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A bem da Nação

FABULÁRIO DE FÉRIAS – 2

 

Uma de dentes

 

Retomo o tema anterior

Sobre o hábito da crítica

Desta vez com uma fábula

De La Fontaine

Embora imitada

De Esopo e de Fedro.

É dirigida aos zoilos

Ferrenhos

Sempre prontos a denegrir

(- Ou a ignorar,

O que é bem pior

Segundo o meu parecer –)

Os que, não sendo da mesma confraria

Seguem o próprio caminho

Com energia,

Sem pedir licença

Ao vizinho.

Assim, La Fontaine se entretém

Contra a tal crítica dos zoilos

Como o nosso Garrett também faria

No seu «Ignoto Deo» de excelsa memória

Onde ele informa que o Poeta vai

Onde ninguém mais vai ou foi,

Cheio de reivindicações

De genialidade

E de explicitações

De originalidade,

Como se pode sempre na obra ler

De tão excelso escritor.

Conta, pois, La Fontaine,

A fábula da serpente

Que mata o seu voraz apetite

Roendo uma lima dura

À falta de melhor comida,

A qual só lhe partiria um dente

Sem outro grave incidente

- (Como os da Nau Catrineta

Que também Garrett cita) -

Segundo o sagaz fabulista

Às críticas indiferente:

 

serpente_e_a_lima.gif

 

«A Serpente e a Lima»

 

«Conta-se que havia uma Serpente

Vizinha de um Relojoeiro

- Má vizinhança, naturalmente –

Entrou na relojoaria,

Procurando por comida,

Meio espavorida.

Não encontrou para comer

Mais do que uma lima de ferro

Que logo tentou roer

- (Pior que as solas de molho,

Nem há que ver!) –

Sem se encolerizar

Esta Lima assim falou:

«- Pobre ignorante!

Que achas que estás a fazer?

Contra um mais forte do que tu

Só te estás a meter!

Pequena serpente de cabeça tonta

Antes que de mim levasses

A quarta parte dum óbolo

- (Peso que a quaisquer dez grãos

É correspondente

Leio na Internet) -

Partirias os teus

Dentes todos.

Ora eu só receio

Os dentes do tempo.»

 

Vê-se bem que La Fontaine

Estava escamado,

Que é como quem diz, irado,

Contra qualquer crítico

Dos de muito afã,

De muita veia,

Que às vezes até vêm

Com pezinhos de lã

Deitando abaixo,

Sem consideração,

Qualquer boa reputação.

Mas a fábula tem aplicação,

Ontem, hoje e amanhã

 

Berta Brás 2.jpgBerta Brás 2.jpgBerta Brás

ASSIM DANÇA ZORBA - 8

 

greece_bailout.jpg

 

Grandes vergonhas que a Europa deixou a Grécia alcançar e que esta se recusa a reconhecer.

  1. Subornos e evasão fiscal

 

A Grécia também se destaca a nível europeu por liderar todos os indicadores de evasão fiscal.

 

Antes da crise, um em cada quatro (25%) trabalhadores não pagava impostos, de modo que o Tesouro público deixava de arrecadar anualmente entre 15.000 a 20.000 M€!!!  

 

Prova disso é que, antes da crise, numa população tributária total de quase 12 milhões, pelo menos uns 5.000 contribuintes gregos reconheciam abertamente que cobravam mais de 100.000 €/ano, mas que não pagavam impostos.   Lewis[1] explica no seu livro que dois terços dos médicos privados não pagam um único euro de impostos e declaravam uma receita menor que 12.000 €/ano, que era o limite mínimo para começarem a ser tributados.

 

Além disso, o suborno está na ordem do dia.   Alguns estudos indicam que os gregos gastam cerca de 800 M€/ano em subornos para evitar multas ou para que os funcionários (incluindo muitos inspectores fiscais) fechem os olhos às suas obrigações. Para dar apenas um exemplo, o Ministério das Finanças demitiu, há poucos anos atrás, 70 colaboradores que tinham património ou activos imobiliários de 1,2 milhões, quando o seu salário não excedia os 50.000 €.

 

Outro facto marcante é que a proporção de trabalhadores por conta própria na Grécia também é dos mais elevados da UE e não porque os gregos sejam particularmente empreendedores, mas pela extrema facilidade em ocultar rendimentos ao Fisco.

 

Como se isso não bastasse, em anos eleitorais (tal como aconteceu em 2009), a receita cai muito substancialmente (até 30%), independentemente da forma como evolui o PIB, já que os políticos, especialmente a nível local, costumam prometer o perdão do pagamento de impostos como forma de comprar votos.

 

 

(continua)

 

Recebido por e-mail; Autor não identificado

 

 

[1] - Michael Lewis, no seu livro Boomerang “Viagens para o novo terceiro mundo europeu” (publicado pela Deusto)

EFEMÉRIDE

 

 

24 DE JULHO DE 1833

 

Vindas dos Açores e desembarcadas no Mindelo, as forças liberais entrincheiraram-se no Porto dando os miguelistas início ao duro e prolongado Cerco da cidade. Mas, conseguindo furar o bloqueio naval da barra do Douro, uma frota liberal fez-se ao mar e seguiu até ao Algarve onde defrontou uma esquadra miguelista que rapidamente se entregou.

