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A bem da Nação

LIDO COM INTERESSE – 66

 

 

PURITY-Franzen.jpg 

Título – PURITY

Jonathan Franzen.jpg

Autor – Jonathan Franzen

Tradutor – Francisco Agarez

Editora – D. QUIXOTE

Edição – 1ª, Setembro de 2015

 

São 680 páginas de texto que se lêem facilmente num triângulo com vértices saltitantes nos EUA, na Alemanha comunista e na Colômbia. Histórias plausíveis e por isso interessantes mas sem deixar de ser tudo um pouco amalucado. Reconheço, contudo, que se a história fosse muito sensata, o interesse do leitor acabaria prejudicado e tudo passaria por um «pão insonso» (com quase 700 páginas nunca se poderia confundir com um «pãozinho sem sal»).

 

A jovem Pip Tyler não sabe quem é. Sabe que o seu nome verdadeiro é Purity, que deve cento e trinta mil dólares do empréstimo que contraiu para concluir a Universidade, que vive numa casa que partilha com anarquistas e que a sua relação com a mãe – única família que conhece – é tempestuosa, apesar de se adorarem. Mas ignora totalmente a identidade do pai e da razão que levou a mãe a isolar-se do mundo com um nome inventado.

 

Entram em cena uns alemães de leste que demoramos algumas páginas a entender o que fazem por ali e, afinal, parte substancial do livro acaba por se centrar neles. Acabamos por participar na queda do muro de Berlim, na extinção da STASI (será que foi mesmo extinta?), voamos até à Colômbia passando pelo Belize e acabamos por passar umas belas temporadas em Denver e na Califórnia.

 

É daqueles livros em que o Autor começa quase pelo fim para nos transportar ao início dos tempos dos personagens e fechar tudo com uma cena inconclusiva que daria para escrever mais 700 páginas...

 

Mas, apesar de tudo, dá para respigar certas passagens que me parece merecerem alguma meditação.

 

Assim, sobre a Segurança Social (pág. 66 e seg.):

- Num mundo justo – disse Erik – esses trabalhadores dos lares de terceira idade é que deviam andar de Mercedes.

- Pois. Mas, mesmo assim – disse Pip – eu preferia andar de bicicleta a ter de mudar arrastadeiras.

- Sim, mas se quisesses um Mercedes e a maneira de o conseguires fosse mudar arrastadeiras?

- Não, a Pip tem razão. – disse Stephen o que provocou nela um certo prazer – A solução era tornar o trabalho obrigatório mas, por outro lado ir reduzindo a idade da reforma de modo a haver sempre pleno emprego para todas as pessoas de menos de trinta e dois anos, ou trinta e cinco, ou o que fosse e pleno desemprego para todas as de idade superior.

- Deve ser uma seca ser jovem nesse mundo. – disse Pip – O que não quer dizer que neste que temos não seja uma seca.

- Eu estaria de acordo – disse Garth – se soubesse que aos trinta e cinco anos ficava com o resto da vida para mim.

- E depois, se fosse possível baixar a idade da reforma para os trinta e dois – disse Stephen – podia-se proibir que as pessoas tivessem filhos antes da reforma. Isso ajudaria a resolver o problema da população.

 

Sobre a RDA (pág. 103 e seg.):

 

(...) quem tentasse atravessar a faixa da morte era abatido e isso não era ridículo mas, para ele, era mais uma anomalia da geometria, uma descontinuidade entre a bidimensionalidade oriental e a tridimensionalidade ocidental com que era preciso contar para fazer funcionar a matemática. Desde que a pessoa evitasse aproximar-se da fronteira, o pior que podia acontecer-lhe era ser espiada, detida e interrogada, cumprir pena de prisão e ficar com a vida arruinada. Por muito inconveniente que isto fosse no plano individual, era atenuado pela patetice do aparelho no seu todo – a linguagem risível do «inimigo de classe» e dos «elementos contra-revolucionários», a devoção absurda ao protocolo da prova. As autoridades nunca se limitariam a impor a confissão ou denúncia e forçar ou forjar a assinatura do detido. Tinha de haver fotos e gravações, dossiers escrupulosamente classificados, invocações de leis democraticamente aprovadas. A República era comovedoramente alemã na sua obstinação em ter consistência lógica e fazer tudo bem feito. Era como um rapazinho inexcedivelmente compenetrado que tentava impressionar o pai soviético e fazer melhor do que ele. A ponto de mostrar relutância em falsificar os resultados eleitorais. E principalmente por medo, mas também talvez por pena do rapazinho que acreditava no socialismo como as crianças ocidentais acreditavam num Christkind voador que acendia as velas da árvore de Natal e deixava presentes debaixo dela, todas as pessoas iam às assembleias de voto e votavam no Partido. Por altura doa anos 1980, era patente que se vivia melhor no Ocidente – melhores automóveis, melhor televisão, melhores oportunidades – mas a fronteira estava fechada e as pessoas condescendiam com as ilusões do rapazinho como se recordassem, não sem ternura, as suas próprias ilusões dos primeiros tempos da República. Até os dissidentes falavam a linguagem da reforma, não do derrube. A vida quotidiana era apenas constrangida, não tragicamente terrível.

 

Achei curioso (perigoso?) o conceito de que «o absolutismo moral é infantil» (pág. 385) sobretudo porque a personagem em causa, agarrada a padrões morais bem definidos, não encontrava modo de justificar alguns pecados que a rodeavam assim como os pecadilhos que ela própria se atribuía; assumindo uma atitude «adulta», já perdoava tudo e mais aquilo que viesse a acontecer. Fez-me lembrar o Acordo Ortográfico de 1990 que, quando formos à procura da língua portuguesa, já não a encontramos a não ser no purgatório.

