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A bem da Nação

POEMA DE DOMINGO

Wie herrlich leuchtet Mir die Natur!

                 Poema Die Natur

Goethe.png

Johann Wolfgang von Goethe, 1749-1832 (*)

 

 

A Aurora veio da Noite escura

Trouxe com ela o Sol a brilhar.

As Andorinhas com o chilrear,

Acordaram o Poema n’altura.

 

Este gritou um sonoro bom dia,

Acordando a sua companheira.

A terna, lindíssima, Poesia!

O Dia iniciou a ladeira

 

Com destino ao juízo final.

O Poema beijou a Poesia

Com um gesto de intensa ternura,

A brindar a Natureza total.

 

Chegou ao fim este calmo Domingo.

E o chilrear partiu de mansinho,

À procura de um outro caminho.

Da chuva respeitosa nem um pingo…

 

Luís Santiago.jpgLuís Santiago

 

(*) Homenagem ao

Raimundo Serrão.jpgDr. Raimundo Serrão, meu Professor de Alemão do 6º e 7º ano do Liceu Nacional de Gil Vicente que me fez a oral de Alemão com este Poema de Goethe (Die Natur), cujos versos nunca mais esqueci

 

O JARDIM-ESCOLA DA POLÍTICA

 

Kindergarten.png

 

As crianças também acham que os pais são parvos, que acreditam em tudo o que elas dizem e não sabem quem esvaziou metade do frasco de Nutella.

 

A melhor forma de entender a política é observar as crianças. A coincidência entre os dois mundos é, no mínimo, interessante. As crianças gritam e choram quando não conseguem uma coisa, quando se ofendem ou quando se magoam. Querem sempre assistência e exigem que lhes demos razão mesmo quando não a têm. Só quando crescem é que aprendem a pedir desculpa ou a dar o braço a torcer. Confundem humilhação com franqueza. Também não gostam muito de explicações, de raciocínios complicados ou de grandes divagações. São práticas e, acima de tudo, são sensoriais.

 

Uma criança só pára quando lhe explicamos que não é mesmo não, sem mais delongas. Elas fazem muito barulho, mudam de tema com uma rapidez estonteante e prometem mundos e fundos a troco de um gelado. Também gostam de chutar os problemas mais complicados para a frente e só falam de coisas que entretêm. Quanto mais se exige a uma criança, mais ela foge, e quando lhes dizemos que a vida não é um mar de rosas, não se resume à televisão, a videojogos e a idas à praia, elas disfarçam e vão jogar à bola. 

 

Hoje em dia, a política também é assim. Ao contrário das telenovelas, que são para adultos, os telejornais são para crianças. É por isso que um dos meus filhos diz com todo o orgulho desde os seus cinco anos que só gosta de ver notícias e futebol: “Tem mais coisas e é mais giro.” Percebo-o. Desde as negociações com a Grécia aos vários debates políticos e à venda da TAP, a política é dominada pelo entretenimento, num estilo de concurso de talentos. O que está em causa no debate político é quem falou melhor, com mais estilo e convicção, e quem disse mais vezes “acabar com a austeridade”, “colocar as pessoas em primeiro lugar”, “apostar no crescimento” ou “reverter as políticas neoliberais”. 

 

As frases e as mensagens são simples e curtas. Têm de ser simples e curtas para não se perder muito tempo com elas. Se soa bem, está ganho; se soa mal e requer uma explicação mais detalhada, está tudo perdido. Sim, o Estado só lucrou 10 milhões com a venda da TAP. Além de ter despachado 1,1 mil milhões de dívida, mais outros 300 e tal milhões de passivo, mais o sufoco devido à falta de financiamento que a curto prazo levaria ao encerramento da empresa, etc. Baahh, já ninguém está a ouvir. Os 10 milhões colaram. Dez milhões é menos do que o contrato de Jorge Jesus. Logo, para o governo neoliberal e demoníaco, a TAP vale menos que Jorge Jesus. Os meus filhos discutem assim. 

 

Na política vive-se o dia de hoje, tal como vivem as crianças. Ontem foi há mil anos e amanhã logo se vê. Foi assim com a Grécia (já ninguém quer saber das promessas do Syriza) e é assim quando se discutem pensões, educação, segurança, etc. Em todos estes assuntos não há tema, há adversários. O objectivo é não dar o braço a torcer e muito menos fazer má figura. Temas incómodos e questões de princípio são coisas de crescidos, mas na política é tudo uma questão prática. A concorrência no horário nobre é feroz e o tempo dos eleitores é curto. 

