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A bem da Nação

OPINIÕES – 2

 

Quanto às preferências caprichosas de Maria Filomena Mónica, acho que têm o seu quê de contraditório, pois reconhecendo valores da direita, nessa não vota, por se afirmar de esquerda que, ao que parece, defende o mito homem livre, sabendo quão falso é esse dogma, que entre nós não provém de um conceito espiritual mas apenas grotesco, na má criação das suas permissividades agressivas.

Berta Brás.jpg Berta Brás

 

Uma Entrevista

 

Maria Filomena Mónica.jpg 

Maria Filomena Mónica

“Ninguém me consegue amarrar”

(Excertos):

Armando Vara também está em casa e não era propriamente rico…

Pois é…isso é verdade. Não sei porque é o que o Salgado está em casa e o outro está na cadeia. Vou fazer só um parêntesis: a corrupção em Portugal é muito engraçada, porque muitas das pessoas que mais criticam a corrupção são elas mesmas corruptas. Muitas delas, ao longo dos anos, têm-se gabado – é isso que acho mais extraordinário – de fugirem aos impostos. Não fujo aos impostos, porque acho que numa sociedade civilizada se deve proteger os mais fracos, e por isso vivo como se a minha cabeça fosse escandinava. O Christopher Hitchens, um jornalista inglês que depois foi viver para os EUA, que morreu no ano passado, ensinou-me isto, viver como se. Eu vivo em Portugal como se vivesse em Inglaterra ou na Escandinávia. Vivo como se respeitasse o governo. Nunca meti cunhas nem pedi. E nunca me importei de pagar impostos. O que me importo é que depois os serviços não sejam bons.

Essa qualidade do SNS é algo que devemos à UE?

Dantes era muito pior! Os portugueses estão esquecidos disso! No prefácio («do seu livro sobre a Europa que acabou de entregar à editora, com impressões sobre a Europa com que sonha, por oposição à União burocrática em que estamos integrados») tenho uma nota optimista, que não calha bem comigo mas é o que penso: as pessoas não se podem esquecer do que era Portugal antes do 25 de Abril, do que era a pobreza que vi e vivi. E se sou de esquerda é porque, quando percebi que havia pobres, fiquei indignada.

Quando percebeu?

… Vivia na Rodrigo da Fonseca e estive 14 anos numa escola de freiras que era na Artilharia 1. Esse colégio, das Doroteias, quando eu tinha aí 13 ou 14 anos, achou por bem, para nós exercermos a caridade, levar-nos a um bairro da lata, onde são as Amoreiras agora, e cheguei lá e não queria acreditar! Percebi que o privilégio da Rodrigo da Fonseca era um escândalo, porque ao lado havia miúdos que não iam à escola porque não tinham sapatos, que estavam doentes, as mães tinham sete, oito filhos dos quais só tinham sobrevivido dois, gerou em mim uma enorme revolta que nunca passou. A sensação de que não posso viver numa sociedade em que, a meu lado, há estas pessoas com este grau de miséria. Não estou a dizer que seja possível haver sociedades totalmente iguais, mas devem ser dadas oportunidades aos filhos dos pobres para terem alguma ascensão social, se forem suficientemente trabalhadores e inteligentes, e isso não acontecia em Portugal. Marcou-me muitíssimo, até hoje! E a minha relação com os impostos deriva desta sensação de que não é bom viver numa sociedade com graus de desigualdade gritantes. E a crise, desde 2007 até hoje, principalmente nos EUA, tem aumentado muito mais a desigualdade social.

Vai voltar a votar branco em Outubro?

Vou. De resto não me entusiasma nem o Passos Coelho nem o António Costa. Também a campanha tem sido tão desinteressante de ideias… Não é que ache que as ideias são muito importantes, não leio os programas, mas a personalidade misturada com as ideias é importante e nenhum deles tem uma personalidade forte.

Na última entrevista ao i, e a propósito do livro sobre o Eça que publicou, disse que Passos Coelho era um produto inexistente no século XIX e que Sócrates era Dâmaso Salcede, ‘chic a valer’.

E viu-se como é que acabou o chic a valer, não é? Ele tinha um fascínio pelos aspectos externos da riqueza, carros, casas, um curso, sem se dar ao trabalho de se esforçar. Quer dizer, até admito que uma pessoa que não é particularmente rica e que vem da província possa querer as mesmas coisas que os lisboetas têm, mas tem de se dar ao trabalho de tirar um curso decente, de não fazer exames ao domingo. Já em 2009 tinha escrito, para uma revista chamada GQ que não sei se ainda existe, o retrato do Sócrates. A minha embirração com ele já vem daí, porque percebi que era um vigarista.

Na semana passada voltou ao ataque no “Expresso”, chamou-lhe mitómano.

Sim, porque duvido muito que aquilo seja uma tese de mestrado. Acho que é um aldrabão nato, mente até sobre o sítio onde nasceu… O Passos Coelho tem uma vantagem: é calmo. Não sei se é aldrabão, houve aquela baralhada da Tecnoforma, mas não tem nenhum carisma… Para se fazer política há uma parte que é emocional. Não é que eles devam ser teatrais, não estou a dizer isso e não gosto nada de populismo.

Paulo Portas tem isso?

Tem, dos líderes políticos é o que tem mais e é capaz de falar sem um papel, porque os nossos deputados e os nossos líderes políticos para dizerem ‘bom dia, até amanhã’ têm de levar um papel escrito. O Portas não, o Portas sabe falar em público, exprime lá as suas ideias, com as quais não estou de acordo, fiquei vacinada contra a direita. Às vezes penso: se não tivesse nascido no meio social em que nasci, será que era de direita agora?

Diz que é de esquerda pelo ateísmo e pela liberdade mas que há muita gente que acha que é de direita. Porquê?

Porque acham que sou meritocrática e muito rigorosa e dura com as pessoas e quero que os meus alunos saibam tudo, mas isso não é uma coisa de direita. Muitas pessoas acham que, sei lá, gosto de ter uma casa bonita e que para ser de esquerda tinha de viver num buraco com um sofá cheio de nódoas, não sei.

Para si o que defende a esquerda?

A igualdade social, as liberdades. Em Portugal não há tradição nenhuma da defesa das liberdades políticas ou de costumes, nunca houve. A direita nunca defendeu as liberdades.

A esquerda defende mais a liberdade de pensamento do que a direita?

Alguma esquerda defende a liberdade de pensamento. Não o Partido Comunista, porque aí há o centralismo democrático e o que diz o chefe é o que vale, é como com os evangelhos.

Acha que há mais corrupção quando há um governo socialista do que de direita?

No caso de Sócrates sim, mas não é sempre. Os ricos portugueses habituaram-se a um certo sentimento de impunidade.

Os ricos estão melhor com que governo?

Os ricos estão com todos os partidos e dão dinheiro a todos, como se viu com o Salgado, que deu dinheiro à Fundação Soares, outro escândalo nacional. Gostava que um jornalista averiguasse bem como é que aquela fundação foi feita, quanto é que recebeu do Estado. Da câmara sei que recebeu, mas e do Estado? O que me disseram foi que em alguns dos primeiros anos de vida da Fundação, esta, que é privada, teve mais dinheiro do Estado do que a Torre do Tombo ou a Biblioteca Nacional. Que dinheiro é que foi para essa fundação?

O caso BES rebentou, ou teve o seu auge, precisamente no governo Sócrates.

Penso que este governo tem menos corrupção do que o governo Sócrates, sim. Mas se formos ver no passado… Não me lembro bem, não dou atenção à peripécia política, mas penso que, num país pobre que, de repente, tem fundos europeus, a corrupção tende a grassar.

Está a falar do governo de Cavaco.

Sim, e a responsabilidade não é só dos políticos, é do povo português, porque o povo pensa ‘se lá estivesse se calhar fazia o mesmo’. Não há, por parte da população, uma crítica genuína à corrupção, é como em Itália, é-lhes indiferente, estão habituados à corrupção, é um bem de cultura. E aqui também. Às vezes pensava, dizia isso ao António [Barreto], se calhar a direita, como são ricos, não precisam tanto de ser corruptos, mas depois pensei que não é verdade, eles são é corruptos de outra maneira.

