Já é antigo o artigo de José Pacheco Pereira – A consagração dos mortos pela hipocrisia dos vivos – do Público de 4/4/15 – com, em epígrafe, a frase do último parágrafo: «Querem comemorar os nossos mortos consagrados? Ajudem os vivos a percebê-los» que imediatamente orienta para a solução pedagógica de um homem culto, naturalmente, mas cuja cultura não nasceu de jacto, e foi sendo burilada ao longo da vida, tem de o reconhecer.
Não sei se José Pacheco Pereira tem razão na sua diatribe sobre a pedagogia do ensino, que lança sobre a leitura d´”Os Maias” alunos que nunca leram um livro, falseando, naturalmente, a verdade, com o “nunca “ da generalização drástica da sua asserção, só parcialmente verdadeira, como em todo o sempre. Muitos alunos há hoje que se informam e preocupam, como no tempo de Pacheco Pereira, quer ajudados pela família, quer por interesse e inteligência próprios, que o tempo faz evoluir. Pacheco Pereira, com uma arrogância de exclusividade cultural, despreza in limine o ensino na escola, que tem que ser gradual e obedecendo a parâmetros de aprendizagem progressiva, para se chegar à contemplação estética e científica do quadro, do poema, do trecho musical ou da filmografia arrastada de um génio – Manuel de Oliveira – toscamente endeusado na sua longevidade pela maioria saloia, como é a nossa, mesmo que o não endeusemos.
Para além do mais, na sua arrogância ilimitada, Pacheco Pereira não perde a ocasião de achincalhar Passos Coelho ou Paulo Portas, não lhes desculpando a ignorância, patente no discurso convencionalmente louvaminheiro das cerimónias fúnebres de grande envergadura social. Como se fosse exclusivo desses o artifício, e não tivessem outras funções na vida que essas de serem tão bem falantes ou cultos como José Pacheco Pereira, que, tal como a brisa de Fernando Pessoa, “como tem tempo não tem pressa”, deslizando suavemente pelas estantes do seu saber.
Eu até gosto a valer do discurso inteligentemente rítmico de Paulo Portas e do discurso aberto e objectivo de Passos Coelho e julgo que não lhes resta muito tempo para se ilustrarem com os poetas e os cineastas da nossa extraordinária propensão para o preciosismo retórico ou de pensamento, que provavelmente o tempo deixará de consagrar. É o caso, parece-me, de Herberto Hélder, como exemplifico com um seu longo, repetitivo e desconexo poema de uma consciência repleta de visões e sentimentos, fazendo-nos ansiar pela visão poderosa do quadro do pintor expressionista norueguês, Edvard Munch, “O Grito”, que nos mantém a ele colados (e aos outros da sequência), ou mesmo por qualquer poesia de Torga, leve e subtil, com que termino, apenas para me refrescar do primeiro, que associo em intenção narcisística e pedante a Manoel de Oliveira:
A consagração dos mortos pela hipocrisia dos vivos
José Pacheco Pereira
O festival de hipocrisia que avassala Portugal sempre que morre um consagrado “consensual” revela as nossas enormes fragilidades no espaço público.
Não há tão bom revelador do que é a elite portuguesa do que a maneira como trata os mortos que entende serem “seus”. O festival de hipocrisia que avassala Portugal sempre que morre um consagrado “consensual” revela as nossas enormes fragilidades no espaço público, e uma mistura de reverência oca, de ignorância, de imenso provincianismo e de uma ritualização pobre e subdesenvolvida. E aqui os media e o poder político vivem em simbiose total.
Merecem Eusébio, Herberto Helder, Manoel de Oliveira, José Silva Lopes, as homenagens dos portugueses? Merecem sem dúvida, mesmo do “país” se o houvesse. Só que não merecem estas “homenagens” político-mediáticas que tornam cada uma destas figuras peças de cera de um museu morto, que se empacotam numa prateleira logo que termina a exploração da sua morte e venha o esquecimento.
Deixemos Eusébio que tem características especiais, uma das quais ser, nesta lista, o único conhecido pelo povo e o mais “sentido” pelo povo, em Portugal, mas principalmente em Moçambique. Aceitem esta simples dicotomia povo-elites que uso apenas por comodidade de expressão e para não pesar sobre a economia do texto.