 

HSF-Le_Bec_Fin.jpg Foi na pág. 480 que fiquei a saber que em Filadélfia havia um restaurante de cozinha francesa chamado «Le bec fin»; foi pela Internet que fiquei a saber que, inaugurado em 1970, fechou em 2013. Outros haverá onde se possa também comer do fino.

 

Finalmente, gostei de ver a minha opinião confirmada (pág. 509 in fine e seg.) de que é a inveja que comanda os comunistas ao combaterem sistematicamente os ricos. Primum, invídia; deinde, philosophare. Primeiro, a inveja; depois, a teoria da venalidade do capital.

 

Lisboa, Outubro de 2015

 

Henrique em casa de Ho Chi Minh, Hanói.JPG

Henrique Salles da Fonseca

PROEZAS, CAUSAS E EFEITOS

 

 

ConnectingEuropeFacility-CEF.jpg

 

Muitos se perguntam como é que a Índia pobre se notabilizou em Tecnologias de Informação

 

Tenho pensado na razão dos grandes feitos e os seus resultados em iniciativas arriscadas e complexas. Ao ser Portugal pequeno e com poucos habitantes como foi capaz de proezas chegando por mar a zonas longínquas e ricas das quais só havia notícias difusas por palavras em cadeia de mercadores e exploradores.

 

A cuidada preparação desta longa aventura com permanentes actualizações de dados e mapas recolhidos em cada expedição fez aprender a dar passos mais largos. Havia, claro, capacidade de decisão e meios, mentes dedicadas e empenhamento. Se havia uma Índia rica, chegar primeiro era de inegável vantagem porque as outras potências não tardariam. A aventura e o que ela poderia trazer deve ter sido mobilizadora de um trabalho inteligente e imaginativo para afirmação da grandeza do país. Na realidade, a zona da Índia actual foi no conjunto sempre muito mais rica do que toda a Europa junta até ser destruída pela colonização inglesa.

 

Nos dias de hoje muitos se perguntam como é que a Índia pobre se notabilizou em TI (Tecnologias de Informação) a ponto de se tornar a maior potência. Partiu do zero absoluto e hoje alguns têm a resposta fácil de que eles têm queda para as matemáticas ou para o cálculo mental. Mas isso pouco explica.

 

Para minha surpresa, um facto curioso e dispendioso que deve ser tema de reflexão para quem queira criar actividades de primeira linha colocando o país no mapa de bem-fazer, é este: a Infosys, segunda maior empresa de TI da Índia fundada por um conjunto de sete engenheiros que trabalhavam noutra empresa, a Patni Computers, foi desde o início um modelo de empresa moderna e de vistas largas, talvez a responsável pela forte afirmação da excelência das TI no mundo como em Portugal foi a Escola de Sagres com o Infante D Henrique à cabeça.

 

O arquitecto da Infosys, Narayana Murthy, pôs em prática medidas inteligentes que a puseram na vanguarda das TI e revolucionaram as mentes. E algumas práticas acabaram por ser modelo do sector depois transpostas para outros. Por exemplo, todos os engenheiros recrutados tinham logo à entrada na empresa um treino de quatro meses pago numas instalações de excepcional qualidade, arquitectura,

enquadramento paisagístico, como nunca se vira na Índia nem em qualquer parte do mundo.

 

As instalações de treino em Mysore têm capacidade de 16 000 de cada vez com instalações residenciais, salas de aula, ginásios, refeitórios, piscinas campos de jogos, etc., tudo do melhor, muito bem mantido e conservado para condizer com a ideia da excelência desejada no intangível, absorvida dos aspectos materiais como as instalações e jardins.

 

E porquê tanto dispêndio num país pobre? Porque é altamente rentável para a empresa e para o país: se não se faz qualidade sempre, não se chega ao topo.

 

O treino apropriado, com exigência no trabalho, faz realizar sempre o melhor ou aprender e não varrer para debaixo do tapete tão habitual.

 

Não surpreende que a Infosys tenha sido das empresas indianas mais valorizadas em bolsa alcançando mais de 30 000 milhões de dólares quando ainda não facturaria um décimo desse valor. Criou milhares de multimilionários portadores das suas acções.

 

E as outras empresas de TI seguiram o exemplo dando toda a ênfase à formação como condição para um trabalho impecável sempre causa de avultados retornos e força inovadora.

 

A boa tradição criada nessa empresa de TI é hoje felizmente generalizada. Para evidenciar a atracção do trabalho bem feito, citaria a presença forte de potentados de criação de emprego qualificado a TCS, grupo TATA, com 330 000 trabalhadores,

Infosys com 165 000, a Wipro com 155 000, estrangeiras como a IBM com 150 000,

a Accenture com 90 000, a Cap Gemini com 50 000, todas na Índia. E todas elas numa maré de novos recrutamentos, a Infosys já anunciou recrutar 30 000 este ano.

 

Práticas de bem-fazer que revolucionam sectores de actividade são uma preciosidade.

 

Porque o país faz-se atractivo como o foi com os Descobridores. Atrai investimentos e multinacionais não por haver uns quantos maduros sobredotados mas porque há uma plêiade de gente esforçada capaz e treinada, habituada a níveis de prestação elevada, sempre.

 

Eugénio Viassa Monteiro 

Eugénio Viassa Monteiro

Professor da AESE e presidente da AAPI-Associação de Amizade Portugal-Índia

 

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