 

 

Batalha Naval no Cabo de S. Vicente, 5 de Julho de 1833

 

Feitas as pazes localmente, as forças liberais e miguelistas uniram-se em Cacela (hoje, Cacela Velha) sob o comando do Marechal Duque da Terceira que rumou a Lisboa não mais pelo mar mas sim por terra ludibriando o bloqueio que os miguelistas faziam da barra do Tejo.

 

Chegados a Cacilhas, atravessaram o Tejo em todos os barcos, pequenos e grandes, que encontraram e desembarcaram em Lisboa no dia 24 de Julho tomando a cidade que se entregou sem resistência.

 

 Henrique Salles da Fonseca

UM TSIPRAS ALTERNATIVO

 

 

 

Numa profunda crise, que mudou o panorama político, chegou à chefia do governo um pequeno movimento da extrema-esquerda. O executivo durou meses, mas o primeiro-ministro, entretanto expulso do partido que fundara, lideraria durante anos um governo de unidade nacional apoiado pela direita. Alexis Tsipras na Grécia actual? Não, Ramsay MacDonald na Grã-Bretanha há mais de 80 anos.

Ramsay_MacDonald.jpg

 

Temos sempre a sensação de viver situações inéditas e dramáticas, mas, apesar das inevitáveis diferenças, os paralelos históricos ajudam a entender a realidade e, sobretudo, evitar pânicos e acalmar nervosismos.

 

A Grécia vive situação trágica, com desemprego de 27% e queda acumulada do produto acima de 25%. Apesar de devastadora, a conjuntura é muito melhor do que aquela que a generalidade dos países europeus sofria há cem anos. Hoje, no tempo dos telemóveis e das redes sociais, fazemos um drama por coisas que não impressionariam os nossos bisavôs. O mundo acabava de sair da Grande Guerra, o confronto mais mortífero de que havia memória. A confusão era geral na Europa, com reviravoltas no espectro político. Até na sofisticada Albion os acontecimentos ofuscam a presente situação helénica.

 

O Parlamento britânico era há décadas dominado estavelmente por dois grandes partidos, Conservador (torie) e Liberal (whig). Logo nas eleições de 14 de Dezembro de 1918 ganhou notoriedade uma formação extremista ligada aos sindicatos, o pequeno Partido Trabalhista (labour). Fundado em 1900, nunca atingira os 8% dos votos até, inesperadamente, saltar em 1918 para 20,9% e 30,5% em 1923. Esta evolução é muito mais rápida e expressiva do que a ascensão de qualquer dos extremistas actuais, que tanto tem excitado os nossos analistas. Por exemplo, a assustadora Frente Nacional francesa de Marine Le Pen teve 13,6% nas últimas legislativas, em 2012; o Syriza chegou ao poder na Grécia em 2014 com apenas 26,6% e o UK Independence Party, alegadamente revolucionário, só conseguiu 12,6% nas eleições gerais britânicas de Maio.

 

O sucesso trabalhista no pós-Primeira Guerra não foi pontual. Nessas eleições, de 6 de Dezembro de 1923, a formação ultrapassou o Partido Liberal para se afirmar definitivamente como uma das duas grandes forças políticas nacionais. Nascia há 92 anos o quadro que agora se diz ameaçado.

 

Embora eleitoralmente atrás dos conservadores, os trabalhistas chefiaram então um executivo efémero e minoritário, de Janeiro a Novembro de 1924. O lugar de primeiro-ministro coube ao seu fundador, e líder desde 1922, James Ramsay MacDonald (1866-1937), inexperiente em funções executivas. O choque foi enorme, muito mais inesperado e perturbador do que qualquer coisa que hoje se veja na Europa. Operários a pisar os tapetes de Whitehall e Buckingham Palace era inconcebível!

 

A experiência foi curta, mas exorcizou fantasmas no Parlamento, no eleitorado e nos próprios trabalhistas. Nada como uma experiência de poder para incutir pragmatismo e bom senso político. Afinal, e apesar da retórica inflamada, os trabalhistas eram seres humanos como os outros, políticos normais que lidavam com os graves problemas nacionais como eles eram.

 

Cinco anos depois, a 29 de Junho de 1929, de novo em segundo lugar com 37% dos votos, o partido voltaria a formar governo minoritário, de novo com MacDonald à cabeça. Só que logo após o Verão dava-se o crash da bolsa e começava a Grande Depressão. O executivo esquerdista viu-se na necessidade de aplicar forte austeridade, extremamente controversa mesmo na equipa ministerial. Como na época não havia ajuda externa, a Grã-Bretanha suportou aquilo que os gregos hoje nem imaginam.

 

A contestação acabou por conduzir à demissão do governo em Agosto de 1931. Mas, a pedido do rei, MacDonald aceitou chefiar um gabinete de unidade nacional, com conservadores e liberais, que o manteria no poder de 24 de Agosto de 1931 a 7 de Junho de 1935. Acusado de traição pelos correligionários (como Tsipras, após o acordo com a UE), MacDonald seria expulso do seu partido, a 26 de Setembro, dias depois de tomar posse. O resultado foi a cisão dos trabalhistas, com o político a formar e liderar o seu segundo partido, o National Labour, dissolvido em 1945, dez anos após o fim do executivo e oito após a morte de MacDonald.

 

A lição desta comparação não é que os extremistas não são perigosos. Por essa altura, Adolf Hitler chegou ao poder com 33,1% nas eleições de 6 de Novembro de 1932. É antes que nos momentos de crise, que acontecem a todos, a diferença vem da solidez do tecido cultural e social.

 

22 de Julho de 2015

 

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João César das Neves

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