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A bem da Nação

NA FÁBRICA DAS DÍVIDAS E DA CULTURA CORPORATIVA

 

L'homme endété.png

 

 O Estado Purgatório Frisador de uma Igualdade que promete o Paraíso

 

Passamos de uma economia, em que trabalho e produto se regulavam através da troca com dinheiro (capital), para a nova economia, a economia financeira do endividamento. O sociólogo e filósofo Maurizio Lazzarato, autor de "La fabrique de l'homme endetté", analisa com perícia a crise do endividamento actual. A essência do capitalismo liberal é viver da dívida individual e estatal e para optimizar o seu lucro serve-se dos cortes na Segurança Social terceirizando os custos sociais apenas no pequeno empresário, no trabalhador e no contribuinte.

 

Para Lazzarato o “homo debitor”passa a ser a nova criação do homo economicus. "Passa a não haver direito a uma habitação, mas a um crédito para habitação (hipoteca), já não há direito à educação, mas - especialmente no modelo anglo-saxão - pede-se dinheiro emprestado para financiar os estudos." Assim o estudante, no final do curso, com o futuro hipotecado passa a não ter problemas de divagações metafísicas ou ideias que o poderiam torna inseguro num caminho já predeterminado.

 

De facto, esta é a ideia da nova economia da Califórnia propagada por representantes do "Silicon Valley". País moderno ou pessoa cliente procura viver o presente, num presente alegre mas fiado, à custa do futuro.

 

A ideologia do “Vale do Silício” serve-se do conceito de progresso na sequência da “racionalidade secular cristã” e da fé no além. Pretende criar uma maneira de ser e de estar baseada no capital com a consequente relação tipo credor-devedor… Substitui a culpa pela dívida, o paraíso pelo proveito e no caso de surgirem complicações cai-se no inferno da falência. O Estado passa a ser o Purgatório, aquele lugar de purgação que pretende acabar com as diferenças, colocando todos (trabalhadores, desempregados, produtores e consumidores) na plataforma de devedores ou dependentes. Os Governos perdem o brilho da soberania e a democracia é ensombrada pelas asas negras de diferentes demónios interessados apenas na radiografia da alma do credor através do ecrã do cartão de crédito.

 

O Adão moderno, anda sempre a caminho, com a dívida à frente; esta é companheira e justifica algum benefício já gozado no crédito do passado e nas vantagens de um viver presente que um novo crédito proporciona.

 

Todos se inculpam no capital onde buscam o crédito. Os riscos do novo “crente” são de responsabilidade limitada ao indivíduo cliente. O antigo pecado original que deu origem à economia social passa assim a uma economia das dívidas. A perversidade da nova crença económica está no facto de se transformar dinheiro em dívidas e dívidas em posse. O credor anónimo tem um poder mágico sobre o devedor. A dívida tem um efeito pedagógico e domesticador. Passamos a uma situação de leasing onde tudo é arrendado. 

 

A economia do endividamento já não honra o trabalho nem considera o trabalhador; deixa-se a relação produtor-produto, para se passar à relação credor-devedor. Ao mesmo tempo tenho a impressão de nos encontrarmos numa época muito bela e rica mas que terá de estar atenta ao risco de reduzir a pessoa a indivíduo cliente e a sociedade a um grande mercado de meros indivíduos de personalidade tábula rasa.

 

O Estado Grego é um exemplo da nova matriz em via no mundo ocidental. Todos os Estados Europeus eternizam a dívida, de facto impagável, mas criam uma forma de viver aparentemente mais leve e livre, sem perguntar - à custa do quê e de quem? A racionalidade de cima (conhecimento tecnocientífico) ordena a irracionalidade de baixo (o proletariado). Alia-se o capitalismo cultural ao marxismo cultural. Viver passa a significar mais ter que ser.

 

O livro “A fábrica do homem endividado” de Maurizio Lazzarato questiona inteligentemente o sistema económico-financeiro actual mas não deixa propostas para nos desfazermos das dívidas. Para Lazzarato a melhor maneira de o devedor se livrar do sistema seria criar uma nova inocência segundo a qual os Estados não pagariam a dívida nem tomariam em conta a moral.

 

O capitalismo liberal e o marxismo cultural servem-se do Estado com Purgatório frisador da igualdade que promete o paraíso das boas intenções mas esconde o inferno delas cheio.

 

António Justo.jpg

António da Cunha Duarte Justo

Teólogo e pedagogo

PRÉMIO NOBEL DE LITERATURA DE 2014

 

Mergulhada, embora ligeiramente - simples boiar de quem lê por pura diversão - nas escritas um tanto lineares dos escritores de sempre, com maior ou menor ramificação figurativa ou de perspectiva narrativa, de repente deparou-se-me este livro, oferecido pela minha nora Paula: «Dans le café de la jeunesse perdue», Prémio Nobel de Literatura de 2014, de

Patrick Modiano.png Patrick Modiano, escritor conhecido, meu desconhecido, detentor de vários prémios literários, o último vindo coroar o seu livro publicado em 2007, reconstituição de um espaço temporal dos anos 50-60 forjado em muito do desequilíbrio e instabilidade vividos no pós guerra, sem, todavia, a pretensão de um sentido crítico ou de apontamento referencial ordenado por concepção visualista ou de outra qualquer apetência estrutural.

