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A bem da Nação

O QUE DIZ A MINHA BOLA DE CRISTAL? – 1

 

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 «A IMPORTÂNCIA DE SE CHAMAR ERNESTO»

(comédia de Óscar Wilde)

 

Dissertar sobre um livro que nunca se leu é mais difícil do que sobre qualquer outro que se tenha lido - Monsieur de La Palisse não seria mais explícito.

 

Mas sempre vou sabendo que nesta comédia o tal Ernesto apenas não existe e que duas Senhoras se deixam convencer de estarem dele noivas num enredo que logicamente as conduz ao celibato. Ou seja, muito stress e, afinal, tudo debalde. Eis por que sempre considerei que a importância de se chamar Ernesto é nenhuma e, plagiando Isidore Lucien Ducasse, mais conhecido pelo pseudónimo literário de Conde de Lautréamont (Montevideu, 4 de Abril de 1846 — Paris, 24 de Novembro de 1870) e um dos escritores franceses mais refractários, (...) confesso que o considerei cheio de uma notável quantidade de importância nula...

 

Autrement dit, cheira-me que dentro de poucos dias vamos reconhecer esta notável quantidade de importância nula a personagens desgravatadas – ou serão apenas sans culotte? – que esbracejam nas cenas gregas arengando parangonas contra os ingénuos que lhes emprestaram dinheiro permitindo-lhes viver a crédito durante tempo de mais. Tempo de mais? Sim, o suficiente para muitos se julgarem com direito a tudo isso sem contribuírem com qualquer valor para o bolo que comeram e que exigem continuar com ele na mão. Também eles se habituaram ao «bem bom» do consumo de tudo o que era produzido no exterior fazendo-me lembrar outros de quem Júlio César dizia que «não se governavam nem se deixavam governar». A quem se referiria ele…? Ah!, os extremos tocam-se mesmo, afinal.

 

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E arenga o chefe desgravatado o mesmo tipo de atoardas que Fidel Castro arengou durante os 40 anos que teve de trono estribado numa polícia política que o pôs a recato de críticos; este, o de agora, não tem nem terá esse tipo de protecção mas já provocou o encerramento dos Bancos com a salvação dos cidadãos empobrecidos através da calixta economia paralela grega; à imagem da Venezuela, seguem-se os supermercados que encerrarão sine die por falta de mercadoria nas prateleiras e então, pior dos males, não haverá mais subterfúgios que evitem a ruptura dos abastecimentos.

 

Na falta da tal polícia política, a insurreição será uma fatalidade, os desgravatados serão corridos, o crédito será reaberto, os Bancos retomarão alguma actividade e os supermercados voltarão a ter alguma coisa nas prateleiras.

 

Mas, como diria o Conde de Lautréamont se não se tivesse suicidado com a corda que tinha em stock para vender aos seus clientes na loja do pret à porter dos suicidas, «tout doucement et sans rancune». Como assim? Ah!, é que tudo não passou de um entracte cheio de uma notável quantidade de importância nula. Muito stress e tudo debalde, um cenário de autênticos Ernestos!

 

Lagarde e Varoufakis

 

Nota final - A profusão de galicismos e referências à cultura francesa neste texto tem tudo a ver com o sorriso quase pornográfico de Christine Lagarde a Janis Varoufakis pouco depois de os desgravatados gregos terem passado a liderar os syrizados globalizados aos gritos de «caloteiros de todo o mundo, uni-vos!».

 

Horas antes do referendo grego de Julho de 2015,

 

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Henrique Salles da Fonseca

A GRÉCIA

 

 

 

SUA CULTURA E SEUS SAQUEADORES

 

Antes de chegarmos à Grécia e mais toda esta palhaçada do “dever eu devo, pagar é que não pago”, vamos dar um pequeno pulo à Namíbia.

 

Diogo Cão, além de grande navegador foi um verdadeiro “distribuidor de padrões”: um, o de S. Jorge, na Foz do Zaire, na Ponta do Padrão, o de Santo Agostinho no Cabo de Santa Maria, onde está hoje o farol de Santa Maria, 70 milhas ao Sul de Benguela, mais um no Cabo Negro à entrada de Tombua (antiga Porto Alexandre), e em 1485 ainda outro no Cabo da Cruz (Cape Cross) na Namíbia, cerca de 75 milhas a norte de Walvis Bay.

 

Nele está gravado:

 

Era da criação do mundo de bjm bjc lxxxb e de xpto de IIIclxxxb o eycelente esclarecido Rei dom Jº s.º de Portugal mandou descobrir esta terra

e poer este padram por dº cão cavº de sua casa.

 

 

Quatrocentos anos mais tarde, os alemães, depois de terem sediado o famoso festim da repartição do bolo chamado “África”, sem nunca terem tido colónias, foram contemplados com generosas fatias: Tanganica, Togo, Camarões e Sudoeste Africano, hoje Namíbia, e aqui encontraram o Padrão, coisa para eles desconhecida.

 

Logo o arrancaram (roubaram) e mandaram “de presente” ao Kaiser, que o guardou num museu.

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O Padrão original, hoje no Institut fur Deutsche Geschichte, Berlim

 

Para o substituir, Bismark teve uma ideia de génio: mandou um outro, com dizeres ligeiramente diferentes, em alemão dizendo mais ou menos: “por este meio tomava posse daquela região africana”...

