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A bem da Nação

AFONSO DE ALBUQUERQUE, O GRANDE

 

Curiosas foram as suas relações com o descobridor do Brasil, relações de parentesco, ainda que afim e de amizade.

 

As primeiras por Pedro Alvares Cabral ser ca­sado com sua sobrinha, D. Isabel de Castro, irmã dos Noronhas que tanto se distinguiram na Índia e por sua vez filha da irmã do grande Afonso d'Albuquerque. As segundas porque à evidencia ressaltam da carta escrita pelo Governador e datada de Calicut, em 2 de Dezembro de 1514. Dela se vê que fôra Albuquerque quem patrocinara aquele casamento obtendo para a noiva bom dote. Com efeito, na sua opinião, Pedro Alvares Cabral era muy boom fidalgo e merecedor d'isto digno de toda a medrança e galardam de seus serviços.

 

Na corte porém tinha havido grandes intrigas pro­venientes das lutas dos partidos originadas nas desinteligências entre Pedro Alvares Cabral e D. Vasco da Gama e por isso Albuquerque o sabia apartado asy de vosa vontade (de D. Manoel I) e prazer, tendo-o el-rei lamçado de voso serviço (de D. Manoel I). Tudo isso eram no entanto arrufos e errados conselhos. E agora vinha o fim da carta: pedir a El-Rei para o chamar, aconselhar e reprehender e assim com elle se congraçar.

 

Parece porém que a esta carta D. Manoel I se não dignou responder, não conseguindo d'esta forma os serviços do grande herói da Índia desfazer a nuvem sombria que pesava sobre o prestígio do ilustre des­cobridor do Brasil!

 

O auge do poderio na Índia—Embaixadas dos reis orientais — Os seus presentes—Albuquerque, cavaleiro grande e forte leão dos mares — Os seus projectos

 

A notícia das vitórias e até das atrocidades, feitas para constar, com que Afonso d'Albuquerque precedia as suas marchas, criou aos portugueses uma atmosfera de excepcional prestígio e poderio no Oriente.

 

Era pois com justa razão que em 18 de Outubro de 1512 o grande Governador, escrevendo a D. Manoel I lhe contava como, apenas souberam ter vindo de Por­tugal gente e armas, todos os reis e senhores lhe escreveram, fazendo muitos oferecimentos, mais com medo que per suas vontades. Conhecia-lhes bem a psychologia! Não contentes com isso mandavam os seus Embai­xadores.

 

Assim, em 12 de Julho de 1511, D. Manoel I, escre­vendo ao bispo de Segóvia, dizia-lhe para dar notícias ao rei de Espanha da chegada a Goa de um embai­xador do Xeque Ismael, o da Pérsia. Em 6 de Dezembro do ano seguinte contava Albuquerque como tinham aprisionado o Embaixador do Preste João em Dabul e ele o foi exigir, sendo então entregue. Recebido processionalmente, foi à igreja onde mostraram a Vera Cruz, cujo portador ele era. Contava por fim o seu cativeiro e roubo em Zeila.

 

FGA-ZEILA.jpg

Zeila – Costa da Somália – Séc. XIX

 

De um mandado de 13 de Novembro de 1514, consta que Afonso d'Albuquerque mandara entregar aos Embaixadores do rei de Narsinga uma peça de veludo preto, uma peça de damasco, côvados de escarlata, barretes de grã, 48 pardáos e especiarias. Em carta, datada de 27 de Novembro desse mesmo ano, referia-se às manilhas e jóias enviadas para D. Manoel I, trazidas pelo Embaixador do rei de Narsinga. A este rei enviou Albuquerque dois cavalos de preço, vinte e sete côvados de veludo preto e trinta de damasco e meia dúzia de barretes vermelhos.

 

FGA-NARSINGA.jpg

 Narsinga

 

Este Embaixador é o chamado pelos Comentários Retelim Cherim. Era pessoa das principais e trazia na vanguarda, a anunciá-lo, quatro elefantes com os seus castelos de madeira, paramentados de seda, dentro dos quais vinham pessoas gradas com bacias de prata dourada cheias de pérolas e outras jóias. Eram os deslumbradores presentes para o grande Governador.

 

Depois de entregue a sua mensagem, Afonso d'Albuquerque aconselhou-lhe o repouso para no dia se­guinte tratarem dos seus negócios. Com efeito, passada aquela noite, longa foi a conferência havida entre os dois. Quis o Embaixador combinar com Albuquerque a guerra ao Hidalcão, mas Albuquerque, nesse ponto, respondeu-lhe secamente, obedecendo ao seu sistema de tratar com reserva e só entrou em combinações quando viu o rei de Narsinga decidido a atacar forte­mente as tropas do Hidalcão.

