Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A bem da Nação

QUEM TRAMOU RICARDO SALGADO?

 

 

Ricardo Salgado.jpg

 

O BES tem sido um dos principais braços financeiros do poder político, um dos meios através dos quais os governos controlaram a economia e em especial antigas empresas públicas com posições dominantes.

 (texto escrito em Maio de 2014 mas sempre a tempo em Setembro de 2015)

 

Alguma coisa está a chegar ao fim em Portugal. Depois de mais de uma década de estagnação económica e de três anos de austeridade e recessão, há alicerces profundos a abanar. Os sinais são por vezes surpreendentes.

 

A semana passada, vimos o líder de um dos maiores bancos portugueses dar uma entrevista que noutro qualquer ponto geográfico do Ocidente teria imposto a sua demissão imediata. Na véspera, uma auditoria encomendada pelo Banco de Portugal desenterrara uma montanha de dívida não contabilizada nas contas da holding principal do grupo, a Espírito Santo Internacional. Ricardo Salgado reconheceu “negligência grave” e “incompetência”, mas encarou a responsabilidade de um ponto de vista igualitário: “todos nós somos responsáveis”. Pelos vistos, passaram os tempos em que quem liderava era mais responsável.

 

Até aqui, a história tem sido tratada de duas maneiras: como um simples caso de sucessão familiar, com intrigas copiadas de um episódio da velha série Dinasty, ou como mais um caso de “irregularidades” bancárias, a saldar eventualmente pela justiça e pelos contribuintes. Talvez seja tudo isso. Mas não é só isso, ou não é sobretudo isso. É muito mais: é o som da crise a fazer estremecer oligarquia.

 

O BES não gere apenas um balanço de cerca de 80 mil milhões de euros. Desde o fim do século passado, foi também um dos principais braços financeiros do poder político democrático, um dos meios através dos quais os governos controlaram a economia e muito particularmente antigas empresas públicas com posições dominantes no sector dos serviços. O BES, sob a actual direcção, fez parte da sombra projectada pelos gabinetes ministeriais sobre a iniciativa privada em Portugal. Veio daí a lenda do DDT (Dono Disto Tudo).

 

Não me interessa aqui a pessoa ou a empresa, mas o sistema. Por esse lado, nada disto é novo. No fim do século XIX, os dois maiores partidos políticos em Portugal tinham, cada um, o seu banqueiro. Os Regeneradores dispunham de Henry de Burnay e os Progressistas, do Marquês da Foz. Os partidos, quando no governo, tratavam de concentrar nos banqueiros amigos todos os grandes negócios do país – o monopólio do tabaco, os caminhos-de-ferro – e em contrapartida os banqueiros ajudavam, entre outras coisas, a financiar os défices e as dívidas da governação. Tudo ruiu com uma crise financeira, em 1890-1892, como agora.

 

Os académicos da extrema-esquerda descrevem isto, mas não o compreendem. Julgam que para eliminar os “donos de Portugal” bastaria eliminar os privados da equação. Não bastaria. Quando não houve privados, nem por isso faltaram “donos”: por exemplo, os gestores instalados pelos Partidos nas empresas públicas. Em alguns casos, o que se passou em Portugal faz lembrar a transição na ex-União Soviética: antigos apparatchiks apareceram convertidos em empresários e banqueiros. Neste regime, não há poder económico contra o poder político porque o poder económico só o pode ser na medida em que for um duplo do poder político.

 

E por isso, não admira o modo como está a acabar este capítulo da história da nossa democracia. Quem lhe pôs termo não foram os governos, que, à direita e à esquerda, sempre acharam úteis os “donos do país” e sustentaram as suas posições dominantes, nem as entidades reguladoras, que se limitaram a comportar-se como bombeiros depois do incêndio, nem a imprensa, que só apanhou as histórias depois de acontecerem. Foram disputas de poder, mas sobretudo os “mercados”, isto é, os accionistas, os investidores e a concorrência que, no contexto da crise financeira, desconfiaram dos alavancamentos e dos riscos, reagiram às concentrações de poder e às ambições pessoais e finalmente chamaram a atenção decisiva das autoridades e dos jornais com os seus alarmes, divisões e guerrilhas. As demais histórias da banca, aliás, tiveram a mesma origem: sem os movimentos e marés do mercado durante a crise, nunca teríamos provavelmente dado por quaisquer “irregularidades”. Nada melhor do que mercados abertos e competitivos para, quando o merecem, garantir o desemprego dos poderosos.