 

Hoje em Cape Cross estão duas cópias do padrão original português.

 

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Padrão em Cape Cross, com a inscrição original traduzida e gravada numa rocha

 

Jamais os alemães devolveram o padrão e, em 1998 a Namíbia pediu ao governo alemão que o emprestasse para a Expo-98, as Comemorações do quinto Centenário dos Descobrimentos, em Portugal, o que foi negado.

 

Através da história os alemães têm roubado preciosidades por todo o mundo: Egipto, Mesopotâmia, Grécia, etc. E roubaram o quanto puderam.

 

Na II Guerra invadiram um monte de países, entre eles a Grécia, onde morreram mais de 300.000 pessoas.

 

Na Conferência de Potsdam, no fim da Guerra, os “aliados” estimaram as suas perdas em 200 bilhões de dólares. Após insistências das forças ocidentais (excluíndo a URSS), a Alemanha foi obrigada apenas ao pagamento de 20 bilhões, em propriedades, produtos industriais e força de trabalho. Mas... esqueceram da Grécia, que até hoje reclama indemnizações e devolução de preciosidades, sem que qualquer Merkel da vida lhes dê ouvidos.

 

E agora querem que paguem os “empréstimos” que os forçaram a aceitar quando entraram para a UE.

 

Muito mais devem ter também roubado a Inglaterra e a França, enchendo os seus museus com maravilhas e deles tirando proveito cultural e financeiro, aparecendo os gregos, neste contexto, como o pobre a quem roubaram até o pão seco que ele conseguiu num saco do lixo.

 

É difícil calcular o valor das peças antigas em todos esses museus, mas admitindo que, por exemplo, o Louvre poria à venda a Venus de Milo ou a Vitória de Samotrácia, quanto o mundo museulógico se esgatanharia para as comprar? Quantos bilhões de dólares?

 

Vá lá que entretanto os ingleses devolveram para o Museu de Atenas uma das Cariátides. E o resto? Por exemplo as esculturas do Partenon?

 

Com tudo isto, razão têm os gregos de quererem que lhes seja feito um crédito relativo às indemnizações de guerra e aos roubos perpetrados através dos tempos.

Talvez ficasse com saldo positivo na sua imensa dívida!

 

Neste caso, a la française, “Je suis grego”!

 

Aliás, são de lá as origens da civilização ocidental, do conhecimento, mesmo sabendo que desde há muito a Grécia tem vindo a ser mal administrada. E muito espoliada.

 

02/07/2015

 

Francisco Gomes de AmorimFrancisco Gomes de Amorim

GATO ESCALDADO

 

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Diz-se que os portugueses são um povo desenrascado, mesmo ardiloso. Eu acho-o inteligente. E não só por tantas figuras gradas que ilustraram a sua língua, mas por muita acção específica com que, no embate das peripécias da sua história, já desde os tempos de  

Mumadona DiasMumadona - ainda nem se falava deles - soube sempre dar a  resposta, nas várias conjunturas, de acordo com o seu entendimento. Até mesmo (e sobretudo!) nas colonizações - que Isabel Moreira, no último programa da Barca do Inferno esta semana, considerou patetamente (patetas nunca faltam também, na história que os portugueses traçaram, e com o domínio da fêmea, que as três protagonistas da Barca quiseram focar em auto homenagem de satisfação, o nome (/substantivo) comum de dois, ou adjectivo uniforme, tornou-se extensivo àquela, dantes mais discreta, apesar da padeira de Aljubarrota e da D. Leonor das Misericórdias) – Isabel Moreira, dizia, definiu, patetamente, - pateticamente, também - a nossa colonização antiga como “linhas” no horizonte, ao contrário das bojudas colonizações praticadas pelos outros povos mais adultos do que nós. Prova do nosso raquitismo mental e moral, que, evidentemente, também não falta, tais observações de trafulhice empenhada, das menininhas e dos menininhos que, porque absorveram algumas leituras dos apóstolos da bondade e do radicalismo unilaterais se acham detentores das verdades absolutas, míopes para as realidades integrais.

 

Mas o povo português é inteligente. A última demonstração disso - para além das muitas que revelam as capacidades de usarem dinheiros alheios em proveito próprio – é esta de, num tal 25 de Abril, a governação ter singrado pela era de uma democracia libertária, que era o que estava a dar na altura, que trouxe para a ribalta nomes como Álvaro Cunhal, Soares, Spínola, Otelo, Vasco Gonçalves, Pinheiro de Azevedo, e outras figuras da nossa história moderna agitada, substituta da “paz podre” da história antiga, e o povo português aceitou esfuziante a cambalhota na orientação dos seus destinos que aparentemente os elevava. Mas as figuras rodaram, no carrossel do tempo, e o que se viu foi que, esperto ou inteligente como é, e cada vez mais experiente, o povo português já não vai tanto atrás dos dizeres dos muitos proponentes aos comandos do rectângulo nacional - acrescido das excrescências de pontos minúsculos oceânicos), para utilizar a linguagem geométrica da doutora Isabel Moreira. É isso que justifica as sondagens decrescentes a respeito do PS. Apesar do mau governo dos actuais em campo - que Vasco Pulido Valente, todavia, despreza, no seu artigo de 21/6, em contradição com o idêntico desprezo pelo aventureirismo das promessas de António Costa:

 

Os portugueses, como o pobre país que são, preferem acima de tudo a segurança”, diz Pulido Valente. Pinheiro de Azevedo, controlador e castiço, ordenava: “O povo é sereno”. “Inteligente é o que ele é, resumo eu em homenagem, respigando, na História, analogias enaltecedoras.

