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A bem da Nação

O ACORDO ORTOGRÁFICO DE 1990 – 3

 

 

AO90-NÃO.jpg

 

Qualquer crítica – e qualquer defesa – que se baseie sobretudo em chamar nomes aos defensores e aos críticos, não é crítica nem defesa: é mero desabafo, auto- regozijo pela certeza que transborda da alma de cada um. Não vale nada.

 

Por isso não me atrevo a ser contra a adopção do Acordo Ortográfico de 1990 sem

apresentar as razões em que me baseio.

 

Os argumentos que se seguem são de ordem operatória, fonológica, morfológica, de linguística histórica, sociológica, diplomática, económica e de preservação histórica.

 

Há mais, porém fico por aqui.

 

 

  1. Argumento de ordem morfológica

 

Há um princípio básico de qualquer ortografia: a coerência morfológica.

 

O AO de 1990, seguindo estritamente a produção fonética (não as regras fonológicas), exige que se escreva “os egípcios são os nativos do Egito”. Conserva-se, e muito bem, o “p” do “egípcio” porque se pronuncia, mas perde‐se a ligação gráfica dos egípcios com o nome do país respectivo...

 

Este argumento tem ligação com o seguinte...

 

(continua)

 

Manuela Barros Ferreira, Mértola.jpg

Manuela Barros Ferreira

Campo Arqueológico de Mértola

EQUÍVOCOS DE UMA PALAVRA

 

Austeridade.png

 

Quando muitos têm ideias claras em temas complexos, o simplismo domina as discussões. Se a crise económica da Europa é um problema que desafia análises sérias e deixa especialistas perplexos, como podem tantos achar a questão óbvia e a solução evidente?

 

Além de cegueira ideológica e aproveitamentos oportunistas, muitos dos mal-entendidos nascem da utilização inconsiderada da equívoca palavra "austeridade", à volta da qual roda o debate. Debaixo desta noção reuniu--se enorme quantidade de elementos, alguns díspares. Distorções e variantes permitem usar o mesmo termo para significar aspectos contraditórios, alimentando confusão e polémicas.

 

Qual é o significado exacto do conceito e qual a sua origem e impactos? Para entender o que está em causa temos de ir ao início do problema. Esta crise manifesta-se, como todos sabem, em défices e dívidas, após a longa euforia financeira. Ora isso significa apenas que se gastou mais do que se recebeu.

 

Aqui surge o primeiro sentido da palavra austeridade. Os tempos de facilidade, apesar de longos, eram ilusórios, alimentados com dinheiro alheio. Assim, mesmo que todo o esbanjamento anterior fosse esquecido e as dívidas perdoadas, só para ter uma vida sensata e evitar novos desequilíbrios, era preciso descer as despesas ao nível das receitas. Muitos dos cortes - aqueles que anulam o chamado "défice primário", sem juros - servem apenas para travar a espiral de dívida.

 

Mas acabar com o défice primário não resolve o problema; só estanca a sangria. Portugal, Grécia e outros andaram na euforia até ao último momento, só parando o despesismo quando os mercados de crédito fecharam. Esse fecho significa que os aforradores comuns deixaram de confiar na capacidade de o país honrar as suas dívidas, e consequentemente não emprestam mais. Se nada fosse feito, isso imporia um défice nulo de um dia para o outro, por falta de alternativas, implicando a austeridade completa. Esse é o segundo conceito, de que quase não se fala. Quando o total das despesas, incluindo os juros, tivessem imediatamente de ser iguais às receitas, o aperto seria máximo.

 

Esta é a disciplina mais violenta de todas, a verdadeira austeridade. Muitos países têm-se encontrado nessa condição ao longo dos séculos, como Portugal há 120 anos. Hoje felizmente existem mecanismos de ajuda externa para a evitar. É aqui que entram as organizações internacionais, que concedem financiamento quando mais ninguém o faz, permitindo adiar os cortes. Só que essa ajuda, neste caso da troika, vem com condições. Surge o terceiro conceito de austeridade, imposta nas cláusulas dos empréstimos de emergência. Esta é a mais leve das três, pela folga nos cortes, mas parece arbitrária e evitável e por isso suscita a ira de tantos. Porquê impor coacções tão duras e artificiais aos países aflitos?

 

As conversas comuns só apanham o fio aqui. Por isso, sem considerar o passado, atribuem à maldade insensata de dirigentes sádicos que países como Portugal ou a Grécia tanto sofram e o euro e a Europa ameacem catástrofe. Acabando com a austeridade desmiolada, tudo ficaria excelente. Serão as autoridades europeias tão estúpidas e perversas que não vêem aquilo que tantos apregoam com facilidade?

 

É bom lembrar um pequeno detalhe que nunca aparece nas discussões: estes países só caíram em crise porque não se souberam governar. Ou seja, os seus líderes foram capturados por interesses, próprios ou alheios, concedendo benesses acima daquilo que o país podia pagar. É isso o défice. Controlar essas reivindicações é o elemento central para solucionar o problema de fundo. Que interessa, não tanto aos credores externos, mas aos contribuintes nacionais. Os cidadãos deviam ser os primeiros a apoiar tal austeridade, porque são eles que, no fim, pagam as despesas excessivas e seus juros.

 

A maior parte dos críticos da austeridade põem as esperanças numa variante de almoço grátis: perdoa-se a dívida, isso liberta a economia que começa a crescer e tudo fica bem. Esquecem que antes da crise esse crescimento, ou não existiu, como em Portugal e na Itália, ou não evitou o endividamento explosivo, como na Grécia. De onde viria agora progresso tão miraculoso, para mais com os mercados financeiros fechados? Porque, é bom não esquecer, quando se repudia e insulta os credores, é difícil convencê-los a emprestar outra vez.

 

Austeridade é hoje uma palavra mágica, que parece controlar vidas e decidir discussões. Dada a quantidade de confusões que suscita, seria melhor um uso mais austero da palavra austeridade.

 

8 de Julho de 2015

 

João César das Neves.png

JOÃO CÉSAR DAS NEVES

 

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