 

Retribuiu os presentes do Embaixador, já com peças provenientes de Portugal, já com outras que Pêro d'Al­buquerque tinha trazido de Ormuz.

 

O Hidalcão, sabedor d'esta embaixada, apressou-se a mandar também a sua, receoso de lhe tirarem o trato dos cavalos. Protelou Afonso d'Albuquerque a res­posta para ver o procedimento do rei de Narsinga. En­tretanto, a mãe do Hidalcão, muito desejosa das pazes, enviava um emissário do sexo feminino, a qual gentil­mente foi logo despachada com explicações da demora. Como o rei de Narsinga se mantinha hesitante e o Go­vernador desejava partir, despachou o Embaixador do Hidalcão, adiando a solução do caso para quando vol­tasse do mar Vermelho, prometendo-lhe todos os cavalos vindos de Goa, contanto que aos portugueses entregasse a terra firme e a passagem dos Gales.

 

Em 8 de Novembro de 1514 enviou Albuquerque ao rei de Cambaya uma adaga d'ouro com rubis no cabo e vários objectos de prata: uma bacia de lavar as mãos, uma albarrada (infusa) dourada, uma taça, um jarro dourado, um castiçal pequeno de prata e um bernegal.

 

Mas a embaixada mais notável foi, sem dúvida al­guma, a do Xeque Ismael, o Xá da Pérsia como temos dito. Merece referência especial.

 

Estava já Afonso d'Albuquerque instalado na for­taleza de Ormuz. Por Miguel Ferreira mandou-lhe o Embaixador dizer que lhe queria dar o recado do seu senhor. Não quis o Governador recebe-lo imediatamente, pois queria deslumbrá-lo.

 

Para esse efeito mandou, diante da fortaleza, preparar um estrado grande de madeira, com três degraus, todo alcatifado, tendo em redor muitos panos e um docel de brocado. No estrado, algumas almofadas de veludo verde e duas cadeiras da mesma cor, franjadas de oiro. À gente de guerra mandou dispor numa verdadeira parada militar. D. Garcia de Noronha foi o mestre-de-cerimónias e por ele acompanhado o Em­baixador. À frente do cortejo dois caçadores d'onças, a cavalo, cada um com a sua nas ancas e após eles doze mouros a cavalo, muito bem vestidos, trazendo jóias d'ouro, peças de seda e brocado em bacias de prata e depois as trombetas de Afonso d'Albuquerque. Esqueceu dizer que logo atrás dos caçadores d'onças vinham seis cavalos muito bem ajaezados com cobertas ricas, testeiras e saias de malha nos arções.

 

Quando D. Garcia com o Embaixador chegaram à fortaleza, ecoaram os tiros das peças de artilharia da Armada surta no porto. Tamanho era o barulho que, na frase dos Commentarios “parecia que se fundia o mundo”.

 

Apresentou-lhe então o Embaixador uma carta do seu soberano para o rei de Portugal e outra para o Governador, a qual este entregou a Pêro d'Alpoim, seu Secretário que junto de ele estava. Quatro coisas dese­java o Embaixador da parte do seu rei: primeira que os direitos pagos das mercadorias, vindas da Pérsia a Ormuz, fossem do Xeque Ismael; segunda, que lhe desse embarcação para passar gente sua à terra da Arábia; terceira, que o ajudasse com a sua Armada a tomar um lugar insubordinado agora; quarta, que lhe desse porto na Índia para os mercadores da Pérsia tratarem suas mercadorias e licença para assentarem casa de feitoria em Ormuz.

 

Nada respondeu Afonso d'Albuquerque de defini­tivo, sobre preterições de tanta monta, mas mandou tratar o Embaixador o melhor possível.

 

Assim sabemos que, em 26 de Abril de 1515, man­dou-lhe dar 10 quintais de gengibre, 6 de pimenta, 3 arrobas de cravo, 1 quintal de canela e um fardo de açúcar, como presente. Em 5 de Maio do mesmo ano mandou-lhe dar um gomil de prata dourada e ao seu capitão um punhal guarnecido de ouro e prata.

 

Em 29 de Junho de 1515 mandou-lhe Albuquerque dar 50 serafins em ouro e 1 português de 10 cruzados para as suas despesas.