Todos os outros são praticamente desconhecidos pela maioria dos portugueses, e se formosa falar da sua obra, então são tão remotos ao comum do povo como Xenófanes de Cólofon. Só que o povo não se põe a falar destes homens como se os conhecesse de intimidade, tivesse estudado a sua obra e por isso pudesse fazer juízo de valor. Essa presunção não tem.
Herberto Helder é um completo desconhecido, pelo povo e pela maioria das nossas elites, que agora aparecem todas como íntimas de um poeta singular e difícil, que nunca leram e sobre o qual disseram não só as maiores banalidades, como enormidades. Manoel de Oliveira, que chegava ao povo mais por ter 106 anos do que pela sua obra, era “conhecido” por ser autor de filmes intragáveis, que ninguém via até o fim, ou sequer até ao principio, e gozado por filmar horas de filme em que nada acontecia ou por fazer fotografia e não cinema. Fazia parte de um certo anedotário que servia para mostrar desprezo pela cultura e pelos intelectuais, ou então, no extremo oposto, como um génio intocável, que em tudo o que mexia produzia arte intangível na sua grandeza absoluta. Estas duas atitudes são aliás mais próximas do que se imagina, porque criam um ecrã sobre a obra que dificulta um julgamento equilibrado e o exercício crítico.
A ignorância sobre Herberto Helder manifestou-se também por este mesmo desequilíbrio, reduzindo a história da poesia portuguesa do século XX a dois “génios”, Pessoa e Helder. Pelo caminho, já esquecidas, estão idênticas apreciações sobre, por exemplo, Eugénio de Andrade, Sophia e outros.
Por ironia destas coisas, o menos comemorado, em parte porque todas as televisões, rádios e jornais já tinham há muito preparado as peças necrológicas para Manoel de Oliveira, e de Helder não havia muitas imagens, foi José Silva Lopes, o único que as nossas elites políticas conheciam, tal como os espectadores habituais do cabo, porque já não tinha mérito para ocupar os preciosos minutos da televisão generalista. Silva Lopes também teve até agora a singularidade de não ter tido internacionalmente as necrologias habituais, mas um pequeno artigo de opinião noNew York Timesonline, nem mais nem menos do que do Nobel da Economia Paul Krugman. Por isso, está tudo trocado, e uma coisa é a repercussão pública oficial, com direito a mensagem televisionada do Presidente no caso de Oliveira, e vários dias de luto nacional, outra é a realidade da relação entre estas personalidades e a consciência colectiva portuguesa, quer a do povo, quer a das elites.
Tudo isto se passa num dos momentos em que a nossa elite política no poder mais afastada está de qualquer preocupação intelectual e, com algumas raras excepções, com elevados níveis de ignorância sobre qualquer matéria desta natureza. Por isso é que se agarram ao discurso pomposo da comemoração necrológica, que lhes dá uma espécie de álibi cultural que, de outra maneira, não poderiam ter. Quanto mais ignorantes, mais comemorativos, podia ser um axioma dos nossos dias.
O problema não está apenas na parte do dinheiro que vai para a “cultura”, questão que nunca considerei ser uma questão de cultura mas de “política de espírito”, ou seja, a propaganda moderna que os Estados e os governos fazem usando a intangibilidade das artes e da literatura para se promoverem ou aos seus chefes. O melhor exemplo é a longa continuidade da política de Malraux, depois de Lang, e no nosso caso de Manuel Maria Carrilho. Entre os seus cultores nacionais estão políticos como Santana Lopes, que aliás mereceu elogios de muita gente que hoje quer certamente esquecer-se de que foi “santanista” na altura útil. Aliás, muita gente que se proclama liberal e de direita é francamente a favor da subsidiação dos “criadores” e das “bolsas de escritores” e outras perversidades.
Mas, pelo contrário, entendo que o melhor que se pode fazer é tratar da cultura como uma questão patrimonial, de educação, e mesmo de “indústria”, e aí há muita coisa a fazer que os nossos homens do poder não fazem, e não querem fazer. Temos muito património a esboroar-se, muito património a vender-se mais ou menos às claras no estrangeiro, muita educação para as artes, quando existe, no mesmo estado degradado do Conservatório, e mesmo uma “indústria cultural” muito para além da Joana Vasconcelos, que se “vende” bem.
