Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A bem da Nação

A GUERRA

 

LS-guerra.jpg

 

 

São fortes os ruídos d’explosões,

Silvam no ar, cor de balas cinzentas,

Em redor, o choro das emoções.

Mais feridas d’estilhaços sangrentas.

 

Destroem-se vidas. Corações.

Pela sinistra razão do poder,

Dos agentes mudos das afecções,

Que, e sós, não podemos combater.

 

Vontade, de humanos, cor escura,

O preto, luto da Humanidade,

Sem-vergonha da dor que provoca.

 

Famílias desfeitas a sofrer,

E, sem direito à Felicidade,

Sob o signo feroz da tortura.

 

 

 

Luís Santiago.jpg Luís Santiago

 

O QUE NÃO SE DIZ

 

JCN-Ideologias.png

 

 

Em tempos conturbados florescem ideologias. O mundo hoje vive uma mudança acelerada, com desenvolvimentos espantosos e possibilidades desconhecidas.

 

Chamamos "crise" ao nascimento de um mundo novo. Infelizmente, as dores de parto levam ao repúdio do inevitável.

 

A generalidade das opiniões acerca da conjuntura não fala de futuro, mas de culpas.

 

Analisar a evolução, compreender os problemas e determinar a abordagem é exigente, trabalhoso, complexo. Muito mais fácil e gratificante é enunciar apreciações dogmáticas, trocadilhos retóricos ou acusações morais, que parecem fundamentadas, mas desviam e evitam a questão. Ignoram-se as novidades preferindo-se descrever obsessivamente as supostas asneiras do Governo, Alemanha ou FMI e os vícios das terríveis doutrinas neoliberais ou keynesianas.

 

Assim se omite a realidade.

 

A atitude é como se alguém, esquecendo os avanços da medicina, atribuísse todas as doenças a falhas médicas e terapêuticas erradas.

 

Uma ideologia não é erro ou capricho, mas algo indispensável, pois não podemos enfrentar o mundo sem critérios. O mal está, não na doutrina, mas na sua absolutização, que leva a esquecer a presença da realidade e a validade das alternativas. Ter um modelo de pensamento é imprescindível, mas ele deve ser continuamente testado na evolução da existência, única referência decisiva, sobretudo em alturas de clivagem. Por outro lado nunca podemos esquecer que os adversários, precisamente por o serem, têm sempre muito a ensinar-nos.

Tempos de transformação e mudança afectam os interesses e hábitos estabelecidos. Por isso os movimentos ideológicos ganham maior relevância, afogando a sabedoria e o conhecimento. Não interessa o que acontece, mas os erros dos que lidam com o que acontece. Em vez de debater progresso, tecnologias e novidades, denunciam-se corruptos e especuladores, políticos e empresários. Troca-se a procura de novas possibilidades e produtividades pela invocação de direitos adquiridos e preconceitos caducos. Entretanto o mundo passa ao lado.

 

A cada momento ouvimos vítimas da crise explicar o seu sofrimento pela maldade ou estupidez dos dirigentes, sem procurar sequer entender o que realmente aconteceu. Pode ser compreensível, mas é negativo e ocioso. Prefere-se a ignorância indignada ao conhecimento da evolução. Não interessam as novas dinâmicas, só as antigas queixas.

 

Nessas alturas uma análise serena e ponderada dos acontecimentos é repudiada com violência e, paradoxalmente, acusada de ideologia. Porque a forma mais simples de calar o importuno é apelidá-lo de neoliberal, comunista, extremista, reaccionário ou qualquer coisa que nos dispense de considerar com atenção os seus argumentos. Apresentar um raciocínio, descrever um problema, formular uma conclusão dá muito trabalho, obriga a pensar e procurar uma resposta substancial. É mais barato descartar a elaboração rotulando o maçador. Em vez de um estudo compõe-se uma epopeia; no lugar de fundamentos jorram rapsódias, até afogar a discussão.

 

Implícita está a hipótese de que nunca um neoliberal ou comunista podem dizer algo de valor, que é impossível um extremista ou reaccionário ter razão. Claro que, se explicitada, esta tese surgiria logo como a tolice evidente que é. Mas ela nunca chega à conversa, ficando escondida atrás do floreado de comparações e exemplos, condenações e juízos, todos aparentemente esmagadores, mas sempre desviados do cerne da questão e dos termos concretos da realidade.

 

Outro elemento da polémica bombástica é o fascínio de pôr o dedo na ferida, atirar pedradas ao charco e acusar o rei nu. Isso até parece realista e há quem julgue salvar o país só por o fazer, afastando-se mais um pouco das questões relevantes do momento. Porque esse tipo de actividade só seria útil nos casos raríssimos de cegueira colectiva, pois normalmente as chagas doem, os charcos vêem-se e um nudista ressalta. Mas, como do alto da sua ideologia, o doutrinador se considera genial perante um mundo de corruptos especuladores, não admira que ache mesmo ser o único a descobrir a anomalia que julga denunciar. Também aqui domina a preguiça e oportunismo, pois é muito mais simples pisar a úlcera do que curá-la, apedrejar de longe do que drenar o pântano, acusar o cortejo do que governar o reino. Pior, os dedos só infectam, as pedras bloqueiam, os insultos irritam sem nada resolverem.

 

Vivemos um tempo maravilhoso, que modificará o mundo para sempre. A evolução não pára e, queiramos ou não, nela viveremos. Todos o sabem, mas não é disso que se fala.

 

20 de Maio de 2015

 

João César das Neves.png

João César das Neves

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2006
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2005
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2004
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D