 

Entretanto, Fernão Gomes de Lemos era enviado à Pérsia para retribuir a embaixada por Albuquerque recebida em Ormuz. Notáveis foram os presentes cujo portador foi: espingardas e armas brancas; dois corpos de couraças; uma espada e um punhal guarnecidos d'ouro; bestas e lanças; uma carapuça de veludo preto guarnecida d'ouro com 181 rubis; manilhas d'ouro; anéis, 3 com rubis e outro com uma safira no meio de 27 rubis; uma espécie de colar com rubis, turquesas e pérolas; uma pêra d'ambar, com 100 rubis e 60 dia­mantes; várias moedas portuguesas e especiarias.

 

Não se pode dizer que não fosse magnificente! E por isso não admira que o xeque Ismael, numa carta escrita a Albuquerque, lhe chamasse grande senhor que tem o mando e esteio dos governadores da lei do Messias, cavaleiro grande e forte leão dos mares! Pe­de-lhe mestres bombardeiros e, na sua linguagem hiperbólica, compara-o com o amanhecer da claridade e com o cheiro do almíscar!

 

Também o capitão geral do Xá da Pérsia cha­mava a Albuquerque leão bem-aventurado, cumulando-o assim de elogios!

 

É que, com efeito, a fama do grande homem corria veloz e mais não adivinhavam os grandiosos projectos que lhe escandeciam o cérebro.

 

Os Commentarios contam-nos dois d'eles: um, cortar uma pequena serra para desviar o leito do Nilo, afim de não ir regar as terras do Cairo. Para tal efeito, por várias vezes, chegou a mandar pedir a el-rei D, Ma­noel I, oficiais da ilha da Madeira, dos costumados a cortar as serras para passagem das levadas com que se regam as canas do açúcar. Outro era a destruição da casa de Meca.

 

Qual deles o mais audaz?

 

É o brilho incomparável do génio perante o qual todos se devem curvar.

 

-In Affonso d’Albuquerque, António Baião, Lisboa 1913.

 

Cortou muito nariz e muita orelha, mas elevou o nome de Portugal às alturas e vê-se bem o respeito que adquiriu entre os “inimigos”. Mas foi entre os “amigos” que mais inimigos teve.

 

04-06-2015

 

Francisco Gomes de Amorim, Junho 2013, Lisboa.jpg

Francisco Gomes de Amorim

CASAMENTO CIVIL DE HOMOSSEXUAIS – PRÉMIO, INSTITUIÇÃO OU PRETEXTO?

 

ACDJ-Família normal.png

 

A Manipulação da Cultura acompanha a Manipulação da Natureza

 

Em questões de casamento de homossexuais o Estado não deveria intervir no sentido da liberação da união matrimonial para comunhões de casais do mesmo sexo. No casamento ou parcerias amorosas, depara-se com duas questões que se deveriam encarar sem ressentimentos nem complexos.

 

A nível de princípios e de prática, deve o desigual ser tratado igual? Até que ponto deve o Estado intrometer-se na vida privada? Deve a regra ser igualada à excepção? Não se conduz a democracia ad absurdum quando os seus delegados pretendem mudar mentalidades através de legislações sobrepondo o direito da minoria ao direito da maioria (igualizar as parcerias homossexuais à instituição família heterossexual)?

 

Segundo o consenso dos povos, as uniões homossexuais não são iguais ao matrimónio. Entre outras diferenças, o casamento não é só comunidade de vida, ele foi criado no sentido da fundação de uma família e de filhos (CIC 1061,1) e corresponde a uma visão de Homem como homem e mulher.

 

Torna-se questionável a intervenção do Estado porque a união de duas pessoas é coisa privada, independentemente do amor que o Estado não tem direito de recompensar ou penalizar. O matrimónio, pelo contrário é o núcleo do Estado pelo que este tem o dever constitucional de defender e fomentar. Por isso, os Estados colocam nas suas constituições a família e o matrimónio sob protecção especial. A lei fundamental alemã artigo 6 parágrafo 1, tal como as Constituições da maior parte das nações, define casamento como “comunidade de vida de homem e mulher” e fala da função da família.

 

A nova ideologia pretende redefinir o casamento, abandonar o conceito de família trocando-o por “Comunidade de Vida”. O ponto maior da discórdia vem da exigência de igualar o casamento tradicional (família) às uniões homossexuais com o correspondente direito de adoptar filhos. A adopção de crianças por pares homossexuais favorece uma orientação unilateral a que falta o pai ou a mãe; impede-se uma educação com características (feminilidade e masculinidade) complementares próprias que seriam importantíssimas para o crescimento equilibrado da criança. Devido a esta constatação, na Alemanha já há a preocupação de, nos jardins infantis, a assistência às crianças seja feita por educadores do género feminino e masculino.