Se se quer ajudar as pessoas a compreender o valor de Oliveira ou Herberto Helder, ou melhor ainda, a serem “tocados” pelas suas obras, naquilo em que a criação nos muda, troco dias de mensagens, votos de pesar, funerais nacionais (e agora até a obrigação de colocar os corpos no Panteão...) e luto oficial, por medidas minimalistas que ajudem a que se conheça a poesia portuguesa ou o cinema nacional.
Seja fazer com que nas livrarias e nas bibliotecas das escolas haja os clássicos portugueses em edições límpidas e seguras, baratas e agradáveis (experimentem procurar oCrisfalou aMenina e Moça), que nas escolas os professores possam fazer clubes de recitação, haja concursos nacionais de recitação (com o “serviço público de televisão” ao lado); se forneça material de vídeo e se ensine a filmar, a montar um filme, a ir para além dos vídeos do YouTube, depois de se saber fazer vídeos para o YouTube; se forneçam os laboratórios das escolas para se poderem fazer experiências de física e química; se ensine a “ler” um quadro ou uma escultura, e, acima de tudo, que se ajude a curiosidade, mais do que as abstractas “metas” das disciplinas escolares.
Estas atiram alunos, que nunca leram um livro, para osMaiasdo Eça, cujo vocabulário, metáforas, histórias mitológicas ou bíblicas desconhecem de todo, ou a aprender nomenclaturas gramaticais que são decoradas e esquecidas no dia seguinte, ou a atirar estudantes para Descartes e Kant (imaginem!) sem qualquer cultura geral seja do que for.
Querem comemorar os nossos mortos consagrados? Ajudem os vivos a percebê-los e não a colocá-los numa prateleira, receando que o que haja de subversivo na sua criação saia de lá e chegue à rua. O poder precisa de múmias e não de arte ou cultura, e, nestes dias, a indústria de mumificação está em pleno.
O Miradouro das Floressitua-se no extremo oeste da Ilha do Porto Santo e não tem uma única flor. Talvez seja por essa bitola de congruência que na Wikipédia se diz que a ilha é «extremamente plana». Sim, é plana no espaço a duas dimensões em que a própria Wikipédia se nos apresenta na Internet. O mesmo se diga do Everest.
De carro, não me custou nada percorrer as «planícies» que do litoral nos levaram às serras exteriores e interiores e felizmente, a guia-chauffeuse fez-me a vontade e não aproximou o jeep dos abismos. Que me desculpe o «wikipedeiro» pela minha vertigem perante as tais «planícies». E quem zela pela verdade naquela enciclopédia, a livre (liberdade de enganar os incautos?), também pela certa nunca foi a Porto Santo.
Naturalmente seca, abandonou há alguns anos os poços que a serviram desde que em 1418 foi descoberta por João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira (um ano antes de os mesmos terem descoberto a ilha da Madeira que dista apenas 70 kms) e vive da água dessalinizada. Leigo na matéria, não quero contudo deixar de manifestar um louvor muito especial à qualidade da água que corre nas torneiras de que me servi.
Diz-se que em tempos se produzia cereal. Hoje, nada ou quase nada se produz. Hortas minúsculas para auto abastecimento mas a guia-chauffeuse informou que os excedentes são comercializados «numas bancas lá em baixo». Presumo que em Vila Baleira, a sede de Concelho a que eles chamam cidade, mas não vi nada que se pudesse assemelhar a um mercado municipal. E também não vi nada que em boa verdade se pudesse assemelhar a uma cidade. Em compensação, muitas vezes nos referiram o supermercado – cujo nome não cito propositadamente para que alguém relacionado com a Fundação Francisco Manuel dos Santos não me venha pedir direitos de citação – e esse, sim, é um ponto central na vida da população.
Com excepção dos tais excedentes das minúsculas hortas e de algum peixe pescado pela pequena frota local (não vi mais que 3 ou 4 traineiras), tudo é trazido de fora da ilha. Logo por acaso, o «peixe» que comi era quase todo forasteiro pois que se tratava de lulas e polvo[1] que não existem naquelas águas. Excepção para uma refeição de um magnífico peixe-espada que, esse sim, é local; e esse, sim, é peixe.