Como?

Não são corruptos à Sócrates. Comprar um apartamento no Heron Castillo eles acham que é uma possidoneira de morte, querem lá casas no Heron Castillo, querem é na Quinta da Marinha, com árvores, resguardadas. São corruptos de outra maneira. Para os ricos, os políticos estão abaixo deles, são marionetas ao serviço deles, enquanto a esquerda é gananciosa. O [Armando] Vara e as outras pessoas devem pensar ‘isto é uma oportunidade bestial para agora começar a arranjar empregos para os meus amigos, primos, para mim’, e de repente aparece um Carlos Santos Silva da Covilhã com milhões. Os ricos já são ricos, o que eles acham é que devem ser feitas leis de acordo com o que querem e desprezam os políticos. Veja lá se vê alguém com um apelido sonante a ir para a política, é o vais! O que acho que se nota depois da revolução de Abril, e durante muito tempo não reparei nisso, é a mobilidade social. Há a ascendente, ou seja, os filhos dos trabalhadores e da pequena burguesia que, até então, não tinham tido acesso à Universidade, e que passaram a poder sonhar em frequentar o ensino superior. Não apenas a sonhar, mas de facto a ela ter acesso. Com tantos sociólogos que andam por aí a estudar os graffitis e outras parvoeiras, é lamentável que não saibamos qual é a percentagem de filhos de gente com apenas a instrução primária que passaram a frequentar a Universidade. A grande novidade é a mobilidade social descendente, ver que alguns filhos das grandes famílias nacionais tiveram de emigrar para ter um emprego. Até certo ponto, para a elite social a garantia de perpetuação do privilégio desapareceu. Portugal é hoje uma sociedade mais aberta, mais competitiva e meritocrática, o que evidentemente considero uma coisa boa.

Falou de Passos Coelho e de Sócrates. De Seguro diz que era um totó. E António Costa?

Está a fazer uma campanha desastrosa. Nunca leio programas, não preciso, prefiro que me digam nos jornais ou na televisão como é que eles vêem o mundo. E não vejo uma visão muito diferente, no caso do António Costa, da visão do Passos Coelho. O que acontece é que, no meio da crise, o que eles têm é de gerir. Mesmo assim, o António Costa deveria dizer ao seu eleitorado socialista o que o preocupa genuinamente e o que vai fazer. Não é dizer ‘vou criar não sei quantos postos de trabalho’, depois afinal já não é criar, é uma estimativa. Isto são coisas pequeninas que fazem as pessoas desconfiar. A cena dos cartazes em si até nem tem uma grande importância, suponho que em todos os países se arranjem cartazes lá na instagram ou como se chama.

Nos bancos de imagens.

Isso. Simplesmente aquelas eram particularmente infelizes porque diziam ‘Eu sou desempregada’. E depois aquilo ficou assim tudo numa névoa, num pântano. E agora ele aparece no cartaz cor-de-rosa! Não percebo o que lhes passou pela cabeça para fazerem aquele cartaz! Não acredito que o António Costa tenha a menor vergonha em assumir que tem sangue indiano, até porque ele tem orgulho no pai. Fazem-no branco para quê? E os jornais não falam nisso porquê? Porque têm medo de serem apelidados de racistas? Não tem explicação! Não me tem atraído, não me convenceu ainda a votar nele.

Nem noutros candidatos?

Não, na direita não voto, nunca!

Referia a esquerda.

Não, porque a esquerda é como o Syriza e o Podemos, sonham com um mundo que já não existe, que é um mundo, como disse, das classes trabalhadoras, provavelmente com uma ditadura do proletariado, esse mundo desapareceu. Hoje em dia há a globalização, há fenómenos absolutamente novos como o desaparecimento da classe operária, e portanto o mundo do Bloco é um mundo anacrónico. A única deputada que respeito é a Mariana Mortágua, porque desempenhou um óptimo papel e porque mostrou aos portugueses o que é ser deputado, é uma mulher que vai para casa e que prepara as coisas e portanto interroga. Até votava na Mariana Mortágua se ela fosse do círculo da Lapa e se não fosse do BE e eu não tivesse que pôr a cruzinha no BE. Imagine que havia círculos uninominais, como acho que devia haver, e que a Mariana se candidatava. Fiquei com confiança nela, porque percebi que ela trabalhava. Os outros estão lá e nem sei os nomes deles. Levantam-se, sentam-se, levantam-se, sentam-se. Pff. Não me interessa.

Vê-se que a Mariana estudou o dossier e que sabe do que fala, mas não haverá mais gente assim que não vemos na televisão? Não estaremos a ser injustos?

Não, não estamos a ser injustos, leio três jornais diários e todos os semanários, e deixei de ver o telejornal, deixei de ver televisão portuguesa completamente, agora desde que estou doente só vejo séries à noite quando paro de trabalhar. Não considero que haja políticos que estejam a fazer coisas maravilhosas e que nunca tenha dado por isso, não.

Mas e criar, acha que Mariana, se estivesse no poder, conseguiria criar?

Não sei, por isso digo que não votaria nela do ponto de vista ideológico, porque ela sonha com uma sociedade e com acção política para uma sociedade que não existe. Portanto eles podem querer o que quiserem, isso desapareceu. Por exemplo, acho que o Rui Tavares é um homem inteligente, mas o modelo na cabeça dele da sociedade portuguesa não é o que existe.

E para a sociedade real, que propostas é que deveriam ser feitas?

Olhe, têm de discutir a Europa, alguma vez viu a Europa ser discutida? Não, nem fazem ideia. A globalização? Zero. A concorrência dos chineses, a escola pública, há imensas matérias sobre as quais eles poderiam ter uma opinião. Só para dar um exemplo, deve ou não o Ministério da Educação subsidiar escolas privadas que são frequentadas por meninos ricos, nomeadamente escolas católicas cujos pais têm dinheiro? Para que é que o Estado está a subsidiar? Concordam ou não concordam? Perguntas concretas! Você é ou não a favor dos numerus clausus nas universidades? Como devem ser determinados? Mantendo-me ainda no domínio do ensino, que é o que conheço melhor, acha que o acesso às universidades deve ser feito por um computador como é feito agora, com base nas notas dos exames, ou as universidades devem dar-se ao trabalho, porque são preguiçosas, de elas próprias escolherem os alunos como deve ser? Os problemas concretos não são discutidos no parlamento nem na campanha. Andam a discutir a porcaria dos cartazes porque é a única coisa que veio ao de cima. A impreparação total do ponto de vista técnico impede o PS de montar uma campanha decente. Os outros, como diz o Marcelo Rebelo de Sousa, estão todos a fazer de mortos e se continuam a fazer de mortos até às eleições vai haver uma enorme abstenção. Porque as pessoas olham para aquilo e cresce uma coisa que me apavora, que é a raiva contra os políticos, que acaba sempre mal. Felizmente estamos na Europa, porque senão isto podia acabar muito mal.

Texto de

joana_viana.png Joana Viana

e de

vítor raínho.jpg Vítor Raínho

Jornal I 29/8/15

 

OPINIÕES – 1

 

Um artigo de Vasco Pulido Valente, uma entrevista de Maria Filomena Mónica. O primeiro revela meandros da política socialista, autoritária e persecutória, qual mesa censória dos tempos inquisitoriais e dos tempos pidescos – estalinistas lhes chama Pulido Valente - exigentes de actuações reverentes da parte dos jornalistas entrevistadores do candidato António Costa: caso não transpareça a reverência, imediatamente surgirá a coima de filiação partidária à direita e o jornalista deve preparar-se para futura exclusão, caso Costa ganhe as eleições.

