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A bem da Nação

UMA QUESTÃO DE ESTILO

 

 

Voltaire.jpg

 Voltaire

(François Marie Arouet, mais conhecido como Voltaire, notabilizou-se pela sua perspicácia e espirituosidade na defesa das liberdades civis, inclusivamente nas liberdades religiosa e de comércio. Nasceu a 21 de Novembro de 1694, em Paris e faleceu na mesma cidade em 30 de Maio de 1778)
 

 

Filósofo é aquele que inventa conceitos, não propriamente aquele que é licenciado em filosofia. Este, apenas tem uma profissão relacionada com a filosofia. Ser-se profissional da filosofia é ser citador de filosofias alheias; só por acaso um profissional de filosofia é filósofo por inventar conceitos dignos de nota. Alguns grandes filósofos tinham formações básicas que nada tinham a ver com filosofia. Lembro-me de Pascal, Descartes e Hobbes que eram matemáticos, de Karl Popper que era físico, de Averróis que era médico, etc.

 

Os filósofos têm estilo; os repetidores de filosofias alheias podem não o ter. O estilo do filósofo pode passar despercebido ou ser ignorado mas existe e esse apagamento acontece porque se imagina que o raciocínio de rigor obriga à renúncia da adjectivação ou do floreado estando-lhe vedada qualquer aproximação à beleza.

 

Mas, pelo contrário, como inventores de conceitos, os filósofos também são sedutores, manipuladores, provocadores, contadores de histórias e até «marketeers» pois há os que sintetizam em fórmulas simples as suas grandes ideias. Lembro-me do «conhece-te a ti mesmo», de «o inferno são os outros», de «resguarda-te do meu Sol», de «penso, logo existo», de «o homem é o lobo do homem»... e há tantas outras expressões resumindo grandes tiradas filosóficas que são verdadeiras campanhas de marketing da ideia e, até, do seu autor.

 

E, tanto para agradar ao receptivo como para convencer o céptico, há que recorrer à pedagogia, há que seduzir, que contar histórias, que provocar, manipular talvez e, por que não?, recorrer à parábola e ao belo. O maçador não sairá da Academia e terá que ser «traduzido» por quem tenha tido paciência para o ouvir (eventualmente algum desses tais licenciados em filosofia) e, então e só então, chegar à sociedade das pessoas comuns, as tais para quem a filosofia e seus conceitos podem ser de utilidade prática se os conhecerem. Mas para que a filosofia seja útil, há que ser tragável, bem apresentada e até bela.

 

Mas se beleza e estilo não são sinónimos absolutos, não poderemos deixar de admitir que um estilo rude ou desarmónico será uma opção negativa tanto na perspectiva do marketing, como na da pedagogia ou, por maioria de razão, na do conceito tanto puro como prático.

 

Então, por muito rigorosos que os filósofos sejam, não poderão fugir à imperiosidade da captação da atenção de quem se predisponha a ouvi-los e isso não se consegue com prédicas maçudas ou monótonas. A objectividade não é sinónima de neutralidade e não há razão para que seja incompatível com a elegância, com a bonomia, com a metáfora. E é no meio de todas essas hipóteses de compatibilidade que o filósofo constrói o seu estilo.

 

Mas tem que o ter sob pena de lhe ser reconhecido um fascínio equiparável ao de uma lista telefónica. Valha-lhes, a maçadores como Hegel ou Kant, serem traduzidos por profissionais da filosofia.

 

Lisboa, Setembro de 2015

 

HSF-Mékong.jpg Henrique Salles da Fonseca

 

BIBLIOGRAFIA:

- LES 100 CITATIONS DE LA PHILOSOPHIE, Laurence Devillairs, PUF, 1ª edição, Janeiro de 2015

NUNCA É BONITO O RETRATO

 

Esclarecedor, o texto anterior de António da Cunha Duarte Justo sobre o dilema da bipolaridade na governação de Portugal.

 

Eça descrevia-o, em parte, situando-o nas classes literatas:

 

- Preocupação peninsular, filho, disse Afonso, sentando-se ao pé da mesa, com o seu chapéu desabado na mão. Desembaraça-te dela. É o que eu dizia noutro dia ao Craft, e ele concordava... O português nunca pode ser homem de ideias, por causa da paixão da forma. A sua mania é fazer belas frases, ver-lhes o brilho, sentir-lhes a música. Se for necessário falsear a ideia, deixá-la incompleta, exagerá-la, para a frase ganhar em beleza, o desgraçado não hesita... Vá-se pela água abaixo o pensamento, mas salve-se a bela frase.

 

- Questão de temperamento, disse Carlos. Há seres inferiores, para quem a sonoridade de um adjectivo é mais importante que a exactidão de um sistema... Eu sou desses monstros.

 

Carlos da Maia-Eça.jpg - Diabo! Então és um retórico...

 

- Quem o não é? E resta saber por fim se o estilo não é uma disciplina do pensamento. Em verso, o avô sabe, é muitas vezes a necessidade de uma rima que produz a originalidade de uma imagem... E quantas vezes o esforço para completar bem a cadência de uma frase, não poderá trazer desenvolvimentos novos e inesperados de uma ideia... Viva a bela frase! (Eça de Queirós, Os Maias, cap. IX).