A economia local assenta actualmente no turismo e, mais concretamente, na praia de 9 kms de areia muito boa e que se diz ter propriedades terapêuticas contra males dos ossos e articulações. Parece que tem muito estrôncio, anti inflamatório natural. Não senti quaisquer melhoras porque simplesmente não padeço desse tipo de maleitas mas um dia que me achaque pelas bandas articulares ou que o esqueleto se entorte, já sei que tenho que ir estronciar-me para Porto Santo. O hotel em que ficámos, o Hotel Porto Santo, tem um SPA de cinco estrelas em que o tratamento das areias é compactado para caber na estadia de uma semana, o período de «Santo Avião» da TAP.
Portanto, nós, os turistas, vamos para Porto Santo para irmos à praia. E se o tempo está frio e sem Sol? Bem, isso fica para a próxima crónica. Até logo.
Maio de 2015
Henrique Salles da Fonseca
[1] - Tanto a lula como o polvo são moluscos cefalópodes, não são peixes.
O bom de descer as ladeiras de Lisboa é que durante alguns dias você está longe da selvajaria carioca, pode sentir a nostalgia de sair flanando como fazia antes nas ruas da sua cidade. Zero de medo. Assim como quem não quer nada, um sorvete da Santini numa das mãos, você vai Rua do Carmo abaixo, passa pela luvaria Ulisses e, quando dá com os cornos no Rossio, o largo monumental pode fazer a surpresa de oferecer uma festa de máscaras ibéricas, comidas e danças por todos os lados, mas nunca a cena de um médico ensanguentado no chão do Café Nicola, esfaqueado por algum garoto que em seguida lhe roubou a bicicleta e foi embora.
Isto aqui é Lisboa, opa. Zero de deslumbramento. As escolas de Portugal acabaram de ser avaliadas em trigésimo lugar num ranking de 38 sistemas educacionais europeus, há muita coisa a ser feita, mas o bom listo aqui é que se vive em paz com os pequenos valores da existência. Zero de sobressaltos. A delícia antiga de se ir ali à esquina e, a ordem natural da felicidade das coisas, voltar sem que a polícia lhe tenha metido uma bala perdida nas costas.
Agora, por exemplo, você está na ladeira do Príncipe Real e basta pôr os pés na faixa de pedestres para que os carros parem até você chegar do outro lado. Aí é só começar a descer a rua por uma calçada de pedras portuguesas, todas postas em seus lugares, nenhuma solta e chamando os pés para um tropeço que pode para sempre lhe estuporar os joelhos e desgraçar a sobrevivência.
Não está acontecendo nada de muito notável, Lisboa está linda, mas não se faz aqui um registo de qualquer grande marco a se exaltar na revolução civilizatória moderna. É apenas uma cidade que tem se descoberto feliz consigo mesma.
Lisboa está coberta dos caminhos simples, verdadeiros yellow-brick-roads para se levar a vida com leveza, essa carência carioca, e num deles você desce o Bairro Alto, atravessa o Largo Luís de Camões, pega a Rua do Alecrim e, ao final, apesar de todas as modernidades da Rua Nova do Carvalho, é possível encontrar ainda de pé as tascas da tradição gastronómica. Tudo convive sem conflito. Ao contrário do Rio onde toda semana fecham uma mesa na memória do paladar e tiram da boca do cidadão um gosto familiar, em Lisboa é possível sentar num tamborete do quase botequim Sol e Pesca para comer as conservas que há séculos apetecem ao apetite local. Ninguém mais sabe ao certo o que é antigo e o que é moderno. As sardinhas continuam nas latas, o azeite continua de oliva, mas o estilo de tudo isso agora vem embrulhado em papéis do mais fino design.
Isto aqui é Lisboa, ó pá, e isto não é o anúncio de que o mundo está sendo re inventado a partir de suas oito colinas. Os políticos corruptos também estão, como os ratos de sua corja internacional, nas capas do "Expresso" e do "Público". Mas na vida real do dia a dia a cidade encontrou um jeito delicado de lustrar os seus casarões magníficos, parecidos com os que todo mês desabam na Lapa carioca e, ao mesmo tempo em que se orgulha deles, reinventa suas funções. Não há mais loja de roupa, mas de "conceito" e portuguesa de bigode era a vovozinha. Agora as garotas são todas "giras” o termo local para traduzir o "cool".
A sensação em alguns momentos é que você vai sair da Rua Augusta, tomar uma ginja no canto da Praça da Figueira e quando dobrar em direcção ao Largo do Intendente vai dar na verdade nos Arcos da Lapa. Mas é só impressão. As ruas são limpas, os garçons servem às mesas com presteza, os telhados são os mais bonitos do mundo e as praças estão sempre tomadas por senhoras que descansam ou jovens, no Quiosque do Refresco, animados por doses de capilé. Tagarelam, paqueram, o de sempre. Ninguém aporrinha o próximo.
