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A bem da Nação

QUEM FOI O PRÍNCIPE DE ORANGE?

 

HSF-Frederico Henrique da Holanda.jpg

 Frederico Henrique, Prícipe de Orange

 

O Raul e a Teresa tinham um supermercado algures na Holanda e todos os anos, nas férias que se atribuíam, metiam-se na autocaravana para rumarem a Portugal onde tinham descoberto o que consideravam um paraíso, a Fonte da Telha, ali mesmo a seguir à Costa de Caparica, a dois passos de Lisboa.

 

Estacionavam a autocaravana e arrendavam uma casinha para ficarem mais cómodos e, em vez de irem para a praia como todos os outros turistas, ofereciam-se para trabalhar à borla numa companha de pesca.

 

No Verão, o que funciona é a arte da xávega pelo que o Raul conduzia um tractor e a Teresa ajudava a escolher o peixe puxado para a praia. E assim passavam o mês de férias sem que qualquer deles soubesse dizer uma palavra de português e sem que os pescadores soubessem uma palavra de inglês, quanto mais de holandês… Mas todos se entendiam às mil maravilhas.

 

E chegou o dia em que o Raul e a Teresa se reformaram, entregaram o supermercado às filhas, puseram-se a caminho da Fonte da Telha e só iam à Holanda para passarem o Natal com filhas e netos. Felizes, viviam no paraíso.

 

Até que certa vez, na Holanda, o Raul se sentiu indisposto e o diagnóstico foi de cancro no pâncreas. Morreu lá, na Holanda, mas ainda pediu que as suas cinzas fossem deitadas ao mar em frente da Fonte da Telha. E assim foi que toda a família veio a Portugal transportando a urna com as cinzas do Raul sendo cá recebidas pelos amigos portugueses com enorme emoção.

 

Todos os barcos ao mar e o povo restante na praia em reverente homenagem ao amigo cujas cinzas foram cerimoniosa e muito sentidamente espalhadas sobre as ondas de que ele, Raul, tanto gostava.

 

A amizade é assim, sentida; são os políticos que estragam tudo. Ninguém, por cima daquelas dunas, ainda hoje sabe quem foi e o que fez o Príncipe de Orange que pagou a Maurício de Nassau.

HSF-Maurício de Nassau.png

 

 Agosto de 2015

Eu, Barril-8AGO15-2.jpgHenrique Salles da Fonseca

OS RISCOS DO CRENTE AD HOC COM UMA IDENTIDADE INTERNET

 

A CAMINHO DE UM ESTADO POLÍCIA E DE UMA SOCIEDADE DE MONOPÓLIOS?

 

Portugal pioneiro na aplicação digital

 

Os dados biométricos dos bilhetes de identidade, encontram-se especialmente desprotegidos em Portugal por reunirem no Cartão do Cidadão o número de identificação civil, os dados de acesso à conta de saúde e os dados da Repartição de Finanças. Estes dados podem ainda ser complementados pela ligação da conta bancária às finanças, reunindo assim os pressupostos para a realização de um Estado Polícia.

 

O indivíduo ao ver o Bilhete de Identidade substituído pelo Cartão do Cidadão, com a possibilidade de interconexão dos dados, passa a ter uma outra plataforma de identidade de caracter meramente funcional. Portugal encontra-se a nível técnico na vanguarda da Europa dando a impressão de ser a cobaia para posteriores aplicações nos outros países da União Europeia que recolhem dados mas de maneira mais discreta devido à discussão pública do cidadão.

