigo e um adversário.

 

Um adversário quer derrotar-te; um inimigo quer destruir-te.

 

Se tratares os teus opositores como inimigos, conduzirás a política como se fosse uma guerra e todos os meios são permitidos.

 

Se olhares para o teu oponente como um adversário, nem todos os meios são permitidos porque esperarás poder tornar um adversário de hoje num amigo ou aliado amanhã.

 

Michael Ignatieff.jpg Michael Ignatieff

Intelectual e político canadiano (1947 - …)

(citado por José Manuel Fernandes, Macroscópio, 2015.10.21)

 

“OPINIÃO PÚBLICA”

 

Entretive-me a ler alguns comentários ao artigo deste domingo, de Alberto Gonçalves – “A vacina” – de que respiguei dois – o de uma mulher e o do homem que lhe responde.

 

Um homem ousado, Alberto Gonçalves, que não se importa de arrostar com a babugem da linguagem fabricada na escola do extremismo nem sequer político, porque apenas ignaro e servil a forças baladeiras de uma oposição que não é apenas grotesca, dos idos de setenta, como ele descodifica com clareza no seu artigo - ao acusar as forças fraudulentas a que um Costa se arrima, na ânsia do poder, acusando todo um país que fecha os olhos comodamente, rebanho de sempre, atrás do repasto, embora seja fictício o repasto prometido.

 

Eis o comentário obtuso e mal-educado de uma mulher cuja mente e linguagem petrificaram, nessa retórica de aquisição sem esforço, porque pendente apenas dos ais próprios, equiparáveis aos urros castiços de qualquer bicho reivindicativo dos seus direitos fisiológicos:

 

Ainda não consegui perceber como é que ao cabo de 40 anos passados sobre o 25 de Abril ainda existem fascistas a escrever em colunas de jornais, perdão, pasquins de vão de escada. Isto só é possível enquanto o caduco silva, ex agente da pide estiver no poder. Vergonha de gente.

 

E a resposta de quem não aceita isso e acha que deve intervir. Inutilmente, sem dúvida:

 

Vergonha de comentário de gente que afina a sua pseudo democracia pela democracia leninista, segundo a qual todos os que não lerem pela sua cartilha marxista são "fascistas" e os jornais em que lhes é permitido escrever livremente não passam de "pasquins" e nem sei que mais! A sua vivência democrática, minha senhora, está muito, mas muito deficiente!.... Mas ainda está a tempo de aprender!

 

(É claro que discordo do vocativo, e do comentário final: Se nunca teve tempo, é visível que nunca o terá).

 

Berta Brás 2.jpg Berta Brás

 

O artigo merecedor do desforço comentarista supra:

 

A "vacina"

Alberto Gonçalves.jpg Alberto Gonçalves

Notícias, 1/11/15

 

Neste Outono sombrio, há quem alimente esperanças com a teoria da "vacina". Eis uma súmula: em primeiro lugar, Cavaco aceita contrariado um governo PS com a participação ou o "apoio" dos partidos comunistas. Depois, o governo defende os superiores interesses nacionais (leia-se serve a clientela e espatifa a economia), actua em benefício dos trabalhadores (i.é , saqueia os últimos cêntimos dos que trabalham e pagam impostos), favorece os direitos das pessoas (ou seja, persegue e cala dissidências) e consolida a democracia (por outras palavras, deixa-a em coma). No meio do pandemónio, lá para o Verão o governo cai, Portugal aprende que o marxismo é nocivo e a relevância eleitoral da esquerda, PS incluído, esvazia-se por décadas ou pela eternidade afora. Um consolo, não é? E também uma alucinação pegada.

 

Na tarde de 11 de Setembro de 2001, sofri um portentoso ataque de ingenuidade e, por momentos, presumi que os atentados nos EUA explicariam enfim ao mundo a legitimidade da resistência de Israel ao terrorismo. Voltei ao normal em dias ou horas, o tempo suficiente para que certo mundo desatasse a "compreender" as dores da "rua" islâmica, a reforçar a repulsa pelos EUA e a redobrar o anti-semitismo, perdão, o anti-sionismo. À semelhança da cegueira ideológica, a má-fé não aprende nada, excepto a evitar a realidade.

 

Excepto para os viciados em metanfetaminas que a bem do colesterol hesitam em ingerir uma morcela, o arrependimento não é para aqui chamado. Se o país não erradicou o comunismo após os arremedos revolucionários de Cunhal, Otelo e Vasco Gonçalves (por pudor, não falo do rastro de sangue e miséria que a conversão dos povos à felicidade espalhou - e espalha - pela Terra), a que propósito ficaria "vacinado" por causa de novo assalto ao poder, uma pequenina supressão das liberdades e a trivial bancarrota? O razoável PS faliu-nos em três ocasiões e nunca se viu remetido para a obscuridade que merecia. Depressa atribuída aos "mercados", à Sra. Merkel, a Passos Coelho e às conspirações do costume, uma quarta falência não fará grande diferença, e a diferença que fizer custará demasiado.

Além de enganadora nas expectativas, a "vacina" é desaconselhável nos efeitos: no fundo, sugere a resignação de todos os cidadãos que ainda não endoideceram, de Novembro em diante condenados a consentir uma burla e a contemplar um desastre. Embora banhada nas melhores intenções, a ideia da "vacina" acaba por tornar o desastre consolador e a burla tolerável, dois equívocos que pagaremos com juros.