 

De facto, já existia, do tempo de Sócrates, o exemplo da expulsão de Manuela Moura Guedes do seu programa noticiarístico, por ser provocadora política, e António Costa vai-lhe, ao que parece, no encalço – não da Manuela mas do Sócrates. Vasco Pulido Valente é historiador arguto, ele o avisa. no seu artigo pleno de dados da sua observação crítica, felizmente já não de férias:

 

Raspar um socialista

Vasco Pulido Valente.png Vasco Pulido Valente

Público, 19/9/15

 

Quando se raspa um socialista acaba sempre por se encontrar um tiranete. No meio do espectáculo pouco edificante das prisões de Sócrates, ninguém perdeu tempo a discutir, ou a investigar, o papel do cavalheiro na imprensa e na televisão. Mas nem Mário Soares, no fim, escapou à regra de interferir na política editorial do “Diário de Notícias” de Mário Mesquita. Para gente tão penetrada da sua virtude e da sua razão a crítica é fundamentalmente um escândalo, que em democracia se tem de aturar - com conta peso e medida. Os processos para manter a canalha do jornalismo na ordem, ou pelo menos, numa ordem tolerável, são vários: a compra, a rápida promoção para a vacuidade, uma ou outra ameaça e, se nada disto der resultado, a calúnia e o despedimento das cabecinhas que persistem em “pensar mal”.

Esta semana tivemos dois casos que nos deviam inquietar. Primeiro, pareceu a meia dúzia de militantes que Vítor Gonçalves tinha entrevistado António Costa na RTP sem o cuidado e a reverência que a circunstância exigia. No dia seguinte foi publicado na Internet um recado sibilino: “Quantos jornalistas com papel relevante em programas televisivos com impacte eleitoral (durante a pré-campanha) são familiares de altos dirigentes do PSD ou do actual governo?”. Este filosófico desabafo de sabor saudosamente estalinista vinha assinado por um tal Porfírio Silva, ao que por aí corre carregado de diplomas, que Costa recentemente chamou para o ajudar. Não sei da vida ou do parentesco de Vítor Gonçalves, nem do pessoal da RTP. Mas fiquei a saber que, para não me insultarem, preciso de apresentar documentos até à terceira geração para provar que não há na minha família nenhum desgraçado ou desgraçada do PSD.

O segundo caso foi o debate sobre justiça, também na RTP. Isto, não percebo porquê, enfrenesiou presentes maiorais do PS. Supunham talvez que, à sombra de discutir a justiça, se iria discutir a interessante carreira de Sócrates. E, sem sombra de hesitação, um jovem agitado e estridente, chamado João Galamba, reclamou a cabeça do Director de Programas, Paulo Dentinho, de acordo com as melhores regras democráticas. Por curiosidade, assisti ao programa em que se falou de Sócrates durante meio minuto. Mas para futuro sossego do sr. João Galamba, do sr. Porfírio e do PS em geral, proponho que se organize uma comissão de censura que separe o trigo do joio e faça respeitar o dr. António Costa. Se continua ou não depois de 4 de Outubro, logo se verá.

 

Quanto à entrevista de Maia Filomena Mónica, começo por descrever a sua personalidade, segundo uma das epígrafes da página introdutória do discurso: «É uma rebelde que não se verga a nada nem a ninguém. Snob por convicção, não tem travões a ver o mundo à sua volta».

 

Mas não é pela sua personalidade de mulher bela e caprichosa que transponho excertos da sua entrevista mas pela panorâmica que nos apresenta da sociedade portuguesa e de muita da sua política e dos seus políticos que ficaram por deslindar. Caso da referência a Mário Soares e à sua Fundação, que um país de safadezas e de servilismos idolátricos pirosos faz por ignorar, permitindo mais um escoar de dinheiros públicos assim roubados na mistificação e na fraude. O mesmo, na descrição de Sócrates e das suas falcatruas, embora discorde da comparação com o Dâmaso Salcede queirosiano, que não passava de um enfezado idiota, cobarde e gabarola, longe da figura distinta de Sócrates, agindo na sombra, e expondo às claras as suas convicções políticas. Relativamente a Passos Coelho, como «produto não existente no século XIX», também não me parece que tenha acertado, Maria Filomena Mónica. A imagem de paralelo que me seduz, é a de Alexandre Herculano, não, evidentemente, na dimensão cultural ou na criatividade literária deste, mas na hombridade, na seriedade e no amor pátrio, que me parecem comuns a ambos. É certo que Herculano não foi homem de governação, mas defendeu causas políticas próprias de um homem livre e avançado para a sua época – como a do dogma do celibato dos padres que ele contrariou. Herculano é uma figura que permanece no nosso espírito como alguém impecável, cujos livros no meu tempo eram de leitura obrigatória, como fonte literária e pedagógica. Passos Coelho, na sua ambição de tomar conta do seu país, creio que o fez por amor pátrio. E isso é nobre e extremamente corajoso, dada a sociedade que Maria Filomena Mónica descreve, que merece o seu e o nosso desprezo.

 

Quanto às preferências caprichosas de Maria Filomena Mónica, acho que têm o seu quê de contraditório, pois reconhecendo valores da direita, nessa não vota, por se afirmar de esquerda que, ao que parece, defende o mito homem livre, sabendo quão falso é esse dogma, que entre nós não provém de um conceito espiritual mas apenas grotesco, na má criação das suas permissividades agressivas.

 

(continua)

Berta Brás.jpg Berta Brás

MERKEL E SCHÄUBLE, OS MAUS DA FITA

  

TVI-MERKEL E SCHÄUBLE

 

A moral alemã assenta no dever a favor do bem comum pela dedicação ao trabalho.

 

Esta, a atitude geral dos alemães. Resta saber como o bem comum vem sendo definido ao longo da História na certeza, porém, de que na actualidade (e desde há cerca de 70 anos) é o regime democrático que o define através dos conceitos definidos por cada Partido.

 

Desde a segunda guerra mundial, o bem comum alemão ocidental vem sendo alternadamente definido pelos conceitos da Democracia Cristã e pelos da Social Democracia. Num Governo como o actual, presidido por Merkel mas contendo alguns ministros social democratas, o bem comum é necessariamente híbrido entre os dois modelos mais puros. Mas os alemães não hesitam em respeitar o resultado (puro ou híbrido) que se obtém nas urnas em escrutínio universal, pluripartidário e em competição transparente.

 

E tudo isto porque Kant criou a ética do dever fundamentada na racionalidade humana: o dever é claro e incondicional; a acção não depende de condições pelo que se torna num imperativo desde que o modo de agir possa ser generalizado e tanto a dignidade como a liberdade das pessoas sejam respeitadas. Esta, a fórmula adamada do imperativo categórico kantiano: "Age como se a tua acção se devesse tornar, através da tua vontade, uma lei universal."

 

Assim educados desde o berço, os alemães assumem naturalmente uma atitude geral que se distingue claramente do hedonismo que, sem esforço, tudo quer já. O trabalho é uma obrigação para qualquer alemão; o trabalho é um direito para quase todas as outras Nações. Os alemães produzem; os outros consomem.

 

Mas o que está em causa é o modelo de desenvolvimento que se pretende instalar:

- O socialismo europeu ocidental (democrático, civilizado) pretende um Estado Social forte e omnipresente na vida dos cidadãos em conjunto com o Consumo tomado por motor do desenvolvimento e em companhia do investimento público financiado pelo endividamento se outras fontes não se mostrarem suficientes;

- A Democracia Cristã pretende uma economia baseada na Produção de bens e serviços transaccionáveis com o Estado Social que essa economia consiga financiar; as contas públicas devem apresentar superávites a fim de manter a dívida tão baixa quanto possível.

 

Eis como a ética kantiana se aplica naturalmente a um modelo produtivo e o hedonismo tem terreno fértil nos modelos consumistas.

 

Não são a Senhora Merkel nem o Senhor Schäuble que são maus por quererem defender as poupanças das suas laboriosas «formigas» (para quem o trabalho é um dever) aplicadas na cobertura dos défices das consumidoras «cigarras»; os maus da fita são os que convenceram os respectivos eleitores (parca ou nulamente instruídos na ética do dever) de que tudo são direitos, a começar pela obtenção de empregos públicos.