O Cais do Sodré, por exemplo, está basicamente o mesmo de sete anos atrás. Mas se você prestar bem atenção, andar para a direita e entrar no Mercado da Ribeira, lá sobrevive o comércio tradicional das barracas dos tripeiros, convivendo com os stands da nova culinária portuguesa, tudo redesenhado sob o patrocínio da revista "Time Out" – e é impossível ao carioca não pensar que um dia, sem precisar ir tão longe, poderia estar assim, curtindo a vida em paz, comprando suas flores, gastando pouco, beliscando o que quisesse, na Cadeg de Benfíca. Depois, sem entrar em pânico, passaria pela Barreira do Vasco e chegaria em casa para contar aos que ficaram como foi bom.
Ao carioca-da-semana-passada, um dos períodos mais tristes da vida da cidade, foi preciso ir até Lisboa para recolher histórias de não acontecimentos, comer um bacalhau ao sossego e ter a sensação inenarrável de que não corre o risco de ser assassinado na próxima esquina – e em Lisboa esses sonhos, essas pataniscas simples, parecem cada vez mais fáceis de se realizarem. A cidade se pacificou com suas tradições, entendeu feliz que um bom jeito de avançar é o da refazenda das suas guarirobas. Ao invés de gourmet, os pastéis de Belém procuram resgatar a receita original. E se em algum momento a cidade tentou esquecer Amália Rodrigues, por causa de suas relações com Salazar, Lisboa agora, em mais um arroubo de orgulho pelas suas referências, está cercada de motoristas de táxi com os carros sintonizados na recente Rádio Amália, um chorrilho de 24 horas de fados da grande cantora.
Na chegada ao Galeão, o carioca-da-semana-passada foi cercado pela notória turbamulta de taxistas. Sonhou que uma Rádio Elizete Cardoso iniciava o processo de pacificação geral e convocava a cidade a guardar suas facas.
Os portugueses têm o estranho costume de não “cruzar” apertos de mão. Isto é, quando quatro pessoas se cumprimentam simultaneamente, tenta evitar-se que os braços se intersectem durante o aperto de mão, formando uma cruz. Quando confrontados por estrangeiros perplexos, desconhecedores do costume, em regra, os portugueses não sabem explicar a razão de ser desta tradição, relegando-a para a vasta categoria das “superstições populares”.
Na verdade, a origem do estranho gesto remonta aos finais do século XV, altura em que os judeus portugueses foram forçados a converter-se ao catolicismo sob pena de morte. Para muitos, a conversão assumiu apenas um aspecto exterior, continuando o judaísmo a ser praticado dentro de casa, de forma secreta e escondida. Vários historiadores compilaram listas de orações criptojudaicas quinhentistas – algumas sobreviveram até aos nossos dias na comunidade de Belmonte – que denotam uma tentativa de manter viva a ligação ao judaísmo. A mais conhecida será a oração dita pelos cristão-novos/cripto judeus ao entrar numa igreja: “Nesta casa entro mas não adoro pau nem pedra mas sim o Deus que tudo governa, Adonai, Deus de Israel” (in Os Cripto judeus da Faixa Fronteiriça Portuguesa, Eduardo Mayone Dias, 1997).
Da mesma forma, outros gestos quotidianos seriam influenciados por esta necessidade de manter afastados os símbolos da religião que lhes fora imposta à força. A cruz (e os crucifixos) era vista pelos cristãos-novos portugueses como um símbolo aziago e, como tal, a evitar a todo o custo. Segundo David M. Gitlitz, professor da University of Rhode Island, no seu livro Secrecy & Deceit: The Religion of the Crypto-Jews, é neste contexto que judeus portugueses forçados ao catolicismo começam a evitar cruzar braços quando apertam a mão a alguém, afirmando que o gesto “dá azar”. O mesmo costume alargou-se também à representação acidental da cruz à mesa, evitando cruzar facas e garfos.
A assimilação dos judeus forçados à conversão, que ocorreu nos séculos posteriores, levou à propagação da prática, tornando-a parte do subconsciente colectivo nacional – chegando mesmo a implantar-se também em algumas regiões do Brasil, onde durante o período colonial existiram comunidades significativas de cripto-judeus, nomeadamente no Recife e na Bahia.