 

Isto tudo para dizer que Cavaco Silva não deve ceder a chantagens e nomear o Sr. Costa. Pretextos "técnicos" não lhe faltam, desde a inexistência de um acordo de facto (na quinta-feira, o Sr. Jerónimo assumiu o carácter fictício do mesmo) às promessas implícitas e explícitas dos partidos comunistas em remover-nos do Ocidente rumo à balbúrdia exótica que estiver em voga. Mas a verdadeira razão prende-se com a Sagrada Constituição, cujo artigo 120.º informa que o Presidente da República garante "o regular funcionamento das instituições democráticas". A "frente popular" nem ganhou eleições nem é democrática. A "vacina" é a própria doença, está nos livros. E estaremos feitos.

 

Sexta-feira, 30 de Outubro

Pouco barulho

 

Vasco Lourenço, presidente de uma Associação 25 de Abril e homem de grande gabarito, quer "iniciativas" em prol da "liberdade" e da "justiça". Sobre a justiça, presumo que a censura dos media da Cofina (e o processo ao Sol) a propósito da divulgação de pormenores do "caso" Sócrates já é um bom princípio. No que respeita à liberdade, a urgência, conforme insinuam o próprio Sr. Lourenço e o inestimável Sr. Nogueira da CGTP, é sabotar qualquer manifestação em defesa do governo na data das moções de rejeição, imprudência que se discute nas "redes sociais" e que os sadios valores de "Abril" naturalmente não admitem. Sinais dos tempos?

 

Convém ainda notar que os "tempos" nem sequer começaram. Os processos de intimidação em curso são um mero aperitivo do que nos espera quando, e se, a frente golpista chegar a mandar nisto. Para começar, não será fácil usar a expressão "frente golpista" em público - em privado recomenda-se o sussurro. Mesmo enquanto autarca pequenito e candidato burlesco, o Sr. Costa já provou que convive optimamente com as opiniões alheias desde que coincidam com as dele. Erguido a PM, sobretudo um PM de escassa ou nula legitimidade, não custa antecipar até onde irá a proverbial tolerância da criatura.

 

Para cúmulo, há que somar ao carácter da criatura a vasta tradição democrática dos comunistas de tons sortidos que a patrocinarão na eventual, e festiva, aventura. Tanto o PCP como o BE são agremiações historicamente abertas ao debate, no sentido em que o Templo de Jim Jones era uma agremiação historicamente aberta ao debate. Todos foram coerentes na ausência à tomada de posse de um governo livremente discutido e escolhido nas urnas.

 

O engraçado, para não dizer trágico, é que andámos 40 anos a ouvir essa gente chamar impunemente "fascista" a tudo o que se movia e agora arriscamo-nos a não poder devolver-lhes o epíteto, enfim utilizado com propriedade.

REENCARNAÇÃO

 

 

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Filosofando

 

É difícil acreditar que o Espírito que baixa nos humanos (nem em todos...) o faça só para desaparecer com os restos, a carcaça, quando estes morrem.

 

Do mesmo modo parece pouco verosímil que o Espírito baixe nos humanos para com cada um deles ficar apenas um átimo de tempo em relação ao tempo eterno.

 

Há muito que corre na Tv, como ajuda à conscientização sobre o aquecimento global, o desprezo pelo ambiente, o constante despejar de lixo e químicos nos rios e mares, no dizimar das florestas, e outras barbáries, uma frase:

“A Natureza não precisa dos homens. Os homens é que precisam da Natureza.”

 

Se considerarmos que a Natureza é obra de Deus ou, porque não, Ele próprio, podemos usar a mesma expressão trocando a palavra Natureza pela palavra Deus.

 

O triste de tudo isto é vermos que o homem se julga superior à Natureza porque com o maior à vontade a vai destruindo, consciente, ganancioso, alguns se enchendo de dinheiro sujo, conspurcado, para no fim terminar comido pelas lagartas.

 

Uma seda chinesa, roubada do palácio do imperador da China durante a segunda Guerra do Ópio (1856-1860), representa um tubarão que devora um crocodilo que devora a serpente que devora a águia que devora a andorinha que devora a lagarta.

 

Toda a natureza se devora, raro no entanto entre indivíduos da mesma espécie, excepto entre aqueles a quem foi concedido o Espírito!

 

Todas as religiões acreditam numa outra vida, somente porque lhes custa a compreender que os homens tenham recebido um Espírito para se demorar tão pouco tempo nos seus corpos.

 

Os cristãos acreditam na ressurreição dos mortos, e que vão encontrar os seres queridos que partiram primeiro. Naturalmente não vão ressuscitar com os mesmos corpos que tiveram um dia, nem encontrar alguém! Os muçulmanos acham que no céu deles, tipo reserva especial cinco estrelas, vão-se deleitar com um monte de virgens, e que por lá ficarão eternamente... até se enjoarem uns dos outros!

 

Então o que significará a “Ressurreição” para os cristãos? Qual a compensação depois de morrer, deixando de lado a velha fórmula de “inferno, purgatório, limbo para os recém-nascidos e paraíso”?

 

O mesmo que para os muçulmanos, em que os “mártires” vão para SPAs cinco estrelas e os outros ficarão a rastejar-se andrajosos e esfaimados comendo os restos que caem das mesas dos Elíseos?

 

Sem ser espírita, nem nunca ter presenciado uma sessão de espiritismo, e ao fim de muitos anos a pensar no que será a vida post mortem, a resposta mais lógica que encontro é na reencarnação.

 

Cristão, a ressurreição, nada mais é do que a continuidade da presença do espírito nalgum corpo até que tendo atingido a perfeição, esse Espírito acabe se incorporando à “Legião dos Espíritos Eternos” na Paz total, que esta mesma não se consegue compreender o que seja.

 

O Buda, que anos passados da sua morte houve quem tenha querido deificar para que criando mestres-sacerdotes budistas estabelecer assim uma hierarquia, afirmava que a sua eterna busca, enquanto na terra, era compreender, encontrar, o que era a Verdade, e lamentava-se que ia morrer sem a ter encontrado e compreendido.