 

Afinal, é tudo uma questão de educação.

 

Setembro de 2015

 

De Denang para Hué.JPG

Henrique Salles da Fonseca

LORDES SEM COBERTURA

 

pequeno-lorde.jpg Lembrei-me de «O Pequeno Lorde», da escritora anglo-americana Frances Hodgson Burnett, livro que atravessou a minha infância e que um dia ofereci ao meu filho Artur, hospitalizado na altura, chamando-lhe, na dedicatória “o meu pequeno lorde”, por ser loiro e um rapazinho responsável, delicado e com amigos. O pequeno Cedric, era órfão de um filho de um conde inglês – Lorde Fauntleroy – que desprezara o filho, com rigidez aristocrática, por ter casado com uma jovem americana, aparentemente destituída das características imponentes da educação britânica. Mas o avô manda buscá-lo aos Estados Unidos e a imagem, observada ocultamente pelo advogado interveniente, da corrida entre o rapazinho e os seus amigos em que aquele sai vitorioso e se justifica disso sem “peneiras”, juntamente com outras atitudes de simplicidade e graciosidade que vai revelando numa história colorida de ternura e graça nos contrastes, permaneceram no meu espírito como exemplo “a não perder”.

 

Tal como o Artur, que a aflição pela sua doença me levara a oferecer-lhe o livro do paralelo com o tal rapazinho do meu encanto, ao ouvir hoje Pedro Passos Coelho em voz bem timbrada de um discurso simples e racional, pareceu-me que o Pedro criança poderia ter sido menino exemplar, como Cedric, o futuro pequeno lorde Fauntleroy. Será fantasia, mas não me importo de a revelar. Tenho gostado sempre dos discursos dele e naturalmente que um ou outro traço menos seguro desses discursos não são de molde a destitui-lo do pedestal de pessoa conscienciosa e honesta, que se propôs erguer a sua nação do atoleiro de ignomínia a que fora condenada, o que a maioria de nós não quer ver.

 

Como ele, outras figuras são, manifestamente, discretamente sábias e sensatas, as que o defendem, como Lobo Xavier, Telmo Correia, Nuno Magalhães, o que, em minha opinião, prova uma formação cívica e moral que dantes era prezada, e hoje ainda, por alguns, mesmo jovens, o que nos alegra a alma. É assim também o meu marido, embora não mais jovem, a quem recorro para me trazer uma palavra, não de apaziguamento, mas da mesma indignação que a minha, quando os ouço, aos outros, deitando abaixo, por vezes em voz aflautada, cheios de razões que, ou traduzem enorme empáfia, ou traduzem enorme ambição, ou enorme indiferença pelo país.

 

O meu marido foi dos que defendeu a pátria, pelos matos de Angola, muitos outros que o mesmo fizeram poderão ter idêntica posição de hombridade e amor pátrio, dificilmente aceitarão a leviandade dos que sistematicamente aniquilam quem governa, fechando os olhos aos condicionalismos em que trabalhou o Governo.

 

Mas a maioria não quer saber. Como descreve Vasco Pulido Valente, somos um povo que andou sempre a reboque, atrelado a uma Inglaterra protectora e desprezadora, pela nossa miséria económica e cultural. Agora estamos cheios de pruridos por continuarmos de canga e culpam Passos Coelho de se rebaixar a Merkel, ao BCE, como antes à Troika.

 

António Costa promete fazer diferente, mas todos sabem que não, imagem dos Tsipras e Varoufakis arrogantes e condenados. Os senhores da esquerda mais as senhorinhas de olhos tristes ou maliciosos sabem disso, mas o objectivo é condenar, porque achamos que temos direito à teta europeia. Eternamente, lordes refastelados, bem tratados, com direitos, sem deveres, sem educação. Não o achou Salazar, mas esse não conta, que nunca roubou.

Leiamos Vasco Pulido Valente, saído hoje no Público.

 

Berta Brás.jpg Berta Brás

Protectorado

Vasco Pulido Valente.png Vasco Pulido Valente

18/09/2015

À esquerda e à direita anda por aí muita gente indignada por causa do protectorado de que Portugal sofreu e, segundo alguns patriotas sem mancha nem tumor, continua a sofrer. Isto deixa um indivíduo de boca aberta por duas razões.

Primeiro, porque de maneira geral foram esses mesmos patriotas que levaram Portugal ao protectorado de Bruxelas. Depois, pela total ignorância da história deste pobre país desde pelo menos o fim do século XVIII. Toda a gente se esqueceu que em 1807 a Inglaterra meteu D. João VI num barco e o despachou para o Brasil? Ou que Junot acabou corrido por um corpo expedicionário inglês? Ou que o embaixador de S.M. Britânica tinha assento de jure no Conselho de Regência que ostensivamente governava o Reino?

E ninguém se lembra que na guerra contra os franceses (que durou até 1814) o general Beresford comandava o exército português com a ajuda de umas dezenas de oficiais que trouxera de Inglaterra e que o nosso Tesouro pagava? E também ainda não é claro para a cabecinha nacional que o triunfo do liberalismo em 1834 não passou de uma conveniência da Inglaterra que ela, de resto, financiou e forçou as potências conservadoras, como por exemplo a Áustria, a engolir? E o progressismo indígena também se esqueceu que a guerra da “Patuleia” se resolveu com a intervenção da esquadra inglesa (ao largo do Porto e em Setúbal), por uma invasão de um exército espanhol assalariado por Londres e por um “protocolo” de Palmerston, que determinava quem podia, ou não podia, entrar no governo?

E a seguir desapareceu o protectorado? De maneira nenhuma. A Inglaterra e, com a autorização dela, a França continuaram a sustentar a maravilhosa paz da Regeneração; e a promover ou liquidar ministérios de acordo com o grau da sua subserviência e a mandar nos territórios de África de que Portugal, na sua ingenuidade, se julgava dono. E finalmente, em 1892-1893, não hesitaram em suspender os víveres de que a nossa miséria humildemente se alimentava. Os patriotas que hoje se arrepiam com o protectorado dos credores deviam pensar que o único período em que não houve protectorado algum em Portugal foi durante a Ditadura de Salazar, cujos benefícios não se distinguiram na história da Europa. Mas voltar a 1928 não parece uma política muito inteligente.

 

CARTA A CAMILO CASTELO BRANCO

 

Camilo Castelo Branco.png

 

Sobre “Amor de Perdição"

 

 

Goa, 14 de Maio de 1863

 

Illmo. e Exmo. Senhor

Camilo Castelo Branco

Porto – Portugal

 

Ex.mo Senhor

 

Desde que aqui em Goa apareceram as suas primeiras obras, como o “Mistério de Lisboa” e “A Filha do Arcediago”, tenho lido, com muito prazer e admiração, todos os romances que a sua tão inspirada pena nos tem oferecido.

 

Chegou há pouco “O Amor de Perdição” que li quase de um só fôlego, não só por ser um romance admirável mas por uma circunstância que deverá deixar Vossa Ex.cia admirado e talvez até chocado.

 

Custa-me a dar a notícia mas julgo ser meu dever.

 

Simão António Botelho não faleceu a bordo do navio que o transportou para o degredo. Nem ele nem a sua admirável companheira Mariana.

 

Tudo quanto vou contar nesta carta é a absoluta verdade, e foi-me contado pelo próprio Simão Botelho, porque, como verá adiante, assim que ele chegou a Goa ficou hospedado na cada de meus pais, e por coincidência éramos os dois da mesma idade, o que nos proporcionou desenvolver uma profunda e muito íntima amizade.

 

Como Vossa Ex.cia sabe, o seu tio Simão embarcou na nau “São Francisco Xavier” cujo capitão era o senhor Caetano de Sousa Pereira, pessoa desta terra e muito amiga que foi de meu pae, ambos já falecidos.

 

O capitão Sousa Pereira, assim que o jovem Simão embarcou, e como Vossa Ex.cia muito bem escreve, rodeou o desgraçado rapaz de todo o conforto que podia dispensar.