 

O artigo de Vasco Pulido Valente (Público, 21/06/2015):

 

O que Portugal não precisa

 

Parece que houve uma grande surpresa com a sondagem da Universidade Católica sobre o voto nas próximas legislativas. Sem razão.

Os portugueses, como o pobre país que são, preferem acima de tudo a segurança. Os partidos do governo vieram à frente não porque tivessem governado bem (governaram mal) ou porque tivessem resolvido os problemas do défice e da dívida (não resolveram) ou porque tivessem atenuado a miséria que a crise provocou (não atenuaram). O que eles fizeram ao fim de quatro anos foi dar ao homem da rua um certo sentimento de rotina e de paz. Como dizia Saint-Simon, durante a desastrosa guerra da sucessão espanhola, acabou por ser simplesmente dar a um povo exausto de miséria e de convulsões uma pequena esperança de paz.

Com erros pelo meio, o governo conseguiu instalar os portugueses numa resignação triste, em si mesma absolutamente inaceitável, mas que, pelo menos, não punha dia a dia o mundo de pantanas. Claro que o melodrama do Syriza ajudou bastante a este regresso à ordem do antigo regime. A irrupção na cena europeia de uma dezena de putativos revolucionários, que se manifestavam tirando a gravata e pedindo aos gritos coisas que toda a gente lhes recusava e a que de qualquer maneira não podiam apresentar o mais vago direito, dividiu Portugal em milhares de causas (muitas manifestamente justas), sem criar um movimento colectivo com objectivos claros, mas pelo contrário levando a suspeita lógica e sensata de que a realidade estabelecia ao desejo limites firmes.

Depois da catástrofe por que passou, o país não quer ser sujeito a uma nova experiência de engenharia financeira ou social, que nada lhe garante que possa emendar (se correr mal) ou parar a tempo (se não lhe convier). A oposição jura pelos planos que nos pretende aplicar. Só que esses planos são vastos demais, pormenorizados demais, dependentes demais de factores que a oposição não controla: e Portugal, embora frustrado e pobre, não precisa de aventuras. O PS talvez consiga ainda alguma gravidade burguesa e juntar à volta de Costa um grupo de indivíduos com um verdadeiro currículo de eficácia e prudência. Como hoje se exibe, nem lhe falta tirar a gravata ou armar um espalhafato por essas televisões. Já se percebeu do que a casa gasta.

 

Berta Brás.jpg Berta Brás

POEMA DE DOMINGO

Wie herrlich leuchtet Mir die Natur!

                 Poema Die Natur

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Johann Wolfgang von Goethe, 1749-1832 (*)

 

 

A Aurora veio da Noite escura

Trouxe com ela o Sol a brilhar.

As Andorinhas com o chilrear,

Acordaram o Poema n’altura.

 

Este gritou um sonoro bom dia,

Acordando a sua companheira.

A terna, lindíssima, Poesia!

O Dia iniciou a ladeira

 

Com destino ao juízo final.

O Poema beijou a Poesia

Com um gesto de intensa ternura,

A brindar a Natureza total.

 

Chegou ao fim este calmo Domingo.

E o chilrear partiu de mansinho,

À procura de um outro caminho.

Da chuva respeitosa nem um pingo…

 

Luís Santiago.jpgLuís Santiago

 

(*) Homenagem ao

Raimundo Serrão.jpgDr. Raimundo Serrão, meu Professor de Alemão do 6º e 7º ano do Liceu Nacional de Gil Vicente que me fez a oral de Alemão com este Poema de Goethe (Die Natur), cujos versos nunca mais esqueci

 

O JARDIM-ESCOLA DA POLÍTICA

 

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As crianças também acham que os pais são parvos, que acreditam em tudo o que elas dizem e não sabem quem esvaziou metade do frasco de Nutella.

 

A melhor forma de entender a política é observar as crianças. A coincidência entre os dois mundos é, no mínimo, interessante. As crianças gritam e choram quando não conseguem uma coisa, quando se ofendem ou quando se magoam. Querem sempre assistência e exigem que lhes demos razão mesmo quando não a têm. Só quando crescem é que aprendem a pedir desculpa ou a dar o braço a torcer. Confundem humilhação com franqueza. Também não gostam muito de explicações, de raciocínios complicados ou de grandes divagações. São práticas e, acima de tudo, são sensoriais.

 

Uma criança só pára quando lhe explicamos que não é mesmo não, sem mais delongas. Elas fazem muito barulho, mudam de tema com uma rapidez estonteante e prometem mundos e fundos a troco de um gelado. Também gostam de chutar os problemas mais complicados para a frente e só falam de coisas que entretêm. Quanto mais se exige a uma criança, mais ela foge, e quando lhes dizemos que a vida não é um mar de rosas, não se resume à televisão, a videojogos e a idas à praia, elas disfarçam e vão jogar à bola. 