 

Estes mistérios que não foram, nem são, revelados aos homens, têm pelo menos a vantagem de poder proporcionar àqueles que gostam de pensar, e olhar para dentro de si próprios, a meditação que os leve a distinguir o Eu-Espírito do Eu-Ego, carne que não tarda a apodrecer.

 

O Além e o Aquém, formam uma unidade indivisível, enquanto o indivíduo permanece como ser vivente na Terra. Por muito que ele queira separar, para destruir tudo que se encontre ao seu redor, quer seja roubando, matando, insultando, desmoralizando a pedra base da sociedade, a família, o Espírito que lhe foi emprestado, sai maculado. E só se limpa se se tornar a incorporar noutro indivíduo.

 

Os hinduístas consideram que, sendo todos os seres viventes obra da Criação, e são, devem ter os mesmos privilégios dos humanos, e desta forma os respeitam, e assim mantém um equilíbrio entre o Eu e o Ego. Aí está uma forma de respeitar a Natureza... enquanto o dinheiro não lhes acenar com riqueza ou prestígio ou mais comodidades. Nesse momento, na generalidade, o equilíbrio desaparece.

 

A dificuldade em compreender, se possível, um pouco mais sobre o Além, está na permanente onda de “verdades” jogadas para cima dos homens por “mestres” de todas as religiões. E, como Buda, ninguém sabe o que é a Verdade.

 

Santo Agostinho não se atreveu a conhecer a Verdade, mas deixou dito: “A Verdade está em nós mesmos, e o pecado também!”

 

Menos teologal, Shakespeare, põe na boca de Júlio César: “A culpa, caro Brutus, não está nas estrelas, se somos seres inferiores, está dentro de nós mesmos.”

 

E o homem de bem, que procura alcançar a paz, ainda neste mundo, sofre terrivelmente uma permanente luta entre o Bem e Mal. Não adianta isolar-se, refugiar-se num mosteiro ou no alto duma montanha numa miserável ermida, e fazer penitência todo o tempo. Esse isolamento acaba sendo uma demonstração de egoísmo, à procura de se salvar somente a si. E os outros, todos, que precisam de ajuda, que têm que viver o combate, todo o dia, a toda a hora, podendo, por exemplo, dizer como Sócrates ao passar nas ruas dos comerciantes, “quanta coisa aqui de que não preciso”, sabendo que o mal sempre vem de fora.

 

“É no dar que se recebe.” Não se trata do dar e receber mercadorias ou dinheiro, limpo ou sujo. Fundamentalmente dar Amor. Dar-se. Curioso como os políticos que, em teoria, devia ser isso que era sua obrigação, dar-se, trabalhar pelo bem dos povos, a partir do momento que viram Suas Insolências, esquecem-se completamente do Outro, e só se lembram de aumentar o seu pecúlio!

 

Esses, segundo os hindus, devem reencarnar em algo execrável, além de, com certeza, na hora da morte ficarem apavorados por saberem que no Além não vão para o salão nobre!

 

Em chegando a hora, temem por saberem que enquanto neste mundo pouco ou nada deram, ou muito roubaram, e como é dando que se recebe, o máximo que vão receber é a “conta a pagar”.

 

A vida na Terra nada representa em termos de Tempo, mas o suficiente para cada um mostrar o quanto se interessou pelo Outro, quanto Amou.

 

Vai ser o “Poverello” que lhe irá perguntar:

- Onde viste ódio, levaste amor?

- Quando te ofenderam, perdoaste?

- Onde viste discórdia, procuraste a união?

- Quando encontraste a dúvida, animaste com a fé?

- Onde estavam os erros, mostraste a verdade?

- Aos desesperados, deste-lhes alguma esperança?

- Aos abandonados, velhos, tristes deste alguma alegria?

- E àqueles que viviam nas trevas, mostraste o caminho da luz?

- Procuraste ser mais consolado do que consolar os outros?

- Esforçaste-te para melhor compreender os outros do que te fazeres compreendido?

 

Por fim ouvirás: “Pois é, se não te deste, nada tens para receber; se não perdoaste, como queres que te perdoem agora? Não morreste para o teu Ego, como queres ganhar a vida eterna?”

 

E antes da tua alma abandonar o corpo, que vira pó, verás ou o sorriso do Santo ou duas lágrimas que descerão pela cara.

 

02/11/2015

FGA-2OUT15.jpg Francisco Gomes de Amorim

UMA VISITA A PORTUGAL POLÍTICO

 

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Um País a fingir que não sente a Paixão que o atormenta

– o eterno Adiamento -

 

 

Visitei Portugal e encontrei nele um país florido e aromático mas com tantos piolhos nos seus botões que escurecem sua alma e entristecem o espírito de quem o vê.

 

Quem vê de fora nota em Portugal um país de orelhas caídas, a caminhar como um burro obrigado a seguir um caminho determinado por outros; observa nele um povo dividido em vítimas e delinquentes, mas todo unido no sentimento comum da inocência.

 

Tem-se a impressão de uma nação em bulício que parece persistir em viver numa atmosfera de fim da tarde, num clima de declínio, onde não há democracia que lhe valha. Passamos do estado nação para o estado partidário em que os partidos se tornaram parte do problema e não da solução. Torna-se confrangedor como um povo inteiro é capaz de aguentar tanta intriga, tanta corrupção e tanto atrevimento/cinismo partidário apresentado como política para a nação.

 

Políticos e seus boys tomam conta de tudo; tomam conta do Estado, tomam conta das nossas conversas, do nosso tempo, dos nossos sentimentos, do nosso dinheiro e até do bem-estar da nossa alma. Para cúmulo da tristeza: tudo isto sempre a acontecer sem que alguém se dê conta para poder ter conta neles!