 

As crianças também têm a particularidade de acharem que os pais são parvos, que acreditam em tudo o que elas dizem e que não sabem quem esvaziou metade do frasco de Nutella. Gostam de pensar que temos memória de peixe. Os políticos também desconfiam que os eleitores não estão muito atentos, que não percebem a origem dos 10 milhões de euros ou que o futuro da Grécia não tem nada a ver com a popularidade dos governantes gregos ou com a falta de popularidade dos governantes alemães. Os partidos de esquerda, que se multiplicaram nestes últimos meses, e o Partido Socialista, que esvaziou o frasco de Nutella, vivem alegremente neste jardim-escola político na esperança de que ninguém se aperceba da vertiginosa vacuidade do seu pensamento.

 

A única maneira de resolver este assunto, e de passarmos por estes meses sem traumas de maior gravidade, é enviarmos as nossas crianças a debater com os dirigentes de esquerda: perde quem amuar primeiro e quem não conseguir inventar chavões novos que incluam os termos austeridade, crescimento e neoliberal. O meu filho de sete anos pode ir debater com António Costa – e é muito mais giro que o líder socialista.

 

27 de Junho de 2015

Inês Teotónio Pereira.png Inês Teotónio Pereira

 

QUANDO AS AMIGAS CONVERSAM…

 

Crying in the sun

 

A minha amiga não me pareceu estar hoje no seu melhor. É certo que largou graças ao meu colar, que comprei por metade do preço, numa casa prestes a fechar e por isso em saldo, e cujo uso – do colar, está claro -  por inesperado, tive que justificar como servindo, não para disfarçar as engelhas do pescoço, mas para as aprimorar, embora a própria Catarina Martins realce melhor os seus traços juvenis com o colar aconchegador da nobreza dos seus ideais e dos seus olhos macios de tristeza acusatória. Escutadas, pois, as homenagens ao meu aspecto mais produzido, notei, todavia, o ar de circunspecção  da minha amiga e logo lhe perguntei se se devia ao estado de saúde da 

maria_barroso.jpgMaria Barroso a que a minha afectividade acrescentou o “coitadinha” da minha consideração lusíada pela figura sempre aprumada, tantos anos acompanhante dos eventos nacionais de marca, com os discursos protocolares dos seus saberes.

 

Mas a minha amiga, muito decisiva, não se comoveu, embora se percebesse a sua estima, e sem perder pitada do seu azedume contra as carências da organização nacional:

- Já cá não está a fazer nada. Fez uma vida sempre activa. E no dia em que a cabeça falhou, foi-se. Chegou a sua vez. Teve sorte, muita sorte. Ela está muito bem, sem dor. Parece que a não levaram logo ao hospital quando caiu, pois continuou a falar, mas também se entrasse pelo seu pé mandavam-na embora.

 

A minha irmã acrescentou que o marido parecia mais inseguro do que ela, mas que as quedas, nas nossas idades, são muito perigosas e a conversa rodou, na aridez das constatações da precariedade existencial, enquanto, no nosso compasso de espera na esplanada soalheira, enfiávamos os cafés domingueiros, enobrecidos pela torrada ou o bolo revitalizadores.

 

Outro assunto “macabro” trouxe  a minha irmã à baila, tendo lido numa revista sobre o polícia que escreveu o livro sobre a  Maddie – o Inspector

Gonçalo Amaral.jpg Gonçalo Amaral - em situação penosa, a justiça portuguesa condenando-o, subserviente à justiça inglesa.

- Aquele era da polícia. Foi corrido – começou a minha irmã.

- Não sei como é que o homem ainda não morreu – continuou a minha amiga, de revolta sempre afiada.

- Abandonado pela mulher, com depressão e diabetes… Proibiram o livro, só porque ele insinuou que os pais deviam conhecer o fim da filha… Mas essas coisas não se podem dizer, e bumba, é-se castigado.

- E o Estado não o ajuda? – lancei eu, que trouxe da infância as crenças ingénuas nas histórias de fadas.

- Nada. O homem está na maior miséria.

 

A minha amiga lembrou os bons padrinhos ingleses dos pais da Maddie e o rebaixamento do governo português, adepto da lei do mais forte.

- É por isso que eu detesto os ingleses, concluiu a minha irmã, sem rodeios, traduzindo velhos saberes de rancor histórico, dos tempos do 

William Carr Beresford.jpg  Beresford e do “mapa cor de rosa” das nossas humilhações.

Berta Brás 2.jpgBerta Brás

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