 

Os tempos mudaram, outros motivos surgem. Ficando-nos pela amálgama das classes, julgo que o mal está na nossa idiossincrasia: avidez de posse, desinteresse em progredir, desresponsabilização, muito de choradinho, de invejazinha, de chulice, de tolice… « E do «sol que peca só quando em vez de criar, seca».

Berta Brás.jpg Berta Brás

O DILEMA DA BIPOLARIDADE NA GOVERNAÇÃO DE PORTUGAL

 

parlamento-Portugal.jpg

 

Construir um Portugal mais temperado e menos revoltado

 

O que une o centro-direita (governo) e o centro-esquerda (PS) são o compromisso com o liberalismo económico e o consequente seguimento do imperativo da desregulação ditada por Bruxelas. Direita e esquerda do arco do poder têm assim o seu centro comum vinculativo (intervenção da EU e do FMI – as obediências orçamentais comuns que não permitem diferenciação de políticas económicas); deste modo os partidos do arco do poder de Portugal abstêm-se praticamente do predicado esquerda ou direita, o que beneficia os outros partidos da esquerda e obriga o PS a grande ginástica na estratégia de chamar as atenções públicas para si e de ocupar o país com discussões tácticas sobre as diferentes personalidades e facções do PS; disto vive bem (permite-lhe também absorver desertores de esquerdas mais radicais mas com aspirações a participar concretamente no poder) ocupando a mente dos portugueses já de si perdida em debates não produtivos. O jornalismo também vê assim o seu trabalho simplificado porque para fazer notícia só precisa de andar atrás dos cabeças ou de algum que urine fora do penico.

 

Cria-se assim uma dinâmica de contínua necessidade de perfilagem dentro e fora do partido. Certamente por isso se movem tanto as ondas de emoções nacionais tendo-se a impressão (a quem viveu no estrangeiro) que Portugal se encontra em contínua campanha eleitoral sem grande tempo para dar suficiente atenção às questões fundamentais da economia e da cultura. Mesmo agora, que deveria ser tempo útil de discussão da negociação de programas para se encontrar compromissos para a governação dos próximos quatro anos, assiste-se, como de costume, à discussão sobre personalidades partidárias e não sobre temas discutíveis do programa.

 

O Norte europeu orienta-se por Programas e o Sul por Partidos

 

Os partidos da Alemanha, para defenderem o bem-estar do país, passam muito tempo na discussão e elaboração de programas de governo e na formação de coligações governamentais; isto porque cuidam pelo futuro do país em vez de dividirem a nação nos da manjedoura da direita ou da esquerda. Por isso os partidos alemães preferiram fazer uma grande coligação que preparou responsavelmente um programa de governo que precisou de 80 dias de conversações até chegar ao dia do compromisso; depois passou à governação abandonando a discussão. Na Suécia seis partidos conseguiram elaborar e comprometer-se num programa que é válido até 2022; isto independentemente dos governos que surjam.

 

Urge ultrapassar a mentalidade política bipolar de um Portugal desde sempre afirmada pelo sistema partidário a viver da polarização. Já é tempo de construir um Portugal mais temperado. A vida é curta, não olhes para trás senão tropeças nos que se te adiantam.

 

O problema dos partidos à esquerda do PS (e dos radicais do PS) é quererem continuar a levar uma vida de alto nível à custa do capitalismo liberal pautado pela Zona Euro e no seu interior regalar-se com a satisfação de ideias contraditórias puras e inocentes ou com postos públicos que lhes dão imunidade em relação às ideias que defendem mas não solucionam os problemas da pobreza. O Norte europeu rico orienta-se por programas de governo que o tornam rico e o Sul orienta-se por partidos que o mantêm no standby ou na pobreza.

 

O ser humano é um consumidor de histórias e o que o mais distrai são histórias, por isso há tantas que se tornam verdadeiras porque mal contadas…; uma delas: "Bem prega Frei Tomás, faz o que ele diz, não faças o que ele faz." Com isto fomos ensinados a aceitar e justificar a violência do poder. A teoria é bela, o problema só está na prática (Veja-se a saga das personalidades do 25 de Abril e seus discípulos – afirmaram-se contra o capitalismo e à custa dele enriqueceram mantendo a conversa de esquerda para inglês ver e a sapata do povo carente que tudo sustenta).

 

Uma política partidária responsável deveria constituir uma coligação, pelo menos, dos dois partidos mais votados. Com isso ganhariam, naturalmente, os partidos mais à esquerda mas Portugal ganharia mais ainda. Com uma grande coligação talvez se iniciasse em Portugal uma política e um discurso menos partidário, mais objectivo e mais no sentido de todo o povo português.

 

Tudo isto contribui para a maneira de ser do nosso país que Miguel Torga tão bem define:” Somos, socialmente, uma colectividade pacífica de revoltados” e que eu comentaria com as palavras: Somos um grupo de colectividades civis sem a consciência de povo, por isso sempre descontentes e revoltados.

 

António Justo.jpg

António da Cunha Duarte Justo

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