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A bem da Nação

O DESESPERO DE VAROUFAKIS

 

 

Publiquei há dias nestas andanças internéticas por que habitualmente deambulamos uma imagem de Varoufakis sentado no chão do Parlamento grego enquanto decorria uma qualquer discussão sobre a gravíssima situação negocial a que o Syriza conduziu o país. Ironicamente, legendei a foto com a pergunta sobre se se tratava de desespero perante a hipótese de um acordo entre a Grécia e a UE.

 

HSF-Varoufakis-désolé.jpg

 

Mas, na verdade, não fui irónico pois estou convencido de que os syrizados gregos e de todas as outras nacionalidades não querem que a Grécia chegue a qualquer acordo com os seus credores.

 

Porquê?

 

Porque, para eles, os capitalistas devem ser castigados, as dívidas não têm que ser pagas, os juros são sempre uma forma pecaminosa de agiotagem, porque é aos ricos que cumpre pagar a crise, porque...

 

Mas se a meio do percurso a UE cedesse em algo decisivo que transformasse o acordo num facto inultrapassável, não seria desta que os syrizados conseguiriam blasfemar contra os credores, contra os mercados, contra o capital, contra os juros, em suma, contra o establishment que eles querem afrontar.

 

O Syriza só pode imaginar-se sobrevivente se puder atirar as culpas para cima «das Instituições». Quando os gregos forem confrontados com a existência de senhas de racionamento a que eufemisticamente chamarão «Novo Dracma», terão por certo que lidar com cifras enormes para os escassos bens que consigam chegar às bancas dos mercados. Fome? Sim, muito provavelmente porque a agricultura grega sempre foi paupérrima e porque o pouco que se chegou a produzir se revelou incapaz de competir com o homólogo importado. E depois, era muito mais fácil importar do que dar-se à trabalheira da produção. Mas é claro que de todos esses desastres serão culpabilizadas as Instituições e respectivos especuladores.

 

É, pois, imprescindível para a esquerda mundial que a Grécia não chegue a acordo com os credores sob pena de se lhe rasgar definitivamente a bandeira da contestação.

 

Junho de 2015

 

C-HSF-Mékong.jpg

Henrique Salles da Fonseca

A BEM NASCIDA SEGURANÇA

 Salazar 1961.jpg

A professora de História do Bruno, a propósito do Estado Novo, penúltima matéria temática neste sexto ano de História, propôs aos seus alunos que pusessem aos seus avós as seguintes questões, que eles copiariam e leriam na turma:

As Perguntas:

1ª - Que pensa do regime de Salazar?

-Como era a vida no tempo de Salazar?

- Como era a Escola?

4ª - Alguma vez foi chamada à PIDE?

- Andou na Mocidade Portuguesa? O que fez lá?

6ª - A Guerra Colonial: Esteve lá? Como foi?

 

O Bruno apresentou as perguntas e dispusemo-nos a trabalhar, naquela tarde de 5ª Feira, ele a copiar, eu a escrever.

 

As Respostas:

 

- Penso que foi um regime de dureza necessário, porque salvou o nosso país por várias vezes de crises que Portugal atravessou. A primeira, foi como Ministro das Finanças, de 1928 a 1932. Portugal estava à beira da bancarrota, graças à instabilidade política, social e económica da 1ª República, e Salazar, com a sua política de contenção de despesas, conseguiu vencer o défice, embora com muito sacrifício do povo. Outro grande problema foi o da participação – ou não – na 2ª Grande Guerra, de 1939 a 1945. Salazar conseguiu seguir uma política de neutralidade e os portugueses não entraram na guerra, não lhe sofrendo os horrores. Por outro lado, com a sua política de Obras Públicas, Salazar contribuiu grandemente para o desenvolvimento do país. Mas discordo da sua ditadura, que não dava liberdade de pensamento aos portugueses.

