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A bem da Nação

ASSIM DANÇA ZORBA - 7

Grécia e UE-2.jpg

 

Grandes vergonhas que a Europa deixou a Grécia alcançar e que esta se recusa a reconhecer.

 

  1. Reformas douradas

 

Até a eclosão da crise, os gregos poderiam aposentar-se com pouco mais de 61 anos, ganhando quase 96% do seu salário normal – um dos sistemas de pensões públicas mais generosos (mas não sustentáveis) da UE.

 

Mas, para além disso, também havia na Grécia cerca de 600 categorias de trabalho, que alegando razões de saúde, podiam eleger reformas antecipadas, estabelecidas em 50 anos para as mulheres e 55 para os homens.   Entre estes últimos beneficiários havia todo o tipo de profissões, desde barbeiros a trompetistas, flautistas, cozinheiros, massagistas e até mesmo apresentadores de televisão.

 

Precisamente por esta razão, os gregos desfrutavam da maior expectativa de vida após a aposentadoria, não porque eles vivessem mais tempo, mas porque se aposentavam muito cedo. Especificamente, enquanto a média da OCDE é de 18,5 anos após a aposentadoria (em Espanha é de 17,9), na Grécia a média é de 24 anos de vida pacífica após a aposentadoria, com base, isso sim, em empréstimos de quantidades crescentes de dinheiro que o Governo obtinha nos mercados, como dívida pública.

 

Além disso, o controle sobre a gestão das pensões era incrivelmente inexistente. Durante a crise, foram detectadas prestações de desemprego sem que os recebedores tivessem direito a tal e verificou-se que milhares (!) de famílias recebiam reformas embora os respectivos beneficiários e titulares já não fossem vivos há anos!

 

(continua)

 

Recebido por e-mail; Autor não identificado

 

FABULÁRIO DE FÉRIAS - 1

 

Deusa grega Momo

Momo, deusa grega

 

MOMICES

 

«Zeus, Prometeu, Atena e Momo»

 

Uma fábula de Esopo

Que me deu para traduzir

Em curta pausa de férias

Em vez de ler outras lérias

Tão sérias, Jesus, tão sérias!

É assim:

 

«Zeus, Prometeu e Atena

Tendo respectivamente criado

Um touro, um homem, uma casa,

Tomaram Momo por árbitro

Para que ela ajuizasse o valor

Das obras de cada um.

Invejosa e despeitada,

Momo declarou vivamente

Que Zeus fora desastrado

Senão mesmo estabanado

Ao não colocar os olhos

Nos cornos do touro,

Para que ele visse onde batia

Quando combatia.

A Prometeu condenou

Por o coração não ter posto

Do homem, na parte exterior

Do corpo,

Para o vício lhe impedir

De se dissimular

E assim patentear

Os vícios de cada um

No seu maior esplendor.

Concluiu

Que Atena deveria

Ter a sua moradia

Construído com patins

Para facilitar a mudança

Em caso de má vizinhança.

Indignado

Com tanto denegrimento

Zeus expulsou do Olimpo

Momo e o seu desbragamento

- E mesmo descaramento.

A fábula mostra com gana

Que ninguém nunca é tão perfeito

Que não dê azo à chicana.»

 

Foi isto que disse Esopo

Na fábula dos quatro deuses,

Deuses maiores ou menores

Sendo a Momo de menor topo

Mas não de menor topete.

Ainda hoje

Que vivemos em democracia

Verificamos

Diariamente

Que é dos seres inferiores

Na escala social

- Digo-o sem qualquer prevenção racista menos moral –

Que partem os falatórios

Provocatórios

Condenando os que governam,

- Quer governem bem ou mal -

De forma unilateral.

Parece-me bem bestial!

 

Berta Brás 2.jpgBerta Brás

SOLTAS (2) E DISPERSAS

 

 

1.- Já não sei que ano corria, mas seria no princípio do século XX. O rei Dom Carlos, em 1907 (?) visitou a Real Coudelaria de Ater do Chão e era diretor da mesma Cristiano Mendes Callado, creio que avô de quem mais tarde foi o diretor da Escola de Regentes Agrícolas de Évora, um Grande Homem, o Engenheiro Agrónomo Augusto de Matos Rosa, nascido naquela Vila, na altura com seis anos e quem me contou o episódio.