 

Rui-Ramos.jpg Rui Ramos

ESTERNOCLEIDOMASTOIDEO

 

Esternocleidomastoideo

 

Foi o que me lembrou anteontem, os três questionadores em posição severa de interpelação incisiva, bem estudada e exigente de respostas prontas, interrompendo frequentemente os entrevistados – sobretudo o da RTP, João Adelino Faria, que me pareceu muito deselegante, a Judite de Sousa como sempre, compostinha mas exigente, a Clara de Sousa mais competente e delicada. Sim, lembrei-me da «Canção de Lisboa» e o júri dos lentes, como abutres debruçados sobre o Dr. Vasquinho, no seu exame final de medicina, que daquela última vez mostrou carradas de saber, a incluir as páginas do livro por onde regulou as suas respostas disparadas de enfiada. Parece que António Costa mostrou um esternocleidomastoideo mais triunfal ainda que o Vasquinho da Canção, a voz timbrada e segura, de quem há muito faz campanha a malhar no ceguinho, seguro de que chegou a sua vez, no final falando já de cátedra aos jornalistas, o senhor que se segue para libertar o povo da miséria a que foi votado por um governo austero e mais papista que o Papa – (para nos arrancar mais depressa do fosso, é minha opinião, contudo).

 

Eu gostei da postura de Passos Coelho, como gostei de o ouvir, como sempre lembrando o tal fosso e os êxitos já obtidos, naturalmente precários ainda – (o fosso sendo mais uma espécie de buraco negro intransponível, toda a gente o sabe mas faz por ignorar, para não ter que tomar parte na responsabilidade de o cobrir) – mas com a respeitabilidade necessária, para partir em frente. Mas não vai partir. Chegou a vez do Costa, que se mostrou mais seguro. Como disse Passos, seguro porque poeticamente escondendo as côdeas do seu fabrico futuro sob o manto das rosas do seu milagre prometido.

 

Entretanto, transcrevo textos já antigos, de Alberto Gonçalves, guardados para ocasião propícia. Não sei se esta o é. Eu própria me censuro por os copiar, como imagem mais cabal de um futuro estadista, que pretende safar-nos da austeridade. Parece que Alberto Gonçalves também não acredita nisso, embora também não creia na coligação. Creio que sente por esta o mesmo que eu sinto e bem assim outras pessoas que zelam o princípio da honradez traduzida no provérbio “Pobrete mas alegrete”. De toda a maneira, os artigos de Alberto Gonçalves merecem sempre destaque:

 

Procura-se

Alberto Gonçalves.png

DN, 16 Agosto 2015

Nas últimas eleições britânicas alguma imprensa discutiu os prós e os contras dos outdoors políticos. Concluiu-se que os primeiros são escassos (que espécie de tontinho decide o voto fundamentado num cartaz?) e que os segundos são imensos (na época das "redes sociais", os cartazes são um convite à detecção do erro e à chacota). Evidentemente, os nossos partidos não estiveram atentos.

Sobretudo o PS, que em poucos dias condensou toda a incompetência, mau gosto e desconsideração pelo eleitorado que os outdoors conseguem traduzir. De imagens grotescas a mensagens auto-incriminatórias, culminando nas afirmações imaginárias de pessoas reais e, ao que parece, desconhecedoras da trapaça, os socialistas monopolizaram a atenção e o riso deste início de campanha. Quanto à coligação PSD/CDS, que ainda ria, viu-se logo a seguir metida numa trapalhada comparável, e comparável no sentido literal: a inépcia demonstrada pelo PS foi superior. Por muito que se tentasse dizer o contrário, a (ridícula) utilização de rostos indistintos e profissionais na tentativa de vender o peixe não é o mesmo que atribuir histórias a cidadãos portugueses que não as viveram. Também por isto, as rábulas dos cartazes constituíram uma razoável súmula do que se joga nas próximas "legislativas".