 

2ª - A vida, durante a época de Salazar, era difícil, sobretudo nas classes mais pobres. Havia muita miséria, o povo andava descalço, havia muitos analfabetos. Mas o analfabetismo foi uma espécie de “doença” crónica no nosso país. Por outro lado, a classe média vivia melhor e podia educar os filhos nos liceus, escolas técnicas e nas universidades que havia em Coimbra, Lisboa e Porto. A classe mais rica tinha maiores prerrogativas, é claro, mais automóveis e casas melhores, com jardins e até piscinas.

 

– A escola era um encanto. Havia ordem e disciplina, aprendiam-se os hinos da nação – a “Portuguesa” e o “Hino da Mocidade Portuguesa” – e outros, como o da “Restauração”. Os professores eram dum modo geral competentes, porque tinham tempo para prepararem as suas aulas, e nos intervalos brincávamos que era um regalo – à bola, ao paulito, ao berlinde… Também se praticava desporto, hóquei, vólei, basquetebol.

 

- Quando andava no meu 7º ano do Liceu (11º hoje), tive colegas que foram chamados à PIDE para informarem sobre as suas actividades e sobretudo leituras. Houve um colega que esteve preso uns dias e, quando apareceu na nossa turma, foi uma festa e ele chorou, mas nunca nos contou o que lhe aconteceu. Era o Fernando Gil, que foi professor e filósofo.

 

- Não fiz parte da Mocidade Portuguesa, mas lembro-me do “Lá vamos cantando e rindo” que cantávamos, e de espectáculos de ginástica em que participávamos, todas vestidas de branco. Mas nunca nos impingiram as orientações nacionalistas que os da organização “Mocidade Portuguesa” deveriam receber. Eu sempre me considerei uma pessoa livre, mas cumpridora, e os livros que lia sobre a miséria dos povos – livros de escritores russos, brasileiros, portugueses – não me transmitiam revoltas contra o regime do Estado Novo, porque me limitei a estudar, quando estudante, e a trabalhar o melhor que pude, quando adulta.

 

- Quando eclodiu a guerra – em 1961 – eu estava em Moçambique, onde nasceram três dos meus filhos. Lembro-me das preocupações que vivemos, mas de repente o mundo abriu-se, Salazar enviou tropas portuguesas para Angola, Guiné e Moçambique, que se juntavam às tropas das respectivas colónias, chamadas posteriormente de províncias ultramarinas. Tive um cunhado que foi enviado como médico para o norte de Moçambique, mas levou a mulher, deixando a filha entregue aos avós, que viviam numa fazenda perto de Quelimane. O meu primeiro marido também foi chamado para combater o terrorismo no norte de Moçambique, mas eu estava grávida do meu terceiro filho e fui ao Governo Geral suplicar que o não mandassem para lá, e continuou no seu Quartel de Boane, perto de Lourenço Marques, por mais algum tempo. Anos depois, ainda em Moçambique, conheci o meu segundo marido, que fizera a tropa em Angola. Apesar de tudo, tanto Angola como Moçambique, desenvolveram-se extraordinariamente antes das descolonizações perpetradas pelos revolucionários de Abril de 1974. Nunca nos passara pela ideia que Portugal ia desfazer-se delas. Mas Salazar morrera e ele fora o grande esteio da Nação.

Berta Brás.jpg Berta Brás

A DES-SOCRATIZAÇÃO DO REGIME

 preso-44.PNG

 

Sócrates não é apenas um problema do PS, mas é um problema que só o PS pode resolver.

 

José Sócrates pretende ser um “preso político”. A propósito, Luís Marques Mendes experimentou um trocadilho: Sócrates não é um “preso político”, mas apenas um “político preso”. Tem graça, mas não é uma solução. O caso de Sócrates é político. Não vale a pena tentar resumi-lo a um simples processo judicial como outro qualquer.

