Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A bem da Nação

PERTO DO RIO DOS ‘BONS SINAIS’ DE VASCO DA GAMA

 

QUELIMANE.jpg

 

Caminhei cerca de oito quilómetros a pé da ‘cidade de cimento’ de Quelimane ao bairro periurbano da Madal, no norte de Moçambique. Passada a primeira povoação, continuei na única estrada de terra batida ladeada por mangais despovoados. Ao início da manhã havia muita gente a caminhar em sentido contrário em direcção à cidade. Iam a pé e sobretudo de bicicleta, muitas fazendo de ‘táxi’. Também circulavam umas poucas motorizadas. Em qualquer caso, algumas transportavam sacos com sal, farinha, carvão, milho, amendoim, fardos de lenha, havia um cabrito rechonchudo torturado a cordas contra o suporte da bicicleta, entre outros bens que, em geral, iriam ser negociados nos mercados da cidade. Como eu e o guia que me acompanha, poucos eram os que ao início da manhã se afastavam da cidade. Entre esses, uns quantos transportavam bens trazidos da cidade: tábuas polidas, portas de casas, grades de bebidas como a ‘2M’, a cerveja nacional, entre outros. Entretido com a paisagem, a caminhada, o movimento ou a conversa, a certo passo alertou-me um sinal do poder estado, ou melhor, da sua ausência. Atravessava uma ponte metálica, herança colonial que passa por cima de um dos afluentes do rio. Junto à margem oposta havia um pequeno engarrafamento. Ora passavam os de um sentido, ora os do sentido contrário. De perto vi que naquela parte só é possível prosseguir a pé porque o tabuleiro da ponte fica reduzido a uma largura pouco maior do que a de uma das vigas metálicas. Bicicletas e motorizadas têm de ser levadas pela mão. Algumas das cargas exigem destreza aos que as transportam porque o risco de queda não deixa dúvidas. Daí a ausência de carros ou camiões naquele circuito.

 

A ponte serve muita gente que habita numa das províncias mais populosas e economicamente mais periféricas de Moçambique, a Zambézia. A sua restauração ou reconstrução valerá um quase nada comparado com os sofisticados investimentos em betão que todos os dias vemos crescer em Maputo, a capital no extremo sul.

 

Quem andar pelo país apercebe-se do fascínio civilizacional, cultural, ideológico pela cidade e pelo que ela representa, muito em particular pela cidade grande, os mesmos espaços que num passado não muito longínquo eram a reserva civilizacional do colono. Há semanas na Matola (Maputo), um dos indivíduos comuns com quem vou falando opinou (cito de cor): ‘A diferença é que no tempo colonial os brancos iam para o mato e agora os nossos dirigentes ficam só na cidade’. Tese exagerada, porém sintomática.

 

Ela conduz ao enigma das raízes culturais dos africanos habitualmente rotuladas de ‘profundas’. Ou são de tal modo profundas que dificilmente se rompem ou, por serem profundas, os próprios rompem-nas sem retorno para abrirem caminho a uma alteridade identitária ultra-acelerada. Por essa razão, escudam-se num mal disfarçado estado de negação antieuropeu.

 

Não faz muitos anos, um intelectual e político negro moçambicano criticava com aspereza o facto de a sua sociedade ser regulada pelo que designava por “norma branca”, uma herança colonial perversa ainda não ultrapassada. Por sua causa, explicava, os autóctones abandonaram a sua matriz identitária, cultural e civilizacional africana. Curioso é que esse mesmo intelectual e político sugeriu que a entrevista que lhe solicitei decorresse no luxuoso hotel Polana, em Maputo, vestia-se da mais apurada indumentária de origem europeia, exprimia-se num português límpido de fazer inveja e é descendente de uma família de assimilados, a elite autóctone criada no tempo colonial. Ainda que não quisesse julgá-lo, saltavam à vista as dissonâncias entre discurso e práticas, entre atitudes e comportamentos. Prosseguindo a caminhada na estrada de terra batida e quando a ponte metálica se perdeu da vista, aproximei-me de um troço no qual a areia solta dificultava um pouco mais a circulação. Nova revelação: afinal o poder do estado dava um ar da sua graça junto das pessoas comuns. Cerca de meia dúzia de polícias municipais mandavam parar os transeuntes para lhes exigirem a licença da bicicleta e o documento da permissão de condução. Os azarados ou distraídos tinham de pagar uma multa para seguirem viagem. O guia informou-me que era de cinquenta meticais e, de seguida, tinham de ir tratar da legalização na cidade. O custo era de cento e cinquenta a duzentos meticais, valor muito acima de um salário diário médio, se se quisessem livrar de futuros incómodos.