 

Simão Botelho estava a entregar-se à morte, bem como a doce Mariana, mas o capitão não o largou um só instante, levando-o para acompanhar o comando do navio, convidando-o para fazer as refeições na sua mesa e passeando juntos no convés, fazendo com que aos poucos Simão recomeçasse a viver, se bem que sempre muito abatido.

 

Então, Simão, fez um irrecusável pedido ao seu já grande amigo, quase um pai para ele, o capitão Caetano de Sousa Pereira, para que, no regresso a Portugal, contasse a sua morte o que Vossa Ex.cia tão dramaticamente descreve com a sua habitual facilidade e profundidade. Simão queria cortar todos os vínculos com Portugal, esquecer toda a enorme desgraça que sobre ele se tinha abatido, esquecer a família que sempre o desprezara e, incentivado pelo capitão e sobretudo pelo amor daquela extraordinária mulher, Mariana da Cruz, recomeçou a cobrar ânimo.

 

Quando passaram em Cabo Verde, para aguada e reabastecimento, Simão, apresentado pelo capitão, mas com outro nome, foi muito bem recebido pelo Governador António Coutinho de Lencastre que o teve em sua casa três dias cuidando de o ajudar a recuperar a saúde.

 

O mesmo se passou em São Salvador da Bahia, tendo-se hospedado em casa do Juiz do Civel António Jordão, cuja esposa foi também incansável e, quando ouviu parte da história do pobre Simão, sempre apresentado com outro nome, pediu ao Arcebispo D. Frei Silvestre de Maria Santissina que o fosse ver.

 

Simão comoveu-se muito, confessou-se e o senhor Arcebispo, com as prerrogativas que a Igreja lhe dá, absolveu-o do crime cometido por amor, mas percebendo a entrega tão sofrida e a dedicação da jovem Mariana, o convenceu que a devia receber por esposa, o que Simão garantiu que faria assim que chegassem ao destino.

 

Passaram ainda em Moçambique, onde chegaram com a saúde quase refeita apesar das tormentas do Oceano, e muita vontade de viver, foram ainda recebidos pelo Governador Francisco de Paula de Albuquerque do Amaral Cardoso que lhes ofereceu uma bonita prenda de casamento.

 

Assim que o navio chegou a Goa, dia 25 de Agosto de 1807, o capitão apresentou os dois jovens a meu pai Manoel de Noronha Pereira da Costa que ofereceu logo a nossa casa para os receber.

 

Meu pai, um dos grandes comerciantes desta cidade, descendente de famílias nobres de Portugal, Noronhas e Pereira da Costa, no dia seguinte levou os novos hóspedes ao bispo coadjutor D. Frei Manoel de S. Gualdino onde eles confirmaram que queriam casar logo.

 

Frei Manoel apresentou-os ao Arcebispo de Goa D. Fr. Manuel de Santa Catarina, um santo homem, Carmelita Descalço, nessa altura com 81 anos de bondade, que disse logo que os casaria naquele mesmo dia.

 

Como tiveram que dar os nomes verdadeiros, Simão optou por ficar somente António Botelho mas pediram aos santos homens que não permitissem, durante o máximo tempo possível, que ninguém viesse a saber da existência deles. Se “tinham morrido” para o mundo e família de Portugal, renasciam agora felizes na terra do destêrro que lhes seria doce e agradável.

 

Não tardou muito que chegasse o primeiro filho que recebeu o nome de João da Cruz Botelho, um lindo rapaz “forte como o avô” como os pais diziam, e veio depois uma menina linda, como a mãe, Mariana da Cruz Botelho, primos irmãos de Vossa Excelência.

 

Em poucos anos meu pai sentiu-se doente e ao transferir a casa comercial para meu nome eu fiz questão de ter como sócio o meu inseparável e correctíssimo amigo Simão, já como António Botelho, que sempre foi muito estimado e admirado por suas qualidades, seu carácter e educação, por todos os que tiveram a sorte de o conhecer. E assim fomos sócios até que a morte o levou em 1856, o que me custou muito a suportar.

 

Dona Mariana, o exemplo de virtudes e humildade que tão bem Vossa Excelência deixa perceber no seu romance, continua viva, se bem que triste por um lado, os filhos e os netos alegram-lhe a velhice.

 

O filho, João da Cruz Botelho casou com a minha filha Madalena, e têm dois lindos filhos, e a filha, Mariana, casou com um capitão do exército, João de Almeida Mesquita que aqui prestou serviço e foi depois mandado para Macau onde ainda devem estar.

Julgo ter prestado uma informação útil .

 

Attº Ven.or e admirador de Vossa Ex.cia

 

João António Pereira da Costa

 

Explicação:

 

Pelo que me foi contado, o autor da carta não a mandou pelo correio por não ter completado o endereço do escritor, e assim permaneceu dentro de um envelope só com

 

“Illmo. e Exmo. Senhor Camilo Castelo Branco”

 

O autor da carta parece ter morrido pouco tempo depois de a ter escrito e a viúva de Simão Botelho decidiu vender a casa comercial, que passados alguns anos tornou a passar de mãos.

Só muitos anos mais tarde, quase 100 anos depois, é encontrada, entre muitos papéis velhos, esse envelope dirigido a CCB.

 

Os novos donos acharam a carta interessante e entregaram-na a um médico local, Francisco de Noronha, nascido e criado em Goa, para que ele lhe desse o destino que entendesse. Quando este se aposentou saiu de Goa foi viver para Portugal

 

Francisco de Noronha, que eu tratava por tio, muito simpático e sempre bem disposto, foi casado com uma amiga de infância da minha mãe e era visita assídua de nossa casa, e por mais de uma vez que ofereceu uma pequena lembrança de Goa.

 

Não tiveram filhos. Em Lisboa um dia perdeu a cabeça por uma garota muito jovem e divorciou-se da mulher, simpática, magrinha e para além de feia!

 

O novo casamento não deu certo. Durou, se tanto um ano, que nem deu tempo ao “tio Chico” de apreciar e relembrar juventudes, porque a menina não encontrou no velho médico a fortuna que procurava e divorciaram-se. Francisco de Noronha voltou a casar com a velha e primeira mulher, mas não durou muito mais.

 

Um dia, a viúva, ao mexer em papéis do marido, encontrou a carta para CCB e sabendo que o meu bisavô tinha sido amigo deste, entregou-me a carta, que eu guardei como uma preciosidade.

 

Mas o andar com a casa às costas para África, volta, vai, revolução, Brasil, etc., só há dias, para meu imenso espanto a fui descobrir “muito bem guardada” dentro de um dos volumes da História de Portugal de Alexandre Herculano! Razão porque só agora se dá a conhecer. Pena que Camilo nunca a tivesse recebido.

 

 

Francisco G. Amorim-IRA.bmp Francisco Gomes de Amorim

LES UNS ET LES AUTRES

 

Quando o debate acabou, os da Quadratura falaram e Jorge Coelho não fez segredo da sua euforia pelo que apelidou de vitória do seu candidato. Até pediu, com certo pudor, não sei se sincero, desculpa da sua efusão tão manifesta, ciente de que essas manifestações de agrado, um tanto provocatórias, são mais compreensíveis entre as crianças, que até pulam, ou no caso de jogos desportivos, entre os adeptos, que já não pulam, por causa das articulações descarnadas. Pacheco Pereira também não fez segredo do seu agrado, com os seus motivos específicos de uma erudição que mal me custa acompanhar, por sábios e tortuosos, escondendo aquilo que ele não deseja revelar de reconhecimento dos muitos nós na malha governativa, dificultando a urdidura da teia que, para a sagaz Penélope era mais fácil de produzir, por se limitar a fazer e desfazer o que ela própria tecia, com os nós da sua fabricação, enquanto que os nós da teia governativa são de múltiplas e estranhas proveniências, por vezes inextricáveis, como Pacheco Pereira por certo conhece, o que lhe devia servir para desculpabilizar. Felizmente Lobo Xavier, no seu discurso de rigor, resultante de uma visão sem malícia mas de saber, estava ali para lançar um pouco de confiança nas almas adeptas dos desfazedores de nós, e readquirimos a esperança, que a maioria dos outros intervenientes em outros debates sucedâneos ao frente-a-frente, pretendeu tirar-nos, nos moldes de Jorge Coelho, embora menos efusivamente, por a empatia entre eles não ser tão de raiz familiar.