 

Hoje em dia, a política também é assim. Ao contrário das telenovelas, que são para adultos, os telejornais são para crianças. É por isso que um dos meus filhos diz com todo o orgulho desde os seus cinco anos que só gosta de ver notícias e futebol: “Tem mais coisas e é mais giro.” Percebo-o. Desde as negociações com a Grécia aos vários debates políticos e à venda da TAP, a política é dominada pelo entretenimento, num estilo de concurso de talentos. O que está em causa no debate político é quem falou melhor, com mais estilo e convicção, e quem disse mais vezes “acabar com a austeridade”, “colocar as pessoas em primeiro lugar”, “apostar no crescimento” ou “reverter as políticas neoliberais”. 

 

As frases e as mensagens são simples e curtas. Têm de ser simples e curtas para não se perder muito tempo com elas. Se soa bem, está ganho; se soa mal e requer uma explicação mais detalhada, está tudo perdido. Sim, o Estado só lucrou 10 milhões com a venda da TAP. Além de ter despachado 1,1 mil milhões de dívida, mais outros 300 e tal milhões de passivo, mais o sufoco devido à falta de financiamento que a curto prazo levaria ao encerramento da empresa, etc. Baahh, já ninguém está a ouvir. Os 10 milhões colaram. Dez milhões é menos do que o contrato de Jorge Jesus. Logo, para o governo neoliberal e demoníaco, a TAP vale menos que Jorge Jesus. Os meus filhos discutem assim. 

 

Na política vive-se o dia de hoje, tal como vivem as crianças. Ontem foi há mil anos e amanhã logo se vê. Foi assim com a Grécia (já ninguém quer saber das promessas do Syriza) e é assim quando se discutem pensões, educação, segurança, etc. Em todos estes assuntos não há tema, há adversários. O objectivo é não dar o braço a torcer e muito menos fazer má figura. Temas incómodos e questões de princípio são coisas de crescidos, mas na política é tudo uma questão prática. A concorrência no horário nobre é feroz e o tempo dos eleitores é curto. 

 

As crianças também têm a particularidade de acharem que os pais são parvos, que acreditam em tudo o que elas dizem e que não sabem quem esvaziou metade do frasco de Nutella. Gostam de pensar que temos memória de peixe. Os políticos também desconfiam que os eleitores não estão muito atentos, que não percebem a origem dos 10 milhões de euros ou que o futuro da Grécia não tem nada a ver com a popularidade dos governantes gregos ou com a falta de popularidade dos governantes alemães. Os partidos de esquerda, que se multiplicaram nestes últimos meses, e o Partido Socialista, que esvaziou o frasco de Nutella, vivem alegremente neste jardim-escola político na esperança de que ninguém se aperceba da vertiginosa vacuidade do seu pensamento.

 

A única maneira de resolver este assunto, e de passarmos por estes meses sem traumas de maior gravidade, é enviarmos as nossas crianças a debater com os dirigentes de esquerda: perde quem amuar primeiro e quem não conseguir inventar chavões novos que incluam os termos austeridade, crescimento e neoliberal. O meu filho de sete anos pode ir debater com António Costa – e é muito mais giro que o líder socialista.

 

27 de Junho de 2015

Inês Teotónio Pereira.png Inês Teotónio Pereira

 

QUANDO AS AMIGAS CONVERSAM…

 

Crying in the sun

 

A minha amiga não me pareceu estar hoje no seu melhor. É certo que largou graças ao meu colar, que comprei por metade do preço, numa casa prestes a fechar e por isso em saldo, e cujo uso – do colar, está claro -  por inesperado, tive que justificar como servindo, não para disfarçar as engelhas do pescoço, mas para as aprimorar, embora a própria Catarina Martins realce melhor os seus traços juvenis com o colar aconchegador da nobreza dos seus ideais e dos seus olhos macios de tristeza acusatória. Escutadas, pois, as homenagens ao meu aspecto mais produzido, notei, todavia, o ar de circunspecção  da minha amiga e logo lhe perguntei se se devia ao estado de saúde da 

maria_barroso.jpgMaria Barroso a que a minha afectividade acrescentou o “coitadinha” da minha consideração lusíada pela figura sempre aprumada, tantos anos acompanhante dos eventos nacionais de marca, com os discursos protocolares dos seus saberes.

 

Mas a minha amiga, muito decisiva, não se comoveu, embora se percebesse a sua estima, e sem perder pitada do seu azedume contra as carências da organização nacional:

- Já cá não está a fazer nada. Fez uma vida sempre activa. E no dia em que a cabeça falhou, foi-se. Chegou a sua vez. Teve sorte, muita sorte. Ela está muito bem, sem dor. Parece que a não levaram logo ao hospital quando caiu, pois continuou a falar, mas também se entrasse pelo seu pé mandavam-na embora.

 

A minha irmã acrescentou que o marido parecia mais inseguro do que ela, mas que as quedas, nas nossas idades, são muito perigosas e a conversa rodou, na aridez das constatações da precariedade existencial, enquanto, no nosso compasso de espera na esplanada soalheira, enfiávamos os cafés domingueiros, enobrecidos pela torrada ou o bolo revitalizadores.