 

Sua majestade chegou numa viatura fantástica: um automóvel! Jamais havia sido visto naquelas bandas, semelhante meio de transporte. Seria talvez o que foi dele. Um Peugeot de 18 CV de 1905.

 

FGA-D. Carlos a guiar.jpg

 

Com o rei seguia a rainha Dona Amélia, motorista e ajudante. No regresso da visita à Coudelaria, o rei passou na casa do diretor da mesma para o deixar, e o menino Augusto entusiasmou-se de tal modo com o automóvel, que quis por força entrar nele. O rei, amável, como parece que sempre foi, pegou na criança, sentou-o entre ele e a rainha, e o carro seguiu em frente com a intenção de o deixarem um pouco adiante, na praça principal, para onde o pai seguia a pé. Uma distância de menos de duzentos metros!

O pequeno Augusto sentia-se como o Petit Prince, levado às alturas!

A rua onde moravam, numa bela casa, tinha no final – e ainda tem – uma curva muito apertada, fazendo um ângulo de quase noventa graus – e ainda me lembro que não era qualquer um que cinquenta anos depois se atrevia a passar ali de carro! – e o carro d’El-rei... não passou! Engasgou-se na curva, tiveram que vir braços extras para o colocarem para trás, e andando de ré foram até à porta do menino que ali foi deixado com imensíssimo desgosto!  A viagem fora demasiado curta!

Suas majestades recuaram um pouco mais e seguiram viagem por outra rua!

 

2.- Finalmente encontrei, aliás, tomei conhecimento do meu mais antigo antepassado!

Segundo grandes cientistas, o primeiro ser, não contando as amebas, mas aqueles onde já se encontrava algo como o DNA, os “famosos” eucariontes ou eucariotas, seriam os primeiros seres que deram toda a vida animal a este planeta.

Nunca fui muito fã destes eucariotas, porque me lembravam o Judas Escariotes, e era um peso na consciência ter um antepassado ligado a essa família, mesmo sendo isso há dezenas de milhões de anos, se não bilhões.

Agora, para meu sossego nova descoberta foi feita, e descobriram que os eucariontes são descendentes dos procariontes ou procariotas, de modo que a minha árvore genealógica ficou muito mais simpática.

Falta só descobrir como era a cara do vovô Procariontes!

Devia ser alguma coisa como o que aqui vai, mas sem o rabo que os macacos ficaram com ele. Ainda por cima era um “flagelo”! Mas que o DNA é igualzinho ao nosso... é.

 

FGA-procariontes.png

 

Mas agora, em plena idade da decrepitude, o médico – visita de rotina – receitou-me dois medicamentos que me vão proporcionar a eternidade!

Um deles, cujo preço é de extrema singeleza para a compreensão humana, anunciado pela farmácia na Internet é De: R$ 157,01 mas vendem por: R$ 22,99. Vejam só quando gentileza pública: 85,5% de desconto!

O outro é o autêntico elixir da vida eterna (Amén). Na sua composição entram: cera alba (cera de abelha) cera de carnaúba (com que se dá polimento a móveis e automóveis), dióxido de titânio (que é um pigmento para tintas ou para protetor solar), farinha de trigo (do padeiro), goma arábica (um dos componentes da Coca-Cola e o que eu usava em garoto para fixar o cabelo) laca vermelha (um corante tirado da cochonilha), muito outro lixo e talco (esteatita, um mineral filossilicato, com composição química Mg3Si4O10(OH)2, muito usado para pôr nas virilhas do bebés para não assar).

Com tal composição, além dumas inúteis vitaminas, isto só pode ser o elixir da longa vida!

Mas no Brasil é assim, descontos, sem que se peça alguma coisa, que vão a, pelo menos, 85,5% e mais um remedinho cheio de coisas para o deixar lustroso com as ceras, penteado com a goma e fresquinho com o talco.

Será que eu estou bem dos neurónios?

 

3.- A conquista do trono de Portugal pela coroa de Castela, começa em 1580 quando o rei Filipe II de Espanha manda um exército comandado pelo duque de Alba que entrou em Portugal em julho e rapidamente foi destroçando as forças portuguesas que se lhe opunham.