 

Mas os habituais articulistas do nosso enlevo literário não deixaram escapar o acontecimento. Eles disseram tudo o que devia ser dito, com a graça da sua justeza, e aqui estão. Muitos debates se vão seguir ainda, para palco dos muitos analistas, uns com mais rancor outros com mais amor. Apesar de tudo, o espectáculo do mundo que invade a Europa, com crianças pequenas nos braços ou a caminhar com rapidez aflitiva, é mais pungente. Mas as campanhas eleitorais servem sempre. Sobretudo aos humoristas. Que é o que nós somos, acima de tudo. Quer os da plateia quer os do palco. Pulido Valente e Alberto Gonçalves sabem-no bem.

 

Berta Brás.jpg Berta Brás

 

Um debate

Vasco Pulido Valente.png Vasco Pulido Valente

Público, 12/09/2015

 

Não se percebe por que razão o jornalismo português (profissional ou amador) resolveu achar que António Costa tinha ganho a Passos Coelho.

A ideia parece ser que um debate é uma espécie de altercação de taberna em que ganha quem der mais murros no adversário e se mostrar, de maneira geral, mais malcriado e belicoso. Se este modelo se aplica a uma discussão sobre o Estado e a vida dos portugueses nos próximos cinco anos, temos, de facto, razão para desesperar. António Costa gritou e esbracejou mais do que Passos Coelho. E Passos Coelho foi falando com uma certa serenidade e não permitiu que, da parte dele, a conversa degenerasse num chinfrim com o primeiro-ministro. Mas, dizem os peritos, perdeu. O público e os comentadores gostam de excitação e de alarido, como os pacóvios gostam de ver desastres.

Veio a seguir um coro geral de lamentações. Afinal, o debate não tinha esclarecido ninguém. Primeiro, porque se discutiu durante muito tempo a personagem de Sócrates (um argumento absurdo). Segundo, porque os portugueses não perceberam metade do que ouviram (a reforma da segurança social, a saúde, a troika, a dívida pública e por aí fora). Só que, se não perceberam, o único critério que lhes ficou foi a intensidade do barulho dos dois cavalheiros em presença. E isto para não entrar no capítulo das mentiras, que ferveram do princípio ao fim: sobre a bancarrota, sobre o pedido de resgate, sobre o “memorando”, sobre o melancólico facto de que, à mais pequena crise nos mercados financeiros, não haverá dinheiro para as salvíficas promessas de Costa ou para os sonhos sem sentido de Passos.

Não passou pela cabeça dos jornalistas que “presidiam” ao debate com a sua insuportável embófia perguntar às duas notabilidades que ali putativamente discursavam ao país onde tencionavam arranjar o dinheiro para a redenção da Pátria. Ao contrário do que um observador ingénuo talvez concluísse, em todo aquele espectáculo, digno de Las Vegas (e tirando uns 600 milhões que faltam à segurança social), não se ouviu a imunda palavra “dinheiro” uma única vez. Vivemos numa situação periclitante em que o menor abano pode deitar tudo abaixo. Mas naquela arena (não sei que outra coisa lhe devo chamar) não se mencionou a Europa, a América ou a China. Apesar da retórica sobre a “globalização”, Portugal acaba em Badajoz. E o dr. Costa e Passos Coelho, coitados, suspeito que também.

 

Depois do debate

Alberto Gonçalves.png

DN, 13 Setembro 2015

Ao longo da quarta-feira, as televisões trataram o programa do serão como tratam os desafios de futebol, incluindo (juro) os indispensáveis inquéritos a transeuntes sobre os "prognósticos" para o jogo, perdão, o debate. Só faltaram as célebres filmagens dos autocarros a caminho do estádio, perdão, do estúdio, de modo a envolver o espectador em pleno ambiente da bola. Não faltou o intervalo. Não faltou a flash interview. E não faltou António Costa, que à semelhança dos comentadores do ramo se fingiu frequentemente indignado, puxou de bonitos papéis e recorreu ao truque mais infantil das discussões do género: o não-vale-a-pena-exaltar-se, sobretudo quando Pedro Passos Coelho praticamente adormecera, é um artifício que só não envergonha os fanáticos.

E os fanáticos, ou os convertidos à partida, não têm vergonha nenhuma. Mal terminou o debate, correram a decretar a estrondosa vitória do Dr. Costa com o alívio de quem começava a perder a esperança nas "legislativas". Não é por acaso: durante hora e meia, o Tsipras indígena (a comparação é do Telegraph de Londres) conseguiu desfiar as suas extraordinárias patranhas quase sem contraditório do adversário, o qual, não sei se o referi, estava a dormir. Ao Dr. Passos Coelho, cujas limitações não são pequenas, bastava deixar claro o absurdo que é um destacado cúmplice da bancarrota regressar com promessas de novo desastre. Ou lembrar que a portentosa "gestão" da Câmara de Lisboa, salva à custa do Estado, é no mínimo uma mentira cabeluda. O resto ficaria por conta do próprio Dr. Costa, que louva imenso a "lusofonia" e fala um português assaz carenciado.

Contas feitas, o debate suscitou dois mistérios e um avanço civilizacional. O primeiro mistério é a apatia do Dr. Passos Coelho, que sempre possui meia dúzia de indicadores económicos amáveis, se bem que precários, para atirar ao currículo socialista de miséria e fraude. O segundo mistério é o facto de as desconchavadas lendas do menoríssimo Dr. Costa ainda convencerem muitos cidadãos que não os cidadãos que dele esperam uma nomeação, um emprego, um pratinho na extremidade da mesa do poder. O mérito do debate passa por José Sócrates.

No país invertido que habitamos, houve jornais e analistas que atribuíram ao ex-primeiro-ministro a grande vitória da noite. Falharam por pouco: José Sócrates foi evidentemente o maior derrotado. Viram o que eu vi? O Dr. Passos Coelho ocupou metade do tempo a associar, com legitimidade, o Dr. Costa ao "engenheiro". O Dr. Costa ocupou a metade restante a negar, sem legitimidade, as acusações. E não resistiu a uma graçola que no fundo achincalha menos o destinatário do que o sujeito: "Porque é que não vai lá a casa debater com ele? Tem tantas saudades..." Aliás, depois do debate, diversas "personalidades" socialistas - e conhecidos devotos "socráticos" - aderiram ao folguedo e usaram a insistência em José Sócrates para tentar diminuir o Dr. Passos Coelho. Na verdade, as chalaças plantadas nas ditas "redes sociais" diminuem José Sócrates, que devagarinho alcançou o prestígio da peçonha. Noventa minutos televisivos pareceram sugerir o que nove meses de cadeia e anos de trapalhadas prometiam: a morte política de um homem abaixo de qualquer suspeita. Veremos.

Por enquanto, vemos o Dr. Costa, que José Sócrates abomina em privado e "apoia" em público, dispor de um futuro radioso a trocar argumentos por conversa fiada no Tempo Extra, na Quadratura do Círculo, no Trio de Ataque ou em qualquer outro desses debates futebolísticos. Ou, se Deus Nosso Senhor for excessivamente sarcástico, no cargo de primeiro-ministro. Com sorte, já terá havido pior. E não é preciso citar o nome.