 

Outro assunto “macabro” trouxe  a minha irmã à baila, tendo lido numa revista sobre o polícia que escreveu o livro sobre a  Maddie – o Inspector

Gonçalo Amaral.jpg Gonçalo Amaral - em situação penosa, a justiça portuguesa condenando-o, subserviente à justiça inglesa.

- Aquele era da polícia. Foi corrido – começou a minha irmã.

- Não sei como é que o homem ainda não morreu – continuou a minha amiga, de revolta sempre afiada.

- Abandonado pela mulher, com depressão e diabetes… Proibiram o livro, só porque ele insinuou que os pais deviam conhecer o fim da filha… Mas essas coisas não se podem dizer, e bumba, é-se castigado.

- E o Estado não o ajuda? – lancei eu, que trouxe da infância as crenças ingénuas nas histórias de fadas.

- Nada. O homem está na maior miséria.

 

A minha amiga lembrou os bons padrinhos ingleses dos pais da Maddie e o rebaixamento do governo português, adepto da lei do mais forte.

- É por isso que eu detesto os ingleses, concluiu a minha irmã, sem rodeios, traduzindo velhos saberes de rancor histórico, dos tempos do 

William Carr Beresford.jpg  Beresford e do “mapa cor de rosa” das nossas humilhações.

Berta Brás 2.jpgBerta Brás

NOTÍCIAS ESCOLHIDAS

 

 

Zeitungen.png

 

 

DEZ MIL CÃES COMIDOS EM DOIS DIAS NUMA CIDADE DA CHINA APELO DE UM GATO ARREPENDIDO

Na China, todos os anos se realiza o Festival da Carne de Cão. Na festa realizada na cidade de Yulin de 21 a 22.06, terão sido consumidos 10.000 cães, segundo informam os meios de comunicação chineses.

Na China é tradição comerem-se cães e gatos, entre nós é tradição comerem-se porcos e vacas. Para amargura dos animais, cada tradição defende as suas desmoderadas predilecções!

Na minha consciência de gato humano, atrever-me-ia a fazer um apelo a todos os carnívoros: reduzam o consumo da carne a metade da ração semanal. Só assim poderemos contribuir contra o tratamento indigno de animais, diminuir o seu sofrimento e reduzir também a discriminação dos animais. AJ

 

NA ALEMANHA O NEGÓCIO COM A EUTANÁSIA É TABU

O Parlamento Federal alemão discute em primeira leitura a 2 de Julho quatro projectos de lei sobre a eutanásia para que ainda em 2015 seja possível uma lei sobre o tratamento de pacientes em estado terminal. Os projectos de lei vão da liberação da eutanásia desde que não se torne negócio, a um suicídio com assistência médica, até uma proibição da eutanásia. A Ordem dos Médicos alemã revela-se, com 80% dos médicos contra a eutanásia. O seu presidente disse na ARD-Morgenmagazin: “Não se deve morrer através das mãos do médico, mas ser acompanhado pela mão do médico na morte”. O negócio com a eutanásia floresce no estrangeiro causando o turismo da morte em países vizinhos. Situações conflituosas não deveriam porém ser criminalizadas. AJ

 

UNIÃO EUROPEIA OFERECE MILHARES DE MILHÕES DE EUROS PARA INTERNET RÁPIDA

A Comissão Europeia coloca imensos dinheiros à disposição na EU para a expansão da Internet de banda larga.

A Alemanha que tem bons peritos em questões de aplicações de dinheiros da EU conseguiu da Comissão a homologação de um apoio de três mil milhões de Euros para a expansão da banda larga na Alemanha.

Estes auxílios financeiros concedidos pela União Europeia podem ser requeridos por prestadores de serviços privados e por municípios. AJ

 

REFORMA DAS DIRETRIZES EUROPEIAS PARA PROTECÇÃO DE DADOS NA INTERNET

O fortalecimento da protecção de dados na Internet está em discussão avançada no parlamento europeu.

A espionagem americana e de outras instituições levaram a política a prosseguir esforços iniciativos relativamente à defesa da privacidade pessoal quanto a dados que lhe digam respeito incluindo o direito de esquecer por parte das tecnologias de informação.

A defesa da esfera privada deve obedecer a padrões mais elevados e iguais nos 28 países da EU. Será securitizado o direito a esquecer. Assim, o cidadão passa a ter o direito a apagar dados e fotos sobre a sua vida profissional e privada. O tratamento posterior de dados deve ser expressamente permitido pelos usuários. Deste modo impede-se a comercialização de dados dos utentes do Facebook que o pretendam. Muitos utilizadores dos motores de Internet viam-se perturbados com a recepção de e-mails e por vezes surpreendiam-se, no caso de candidatura para um lugar de trabalho, pelo facto de o entrevistador já ter informações sobre ele. Este abuso será dificultado com a nova legislação em via. No caso de circularem dados expressamente não permitidos, o utilizador pode reclamar. O parceiro de contacto para a reclamação é a Comissão Nacional de Protecção de Dados Pessoais Informatizados (CNPDPI) que está situada na Rua de São Bento n.º 148-3º 1200-821 Lisboa – Tel: +351 213928400 - e-mail: geral@cnpd.pt. AJ

 

PORTUGAL NUM DIA DE VERÃO FRIO NA ALEMANHA

Portugal é Norte e Sul, é mar e povo, é sol e vento, é rosmaninho com cheirinho a liberdade. Portugal das lanternas que deixam o desejo de liberdade na dança escorregadia do povo na calçada. Meu Portugal do coração, tu és grande porque ocultas em ti o mundo inteiro.