 

Aqueles, sempre ocupados num presente moribundo estão-se marimbando para o futuro, entregue à água que corre debaixo da ponte, empregam a maior parte do tempo a entreter o povo com banalidades ou rivalidades pessoais. Vivem do lusco-fusco, da ambiguidade alimentada pela negatividade odiosa, em coros de lamentações dos vários quadrantes políticos enquanto a verdade e a sinceridade passeiam nas ruas da amargura. Num Estado assim encontram-se, em estado de engorda, os oportunistas a viver do ajuste de contas no parlamento e na opinião pública.

 

Tudo anda a enganar, tudo finge não saber o que realmente sabe!

 

O Bloco (BE) sente-se incomodado com a Europa e não quer o Euro mas finge acordo com o PS e o PC.

 

O PC não quer a Europa, nem a NATO, nem o Euro mas finge, à primeira, querer coligação com o PS para depois deixar nas entrelinhas que isso seria burrice imperdoável.

 

O PS, para se safar e agradar à outra esquerda, finge esquecer a democracia, a UE e a NATO com que se comprometeu.

 

A coligação governamental PSD/CDS quer tudo: quer Portugal, quer a UE e quer a NATO fingindo que Portugal é independente.

 

O povo simples, esse coitado, para enganar a desilusão, quer tudo e não quer nada; para tal parece contentar-se com o conto de fadas do 25 de Abril sem se preocupar com a democracia e a corrupção nela instalada pelos históricos feitores da História de Abril.

 

Portugal encontra-se refém de um Estado parcial transformado em Cavalo de Troia. Dentro dele prevalece um sistema partidário com jacobinos e republicanos (maçónicos) além de outros sicranos e beltranos. Um regime político incapacitado por um mercado de partidos e instituições afins, a produzir bem-estar para si e para os irmãos. Num Portugal de Clubes, partidos e seitas, num povo de cérebro bem lavado por chefes sem honra nem vergonha mas peritos em disfarce, finge-se ser o que não se é.

 

Resultado: Um povo enganado, uma esquerda arrogante e uma direita complexada e um Portugal triste a adiar-se ao toque de finados.

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António da Cunha Duarte Justo

STATU QUO

 

O artigo de Vasco Pulido Valente lembrou-me o tão chocarreiro e extraordinário poema de Jacques Prévert, que gravo a seguir, como denúncia de um estado de espírito tão desesperado – e por isso desabando em torrentes de palavras, quantas delas por si criadas, como balas de impacto enorme, na ironia da sua visão negativista do mundo, em que a palavra não passa de artifício para mascarar sentimentos e atitudes, «ceux qui croient croire, ceux qui croa croa», puro bla bla bla em que desperdiçamos nós também as nossas convicções analíticas de uma situação caótica a redundar em catástrofe, no meio da passividade geral, “nous aussi nous bousculant, nous dépêchant”, «car il y avait un grand dîner de têtes et chacun s’était fait celle qu’il voulait», e era mais importante continuar como se nada fosse , mas sentenciando sempre.

 

Mas José Carlos Gonçalves Viana é dos que tentam remediar e o seu texto “Os meus três assuntos importantes”, publicado no “A Bem da Nação” apresenta argumentos que parecem sábios. Inscrevo-o com os outros dois, como forma de contrariar o “désarroi” em que vivemos, na curiosidade da análise e na esperança das reformas que propõe. O negativismo dos primeiros é mais delirante e insinuante ao revelar as facetas artísticas dos seus autores, no conceito sobre o Homem, mas o construtivismo, pelo menos, tenta reverter os maus caminhos por onde sempre andámos, apelando para uma nova sociedade:

 

Palavras para passar o tempo

Vasco Pulido Valente.png Vasco Pulido Valente

Público, 01/11/2015

 

A televisão, o Komentariado, a Internet e os jornais não fazem outra coisa senão discutir o sentido do voto de 4 de Outubro; um governo que aparentemente existe mas não governa; um governo que não existe mas vai governar; o que o Presidente parece ter querido dizer; o que o presidente de certeza não disse; o estado de espírito de António Costa; o que verdadeiramente pensa, ou não pensa, Jerónimo de Sousa; um “pacto” que haverá ou não haverá entre o PS, o Bloco e o PC; a exacta natureza e a “estabilidade” desse pacto; o que por aqui e por ali declaram os “notáveis” partidários; as tradições da democracia indígena; e a aflição da “classe média”. O mais curioso sobre esta polémica apaixonada e febril é que ninguém sabe, nem quer saber, rigorosamente nada sobre o que está a discutir.

Como se pode discutir sobre nada? Por um processo semelhante ao que os romanos usavam matando bois. Na falta de bois e só com galinhas congeladas, os peritos de agora examinam a “crispação” ou a “descrispação” das personagens políticas, e a frase ocasional que elas deixam escapar; as “manchetes” do Expresso (que são oraculares) e a magreza ou o cansaço dos santinhos da história. A culpa não é dos jornalistas, nem do Komentariado. A culpa é da etiqueta estabelecida para mudar de governo, que não passaria pela cabeça de Luís XIV, e do gosto pelo segredo das “figuras” do Estado e dos partidos, que medem a sua dignidade pelo pouco que revelam ao povo sobre os negócios em que se meteram e nos meteram. Não admira que enxames de portugueses desesperados repitam desesperadamente as mesmas coisas, como se o mundo acabasse agora.

Mas tristezas não pagam dívidas, como Bruxelas nos costuma advertir: e um pouco de ignorância anima a vida e permite a qualquer estúpido perorar sobre o que lhe apetecer. Não há dia em que não apareçam duas dúzias de iluminados, dispostos a revelar os mistérios da nossa vida. É gente que gosta de barulho e não gosta de ideias e que também merece a nossa consideração numa democracia moderna. Claro que o público fica tão confundido como estava, mas também os portugueses tiveram 50 anos de treino de ouvir e calar. A única diferença é que hoje ouvem e respondem e é como se não ouvissem, nem respondessem. O espectáculo, até sem luzes, sempre consola mais. E, no meio da confusão, a PIDE nem sequer lhes bate.