Hoje, ironicamente, o mais católico dos católicos continua a evitar “fazer cruzes” quando aperta mãos, desconhecendo que o gesto surgiu como resistência, e mesmo rejeição, ao catolicismo imposto à força aos judeus portugueses no século XV.
Uma Revista Expresso, de 1 de Maio de 2015, plena de informação e crítica, a começar na “Pluma Caprichosa” de tanto saber e sabor, sobre os casos dramáticos da África e do ocidente asiático, entregues aos bichos, que é como quem diz aos peixes mediterrânicos, depois dos traficantes “negreiros” lhes terem marcado a rota e bebido o sangue do moderno auxílio humanitário contra a demais barbárie perpetrada entre os seus povos, com a conivência do mundo ocidental que, depois da liberdade que magnanimamente lhes concedeu – no caso africano - em vez de os amparar, semeando entre eles os instrumentos e a educação para o progresso, os abandona à selvajaria dos seus novos ditadores – não mais exploradores, como foram os primitivos colonizadores – aos quais fornecem as armas – e, nos casos de mais esplendor e cultura, a modernidade e o luxo asiático de cortar a respiração. E sempre em benefício próprio, a troco do “ouro negro” necessário à manutenção do seu poderio no mundo. Um cinismo efectivo nas relações do Ocidente ou do Norte, com esses povos - as ajudas humanitárias por um lado, o fornecimento de armas cauteloso, por outro – e, como resultado, as hordas de desgraçados em busca de sossego, milhares deles encontrando-o nos pélagos profundos do “mare nostrum”, para horror universal.
Outro texto de uma “literatura” sombria, porque eivada de preconceito antigovernamental, é o do comendador Marques Correia, uma cena de auto “vicentino”, com o Anjo Santana tentando proteger os dois governantes Passos e Portas, caídos de borco em devassidão etílica, humor destrutivo, de mensagem não superior à dos homens e mulheres que na “Opinião Pública” da Sic Notícias exprimem os seus saberes e as suas iras, industriados pelo verbo altissonante dos seus chefes do discurso unilateral.
“Atrás das Grades” fez-me ler o texto sobre Carlos Cruz, as informações sobre a forma como ele passa os dias, sobretudo escrevendo e longe da filha, no impasse de ganhar a liberdade se reconhecer a culpa, sujeito a tratamento hospitalar, ou continuar preso. Como a não reconhece, ali se mantém, na sua prisão, quem sabe se em auto expiação cujo mérito aceita. A extraordinária vida de um homem inteligente, sardónico, talvez devasso, que nos habituámos a admirar, antes do “escândalo” que ensombrou este país, e a que seguiriam tantos mais de calibre vário!
E novamente os “Migrantes”, em reportagem de Cristina Pombo e Luís Barra, plenos de informações e de revolta piedosa.
E “Os últimos dias de Hitler”, de vastos dados sobre as monstruosidades vividas na altura.
Retomo, a propósito, Vasco Pulido Valente, no Público, resumindo o tema (em efeméride de suicídio que não possibilitou a punição vingativa dos homens), no artigo “A morte de Hitler”, com a dimensão esclarecedora de sempre:
A morte de Hitler
3 de Maio de 2015
Hitler não morreu em Maio; morreu no dia 30 de Abril, antes da rendição. Não o mataram, ele próprio se matou com um tiro na cabeça e, para segurança, com uma cápsula de cianeto.
O último ano da guerra, quando o Reich já não tinha salvação, foi o ano da guerra em que mais pessoas morreram e foram expulsas mais pessoas dos sítios onde tinham nascido e vivido durante séculos. À volta de 5000 maiorais do nazismo também se mataram para escapar às mãos do exército aliado, que sabiam determinado a fazer alguma justiça. Os “notáveis” conseguiram escapar e uma dúzia acabou em Nuremberga, onde a julgaram e acabaram por enforcar. Entretanto, e para bem da humanidade inteira, desabava um mundo, que felizmente jamais será possível reconstituir.