Hoje (22.06), aqui na Alemanha, liguei o aquecimento para também sentir um pouco de Portugal! AJ

 

O QUE A UNIÃO EUROPEIA PRECISA É DE UMA ECONOMIA PACÍFICA!

O que a UE precisa é de subsidiariedade social, fomento do federalismo, autogestão, distribuição das centrais das multinacionais pelos diferentes países e política económica pacífica não deixando transformar o Parlamento Europeu nem a Comissão Europeia em centos estratégicos de propaganda ideológica e de poder dos lóbis.

Enquanto se não criar um imposto de solidariedade em toda a Europa para apoiar as economias mais fracas deveria ser interrompida a política de austeridade imposta aos mais fracos. AJ

 

VIOLÊNCIA SEXUAL EM JARDIM INFANTIL – ONDE AS CRIANÇAS JÁ CHEGAM

Segundo informações do bispado de Mogúncia houve, entre as crianças de um jardim-de-infância de Mainz-Weisenau, violências sexuais graves, violência, extorsão e numa criança até ferimentos nas partes sexuais. Quase todas as 55 crianças foram afectadas; as crianças eram obrigadas a mostrar as partes sexuais e deixar-se bater e introduziam objectos no ânus, sendo ameaçadas de morte, se não se envolvessem nos jogos. Todo o pessoal empregado foi despedido por ter falhado nas suas funções de supervisão e o jardim infantil foi encerrado até Setembro. As queixas apresentadas pelos pais causaram grande espanto e consternação no bispado.

Os especialistas em psicologia partem do princípio que as crianças para chegarem a tal comportamento terão visto filmes pornográficos ou terão feito experiências de abuso.

Crianças precisam de uma protecção especial. Não devem ter acesso à Internet e no caso de o terem não deveria ser sem um certo controlo. Os resultados tornar-se-ão desastrosos para as próximas gerações. Embora a política da EU, por razões ideológicas e para conseguir a introdução de novos códigos morais, use e abuse da regulamentação da educação sexual nas escolas, isto não deve constituir motivo para abandonar as crianças a si mesmas. AJ

 

CURANDEIRO/VIDENTE CONDENADO A TRÊS ANOS DE PRISÃO POR VER DEMAIS

Na Alemanha, em Kassel um feiticeiro/mago auto proclamado foi condenado pelo tribunal a três anos de prisão por agiotagem em 28 casos. O curandeiro, de 66 anos, entre 2000 e 2009, conseguiu receber de uma só senhora 680.000 euros por cartomancia, acender velas e por actos de círculos de protecção com incenso e rituais de obstruções de sepulturas. Como havia perigo de fuga o juiz decretou prisão imediata.

Todo o curandeiro que, para poder detectar o futuro, problemas ou doenças de pessoas, leve dinheiro é sinal de aldrabice. De facto o dinheiro turba o espírito e não deixa ver longe! AJ

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 António da Cunha Duarte Justo

UBERABA – MINAS GERAIS – 2

 

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 Um pouco da história do Zebu no Brasil

 

Fico muito recompensado quando alguém comenta ou esclarece o que escrevo. Sempre uma oportunidade de aprender mais e divulgar assuntos que se não interessam à maioria dos leitores, sendo história do que quer que seja, é sempre válida.

 

De um amigo, agrónomo, recebi o seguinte comentário:

 

Meu caro

 

Como eu tenho quase trinta anos de Uberaba (agora vivo, aposentado, em Portugal) e sou cidadão honorário, adorei ler as tuas observações que me trouxeram boas recordações... mas gostaria de te fazer uma observação cá da minha profissão e experiência. Vou procurar ser sucinto – e desculpa não saber descrever com a beleza da tua caneta. (gentileza do amigo!)

 

A estória do Zebu tal como te foi apresentada pelo La Roque (Nota: Não foi o meu parente La Rocque que me falou dos zebus, mas...) é pura fantasia dos uberabenses originada pelos descendentes dos tugas (leia-se “portugas”!) na maioria para não falarem a verdade, não pode ter fundamento real tal como é contada e descrita.

 

As Naus quando vinham da Índia traziam zebus indianos e africanos. As naus que vinham de África traziam zebus africanos... e muitas expedições no regresso dos orientes deixaram animais pelo litoral de aí... como deixaram na região do Cabo e em Cabo Verde.

 

Os antigos colonos tugas e outros europeus nunca acharam que o Zebu fosse boi... sempre preferiam criar o bovino europeu. O zebu era mais para o lado das cabras; mas os Jesuítas e Engenheiros Militares que passaram pela Índia e Cabo Verde e fizeram depois comissão no Brasil, sabiam das vantagens do zebu e azebuados.

 

Quando o comboio chegou ao Rio Grande e os comerciantes de Uberaba que levavam carretas de mercadorias com bois azebuados (sobretudo de África) ao Tocantins e Campo Grande e acima, se aperceberam que levavam menos tempo e morriam menos naquelas grandes distancias que os bovinos exclusivamente europeus.