 

Jacques Prévert.png Jacques Prévert (in «Paroles»)

«Tentative de description d’un dîner de têtes à Paris-France» publié dans le recueil Paroles en 1946

BB-tentative de déscription.png

  https://www.youtube.com/watch?v=9FKR7z--EUg

 

Ceux qui pieusement

Ceux qui copieusement

Ceux qui tricolorent

Ceux qui inaugurent

Ceux qui croient

Ceux qui croient croire

Ceux qui croa-croa

Ceux qui ont des plumes

Ceux qui grignotent

Ceux qui andromaquent

Ceux qui dreadnoughtent

Ceux qui majusculent

Ceux qui chantent en mesure

Ceux qui brossent à reluire

Ceux qui ont du ventre

Ceux qui baissent les yeux

Ceux qui savent découper le poulet

Ceux qui sont chauves à l’intérieur de la tête

Ceux qui bénissent les meutes

Ceux qui font les honneurs du pied

Ceux qui debout les morts

Ceux qui baïonnette… ont

Ceux qui donnent des canons aux enfants

Ceux qui donnent des enfants aux canons

Ceux qui flottent et ne sombrent pas

Ceux qui ne prennent pas le Pirée pour un homme

Ceux que leurs ailes de géant empêchent de voler

Ceux qui plantent en rêve des tessons de bouteille sur la grande muraille de Chine

Ceux qui mettent un loup sur leur visage quand ils mangent du mouton

Ceux qui volent des œufs et n’osent pas les faire cuire

Ceux qui ont quatre mille huit cent dix mètres de Mont Blanc, trois cents de Tour Eiffel, vingt-cinq centimètres de poitrine et qui en sont fiers

Ceux qui mamellent de la France

Ceux qui courent, volent et nous vengent, tous ceux-là, et beaucoup d’autres entraient fièrement à l’Élysée en faisant craquer les graviers, tous ceux-là se bousculaient, se dépêchaient, car il y avait un grand dîner de têtes et chacun s’était fait celle qu’il voulait.

 

Lisboa, 31 de Outubro de 2015

Eng. J.C. Gonçalves Viana José Carlos Gonçalves Viana

OS MEUS TRÊS ASSUNTOS MAIS IMPORTANTES

http://abemdanacao.blogs.sapo.pt/os-meus-tres-assuntos-mais-importantes-1521298

 

Berta Brás.jpg Berta Brás

HERESIAS - XXVI

 

APM-Maná vindo do céu.jpg

 

A DÁDIVA como modo de governar - III

  • Há no modelo de mercado dois traços que o distinguem de todos os outros modelos de organização social (e, consequentemente, económica) que é possível, hoje, conceber:

 

  • Não funciona sem liquidez (vulgo “o dinheiro”, que é uma criação puramente social);

 

  • Assume explicitamente a informação limitada, a incerteza - e, em resultado disso, expõe todos os agentes económicos, sem excepção, ao risco.
    • Em última análise, no modelo de mercado, só os movimentos de liquidez (ou “movimentos de tesouraria”) interessam: por serem quantidades (expressas numa unidade monetária) que envolvem sempre dois ou mais agentes económicos. Podem assim ser observados tal qual (num primeiro momento) e reconciliados por quem quer que seja (a posteriori);
    • O risco, por sua vez, é a consequência inevitável de um encadeamento de circunstâncias incontornáveis:

 

  • Nenhum agente económico dispõe de informação completa: (i) sobre a realidade económica que o rodeia; (ii) sobre as intenções e expectativas dos agentes económicos com os quais se relaciona; (iii) sobre o estado da economia no futuro;

 

  • A informação limitada leva a agir permanentemente por tentativa e erro, sem alternativa - e a incerteza, na tentativa de ser superada, vai gerar incerteza, algures;

 

  • Do jogo entre intenções e restrições nominais não resulta, forçosamente, um volume de liquidez em circulação para o qual: (i) o desemprego estrutural (esfera real da economia) seja nulo; (ii) a inflação (esfera nominal da economia) não ponha em causa o equilíbrio externo (isto é, a restrição de liquidez do Banco Central); [Na teoria, um tal volume de liquidez diz-se “optimal”]

 

  • Choques exógenos, ocorrem de quando em vez - e são imprevisíveis, por definição. 
    • Na realidade, apenas a liquidez e o risco têm uma dimensão verdadeiramente “macro”, na exacta medida em que afectam todos - mesmo quem não seja agente económico. Tudo o resto que por aí se ouve e lê (consumo, investimento, PIB, etc.) são categorias estatísticas obtidas à luz deste ou daquele critério de observação, com uma pitada maior ou menor de subjectividade.
    • Acontece que o modelo de mercado puro não é completo. De facto:

 