Onde a coligação foge à verdade, o PS mente por vocação. Onde a coligação se orgulha de pouco, o PS não se envergonha de nada. Onde a coligação se esquece do que não fez, o PS quer que nos esqueçamos do que fez. Onde a coligação é um remendo sem esperança, o PS é a calamidade garantida. Em Outubro, os portugueses que ainda ligam a estas coisas e não acreditam nos delírios do PCP, das diversas agremiações "trotskistas" ou do "movimento" do sr. Martinho e Pinto rumarão às urnas decididos a escolher o mal menor. É triste? Não: é a pura democracia, que no seu melhor não é lugar de convicções ou entusiasmos, mas de resignação. A realidade é sempre mais melancólica do que o sonho. E, no fim de contas, menos perigosa.

De qualquer modo, o regime já terá amadurecido o suficiente para que, no fundo, as pessoas suspeitem que o único cartaz adequado a quase todos os políticos é aquele com a palavra "Procura-se" em baixo. E que só a recompensa varia.

 

Precário é o Dr. Costa

Alberto Gonçalves.png

DN, 23 Agosto 2015

Dada a quantidade de ar morno que lhe atravessa a cabeça, extraordinária até pelos padrões da classe política, é difícil prestar atenção às opiniões de António Costa, e dificílimo destacar alguma. Quando num dia promete 207 mil empregos e no seguinte explica que a promessa é afinal uma estimativa, as pessoas, entretanto habituadas ao estilo, não ligam. Mesmo assim, foi com pasmo que vi o homem lamentar a "precariedade" dos novos contratos laborais, tragédia que "não oferece segurança" e é "altamente prejudicial". Não é só um argumento típico de quem anda longe do universo do trabalho: é a fezada de quem nunca trabalhou.

Pela parte que directamente me toca, em vinte anos nunca tive qualquer vínculo à entidade empregadora e nunca me ocorreu reivindicar (é o verbo, não é?) alternativa. Com uma remota excepção: seis meses de suplício num "projecto" ligado ao Ministério da Saúde, de onde saí por despedimento "ilícito" e abençoado. Descontada a legitimidade legal, a que pretexto iria forçar-me a continuar num lugar onde não me queriam e que, de resto, eu abominava? Desde então, aprendi que receber por cada serviço que presto é, além de genericamente decente, racional. Por muito que isto indigne o Dr. Costa, não percebo que um sujeito suporte ser remunerado por imposição do tribunal e não pelo reconhecimento daquilo que faz. A garantia do emprego para a vida é má para o emprego e péssima para a vida.

Pela parte que me toca indirectamente, a brutal distância entre o Dr. Costa e o mundo ainda é mais ofensiva. Nos últimos meses, tenho acompanhado de perto o microscópico drama de um "patrão" que tenta em vão despedir o "trabalhador". O primeiro paga o dobro do praticado no sector, a que acresce horas extras, 14 meses e, claro, segurança social. O segundo organiza manifestações sindicais diárias, esforça-se com irregularidade e exibe maus modos. A solução, de acordo com diversos advogados? Manter tudo como está, já que o despedimento com justa causa exige pelos vistos que o assalariado cometa um ou dois crimes de sangue durante o expediente. E o malévolo capitalista não aguenta os custos de um despedimento sem prova da causa "justa".

Quando o Dr. Costa, com três décadas de carreira partidária em cima, diz que "o combate à precariedade é tão ou mais importante do que o combate ao desemprego", não compreende que aquele torna este inútil: no cenário actual, e que o PS sonha agravar, apenas um maluco empregará alguém.

Mudando de assunto, há que louvar o novíssimo critério do Dr. Costa para a emergência de um "bloco central": uma "invasão marciana" (sic). Enfim, o chefe do PS comenta temas que domina. Infelizmente, arrisca-se a não ir a tempo: precário é ele.

Berta Brás.jpg Berta Brás

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2006
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2005
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2004
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D