Em Cascais, no mês de agosto, venceu a guarnição portuguesa enforcando o comandante dela, D. Diogo de Meneses, além do alcaide Henrique Pereira e dois artilheiros. Depois de enforcado D. Diogo de Menezes foi degolado.

Em 1619, meio apagada já a lembrança das assolações e cruezas do Duque d’Alba, Filipe III (II de Portugal) decide visitar Portugal. Em 10 de Maio entrou em Elvas e mandou avisar que ao passar em Évora queria presenciar um Auto de Fé. Deram-lhe a ambicionada festa, que durou desde manhã ao pôr do sol, com cento e vinte penitenciados e doze criaturas queimadas vivas, quatro homens e oito mulheres. (Este Filipe não será o mesmo, com outro nome que comanda agora o ISIS?)

Em 29 de Julho fez a sua entrada solene em Lisboa e não pôde este monarca reprimir um grito, de admirado e surpreso ao contemplar as riquezas variadas que por todas as partes se lhe antolhavam. Haviam saído a recebe-lo as corporações dos mesteres ou ofícios e, circundando os arcos triunfais em cada rua levantados, achara reunidas as pompas do Oriente e do Novo Mundo. Registrou-lhe a história um dito, que a hombridade portuguesa fez depressa esquecer ao seu sucessor: “Só hoje sei o que é uma recepção real!”

Quando a corporação dos ourives desfilou em sua presença, não se contentaram os diretores da festa com adereçar de simbólicas imagens douradas o préstito; apresentaram ao frouxo herdeiro de Filipe II estátuas de prata maciça.

Durante toda a sua permanência em Portugal sempre mostrou a máxima indiferença pelos negócios públicos.

Depois desta visita ficaram ainda mais acentuados os desentendimentos entre Portugal e a Espanha.

 

4.- Um dos meus tios, casado com uma irmã de meu pai, aquele tio de quem todos mais gostávamos, gordo, sempre sorridente, simpático, nunca criando qualquer problema, para ele estava sempre tudo bem.

Impecável, o cabelo cheio de brilhantina, muito bem penteado e muito bem vestido, era um companheiro esplêndido.

Gostava do seu copo e, infelizmente bebia demais, o que o fez “ir-se embora” mais cedo. O seu vício era tal que um dos meus irmãos, seu afilhado, estava encarregado de providenciar para que o seu frasco de “água de colónia” no quarto de banho estivesse sempre cheio, para que a tia não percebesse; a água de colónia era gin, que ele começava a beber logo pela manhã!

Nós, os irmãos, que cedo ficámos sem pai, e nunca tínhamos um tostão furado, aos domingos, quando íamos almoçar em casa dos avós, aguardámos, impacientes a chegado do tio Chico!

- Quem quer fazer um favor ao tio, e ir comprar cigarros? Player’s Navy Cut.

 

FGA-Player's.jpg

 

Os mais velhos apresentavam-se em menos de um segundo! O tio dava-nos dez escudos e os cigarros, já não lembro bem mas custariam uns três ou quatro, e nós guardávamos o troco! Era a maneira que esse tio arranjava de, disfarçadamente, nos ir dando uns cobres!

Sempre trabalhou na empresa que, creio que até ao fim da II Guerra, representava a Peugeot e Packard, de modo que o tio Chico tinha sempre um Peugeot, um pexoxinho, como ele lhes chamava.

Muitas vezes, no verão, de Sintra para Lisboa lá ia o tio, só ou comigo ou o meu irmão, quando eu teria aí os meus dezoito anos. Volta e meia o carro engasgava-se, saía fumaça de algum lugar, o tio encostava na estrada, abria o capô, olhava para dentro com ar compenetrado e soltava o seu habitual científico veredito:

- Isto deve ser qualquer coisa. O melhor é chamar o mecânico!

E ali ficávamos à espera que alguém passasse e chamasse um mecânico na primeira povoação!

O seu mal foi o álcool. Mas era um indivíduo de coração imenso, afável, bem disposto, avesso a discussões e que adorava o seu Belenenses; o Belenensesinho!