 

Na realidade, trata-se de um livro não linear, enigmático, mas de um constante retomar de nomes e de eventos, sob as perspectivas de diferentes narradores, que nos impõem uma constante retoma de leitura para percepção do quem é quem ou da trama que vai progredindo, ora vai recuando e retomando infindavelmente, em novas alianças de um “eterno retorno”, mesmo nos artifícios da sua evolução ou transformação. Assim, dessa forma enigmática que vai deixando e retomando as pistas, com os nomes e as suas relações, o título da obra -

Dans le café de la jeunesse perdue, Modiano.png «Dans le café de la jeunesse perdue» - é bem a síntese de um enredo em torno de uma jovem, também fugidia e enigmática, figura representativa não só de uma geração jovem, sem rumo, mas também de gerações mais velhas, com o seu passado e os seus segredos, que não interessa decifrar, nos seus tratos e vidas de uma eterna repetição, momentaneamente ou repetidamente desembocada num café de bairro: Café Condé, mais tarde transformado em loja com expositor de objectos marroquinos .”Au Prince Condé”.

 

História de uma Jacqueline Delanque, filha de pai incógnito e mãe trabalhando no “Moulin  Rouge”, cuja menoridade é atravessada por acontecimentos definitivamente marcantes, pelo seu teor de aviltamento, na construção de uma personalidade tímida e fechada e simultaneamente arriscada, polarizadora de afectos, quer pela sua beleza, quer pela sua reserva, e cujo retrato de adolescente, tirado no comissariado da polícia onde fora conduzida por vagabundagem, servirá como ponto de arranque para o reconhecimento do seu paradeiro, ao detective privado Caislay (um dos narradores) – por encargo do marido abandonado da fugitiva Jacqueline – detective que a reconhecerá, no café Condé da Rive Gauche.

 

Os quatro narradores serão, por ordem sequencial na intriga, à volta dos frequentadores do café e suas ligações e sobretudo em torno de Louki (nome de carinho atribuído por um desses frequentadores), um estudante da escola de minas, o detective privado, a própria heroína, e Roland, seu amante (após o abandono do marido, personagem insípida e vulgarmente convencional).

 

Um romance que, na modernidade do seu enredo, de enigmas e pistas a tender para o policial, evoca igualmente a tragédia sofocliana «Édipo», no seu conflito que se vai gradualmente encaminhando, pelas diferentes pistas, para o reconhecimento do parricídio e do incesto, e o desenlace fatal – Um Édipo que se pune cegando-se, uma torturada e enigmática Louki que se suicida lançando-se da janela, ao encontro, certamente, das respostas para as suas incompreensões existenciais.

 

Como epígrafe justificativa, uma citação do escritor francês Guy Debord, parafraseando o dantesco « Nel mezzo del cammin di nostra vita» : «À la moitié du chemin de la vraie vie, nous étions environnés d’une sombre mélancolie, qu’ont exprimée tant de mots railleurs et tristes, dans le café de la jeunesse perdue.»

 

Na realidade, um romance que, mais do que oferecer uma intriga mais ou menos romanesca, na sedução de sensualidades nele inexistentes, embora subentendendo sentimentos reais de amor, carinho e dor, joga antes com o enigma da filosofia da vida: a vida como um eterno retomar, na banalidade ou no significativo dos reencontros, no sentimento de frustração ou de vacuidade que persegue o homem ao longo da vida, vida a que a morte reduz ao nada igualmente sem sentido, embora recurso da inadaptação ou incompreensão totais.

 

Eterno Retorno”, a tese que o livro pretende explicitar, na peugada de Nietzsche (retiro-o da Internet):

«L’Eternel Retour du même sous forme d’une expérience de pensée:

Nietzsche expose sous forme conditionnelle, sous forme d’expérience de pensée sa théorie:

 

Que dirais-tu si un jour, si une nuit , un démon se glissait jusque dans ta solitude la plus reculée et te dise : Cette vie telle que tu l’as vécue, tu devras la vivre encore une fois et d’innombrables fois ; et il n’y aura rien de nouveau en elle, si ce n’est que chaque douleur et chaque plaisir, chaque pensée et chaque gémissement et tout ce qu’il y a d’indiciblement petit et grand dans ta vie devront revenir pour toi, et le tout dans le même ordre et la même succession […]. L’éternel sablier de l’existence ne cesse d’être renversé à nouveau – et toi avec lui, ô grain de poussière de la poussière !  – Le Gai Savoir (aphorisme 341).

Berta Brás.jpgBerta Brás

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