  • Não tem como determinar o volume optimal de liquidez em circulação;
    • Não tem como reintegrar quem perca a qualidade de agente económico - ou seja, quem perca a capacidade para ser a contraparte pagadora em contratos monetários, por não possuir liquidez. 
      • Este último problema revela uma característica estrutural do modelo de mercado (e, em geral, de todos os modelos de base contratual): na ausência de medidas não-contratuais (as transferências sociais), gera economias que, na prática, tendem a excluir (marginalizar), ora este, ora aquele - e, por consequência, tendem a contrair-se, a encolher.
      • Dito de outro modo: o modelo de mercado, deixado a ele-próprio, é um sistema que, mesmo partindo de uma situação de equilíbrio (supondo que tal existe), tende a eliminar emprego e a diminuir o produto potencial. È a consequência directa da circularidade a que fiz referência na “Heresia” anterior: só quem é agente económico pode continuar a ser agente económico. Nele, a simetria entre “destruição” e “criação” não é um dado adquirido, longe disso.
      • O pensamento económico dominante (desde o séc. XIX, com Jevons, Walras, Pareto, Marshall e, mais recentemente, von Mises, Schumpeter, Hayeck, Samuelson, Friedman, Lucas e tantos outros) não esconde a preocupação de provar à saciedade que o modelo de mercado é “óptimo” no sentido que referi mais acima: deixado a ele próprio atingirá sempre um estado em que o desemprego estrutural é nulo e a inflação não afecta os equilíbrios “macro”.
      • Por vezes, esta corrente de pensamento vai mais longe, afirmando que o modelo de mercado é não só o único compatível com o Estado de Direito, mas também aquele, igualmente único, capaz de promover o bem estar generalizado (diz a teoria: o “óptimo paretiano”). São afirmações de natureza puramente ideológica que o simples facto de o modelo de mercado ser um sistema incompleto (insusceptível de permanecer em equilíbrio estável se deixado a ele-próprio) desmente liminarmente.
      • Não deixa de ser interessante notar que a solução para estes dois problemas tem sido procurada no modelo que, no plano teórico e ideológico, está nos antípodas do modelo de mercado - a saber: o “modelo do ditador iluminado” (“iluminado” por ser discípulo directo da filosofia das “Luzes”). E a propósito das transferências sociais não se afasta tanto assim do modelo senhorial (extorquir para dar e partilhar).
      • A característica principal do “modelo do ditador iluminado” é que assenta na hipótese da informação completa - e em tempo real ou, mesmo, ex ante - sobre a esfera real da economia. Designadamente, sobre o volume e composição do produto potencial e sobre as preferências dos “súbditos”.
      • “Súbditos” porque, no “modelo do ditador iluminado”

 

  • Não há lugar para outros mais agentes económicos, uma vez que é o “ditador iluminado”, e só ele, que decide o que produzir, como distribuir e qual a orientação a dar ao excedente;

 

  • Só o “ditador iluminado” é agente económico (e, consequentemente, fonte de inovação);

 

  • O “ditador iluminado” é a contraparte única (e esclarecida) de todos os contratos;

 

  • As preferências individuais têm permanecer tal como o “ditador iluminado” as percebeu - pois, se variarem inesperadamente, põem em causa a hipótese da informação completa.
    • A determinação do volume da liquidez em circulação tem sido confiada ao Banco Central - como se este dispusesse de informação completa: (i) sobre o estado da economia; (ii) sobre as intenções (e as expectativas) dos agentes económicos; (iii) sobre os efeitos que cada medida de política monetária terá na esfera real e na esfera nominal da economia.
    • Não dispõe - e, por isso, opera por tentativa e erro, instrumentalizando o sinal e a amplitude das variações do volume de liquidez. As estratégias de política monetária são estratégias incrementais (de variações e ajustamentos) - e, consequentemente, são, também elas, causa de incerteza.
    • São os Governos que se têm encarregue de resolver o outro problema. E, em todo o lado, a solução tem sido encontrada nas transferências sociais - como se os Governos, também eles, tivessem informação completa sobre o que seja necessário para aceder ao modelo de mercado, ou para nele ser reintegrado como agente económico. Tentativa e erro, uma vez mais - logo, mais incerteza.
    • No modelo de mercado desenham-se nitidamente quatro tipos de actividades relacionadas com a imperiosa necessidade de reproduzir a restrição nominal que todos os agentes económicos experimentam. Actividades bastante padronizadas e facilmente identificáveis:

 

  • Intermediação comercial (contratual): “comprar para revender”;

 

  • Intermediação financeira (contratual): “pedir emprestado para emprestar”;

 

  • Intermediação monetária (contratual): “criar passivos com funções monetárias” [A teoria ignora esta forma de intermediação, apesar de ser o factor distintivo dos Bancos Comerciais como Veículos de Investimento];

 

  • Intermediação fiscal (não-contratual): “tributar para financiar gastos públicos”.
    • Em geral, a intermediação: (i) tem por efeito apropriar e redistribuir rendimento nominal; (ii) não está ao alcance de todos os agentes económicos, por igual; (iii) abrange realidades que pouco têm em comum. O que caracteriza o exercício da intermediação é o facto de envolver sempre o património (Balanço, Contas Nacionais) do agente económico que a exerce - expondo-o, assim, ao risco.
    • Aliás, as três primeiras modalidades de intermediação, todas de origem contratual, permitem desdobrar os contratos monetários em dois grandes grupos:

 

  • Os contratos monetários não-financeiros - associados à intermediação comercial; 
    • Os contratos financeiros - na origem da intermediação financeira e da intermediação monetária.

 

  • Mas as diversas modalidades de intermediação não esgotam as relações económicas que podem ter lugar numa economia de mercado. Por exemplo: (i) o consumidor, enquanto tal, não exerce qualquer forma de intermediação; (ii) a empresa que comercializa, apenas, a produção própria, também não; (iii) tal como as entidades que se dediquem a prestar exclusivamente serviços de qualquer natureza.

 

  • E onde fica a dádiva, no meio de tudo isto? Pode ficar na caridade cristã (e na zakat islâmica), se for remetida para o foro privado. Ou pode ser acrescentada às funções do Estado - e, então, terá de recorrer à intermediação fiscal. Os efeitos na economia de uma e de outra via estão longe de ser equivalentes.