 

Toda a pessoa está chamada a amar mas nem toda a forma de amor ou caridade tem que chegar à instituição do matrimónio. Uma comunidade de amor está chamada à abertura e proliferação, à fertilidade como é tradição em todos os povos e como nos ensina a gramática da natureza. Na exigência de “casamento para todos”, como direito natural, não se consideram a fertilidade e correspondente capacidade de futuro da sociedade, além de confundir direito natural com direito cultural. Também dois familiares ou irmãos que se amam não têm direito a casar-se embora através do casamento pudessem assegurar vantagens amorosas e económicas.

 

Francisco I no avião em que ia para o Rio de Janeiro em Julho de 2013 disse a um jornalista: ”se um gay, procura o Senhor e tem boa vontade – quem sou eu para o condenar? Estas pessoas não devem ser empurradas para a borda, elas têm de ser integradas na sociedade.” Conservadores escandalizaram-se com esta afirmação porque pensam que com ela o Papa apoia o lóbi dos homossexuais. O Papa age, como é natural de um pastor, no meio da sua comunidade no exercício das suas actividades pastorais em perspectivas complementares.

 

No catolicismo, o matrimónio é um sacramento que se realiza entre os nubentes (homem e mulher) e não só um prémio ou bênção. Deus criou o Homem à Sua semelhança como homem e mulher (1.Mo 1,27-28) dando-lhes a missão de crescerem e de se multiplicarem na tolerância e cordialidade e ao mesmo tempo crescerem espiritualmente.

 

Na discussão também é pertinente distinguir entre os actos do Estado e os actos da Igreja. Igreja e Estado dizem sim para o cuidado mútuo e a responsabilidade, cada um à sua maneira. Embora o Estado tenha de dar resposta a todas as necessidades dos cidadãos, não deve perder de vista a lógica da sua essência democrática nem as diferentes prioridades a ter em consideração num corpo orgânico ao igualar uma estrutura básica da sociedade a uma necessidade individual que colide com a constituição orgânica de organismos desenvolvidos. (Para mim, a nível individual, seria igual o casamento de hétero- ou homossexuais; o mesmo já não acontece quando penso a nível social; por isso o Estado tem de distinguir entre direito individual e direito orgânico institucional!).

 

O cristianismo, com toda a compreensão e respeito pelas uniões homossexuais, não se deve ver forçado a renunciar aos próprios princípios e valores. A fonte de inspiração cristã é a Bíblia (e a natureza) e orienta-se também por uma estrutura básica do Homem (Mat. 19,5, constituído de masculinidade e feminilidade) não podendo ser interpretada arbitrariamente; muito embora a supremacia do amor seja a norma de orientação, esta não pode porém cancelar a ordem da criação (a nível estrutural/institucional) que cada ser humano não deve desprezar, embora respeitando diferentes orientações. Ver o amor como único fundamento do amor, segundo o lema de Santo Agostinho “ama e faz o que quiseres” dá resposta a necessidades próprias mas que não precisa de neutralizar o matrimónio heterossexual. A diferença é a maior constante da natura e da cultura. Igualar a comunidade de vida de homossexuais à constituição de família através do casamento torna-se inconsequente dado fazer de coisas diferentes e com fins diferentes coisas iguais.

 

A pastoral permite a adaptação porque cada pessoa é de, maneira igual, imagem de Deus independentemente das suas inclinações. Também é verdade que “Deus é amor” (1. Jo, etc.) mas o facto não permite a afirmação recíproca “o amor é Deus” que seria teologicamente falsa. Em questões de família e de instituições os critérios orgânicos e de sustentabilidade, fiabilidade, confiança e compromisso assumem um caracter essencial. O amor não é razão suficiente para justificar a arbitrariedade institucional. O direito à orientação homossexual e ao próprio sentido não é lógico se exige que se aplique a ele o tipo de vinculação heterossexual da família. A instrumentalização da lei para mudar mentalidades torna-se num abuso institucional.

 

A Igreja, para manter a sua missão de serviço à humanidade e a credibilidade e continuidade, terá que suportar uma certa tensão entre doutrina e pastoral; mas por outro lado não pode seguir a bajulação da moda ou do tempo.