 

Quinta-feira, 10 de Setembro

Da liberdade ao Rato

Falou-se imenso do debate em que três "moderadores" amigos (e, até certo ponto, Pedro Passos Coelho) deixaram António Costa à vontade para vender bugigangas. Por motivos evidentes, falou-se muito menos da entrevista do dia seguinte, na RTP, em que o Dr. Costa passou o tempo a acusar o jornalista Vítor Gonçalves de estar ao serviço do PSD. O lendário humanismo dos socialistas, decerto inspirado pela bonomia do seu fundador, tem tendência a exasperar-se com perguntas a sério e com o contraditório em geral. Faz sentido: se a moda pegasse, qualquer dia o Dr. Costa seria obrigado a reconhecer que o universo feliz e copioso das suas propostas (?) não possui a mais vaga relação com a realidade - isto admitindo que ele consegue notar a diferença.

Depois do pedagógico sms a um director adjunto do Expresso, há meses, fica definitivamente estabelecido o estilo do Dr. Costa, e fica provado que as semelhanças com José Sócrates não se esgotam no "modelo económico" (eufemismo para ruína). Esqueçam as promessas de leite e mel: a acontecer, o regresso do PS será sobretudo o regresso a isto, à intimidação, à ameaça, à intolerância e em suma ao convívio complicado com os pressupostos da liberdade. O governo em vigor esfola-nos através do fisco? Prefiro que me aliviem o bolso do que me calem a boca, para cúmulo quando a segunda habilidade é opcional e, apesar dos pantomineiros que juram o contrário, a primeira não.

 

 

SANTO ALENTEJANO...

 

 ... criou ordem premiada por luta contra o ébola

 

S. João de Deus.jpg

 

Esforço da Ordem de São João de Deus na luta contra a doença em África valeu-lhe o Prémio Princesa das Astúrias.

 

Habituado a ver irmãos da Ordem Hospitaleira de São João de Deus em situações limite em vários países do mundo, nem por isso Vítor Lameira, superior provincial da Ordem em Portugal, estava preparado para a notícia da morte de cinco irmãos e 18 colaboradores na luta travada no ano passado contra a epidemia de ébola na Libéria e na Serra Leoa: "Foi uma situação trágica que nos apanhou desprevenidos." Os hospitais da ordem situados em Lunsar (Serra Leoa) e em Monróvia (Libéria) estiveram na linha da frente no combate à doença, permitindo salvar milhares de vidas. O esforço valeu-lhe a distinção com o Prémio Princesa das Astúrias, entregue no início deste mês em Oviedo. O que muitos não saberão é que o santo que esteve na origem da ordem nasceu no Alentejo, em Montemor-o-Novo.

 

PAPINTO-Vitor Lameira.jpg Vítor Lameira recorda as notícias dos dias trágicos: "O director do hospital ficou infectado depois de entrar em contacto com alguns doentes e foi assistido por irmãos e colaboradores que ficaram igualmente contagiados. Não estávamos preparados para um surto de ébola tão repentino."

 

"A nossa missão é a de dar a vida em prol daqueles que necessitam", diz o superior provincial, sublinhando que essa dimensão assistencialista esteve na origem da fundação da ordem em 1593, em Granada (Espanha), apesar de São João de Deus ser um português nascido num dia e mês desconhecidos do ano de 1495. Apesar de ter havido alguma especulação e de alguns investigadores terem tentado usurpar a nacionalidade de São João de Deus para Espanha, está provado que ele nasceu em Montemor-o-Novo e que aí viveu até aos 8 anos de idade", conta o padre Aires Gameiro, 86 anos, um dos maiores especialistas sobre a vida e a obra deste santo português.

 

Filho de André Cidade e de Teresa Duarte, comerciantes de fruta, muito pouco se sabe sobre a sua infância passada no Alentejo. A nebulosa é ainda maior quando se tenta apurar as circunstâncias da sua ida, ainda criança, para Oropesa, na província espanhola de Toledo. "É um mistério. Terá sido raptado, levado às escondidas dos pais por um clérigo que se terá servido dele para induzir compaixão e conseguir esmolas", sugere Aires Gameiro. Acolhido na casa do maioral do conde de Oropesa, trabalhou como guardador de rebanhos até que o espírito aventureiro o levou a desejar a "glória militar" e a alistar-se por duas vezes no exército de Carlos V. Ambas correram mal. Na guerra contra os franceses caiu de uma égua e em 1532, quando os turcos ameaçavam invadir a Europa, partiu para Viena, mas o sultão desistiu de atacar a cidade.

 

Desanimado porque a vida militar não estava a correr-lhe bem, regressou a Portugal onde apenas encontrou um tio e, sem nada que o prendesse à terra, partiu para sul. Em Ceuta trabalhou nas muralhas da cidade para ajudar a família de um fidalgo português desterrado. Foi livreiro ambulante em Gibraltar, antes de se estabelecer em Granada. "Foi aí que ele, indo a um sermão do padre João de Ávila, levou um abalo grande e mudou de vida de uma maneira muito ruidosa, quase com uma crise emocional."

 

Dado como louco, acabou internado no Hospital Real de Granada "onde sofreu na pele os tratamentos dados na época a este tipo de pacientes". A experiência levá-lo-ia a fundar um pequeno hospital para o qual "começou a recolher" doentes miseráveis que encontrava pelas ruas. "É aqui que surge o São João de Deus da dignidade de todas as pessoas, o hospitaleiro, aquele que se dava aos pobres mesmo com incompreensões de gente da própria Igreja", sublinha o padre Aires Gameiro. À data da sua morte, em 1550, na sequência de um episódio trágico – contraiu uma broncopneumonia depois de se lançar ao rio na tentativa frustrada de salvar uma criança – tinha deixado no pequeno hospital de Granada os alicerces das modernas instituições de saúde. "Foi o primeiro a centralizar a atenção na pessoa, naquele caso em concreto. Passou a dar a cada doente uma esteira e a separá-los por enfermarias e por tipologia de doenças", exemplifica Vítor Lameira.

 

A partir de um grupo de voluntários que trabalhavam no hospital e que se tratavam entre si por irmãos, a Ordem Hospitaleira foi estruturada e reconhecida pelo Vaticano em 1571.

 

14 Setembro 2015

 

Luís Godinho

in «Diário de Notícias»

 

APENAS UMA TRADUÇÃO

 

 

Um poema de Charles Baudelaire, que mostra um estado de espírito depressivo de um grande poeta que influenciou tantos poetas nossos, como Cesário Verde e António Nobre, entre outros do mesmo século XIX, ou os próprios poetas do ORPHEU. Extraindo “flores” do “mal”, isto é, beleza dos motivos macabros da doença, miséria, droga, corrupção dos corpos, estados de espírito de profunda morbidez, “Les Fleurs du Mal” pretenderam demonstrar que a beleza poética em tudo assenta da realidade humana, não tem que se cingir aos motivos da espiritualidade ideal dos clássicos.

 

Como no último artigo falei no spleen dos literatos de hoje que, desprezando profundamente tudo e todos, provam as suas capacidades de inteligência e lucidez de análise, mas jamais se comprometem na defesa de determinado partido que, pela sua crítica global até parece que os seduz mais, preferindo, contudo, não dar a cara, tal me parece resultar de uma outra espécie de spleen deste século XXI, não propriamente de sofrimento por desespero romântico, como veremos na definição de Baudelaire, mas de sofrimento de orgulho incompreendido, de superioridade acima dos mais mortais, e isso se traduz não em auto análise de grande expansão imagística como naqueles tempos do sentimentalismo, mas em alteridade psicanalítica, faceira e brilhante de perspicácia.

 

(Tal não direi, contudo, de um programa que vi hoje na TVI, por Ricardo Araújo Pereira sobre Passos Coelho. Sempre lhe achei graça e admirei a capacidade de construir argumentos e raciocínios com mordacidade e leveza. Mas hoje apenas o achei “ordinário”. E tive pena. Essa juventude que desrespeita tudo e todos - capaz de se rebaixar, todavia, perante os que admira ou finge admirar ( não creio que a inteligência de Ricardo Araújo o leve a admirar, de facto, outro que não seja a si próprio ) – são um mau sintoma da educação de muitos jovens e adultos, péssimo exemplo para os jovens que os escutam no aparvalhamento das risadas ultrajantes).