(continua)

Novembro de 2015

António Palhinha Machado A. Palhinha Machado

 

 

PASSAR A PASTA, NA CONFERÊNCIA

 

Cada cidadão é um actor político, diz Vasco Pulido Valente que disse o filósofo Jürgen Habermas, e que Varoufakis reproduziu por cá, em conferência a respeito da transformação da Europa numa democracia radical. Isto é que são termos sonoros, tais como os de rasgar compromissos, ou da falência portuguesa idêntica à grega, no que eu acredito porque nunca tivemos magnatas como Onassis que sempre trouxe prestígio e um poder de grande calibre à Grécia, embora, é certo, tudo acabe em poeira, a qual se iniciou já depois do Big Bang, nas nebulosas interestelares, de gases e poeiras (e estrelas), há milhares de milhões de anos de nós, que não lhes somos inferiores e por aqui andamos neste giro universal, de poeirada à mistura, pese embora outros sentidos que se lhes possam atribuir como se escreveu na Bíblia, com o seu pulvis es, ainda na ignorância do Big Bang.

 Varoufakis.jpg

E agora, para sermos diferentes, segundo nos conta Varoufakis, que não quer ser sozinho a arcar com a tal vileza de usufruir do alheio e não pagar, e porque o mandaram embora do seu governo, onde se fartou de largar “boutades” bastante desonestas, de que naturalmente a Europa discordou, vem cá, a um país que não admira, para passear a sua pose e a sua desonestidade para quem o quiser ouvir, difundir a sua tese da democracia radical, de exploração do suor de quem trabalha, que é quem empresta. Temos por cá muitos como ele. Poseurs, digo. Ou Varoufakis de um glu-glu tão ridículo como esses a quem vem largar os seus saberes. A ver se pega, que somos mansos no perceber, mas bravos num agir que aparente favorecer-nos.

 

De resto, Vasco Pulido Valente tem a razão toda a respeito das misérias a que vamos assistindo por cá, nesses partidos que tanto grugulejam, em infinito despudor, rãs nada entendendo, mas aspirando ao tamanho do boi.

 

Leiamo-lo:

 

E depois do recreio?

Vasco Pulido Valente.png Vasco Pulido Valente

Público, 25/10/2015

 

Depois de terem espremido tudo o que puderem de António Costa, ou seja, do Estado, ou seja, do contribuinte, onde ficarão o Bloco e o PC? Deixaram pelo caminho as causas e os símbolos que os distinguiam (a hostilidade à NATO e à Europa) a troco de alguns ridículos remendos na interminável miséria do país. Fizeram grandes discursos para desabafar. Insultaram o Presidente e a direita. Espalharam um bom saco de calúnias. E o resultado? O resultado não foi nenhuma espécie de libertação e eles, como os portugueses, continuarão presos ao mecanismo que tanto odeiam. A “esquerda” acabará por pagar este recreio que o dr. Costa inventou. Saíram das suas cavernas, respiraram fundo e conseguiram mesmo uma vaga impressão de poder, que de certeza os regalou muito.

 

Mas, fora isso, não chegaram a parte alguma e, entretanto, produziram um desastre, que imediatamente lhes baterá à porta. Não admira que não ligassem nenhuma a Yanis Varoufakis que por cá apareceu a pretexto de uma conferência. Mais sóbrio e sorridente, Varoufakis disse três coisas que, na sua actual excitação, a “esquerda” não queria ouvir. Primeira: que Portugal estava tão falido como a Grécia e que não se podia salvar com um pequeno conserto. Segunda: que é preciso uma “conversa” séria para eliminar esta “crise” e “acabar a austeridade”. E terceira: que Portugal deve rasgar os “compromissos” que não é capaz de cumprir. Para Varoufakis, o problema, no fundo, só se resolve com uma revolução europeia, mais precisamente com a “democratização” da Europa.

 

A ideia não é boa, mas não é tão má como a “interpretação inteligente” dos tratados, congeminada por António Costa (o Bloco e o PCP, que se saiba, não pensam). Varoufakis copia nesta matéria um dos gurus da “esquerda” o filósofo Jürgen Habermas. Habermas também acha que a sobrevivência da Europa está numa democracia radical, que transforme cada cidadão num actor político, desde a rua ou aldeia em que vive até aos soleníssimos píncaros do Estado. A privacidade sempre se dissolveu (e o terror prosperou) nessas fantasias, mas não me parece que o filósofo se importe muito. O que lhe falta, e é pena, é um povo europeu para “democratizar”; uma cidadania devota que sustente um “patriotismo constitucional”, como ele julga que sucede na América. De qualquer maneira, Varoufakis e Habermas fazem algum sentido. O Bloco e o PCP não fazem nenhum.

 

Berta Brás.jpg Berta Brás

 

 

AÍNDA A BARCA BELA

 

Casa do Gaiato, Maputo.png

 

 

Como já tive ocasião de escrever, em 2001 estive seis meses em Moçambique, na Casa do Gaiato, como voluntário. Pediram-me para dar aulas de português à 9ª e 10ª séries. Um desastre!

 

Quando estava para vir embora fiz uns livrinhos (A6) com as principais barbaridades que fui verificando e que entreguei a todos os alunos. Claro que riram muito, mas deviam ter chorado!

 

O texto da Dra. Berta, de Garrett, trouxe-me à memória algumas das “pérolas” mais “tristes e de gargalhada”.

 

Não pus isto no meu blog para não ofender os moçambicanos, mas se alguém quiser pôr... pode fazê-lo!

 

[NOTA: Creio que não ofende os moçambicanos pois isto também poderia ter-se passado em Portugal ou em qualquer outro país lusófono. Assumo a publicação.

Henrique Salles da Fonseca]

 

***

 

 

Exercício da 9a série:

BARCA BELA

Pescador da barca bela onde vais pescar com ela que

É tão bela, ó pescador?