Foram tristes os últimos dias da sua vida, mas está, de certeza lá em cima, num lugar tranquilo, em Paz.

 

06/2015

 

Francisco Gomes de Amorim

Francisco Gomes de Amorim

TRETAS #08

 

BES.png

 

BES, UMA HISTÓRIA MAL CONTADA (VII): WARUM?

 

  • Porquê? Porquê a decisão de acabar com o BES - um dos Bancos sistemicamente importantes do nosso país? A fulanização que tem envolvido o caso (ora diz Costa, ora diz Salgado, com outros a opinarem também), tão ao gosto português, só aumenta a confusão.

 

  • O caso do papel comercial do GES, por muito grave que fosse - e é grave, sem sombra de dúvida - não tinha dimensão financeira suficiente para deitar abaixo o Banco. Como tantos outros em que os Bancos “de cá” são habitualmente férteis, acabaria por passar despercebido, sem complicações de maior, nem mancha na reputação de ninguém, não fosse a decisão do BdP.

 

  • Seria que a constelação de empresas cuja gestão era controlada pelo BES (o GBES/Grupo BES, não confundir com GES), onde avultava o BESA, estava numa situação financeira de tal modo periclitante que arrastaria o Banco irremediavelmente, a qualquer momento?

 

  • Seria que a exposição ao GES (entre empréstimos, garantias e posições de carteira de títulos, entre Acções e Obrigações) excedia de tal maneira os Capitais Próprios do BES que o colapso do GES poria claramente em perigo o dinheiro depositado no Banco (e, recordo, proteger os depósitos bancários é a missão principal do BdP)?

 

  • Seria porque tudo isto, em conjunto, mais a (má) situação da economia portuguesa, mais a (periclitante) conjuntura na Zona Euro, punham a tesouraria do BES à beira da ruptura - mal se esgotasse a sua quota na liquidez que o BCE tem vindo a injectar?

 

  • Em resumo: seria o BES o elo mais fraco entre os 7 Bancos que, até 2014, sustentavam o sistema de pagamentos em Portugal (CGD, BCP, BES, BPI, BST, BANIF, CEMG)? Afinal, qual era a verdadeira situação financeira e patrimonial do BES quando lhe foi retirada a licença para operar?

 

  • Do BES e não do GBES (muito menos do GES), sublinho - para evitar as confusões que por aí correm. Criou-se a ideia, errada, de que só as Demonstrações Financeiras Consolidadas (no caso, do GBES) têm verdadeiro interesse para a supervisão prudencial.

 

  • [NOTA: As Demonstrações Financeiras Consolidadas comparam os Capitais Próprios do BES com o “deve” e “haver” do GBES, como um todo, relativamente a terceiros.]

 

  • Ora as contas consolidadas têm significado numa óptica de continuidade. Mas, ao eliminarem as posições cruzadas no interior do GBES, e ao presumirem que o BES cobriria toda e qualquer insuficiência de Capitais Próprios e/ou de tesouraria nas empresas que controlava, eram totalmente inapropriadas no cenário que estava em cima da mesa: o da liquidação (o caso BPN atingiu as proporções que se sabe por se ter controlado o trabalho da CGD a partir das contas consolidadas e não das contas individuais, como deveria ter sido feito).

 

  • Na verdade, as intervenções do BdP, por mais drásticas que sejam, têm por objectivo primordial manter íntegro o sistema de pagamentos e, por força disso, proteger a confiança legitima dos depositantes. No caso vertente, a confiança dos depositantes do BES, como é bem de ver - e não de qualquer outro Banco que integrasse o GBES. Era nas Demonstrações Financeiras Individuais do BES que estavam registados os depósitos que o BdP queria ver salvaguardados. São, pois, as Demonstrações Financeiras Individuais que estão na base dos comentários que se seguem.

 

  • Acontece que, ainda hoje, não vieram a lume as Demonstrações Financeiras Individuais do BES que teriam levado o BdP a tomar a decisão que tomou (no princípio de AGO2014).

 

  • Por sorte, o BCE procedeu, durante o 1º semestre de 2014, ao exame dos Balanços dos Bancos sistemicamente importantes na Zona Euro, para apurar (na óptica da continuidade) insuficiências de Capitais Próprios em cenário de esforço (AQR/Asset Quality Review).