 

Foi nessa observação que um grupo de corajosos comerciantes se decidiu ir à Índia comprar reprodutores corpulentos para puxar e obter descendentes para ir e voltar com menos tempo e menos perdas. Alguém do grupo estaria bem informado das questões climáticas que já eram discutidas na Inglaterra e Bélgica na 2ª metade do século XIX, mas claro, posteriormente não quiseram dar o braço a torcer sobre a origem deixada pelos navegadores tugas pelo menos mais de dois séculos antes, e inventaram estórias sem pés nem cabeça, como o naufrágio de um Circo, importação de Jardim Zoológico e outras patranhas sem pés nem cabeça, claro que a "malta " nem se apercebe das fantasias originadas por contadores de estórias (comerciantes mentirosos natos).

 

Tudo começou com a chegada do trem ao Rio Grande e quando transportar mercadorias de Uberaba para Goiás e Mato Grosso foi um excelente negócio, depois claro vem a ousadia e sabedoria fazer bem como fizeram, de seleccionar e etc. e, claro que com os azebuados ganhavam muito mais "massa" (leia-se “grana”).

 

No site abaixo encontramos outra fonte de muito interesse:

http://stravaganzastravaganza.blogspot.com.br/2011/02/as-importacoes-brasileiras-de-racas_25.html

 

O primeiro registro de entrada de zebuínos no Brasil foi em 1813, quando um casal de bovinos, oriundo da costa do Malabar na Índia foi desembarcado no porto de Salvador. Embora estudiosos especulem que os primeiros bovinos que chegaram a São Vicente em 1534, foram mestiços com algum sangue de Zebu.

Mais tarde, da África vieram em 1826, dezenas de animais da região do Nilo e entre 1810 e 1890 do Senegal, do Congo e da Nigéria. Do Madagáscar também vieram animais em 1891. Infelizmente não foram deixados registros sobre a identificação das raças dessas importações.

 

Em 1868, um navio inglês descarregou um casal de zebuínos em Salvador e o puseram à venda. Não se sabe quem adquiriu e o que aconteceu com ele.

 

Em 1870, o 1º barão de Duas Barras, importou um touro Guzerá para a sua fazenda de Cantagalo, na província do Rio de Janeiro.

 

No início, os zebuínos eram animais exóticos e adquiridos dos zoológicos europeus.

Em 1874, o barão do Paraná, importou um touro e uma vaca da raça Ongole (Nelore) do jardim zoológico de Londres. Fez outra aquisição da mesma raça do mesmo local em 1877.

 

No ano de 1878, outro fazendeiro comprou um lote de zebuínos Nelore da ‘Casa Hagenbeck’ de Stellingen, Alemanha, que levou para a sua fazenda de Sapucaia (RJ), onde sobre controlo científico iniciou o aperfeiçoamento da raça. Na década de 1940, um outro criador adquiriu alguns animais e continuou o seu trabalho de aperfeiçoamento.

 

Outras empresas foram envolvidas na importação de gado da Índia, como a ‘Friburgo & Filhos’, sedeada no Rio de Janeiro, importantes fazendeiros de café. A ‘Crashley & Co’, de capital inglês, também se envolvia no agenciamento de importações de zebuínos.

 

Porém, uma das empresas mais actuantes foi a ‘Hopkins, Causer & Hopkins’ de Birmingham, Inglaterra, que tinha filiais no Rio de Janeiro, São Paulo e Juiz de Fora (MG), que efectuou muitas importações entre 1908 e 1910, a maior quantidade para o governo de Minas Gerais. Importante também foi a ‘Casa Arens’, sedeada no Rio de Janeiro e com filial em São Paulo.

 

Nas décadas de 1910 e 1920, começaram as importações directamente da Índia. Estas importações foram realizadas através das casas especializadas em animais do Rio de Janeiro e por famílias de origem alemã do interior do Rio de Janeiro, principalmente do município de Cantagalo. Os primeiros animais eram da raça Ongole, que ficou entre nós conhecida como Nelore. A razão do nome é que os brasileiros compravam os melhores animais da raça Ongole e usavam a província de Nelore como local de embarque dos animais para o Brasil. A partir destes primeiros animais foram povoados os Estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia.

Nas primeiras décadas do século XX, embora tenha aumentando o número de criadores, os plantéis ainda eram pequenos e aos seus proprietários, não tão prósperos, faltavam fundos até para substituir os reprodutores que envelhecessem. Queriam melhorar, porém, não tinham incentivos do governo e nem oportunidades comerciais.

 

Pelas estimativas, da Índia podem ter vindo 6.000 cabeças de bovinos das raças Kankrej (Guzerá), Ongole (Nelore), Gir, Sindhi, Kangayan, Mysore, Malvi, Hissar, Tharparkar, Krishna Valley, Mehwaty, Deangi e Deoni. Apenas as quatro primeiras raças prosperaram e produziram descendentes, Das outras, os rebanhos existentes eram pequenos ou desapareceram.

 

Em 1920 o Governo Federal decidiu suspender temporariamente a importação de gado Zebu de origem indiana, até que ficasse completamente comprovada a inexistência de epizootias no gado importado, o que era comum no país de origem.