Não vês que a última estrela no céu nublado se vela?

Colhe a vela, ó pescador!

Deita o lanço com cautela que a sereia canta bela...

Mas cautela, ó pescador!

Não se enrede a rede nela, que perdido é remo e vela,

Só de vê-la, ó pescador!

Pescador da barca bela, ainda é tempo, foge dela,

Foge dela, ó pescador!

 

Lê bem o texto e responde:

 

1.Como classificas este texto?

- Nem uma resposta

  1. Em quantas orações se divide cada uma das quadras?

- Nenhum soube

  1. Indica o sujeito e o predicado de cada uma delas.
  2. a) Tem algum predicado composto? Justifica a resposta.
  3. Quantas preposições tem o texto? Indica quais são.

- Entre 2 a 15! Assim, é, só, tem, o, se, tão bela, último ,é tempo

  1. Como classificas gramaticalmente:

a expressão "ó pescador!

- Substantivo, adjectivo, exclamação que significa sentimento de piedade, nome, sujeito subentendido, vocação exclamativa, palavra exclamativa, predicado composto, sujeito do clamamento como admiração (este é uma delicia!) predicado composto,...

"...da barca bela..."

- Da barca bela é o nome de um lugar, complemento de modo, substantivo, verbo no grau comparativo de inferioridade gramaticalmente, substantivo comum, predicado, admiração, gramaticalmente posso dizer que é um tipo de barco à vela...

  1. Com quem vai o pescador pescar?

- Quase todos disseram que ia com a barca! Mas...um disse que vai pescar com rede, outro com a (as nivens cheias) sereia,...

  1. Que perigo pode acontecer para se aconselhar cautela ao pescador?

.- Pode ser comido pela sereia, o perigo é devido ao nublado, perder o remo e vela, porque o céu está nublado, porque a seria pode o devorar, pode afundar, o perigo é pescar a sereia, o perigo que poderá acontecer é o seguinte a sereia podia atrair o pescador com o canto e ele podia perder a hora no mar, pode acotecer (sic) que se o pescador não ficar cautela a sereia pode cortar o azól (sic) e também pode acontecer que caia chuva porque na última estrela no céu nublado se vela e o pescador pode não pescar bem (olha só a canseira da frase)

  1. Porque o pescador deve fugir, e de quem?

- O pescador deve fugir porque (a sereia) ouvia uma voz de que canta bela a barca bela, da sereia que deve fugir porque já ao entardecer é hora das sereias saírem, fugir da rede nela perdido, por ter uma sereia, porque o tempo estava mau da barca bela, a sereia o pode devorar, porque se aproximava o mau tempo, porque perdeu'o remo e a vela devia fugir porque ainda é tempo,...

  1. "...que perdido é remo e vela, só de vê-la...".

Porque está algo perdido?

.- Está algo perdido porque a sereia vai cortar o azóil que o pescador vai deitar na água, porque o pescador pega na rede em vez de pegar no remo e vela, porque perdeu o remo e vela, porque a barca era bela e não , podia pescar com ela, porque a sereia criou o naufrágio da vela, o pescador não deitou o lanço com cautela, porque não podia mais recoperar (sic) o remo a sereia e o lanço, e até... porque estava em perigo.

"Resumo" dum poema de Camões: "Aquela cativa, que me tem cativo, porque nela vivo, já não quer que viva...

"O altor tinha cativo da quela cativa, mas não quer que viva, já não é famosa como no teu tempo com flores, estrelas que lhe parecia belas como os amores, olhos sossegados, pretos e cansados. Uma graça para ser senhora pretos cabelos onde perdem opinião, que são belos." (sic).

Outro, sobre um barco salva vidas: "veio um homem chamado salva vidas puseram ele num guindaste no mar e depois entraram no salva vidas meia dúzia de homens que equivale a 6 homens".

Redação sobre a história do café

- o rebanho para matar fome a cede divorou altivamente aque...

- qual não foi o inspanto quando viu os animais a darem capalhota...

- o pastor a sombrava apanhar um ponhão e foi contar a um velho magro (mago) o que aconteceu...

- o magro ferveu os bodos (bagos) e arvores e obteu... um alegre sessação. Olharam antam que Alá os quezer a conpussão (compensar)

Apreciação dum pequeno texto, do Eça: "Aos sonhos de cada espectativa a palavra deforma por achar."

Texto do Eça: o exercício diz que ele (Eça!) na sua literariedade usa palavras incomuns. O exercício é escrever essas palavras e ir ao dicionário ver o seu significado. Só dois ou três escreveram. Mas como os exercícios estavam errados decidi corrigir e comentar o trabalho na aula. Quem sabe o significado de bocejar? --- E tenro? --- E aluísse? --- E flácidas? ---- E torneira lassa? - - - - - Não entenderam, mas não se preocuparam em procurar o significado das palavras!

Redação sobre um texto cujo título era "Ao Leme", uma história de pescadores que foram ao mar, apanharam um temporal, o barco bateu nas rochas e perdeu-se tudo.

- Ao Lume" ... como estava muito frio os pescadores juntaram-se ao lume...

- Tragendia no mar. ...o mar começou a ficar com muita raivoso e... estavam longe da magem.

- ... redes vinham cheiasima atrás da outra. ... atrás da outra, ... o mar podia afogar-lhe

Estância dos Lusíadas: As armas e os Barões... Qual é o predicado! Respostas: desde os barões ao assinalados tudo quanto puderem imaginar, menos... o predicado. Qual é o sujeito da segunda parte? Um deles: o sujeito são os portugueses (cuja palavra nem vem nessa estância!), e eu, já de saco cheio: Os portugueses são a SUA avó. (Fartaram-se de rir)

 

FGA-2OUT15.jpg Francisco Gomes de Amorim

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