 

  • Por azar, o BES já não consta do relatório que o BCE publicou a propósito, em OUT2014 (dele constam, apenas, a CGD, o BCP e o BPI; o BST foi avaliado no âmbito do Banco Santander Espanha; BANIF e CEMG não foram considerados sistemicamente importantes). Mas é plausível admitir que à decisão do BdP não terão sido estranhos os resultados a que o BCE terá chegado quanto ao BES - os quais nunca foram publicados. Ficou-se a saber, porém: (i) que um dos Bancos examinados teria de reforçar os seus Capitais Próprios (operação que, aliás, estava já em curso); (ii) que o sistema bancário português só era menos frágil que o de Chipre, sendo o pódio da fragilidade na Zona Euro completado pelos Bancos gregos. Algo que não abona por aí além a favor da competência do BdP, na última década.

 

  • A informação disponível mais recente sobre a situação financeira do BES resume-se, assim: (i) às Demonstrações Financeiras Individuais reportadas a 31DEZ2013 e respectiva certificação pelos Auditores Externos (KPMG); (ii) às opiniões conhecidas de entidades internacionalmente credíveis.

 

  • Nestas últimas são de destacar: (i) as notações de risco atribuídas à dívida emitida pelo BES (investment grade); (ii) a inclusão no Dow Jones Sustainability Index (categoria bronze); (iii) a atribuição do estatuto de Whole Firm Liquidity Management pela Prudential Regulation Authority (Bank of England); (iii) a presença na lista das Global 100 Most Sustainable Companies in the World; (iv) as posições accionistas qualificadas detidas por gestoras de fundos de investimento que são leaders mundiais, tais como Black Rock, Wellington Management e Capital Research. Nada disto prenunciava um colapso próximo.

 

  • Assim sendo, o que têm para contar as Demonstrações Financeiras Individuais do BES relativas ao exercício de 2013? Contam que o BES era, de entre aqueles 7 Bancos:
  • O que recorria a menor alavancagem financeira (dívida por unidade de Capitais Próprios) - um endividamento, aliás, moderado pelos padrões internacionais;
  • O único que, desde 2010, aumentava as suas aplicações nos mercados interbancários (mas tal pode significar, apenas, que o BES era o principal provedor de liquidez para os restantes Bancos do GBES, como veremos mais adiante);
  • O que necessitava menos (sempre por unidade de Capitais Próprios) de recorrer ao mercado interbancário ou à emissão de títulos de dívida para completar os depósitos no financiamento da Carteira de Crédito Bancário;
  • O que menos recorreu (ainda por unidade de Capitais Próprios) aos mercados interbancários para financiar a totalidade do seu Balanço;
  • Um dos 4 Bancos cujo endividamento directo junto de Bancos estrangeiros (alavancagem monetária externa) era inferior (ainda que ligeiramente) aos respectivos Capitais Próprios;
  • Aquele, de par com a CGD, em que os fundos obtidos junto de Bancos Centrais (leia-se, BCE) eram inferiores a duas vezes os respectivos Capitais Próprios;
  • Aquele com menores necessidades de Fundos Permanentes (Capitais Próprios+Passivo a médio/longo prazo);
  • Em contrapartida, era um dos que apresentava maior desequilíbrio entre o perfil temporal do Activo e o perfil temporal do Passivo (firme o contingente);
  • E tal como em todos os restantes Bancos, a sinistralidade na Carteira de Crédito Bancário (isto é, os empréstimos que deviam ser pagos ao longo do exercício e que permaneciam por pagar, no todo ou em parte, no fecho desse exercício) explodiu, atingindo, em 2013, cerca de 17.5% (em 2012, 9.0%) - mas, mesmo assim, longe de ser o Banco com maior sinistralidade.

 

  • Que o rastilho para o colapso do BES terá sido o descalabro do GES - eis a tese mais comum. O GES, sob este ponto de vista, reunia empresas onde o BES tinha uma participação societária, mas não controlava a gestão (associadas) e aquelas outras do universo do ESFG/Espírito Santo Financial Group em que o BES não detinha qualquer participação.