 

Só em 1962 foi oficialmente sustada essa proibição, porém todos os animais importados deviam permanecer em quarentena de 8 meses na ilha de Fernando de Noronha, chamados na época de ‘lazaretos’ para ficar sendo monitorado, nos mesmos moldes do sistema adoptado pelos Estados Unidos.

 

Naquela época, havia no Brasil uma notada resistência em aceitar o gado zebuíno. Um relatório do Ministério da Agricultura reconhecia que o gado zebuíno em geral, fornecia mais carne do que o de outras raças, porém a carne não era tão ‘boa’. O governo brasileiro solicitou então, informações oficiais ao governo dos Estados Unidos sobre a qualidade do gado Zebu, que também estava sendo importado pelo país. Em resposta, numa carta datada de 14 de Fevereiro de 1920, o chefe do sector de Zootecnia dos Estados Unidos, informava que o gado zebuíno teve um grande desenvolvimento nos últimos três anos, principalmente na região do Texas. Observou que o gado era muito mais resistente à seca do que o gado europeu.

 

O médico e filósofo positivista Luís Pereira Barreto em diversos artigos publicados no jornal ‘O Estado de S. Paulo’ entre os anos de 1917 e 1921, desancava a raça. Dizia que o Zebu era ‘selvagem, impossível de domesticar’, que ‘a carne tem catinga’ e ainda que ‘os europeus só a comeram durante a guerra porque tinham fome’. Os fazendeiros mineiros eram chamados de ‘boiadeiros e não criadores’, ‘levianos’ e ‘velhacos’, ‘verdadeiros passadores de notas fiscais’. Muitos cientistas e políticos aderiram à causa, defendendo a raça Caracu como a ideal para o Brasil.

 

Os criadores de Zebu mineiros não ficaram preocupados com a veemência dos artigos do médico. Um velho fazendeiro do Triângulo Mineiro, disse: ‘Nesta região deveria ser erguido um monumento a Pereira Barreto porque sua campanha impediu que os campos paulistas se enchessem do gado Zebu, trazendo riqueza ao Triângulo, que passou a abastecer os frigoríficos paulistas. ’

 

Novamente em 2007, dessa vez foram os irlandeses que incomodados com a posição brasileira no mercado mundial de carne, decidiram levantar uma polémica. Membros da ‘Associação dos Fazendeiros Irlandeses’ alegaram que a ‘carne bovina’ produzida no Brasil e exportada para a Europa não seria a ‘autêntica carne bovina, mas um produto híbrido, resultado de um cruzamento de boi com búfalo’. Os produtores e governo brasileiros demonstraram a falácia dos irlandeses.

 

A carne do Zebu é a mais adequada para a produção de um tradicional produto italiano, a ‘bresaola’ que é preparada de carne bovina seca bem magra, curada no sal por 10 dias e curtida no Sol e vento por quatro semanas. É um produto típico da região da Valtellina, no norte da Itália. A carne do Zebu brasileiro é a mais adequada para fazer ‘bresaola’. As carnes do gado europeu são gordas demais e ‘marmorizadas’ e não agradam aos exigentes consumidores.

 

Em 1939, foi importada uma dezena de animais da raça Africânder dos Estados Unidos, sendo que os animais eram provenientes da África do Sul.

 

Na década de 1990, foi iniciada a importação de animais da raça Brahman dos Estados Unidos, o que é uma raça bem parecida com o Tabapuã. Até 1994 a raça Brahman esteve legalmente impedida de entrar no Brasil. A liberação veio num esforço conjunto de três criadores e duas maiores entidades encarregadas de promover as raças zebuínas no mundo, a ABCZ e a ABBA. Os primeiros animais chegaram por via aérea no dia 17 de Março de 1994. Vieram 18 animais. etc.”

 

Enfim, uma história interessante, de que se podem tirar várias:

 

1.- É assim que o Brasil cresce, muitas vezes – Graças a Deus – à revelia de governos ineptos e inaptos, como o actual, fruto da força, entusiasmo e dedicação de trabalhadores, empresários e do povo em geral, num país ainda jovem e cheio de promessas e reservas para o futuro;

 

2.- Não há dúvida é que a carne dos zebuínos é tão boa que o Brasil assumiu a liderança mundial nas exportações, com um quinto da carne comercializada internacionalmente e vendas em mais de 180 países.

 

3.- No Brasil o agronegócio é um dos pilares que mantém a máquina do Estado! O valor bruto da produção de leite e carne ultrapassa R$ 70 bilhões!

 

Quem quiser saber tudo direitinho sobre a história dos zebus no Brasil, procure; tem muito livros bons sobre o assunto.

 

Por fim, esqueci de assinalar no texto anterior sobre Uberaba, um importante detalhe: regressei daquela terra, carregando além do desejo de ali voltar, umas garrafas de óptima “pinga minêra” que... é uma delícia!

 

Melhor ainda tomada enquanto se discute a história dos zebus no Brasil. Aliás... em qualquer ocasião!

 

Tchim, tchim! Bota abaixo.

 

Francisco Gomes de Amorim, Junho 2013, Lisboa.jpg 

Francisco Gomes de Amorim

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