 

A Microfísica do Poder

 

O tecto metafísico que tem regulado as normas de comportamento da sociedade ocidental revela-se demasiado exigente para uma sociedade de vida ad hoc. À regulamentação religiosa segue-se a regulamentação política que tenta, em nome de valores convencionados, criar um tecto legislativo e uma rede digital que proteja a sociedade dos abusos da liberdade individual. À medida que o autocontrolo ético e moral de caracter espiritual se esvai, aumenta o controlo externo do foro penal estatal. A desresponsabilização e a despersonalização em via levam o indivíduo a prescindir de elementos de identificação baseados em deidades e em espiritualidades para centrar a sua acção numa ética da concorrência de luta livre pela vida. Passa-se do homo faber que vivia do trabalho com o suor do seu rosto para o homo economicus liberto da culpa mas subjugado à dívida. Nesta sociedade de transição, o homo economicus prescindirá, ocasionalmente, de muitos dos elementos de identidade porque o âmago da sua alma se encontra identificado no Chip (microplaqueta) do Cartão Multibanco.

 

No Cartão do cidadão e na conta Google encontra-se já simbolizada a “microfísica do poder”.

 

A Multipersonalidade de Pessoa e as Identidades digitais

 

Quem viaja nos mundos de Fernando Pessoa encontra-se já no âmago da era da transição em via. O magnífico poeta futurista Fernando Pessoa procede ao desdobramento do “eu” fazendo-o corresponder a diferentes identidades. Ele confirma: “Multipliquei-me para me sentir, Para me sentir, precisei sentir tudo,… E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente...”

 

Fernando Pessoa, um vate para iniciados, é a expressão da fé moderna que exercita cedo o alargamento da sua Identidade nos Heterónimos e que hoje se constata no originar-se de identidades digitais. A internet torna-se como na continuação da sua literatura.

 

A transmissão e circulação de dados possibilitam também, a nível individual (User) a criação de "identidades digitais". O User (utilizador) na qualidade de receptor e emissor, tal como acontece em literatura, pode proceder ao alargamento da sua imagem. O mesmo indivíduo cria diferentes papéis e personagens à imagem de Fernando Pessoa com os seus heterónimos (Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos) que apontam para a pós-modernidade. A Rede (Net) pressupõe a possibilidade de criar novos perfis ou de modificar uma sua imagem já existente.

 

Os instrumentos digitais facilitam a melhor acomodação ao ambiente e possibilitam uma formação mais abrangente com aprendizagens mais rápidas e a formação de um pensar mais diversificado. Tudo isto tem as suas consequências na formação de uma nova identidade. Esta mover-se-á mais entre virtualidade e realidade entre aldeia e mundo, criando a ilusão da identificação de indivíduo-casa-aldeia-mundo com um outro estilo de vida e uma nova convivência. Da aldeia o usuário, através da janela do seu computador, tem a sensação não só de ter o mundo em casa como também a intuição de ser mundo. A sua individualidade acompanha as linhas do seu horizonte que se desloca no sentido global.


A autopromoção digital através da rede acontece num surfar ("Surfing") que faz lembrar um discurso literário com diferentes metáforas e jogos que dão asas à fantasia e criam a ilusão de descorporização e da ampliação dos próprios contornos na construção de uma nova identidade que se encontra em processo entre o virtual e o real. À deslocação do foco do Horizonte segue-se a deslocação ("glocalização") das próprias periferias, criando-se novos espaços virtuais, numa imitação da realidade a que se segue a criação de uma nova realidade.

 

Investigações no campo dos jogos virtuais e de outras potencialidades da Internet chegam à conclusão que o utilizador (User) cria em si uma certa anonimidade através da ausência do corpo, de apelidos (Nicknames), de confraternizações no jogo, da possibilidade de mudar de género e da comunicação com todo o mundo. Isto cria nele uma vivência especial e a formação de um novo desenho da própria ipseidade. A nova personalidade torna-se dependente do real e do virtual e a percepção do real e do virtual passa a resultar da dependência da interação da noção de virtualidade e de realidade.