 

Como o mangal que ladeia a estrada tinha zonas sem água, em vez de regressar à procedência, um ou outro ciclista indocumentado metia-se pelo mangal lodoso, por vezes com passageiros ou carga, e saía mais à frente contornando as autoridades, um ou outro a barafustar contra os abusos do poder e contra o matope (lama) agarrado ao calçado.

 

Não sei se tal controlo policial faz sentido. O que sei é que o episódio trouxe-me à memória relatos dos piores dias da guerra civil (1976-1992) quando as pessoas dificilmente conseguiam passar por certos controlos nas estradas sem que fossem molestadas por militares. Estes poderiam confiscar-lhes bens conseguidos e transportados a muito custo ou cometer todo o tipo de abusos no caso de os viajantes serem renitentes. O tempo passa e as pessoas vão suportando os fardos da vida.

 

No destino, o bairro periurbano da Madal, tive a sorte de falar longamente com o régulo. Conserva na memória a permanência por seis meses em Portugal, no ano de 1958, e de então ter ouvido falar na campanha presidencial do general Humberto Delgado. Tinha treze anos quando começou a trabalhar, em Quelimane, como empregado doméstico do comandante do navio ‘Lúrio’. Próximo do rio que Vasco da Gama baptizou de ‘Bons Sinais’, entre outros assuntos, o régulo contou a sua versão da história do império colonial, a que sobrevive com as pessoas que (também) o viveram. A outra é a versão rainha, a dos livros e das universidades. Por alguma razão vou preferindo o sentido atribuído à vida e ao tempo que passam pelas pessoas comuns antes que os mais velhos se desliguem da vida e, com eles, as suas subjectivas e indiscutíveis verdades.

 

16/8/2015

 

 Gabriel Mithá Ribeiro

«UNS A COMEREM E OUTROS A FICAREM NA MISÉRIA!»

 

equality-and-justice.jpg

  

Esta ouvi eu já há dias da boca de António Costa e abismei-me com tanta malandrice que ele atribuiu aos que governam agora, e até se me toldaram os olhos de lágrimas que acabaram por cair aos borbotões pelas minhas faces cheias, não direi da glutonaria, pois o receio da diabetes me faz ser relativamente comedida nos doces, embora a minha irmã ache que não, que me descomando, mas, mesmo assim, não sei se o Cristo e o Costa não me incluiriam no rol dos comedores, caso me conhecessem.

 

Felizmente, só Cristo, que tudo sabe, me poderá acusar, pois que ao Costa, que não tem os mesmos poderes de omnisciência, passo despercebida, o que me conforta, temporariamente que seja. Como Cristo tudo perdoa, dele não me virá mal, por conta da objurgatória do Costa, ainda atido às preocupações que o nosso Zeca Afonso também manifestara, mais poeticamente, é certo, mas receio a valer que o caso se inverta assim que Costa for governo, e o motivo da estranheza do seu naco de prosa for trocado – os que comem agora ficarão na miséria, os míseros de agora comerão então.

 

Sei que Cristo também disse mal dos ricos e só os pobres compensou com a vida eterna, mas, pelo espanto que revela com a sua frase exclamativa, o Costa é mais generoso do que Cristo - embora menos omnisciente - e quer compensar os pobres ainda nesta vida, daí os meus receios pela extinção das doçuras e até mesmo dos outros alimentos a que me habituei, quando o Costa ocupar S. Bento.

 

É certo que já passaram mais de dois mil anos das pregações d’Aquele que fazia justiça através de parábolas, e as coisas até evoluíram desde aí, com a chegada de outros justiceiros, alguns dos quais pregaram a igualdade social e outros benefícios, (que não incluíam igualdades espirituais, daí o descuido na instrução de muitos, pelo menos em alguns sítios da Terra, a escravatura desde sempre imprescindível, já desde as pirâmides).

 

Mas é a isso que eu me aferro, à igualdade social: O Costa, que evoluiu desde o Cristo, talvez não inverta assim tanto. Tentará antes aplainar, que, a falar como fala, vê-se que é dos que sabem usar plaina.

 

Berta Brás 2.jpg Berta Brás

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2006
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2005
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2004
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D