 

  • Em 2012 e 2013, a exposição do BES ao GES (todas aquelas posições de Balanço a que o BES teria de afectar Capitais Próprios) representava 0.3x-0.4x os Capitais Próprios do Banco (e a liquidez “empatada” nessas posições andaria por 0.2x-0.3x). Uma presença significativa no Balanço e na tesouraria do BES, sem dúvida - mas de modo algum preocupante no plano prudencial. Se todas estas empresas caíssem insolventes de um momento para o outro, e se das respectivas massas falidas nada se aproveitasse, haveria sempre soluções expeditas para reconduzir o BES, prontamente, ao equilíbrio financeiro (por ventura, à custa dos interesses dos accionistas maioritários, mas lá teria de ser).

 

  • Conclusão: Não foi o GES que deitou abaixo o BES, de certeza.

 

  • Já com o GBES a situação não seria tão confortável - mesmo pondo de lado uma Sociedade Veículo (BES Finance BV) cuja finalidade única era captar fundos nos mercados financeiros internacionais (os comentários seguintes não entram em linha de conta com BES Finance).

 

  • A exposição do BES ao GBES situava-se, já desde antes da crise, em 2.3x-2.4x os Capitais Próprios do Banco, tendo mesmo atingido 2.8x em 2006 (por sua vez, a liquidez que o BES tinha “empatado” no GBES rondava 0.9x, mas tinha chegado a 2.3x também em 2006). Insofismavelmente, o GBES representava, para o BES, um risco agravado - mas já desde bem antes da crise, pelo que o BdP não pode vir agora mostrar surpresa. E nesse risco pesavam praticamente por igual os Bancos subsidiários (todos, excepto um, a operar no estrangeiro) e as restantes subsidiárias (estabelecidas em Portugal).

 

  • Conclusão: O GBES, como um todo, tinha potencial suficiente para abalar o BES. Era um risco que poderia ser gerido (e diluído) enquanto o BES tivesse condições para continuar a operar - mas incontrolável a partir do momento em que a licença para o exercício da actividade bancária lhe fosse retirada. Como se viu.

 

  • De tudo isto ficam 4 perguntas que, para minha estupefacção, ninguém (nem a Parlamento) ousou ainda colocar:
  • Porque não são tornadas públicas as Demonstrações Financeiras Individuais do BES à data da resolução (um ponto decisivo, como mostrarei na próxima “Tretas”)?
  • Com que fundamentos o BCE cortou o acesso do BES às facilidades de liquidez e exigiu o imediato reembolso dos fundos que o BES lhe devia (o que determinou o colapso financeiro do BES, como determinaria o de qualquer outro Banco na Zona Euro)?
  • Ao tomar uma decisão de tal modo drástica (e duvido eu que os Tratados lhe dêem poderes para tal), o BCE não propôs alternativas?
  • Se propôs, que alternativas foram essas e porque razão foram rejeitadas?

 

  • Para se fazer uma ideia da excepcionalidade da atitude do BCE (que, na realidade, não tinha precedente), basta recuar ao caso BANKIA (Espanha). Quando este Banco foi intervencionado, o BCE solicitou ao Banco de Espanha a lista dos títulos que o BANKIA tinha depositado para garantir os fundos que ele, BCE, lhe emprestara (€ 20 mil Milhões, aprox.). Espanto e indignação! A grande maioría desses títulos era dívida de empresas de promoção imobiliária e não preenchia os requisitos mínimos exigidos pelo BCE para ser admitida como colateral das operações de cedência de liquidez. E o mesmo acontecia com vários outros Bancos espanhóis. Apesar disso, o BCE não decretou o encerramento, nem do BANKIA, nem de nenhum outro Banco espanhol. O resto é história (o resgate da Banca espanhola com € 100 mil Milhões). Haverá para o BCE algo mais grave do que uma descarada fraude? E terá sido o BES apanhado nesse pecado mortal, ou noutro ainda pior (branqueamento de capitais ilícitos, por exemplo)?

 

  • Tudo visto e ponderado, não saímos da estaca 0: porquê?

 

(cont.)

JULHO de 2015

Palhinha Machado.jpg

 A. PALHINHA MACHADO

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  208. D