 

A obcecação pela tecnologia e pela digitalização

 

A obsessão pela tecnologia e pela digitalização de tudo torna fatal o optimismo do progresso pelo facto de querer realizar tudo o que seja possível, como se vê na doutrina do centro do poder do séc. XXI em acção a partir do Silicon Valley. A experiência milenária mostra que à concentração do poder se segue o abuso de poder. O objectivo de se querer um mundo melhor não justifica o uso de todos os meios e, especialmente, quando os seus líderes não aceitam correctivos e não se importam com as infraestruturas da sociedade e da pessoa. Precisa-se da fomentação de um sistema em que as pessoas participem, de maneira a resolverem os verdadeiros problemas da natureza (ecologia) e da humanidade (paz, amor e justiça).

 

De facto o que se encontra no centro dos interesses é o dinheiro e o poder; a mudança da sociedade e do mundo acontece como aspecto colateral ou por acréscimo. Assim, o progresso não pode tornar-se num regresso à imaturidade. Aqui põe-se a questão de quem fomenta e quem controla.

 

Vivemos num período de transição em que também a controvérsia se torna produtiva. Dave Eggers resume no seu livro “The Circle” os aspectos negativos da sociedade virtual preocupada em se encaixar no sistema e para melhor realizar o seu papel perde de vista o que realmente está a acontecer em todos os sectores da sociedade. As fábricas do pensamento criam realidades de facto como as do Vale do Silício (Google,etc.) e só passados tempos se reflecte sobre a situação criada e eventuais problemas a ela ligados. Como comentadores encontramo-nos numa luta perene atrás da desgraça e do medo mas com a satisfação de o fazer para que não haja tantas vítimas do silêncio. Conscientes de que o centro dos interesses é o dinheiro e o poder, importa com o nosso contributo não contribuir para o ruído seja ele em termos de crítica ou de aplauso, de que tão bem tem vivido o mundo do poder e do dinheiro rindo-se da caravana barulhenta que passa enquanto eles ficam.

 

O romance “The Circle” de Dave Eggers, adverte para a visão de uma sociedade-Internet; nela a virtualização global e a transparência exigidas por organizações globais contradiz a liberdade e a dignidade do cidadão. A IT (Vale do Silício), segundo a visão pessimista do romance, quer dotar cada um e toda a população com uma única identidade: a identidade de transparência Internet que facilita o controlo global. O “Círculo” é uma superpotência Internet, maior e mais radical que todas as empresas até agora existentes. O círculo, como coleccionador de dados pessoais, servindo-se da transparência e da rede sabe mais sobre um indivíduo que ele mesmo.

 

O busílis da questão, na procura de uma solução que dê continuidade ao progresso e ao mesmo tempo se preserve a dignidade da pessoa, situa-se no facto da cedência dos próprios dados proporcionar benefícios aos que os cedem mesmo com o risco de se abusar deles. O marketing digital usa e abusa das técnicas psicológicas de Pavlov que constam de incentivos e recompensas: se quero ter acesso a uma página de internet, o irmãozão Google só me permite tal gosto se deixar lá os meus dados pessoais. Prémio e castigo constituem os fatores do triunfo do marketing digital.

 

É porém consolador saber que o futuro continua a depender de cada pessoa e que esta não pode ser reduzida à consciência que tem do tempo.

 

O preço que todos estamos a pagar por tantas facilidades é a liberdade do indivíduo, o direito à comunidade e a opção de não ter de fazer o que outros querem. A alta tecnologia do Vale do Silício determina o futuro sem que a política se pronuncie sobre ela e o cidadão pensa que pensa ao falar dos defeitos e das virtudes dela, quando com isso, se não interfere, segue é os interesses dela.

 

Consequentemente haverá que dar mais valor ao entendimento de que a privacidade é um direito humano inalienável.