 

Na disputa presente, que é mais séria que qualquer outra anterior, está em jogo a criação de uma moral totalmente nova sem compromisso (uma nova matriz social) tendente a fomentar a criação de um novo Homem e de uma cultura (nova maneira de estar social), de orientação matemática, criada artificialmente e implementada por cúpulas político-económicas cimeiras que, à imagem da manipulação da natureza, (experimentação biológica da manipulação da gene humana) quer impor a manipulação da cultura e daquilo que constitui os fundamentos da identidade das culturas. Os manipuladores da cultura já cantam vitória ao verificar que no povo, com o tempo, se pode observar uma certa inversão de mentalidades, como vai acontecendo na igualação de comunidades de vida homossexuais a heterossexuais e mais tarde na eutanásia e na eugenia.

 

A defesa da família é uma questão de natureza, de religião e de Estado independentemente da crença. Ao ligar-se a constituição de família à procriação também se deve ter em conta que quem se casa catolicamente também não tem obrigação de ter filhos e os que não podem ter filhos ou se casam em idade de os não ter, não perdem a legitimidade do casamento, chega-lhes a boa intenção. Como na natureza, não há regra sem excepção. Um outro aspecto a ter também em consideração é que uma coisa é o casamento civil e outra é o casamento religioso. Posso imaginar, a nível cristão, a bênção de um par homossexual mas não o sacramento.

 

A Igreja tem o direito de se sentir ligada à tarefa bíblica e o Estado à vontade dos cidadãos. Um e outro não devem ignorar o quórum de que são feitos nem ideais que reconhecem a regra e a excepção. O direito de minorias ou da excepção não pode ignorar também os direitos das maiorias ou da regra. A vida e o progresso pressupõem um contínuo processo de colaboração e adaptação, só assim se pode garantir o princípio evolutivo da colaboração dos mais fracos para subsistirem contra a lei da força dos mais fortes que arrasariam o resto da natureza.

 

A igreja tem por seu caracter constitucional ficar-se pela simplicidade da verdade: o sacramento do matrimónio consta de uma união de uma mulher e de um homem para sempre. O sacramento tem vigor até à morte, por isso para o celebrar será precisa grande maturidade e a vontade da metanoia individual e comum. A doutrina da fé é orientação e não deve agir contra a praxis da fé; o casamento é ao mesmo tempo sacramento e comunidade de vida. A indissolubilidade do matrimónio não deve tornar-se numa teoria abstracta sem relação com a praxis (não é apenas um ideal humano). Optar pela vida é o característico da vida cristã que não vê na entropia uma via a seguir reconhecendo, pelo contrário, que a vida é uma subida que implica luta no reconhecimento da própria sombra e luz.

 

Não se deve demonizar nem glorificar a homossexualidade. Por vezes há muita agressão no discurso sobre o assunto porque por trás de um homossexual ou de uma lésbica se escondem muitos anos de sofrimento e de opressão indirecta, ou porque o tema da homossexualidade e do género é usado como estratégia para a mudança paradigmática da sociedade e valores e ainda porque os lóbis da UE e dos USA ditam através de leis a aplicar nos parlamentos, os novos comportamentos a criar numa sociedade do futuro.

 

A defesa da ideologia homossexual, que faz parte da ideologia do género, encontra-se em contradição com todas as culturas, religiões e com a natureza. A homossexualidade deve ser compreendida como excepção à regra sem ser marginalizada e sem o acompanhamento da paulada moralista que muitas vezes a discriminou e em muitos lugares continua a descriminar considerando homossexuais como se se tratasse de leprosos. Cada época tem um ideário correspondente com abusos num ou noutro sentido mas que a sociedade vai corrigindo com o tempo.

António Justo.jpg

António da Cunha Duarte Justo

Teólogo

OS CEREAIS NO ALENTEJO – 3

 

 

Para concluir a série de artigos sobre o que considero importante para, eventualmente, permitir cultivar economicamente trigo no Alentejo – e não só no Alentejo, mas principalmente nesta província – (Linhas de Elvas de 21-5 e de 4-6-2015), tratarei hoje do problema das rotações das culturas, ou seja, a sequência de espécies vegetais a cultivar no mesmo terreno ao longo de um certo número de anos.