 

Leiamos Baudelaire, naturalmente em tradução quase literal, sem o ritmo e a rima que tão belo poema, naturalmente, contém, e reparemos na dimensão das imagens dinâmicas do seu desespero:

 

Baudelaire.png

Spleen

 

Quando o céu baixo e pesado tomba como uma tampa

Sobre o espírito gemendo em longas melancolias,

E abarcando todo o círculo do horizonte

Mais tristes do que as noites nos lança os dias;

Quando a terra se transforma em húmido calabouço

Ou a Esperança, qual morcego, contra os muros

Com as suas tímidas asas vai roçando,

E com a cabeça, nos tectos podres batendo;

Quando a chuva, os seus amplos cordões de água despejando,

Imita as grades de uma vasta prisão,

E um exército mudo de enormes aranhas

Fundo nos nossos cérebros as suas teias vem estendendo,

Os sinos de repente explodem em fúria

E lançam para o céu um imenso fragor,

Como espíritos errantes e sem pátria

Que se põem obstinadamente a gemer.

- E sem música nem tambores, longos carros funerários

Desfilam na minha alma lentamente; a Esperança,

Vencida, chora, e a Angústia despótica, atroz,

Planta a sua negra bandeira sobre o meu crânio inclinado.

            (Charles Beaudelaire in “Les Fleurs du Mal”)

 

Berta Brás.jpg Berta Brás

PARA ONDE VAI O AMOR QUE SE PERDE?

 

MM-KAFKA E A MENINA.jpg Giuseppe de Christofaro

 

Um ano antes de sua morte, Franz Kafka viveu uma experiência singular. Passeando pelo parque de Steglitz, em Berlim, encontrou uma menina a chorar porque havia perdido a sua boneca.


 
Kafka ofereceu ajuda para procurar a boneca e combinou um encontro com a menina no dia seguinte no mesmo lugar.

 

Incapaz de encontrar a boneca, ele escreveu uma carta como se fosse a boneca e leu-a à garotinha quando se encontraram. “Por favor, não chores por mim, parti numa viagem para ver o mundo”.

 

Esta foi a primeira de muitas cartas que, durante três semanas, Kafka entregou pontualmente à menina, narrando as peripécias da boneca em todos os cantos do mundo: Londres, Paris, Madagáscar…

 

Tudo para que a menina esquecesse a grande tristeza!

 

Esta história foi contada a alguns jornais e inspirou um livro de Jordi Sierra i Fabra (Kafka e a Boneca Viajante) onde o escritor imagina como teriam sido as conversas e o conteúdo das cartas de Kafka.

 

No fim, Kafka presenteou a menina com uma outra boneca. Ela era obviamente diferente da boneca original.

 

Uma carta anexa explicava: “as viagens transformaram-me…”.

 

Anos depois, a garota, agora crescida, encontrou uma carta enfiada numa abertura escondida na querida boneca substituta. O bilhete dizia: “Tudo o que você ama, eventualmente perderá, mas, no fim, o amor retornará numa forma diferente”.

MM-May Benatar.png May Benatar

in “Kafka and the Doll: The Pervasiveness of Loss” (publicado no Huffington Post)

 

 

A BANDEIRA NEGRA DO NOSSO SPLEEN

 

Bandeiras negras.png

 

Como sempre paradoxal, Fernando Pessoa informa que «saber não ter ilusões é absolutamente necessário para se poder ter sonhos». Vem no Público de 11/9/15, em epígrafe da última página.

 

Um dia, ouvindo o professor Girodon, na Faculdade de Letras de Coimbra censurar-me por andar ultimamente a perder tempo em emoções alheias aos objectivos a que me propunha quando para lá fui, eu respondi-lhe alegremente que “estudar é uma coisa em que está indistinta a distinção entre nada e coisa nenhuma”. Estávamos no Instituto Francês, em frente ao bibliotecário Sr. França Amado, do lado de cá da secretária e logo M. Girodon contrapôs, com certo desprezo: “Que significa isso?”, o que então me arrasou, adepta que era de Pessoa e do seu “Liberdade”. Hoje, diria que M. Girodon tinha absoluta razão. Não significa nada, ou antes, é uma frase manobradora das consciências, preguiçosas como as nossas, no seu negativismo feito de spleen e de cepticismo, desprezador daquilo que precisamente pôde favorecer o espírito do poeta – a leitura, o estudo.

 

É nesta linha temática que Vasco Pulido Valente escolhe o título da sua excelente e ácida crónica –«O romantismo voltou» - implicando desprezo pelo sentimentalismo gerador de ilusão, nas atoardas jornalísticas que excitam o público e falseiam a verdade. A verdade que Pulido Valente conhece, e nada tem a ver com as balelas sobre debates decisivos, com que se pretende chamar audiências e, da parte dos contendores políticos, ocultar dados importantes, ou revelar outros de pseudo-rigor, como fez Costa, com os papéis que alardeou.

 

Só desejava é que, neste nosso deserto de miragens, pela escassez de “água”, houvesse mais apoio e compreensão pelos que, adoptando a única via que parece sã e racional, trabalham para o oásis, por muito distante que ele pareça estar. A união faz a força, sempre se disse. Mas aqui a união que faz a força é aquela que desestabiliza, que se propõe destruir, com a qual nenhum país pode progredir, desordeira sob uma falsa aparência de amor e sentimento, pura ilusão para os papalvos que nisso crêem.

 

E os escritos tão interessantes das análises dos mestres da língua, aí estão, intocáveis, nem carne nem peixe, dissimulando intenções, no seu capricho superior, lavando as mãos, como fez aquele que deixou condenar Cristo.

Berta Brás.jpg Berta Brás

 

O romantismo voltou

Vasco Pulido Valente

Público, 11/09/2015

 

A gente vária e geralmente analfabeta que manda na televisão e nos jornais decidiu que o debate entre o dr. António Costa e Passos Coelho seria decisivo para a campanha e, naturalmente, para a eleição. Claro que não foi. Foi um espectáculo no Museu da Electricidade, caótico e repetitivo, que não “esclareceu” ninguém.

Cada um dos candidatos representou a personagem que lhe estava destinada – António Costa a de chefe popular com um programa debaixo do braço e de quando em quando uma ocasional berraria; e Passos Coelho a de estadista paciente e sereno que mete na ordem um secretário de Estado incómodo. Os portugueses parece que gostaram mais de Costa do que de Coelho, porque detestam a autoridade e gostam de lhe assobiar às canelas do outro lado da rua.

Do essencial não se falou. António Costa não se permitiu explicar com que dinheiro vai emendar as desgraças do seu pobre país – ponto que também não interessou aos jornalistas que alegadamente “dirigiam” o debate. E Passos Coelho também não se deu à excessiva franqueza de nos confessar o que se propunha fazer do país nos próximos quatro anos. Nada disto espanta. Os portugueses só têm uma pergunta na cabeça: vamos ficar pior com o dr. Costa ou com Passos Coelho? Pelas cenas do Museu da Electricidade, ficou a impressão de que o público que gosta de engenharia social (e Costa levou rolos de papel com os planos todos) simpatizou mais com a aventura tradicional da esquerda: a de partir alegremente com um mapa errado para sítio incerto. Em compensação, a horrenda espécie de criaturas que não se mete em sarilhos sem contar o dinheiro muito provavelmente preferiu Passos.

Acabado este intermédio, que pouco se distinguiu do concerto de uma banda qualquer, a zaragata irá continuar. Os candidatos e a sua tropa pregarão a sua mezinha, insultarão o próximo e, jurando que não prometem, continuarão como de costume a prometer, perante a indiferença do cidadão comum. O grosso do eleitorado ficará em casa, olhando com indiferença o desvario do pequeno bando que nos quer governar. Nós, por acaso, sabemos que o protectorado de Bruxelas não acabou e que uma crise nos mercados financeiros pode arruinar num minuto os mais perfeitos sonhos de homens e de ratos. Vinte e cinco anos depois da queda do Muro, o romantismo político voltou. Para ficar.

 

 

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