 

Sigo a reflexão no próximo artigo “NA FÁBRICA DAS DÍVIDAS E DA CULTURA CORPORATIVA”

 

António Justo.jpg

 António da Cunha Duarte Justo

Teólogo e pedagogo

UMA EUROPA TODA IGUAL

 

Europa.jpg

 

A União Europeia não é uma nação federal, como o Brasil ou os USA. Os que tal pretendem parece que não conhecem as diferenças entre as nações que a compõem, a sua história, os seus povos, as suas línguas, as guerras e as tendências hegemónicas de alguns. Muito diferente de nações jovens, como as duas citadas. A União Europeia é uma associação de nações que decidiram abdicar de alguns pontos da sua soberania em troca de outras vantagens.

 

Para a União Europeia sobreviver é necessário que haja mecanismos que impeçam que algum dos seus membros assuma – aberta ou veladamente – a hegemonia. Como já mostrei, os valores dos critérios de Maastricht, para condicionar a entrada no euro, parece terem sido determinados para servirem à Alemanha, segundo os valores previstos para aquele país na data da entrada em vigor do euro.

 

No entanto, a Comissão, o executivo, tem vindo,  ao longo de décadas a interferir cada vez mais nos estados seus associados, muito mais do que o governo dos USA, uma nação federal,  interfere nos seus estados membros. Pretendem uma Europa toda igual!

 

Não existe nos Estados Unidos a fúria de tornar tudo igual que aqui vemos estar a existir agora. O governo federal, instalado em Washington DC, repito, interfere muito menos nos 50 estados membros do que a Comissão – que não é o governo de uma nação federal – está a interferir nos seus 28 Estados.

 

Nos Estados Unidos há muitas leis que diferem de um estado para outro, mesmo em matérias de grande importância. Nalguns a pena de morte é legal, noutros não. As diferenças de salários e custo de vida são grandes. Há estados em que os casinos com jogos de azar são permitidos e outros onde não são. Recentemente foi reactivado o problema do perigo de falar ao telemóvel quando a conduzir um automóvel e sugeridas leis a proibirem essa prática. Tanto quanto sei, até agora apenas alguns estados estabeleceram leis sobre essa prática. Outros legalizaram a marijuana. A maioria não. E há muitas mais diferenças importantes.

 

Comparem-se essas diferenças com os pormenores que a União Europeia está a impor a todos. Penso que é urgente impedir tal intervenção e seria bom que os países membros acabassem com tal situação. As consequências podem ser terríveis, especialmente porque não pararam, com a criação da União Europeia, os apetites de alguns países para hegemonias altamente perigosas. É incompreensível que muitos que, em Portugal, se queixam do centralismo de Lisboa, aceitem este super-centralismo de Bruxelas.

 

Nos Estados Unidos, uma nação federal de 50 estados, o poder legislativo é exercido pelo Congresso. Este é constituído por duas câmaras, o Senado – a câmara alta – que tem 100 senadores, dois por cada um dos 50 estados, e a Câmara dos Representantes – a câmara baixa – com 435 representantes, num total de 535 congressistas.

 

Na União Europeia, o Conselho é constituído pelos governos dos países membros, cuja função é, essencialmente, decidir e aprovar a legislação que a Comissão executará. Uma dúvida me surge: porquê, então, a existência de um Parlamento? Como o governo dum país é quem, legalmente, o representa, não me parece lógico haver um órgão legislativo para a UE. Gostava que me explicassem a razão da existência desse órgão.

 

Além disso, o Parlamento Europeu, duma associação de 28 nações, tem 766 membros! Gostava de saber as razões para tão alto número, que constitui um enorme encargo financeiro.

 

Na minha opinião, de uma excelente ideia original, fez-se um verdadeiro aborto, por acumulação de muitos erros.

 

Os que pretendem uma Europa toda igual, a obedecer rigidamente às mesmas leis, não compreendem as tensões que estão a criar e que mais tarde ou mais cedo explodirão. Se essas leis forem feitas à medida de uma nação membro, o problema pode ser muito grave.

 

Publicado no Público de 10 de Agosto de 2015

 

Prof. Miguel MotaMiguel Mota

 

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