 

Antigamente, depois de ter sido criada a Federação Nacional dos Produtores de Trigo (FNPT), a única cultura de que o agricultor sabia que teria toda a sua produção vendida e a preço conhecido era o trigo. Por essa razão, particularmente no Alentejo, era dada grande ênfase a essa cultura. As rotações eram geralmente pobres. Não eram raros os casos em que, a uma cultura de trigo, apenas com fertilização mineral, se seguiam um ou mais anos de pousio, só algumas vezes revestido com uma forragem, para voltar a fazer trigo. Nalguns casos, entre o trigo e o pousio, ainda se fazia um ano de aveia, para aproveitar os restos da fertilização. Este sistema, durante algumas décadas, reduziu grandemente o nível de fertilidade de muitos solos. Havia algumas honrosas excepções, mas não eram muitas.

 

Como o trigo é uma esgotante, eu acredito que, rotações das culturas em que entrem mais abundantemente plantas melhoradoras, como as leguminosas, possam elevar o nível de fertilidade do solo de forma a aumentar significativamente a produção de trigo. Há bons exemplos a demonstrá-lo. No III Congresso Internacional de Lupinus (o género a que pertencem os tremoços), um agrónomo americano descreveu ensaios com MM-lupinus angustifolius.png Lupinus angustifolius, o tremoço de folha estreita, que existe espontâneo em Portugal. Dos seus resultados concluiu que “aquela cultura seria económica, mesmo deitando fora a colheita”. A razão é que a melhoria da fertilidade do solo causava um bom aumento na cultura que se seguia.

 

Em Portugal têm sido feitos vários estudos de rotações. Todos são valiosas contribuições mas ainda é necessário fazer muito e penso que falta, para o sequeiro alentejano, um ensaio de grande amplitude e com variadas composições, que dê uma informação precisa e economicamente quantificada, para poder ser usada em larga escala. Em Elvas, na Estação de Melhoramento de Plantas, na década de 1950, alguns ensaios mostraram a espectacular diferença que se conseguia com o incremento da cultura de algumas espécies forrageiras que, além de permitirem um grande aumento do número de ovelhas por hectare, aumentavam o nível de fertilidade do solo.

 

Há algumas décadas, fiz uma tentativa para a realização de um ensaio em larga escala, de grandes dimensões e com uma equipa multidisciplinar. Cada talhão do ensaio teria 100 metros de comprimento e uma largura que desse, com folga, para uma ceifeira ou ceifeira debulhadora, para as culturas serem mecanizadas. Com talhões desta dimensão e o número de repetições que o estatístico considerasse adequado, o erro experimental seria mínimo. Isto exige um campo com 150 metros de largura e 300 a 400 metros de comprimento, que não é difícil encontrar no Alentejo. Abordei a Fundação Eugénio de Almeida que, pela voz do seu então Administrador Delegado, dispensava a área necessária. Tudo o mais teria de ser do Projecto.

 

Contactei vários colegas, da Universidade de Évora e de outras instituições como a Estação Agronómica Nacional e a Estação de Melhoramento de Plantas, alguns dos quais estavam interessados em fazer parte da equipa. Essa equipa incluiria especialistas de cultura de cereais e forragens, química do solo, fitopatologia, nematologia, estatística, economia e mais alguns que se considerassem necessários. As rotações, a delinear em pormenor, começariam com uma bianual, trigo-forragem. Depois, uma série de combinações, a terminar com uma de cinco anos em que os primeiros quatro anos seriam de forragem seguidos de um de trigo. O campo seria acompanhado pelos diversos especialistas ao longo do ano, para recolha dos dados que considerassem necessários.

 

Ao fim deste ciclo de cinco anos já deveria haver informação muito valiosa mas, naturalmente, deveria ser continuado por outros cinco anos, para confirmação e ampliação dos dados. O objectivo era determinar o valor económico de cada rotação pois, como já vimos, uma cultura pode não dar lucro, mas deixar o solo mais rico, a beneficiar a cultura seguinte.

 

Abordei várias entidades para obter financiamento para o projecto, mas nenhuma se mostrou receptiva. Os resultados deste tipo de investigação, generalizados a muitos milhares de hectares, produzem retorno de várias vezes o valor neles investido. Ou seja, rendem juros que os nossos economistas não sabem que existem, mas são reais.

 

Calculando por baixo e considerando uma rotação que dê anualmente mais 100 € por hectare do que a que o agricultor usa actualmente – acredito que se consegue muito mais – e que é aplicável a uns 50.000 hectares, o PIB seria aumentado em 5 milhões de euros todos os anos.

 

Publicado no "Linhas de Elvas" de 4 de Junho de 2015

 

Miguel Mota.jpg Miguel Mota

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