 

Em primeiro lugar, porque a justiça portuguesa é frágil. É um passadouro de segredos e de indiscrições. Os seus processos desenrolam-se nos tribunais, mas também nos jornais, televisões e cafés. As gravações reveladas a semana passada mostram como Sócrates está consciente disso. Mais do que um interrogatório, registaram uma zaragata, isto é, uma oportunidade para Sócrates se exibir para as bancadas, no seu estilo característico (ó pá, a sua cabecinha). Para Sócrates, é óbvio que o processo nos tribunais é apenas um detalhe técnico de um problema que ele espera decidir, em última instância, pelos mesmos meios com que sempre fez política. Segundo Sócrates, este é um país onde a força prevalece sobre a lei. Com efeito, foi assim que durante seis anos no governo, ele resistiu e derrotou todos os processos e suspeitas judiciais. Muito provavelmente, acredita que só está preso porque perdeu poder. Resta-lhe, por isso, tentar recuperar esse poder, ou parte dele. Não lhe faltam, aliás, exemplos de que nunca a justiça em Portugal conseguiu terminar a carreira de um político, enquanto este teve força ou alguma influência. Mesmo depois de condenado em todas as instâncias.

 

Até por isso, é preciso tratar este caso de um ponto de vista político. Para Sócrates, a questão política é um ex-primeiro ministro ter sido preso. Mas a questão política é outra. Pelo que sabemos, Sócrates e os seus representantes legais negam tudo, menos uma coisa: que durante anos, incluindo os anos como primeiro-ministro, José Sócrates levou uma vida de luxo, acima das suas posses, graças a enormes quantidades de dinheiro que recebia secretamente do administrador de uma empresa com grandes contratos com o Estado (o qual lhe pagou, por exemplo, um fim-de-ano em Veneza em 2009). Não interessa agora discutir a origem desse dinheiro: essa é a questão judicial. A questão política é que tal situação de dependência oculta, mesmo que não configure nenhum ilícito penal, é absolutamente inapropriada para um político. Em Inglaterra, o ministro trabalhista Peter Mandelson demitiu-se em 1998 por não ter declarado no Registo de Interesses da Câmara dos Comuns um empréstimo de 373 000 libras de um colega do governo.

 

Em época eleitoral, a tendência é para tratar Sócrates como um problema do PS. Mas no seu auge, o socratismo foi um fenómeno politicamente transversal, como aliás lembraram os comentários à publicação das gravações a semana passada: a brutalidade com que Sócrates exerceu o poder fascinou a direita reformista, enquanto ele tentou passar por “liberal”, e fascinou a esquerda radical, quando ele se fez “socialista”, depois da crise de 2008 e sobretudo durante a oposição ao actual governo. Sócrates só não entrou na área do PCP. Ninguém em Portugal teve uma visão tão crua do poder. Enquanto primeiro-ministro, quase provou que era possível submeter o país como um todo ao regime típico do pior municipalismo, aquele que fez de algumas autarquias locais o feudo de tiranetes provincianos que tudo controlam e tudo manipulam. Mas se Sócrates nunca foi só um problema do PS, é agora um problema que só o PS pode resolver. Perante a justiça, Sócrates está a tentar passar por uma espécie de sinédoque do seu partido. Na sua pessoa, estariam a ser perseguidos todos os socialistas. Ora, até as condecorações de 10 de Junho aos ex-ministros Teixeira dos Santos e Mariano Gago (a título póstumo) provam que não há conspiração nenhuma contra o PS. Sócrates é o nome da fragilidade da nossa democracia. O regime precisa de se libertar do socratismo, e é o PS que neste momento lhe pode negar o oxigénio político com que ele está a tentar manter viva a sua causa. Ninguém compreenderá se os líderes socialistas não conseguirem dissociar-se da estratégia de defesa socrática. A solidariedade tribal não pode justificar tudo.

 

16/6/2015

 

Rui-Ramos.jpg Rui Ramos

 

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