Em 1943, em Kursk, os russos liquidaram a força e a organização da maioria dos corpos blindados de Hitler e começou a ofensiva aérea da América e da Inglaterra que iria destruir a aviação alemã (e não simplesmente, como hoje às vezes se alega, bombardear civis). No meio desta radical revolta, Hitler resolveu passar à ofensiva contra a opinião maciça do Estado-Maior. Não queria esperar passivamente a sua derrota e não lhe interessava poupar a Alemanha a mais sofrimentos. Já sem a mais ténue ligação com a realidade, desguarneceu a frente oriental para atacar Eisenhower e Montgomery no preciso ponto em que ganhara em 1940. Mas perdeu, e perdendo, desperdiçou também o resto do seu melhor armamento e o resto dos militares ainda capazes de lutar.
Daí em diante, a guerra passou a ser uma carnificina, em que a Hitler assassinou sistematicamente qualquer homem ou criança a que arranjou maneira de deitar a mão. Cercado em Berlim, no “bunker” da Chancelaria, não deixou por isso de dirigir exércitos que só existiam na sua imaginação e executar as personagens por quem ele se achava traído. Milhares morreram assim, dentro e fora dos campos de concentração, enquanto o Exército Vermelho entregava a Prússia Oriental e uma parte da Silésia aos polacos e a Checoslováquia expulsava os “sudetas” para a Alemanha: 11 milhões de alemães apareceram subitamente nas zonas de ocupação inglesa e americana. Deste apocalipse Hitler concluiu, num testamento sentimental e mentiroso, que a culpa era da conjuração judeu-bolchevique, que nunca existira, excepto como pretexto para ele matar 55 milhões de pessoas. A presunção de progresso e o primado da vida humana acabaram assim e, mesmo hoje, tremem a cada assalto.
A Presidenta Dilma não costuma usar um português muito correcto, muito claro. Seguem algumas frases que deixariam Camões estarrecido.
Está em ordem decrescente propositadamente...
GRANDES FRASES DA “PRESIDENTA”
18º lugar:
“Eu sempre escuto os prefeitos. Por que é que eu escuto os prefeitos? Porque é lá que está a população do país, ninguém mora na União, ninguém mora… “Onde você mora?” “Ah, eu moro no Federal”.
17º lugar:
“A única área que eu acho, que vai exigir muita atenção nossa, e aí eu já aventei a hipótese de até criar um ministério, é na área de… Na área… Eu diria assim, como uma espécie de analogia com o que acontece na área agrícola.”
16º lugar:
“A mulher abre o negócio, tem seus filhos, cria os filhos e se sustenta, tudo isso abrindo o negócio.”
15º lugar:
“A Zona Franca de Manaus, ela está numa região. Ela é o centro dela porque ela é a capital da Amazônia.”
14º lugar.
“Vamos dar prioridade a segregar a via de transporte. Segregar via de transportes significa o seguinte: ou você faz metrô, porque o metrô… porque o metrô, segregar é o seguinte, não pode ninguém cruzar rua, ninguém pode cruzar a rua, não pode ter sinal de trânsito, é essa a ideia do metrô. Ele vai por baixo, ou ele vai pela superfície, que é o VLT, que é um veículo leve sobre trilho. Ele vai por cima, ele para de estação em estação, não tem travessia e não tem sinal de trânsito, essa é a ideia do sistema de trilho.”
13º lugar.
“Tudo o que as pessoas que estão pleiteando a Presidência da República querem é ser presidente.”
12º lugar.
“Eu vi. Você veja… Eu já vi, parei de ver. Voltei a ver e acho que o Neymar e o Ganso têm essa capacidade de fazer a gente olhar.”
11º lugar
“Eu quero adentrar pela questão da inflação, e dizer a vocês que a inflação foi uma conquista desses 10 últimos anos do governo do presidente Lula e do meu governo.”
10º lugar.
“Eu também vou falar… Eu vou falar pouco. Vou explicar por quê: todo mundo, antes de mim, disse que ia falar pouco, não é? E aí, tinha uma senhora ali, na frente, que falou o que todos nós estamos sentindo. Ela disse assim: “Eu estou com fome”. E eu vou levar em consideração ela, que falou uma coisa que todo mundo está pensando, mas não está falando.”
9º lugar.
“A autossuficiência do Brasil sempre foi insuficiente.”
8º lugar.
“Em Portugal, o desemprego beira 20%. Ou seja, 1 em cada 4 portugueses estão desempregados.”
7º lugar.
“Primeiro, eu queria te dizer que eu tenho muito respeito pelo ET de Varginha. E eu sei que aqui, quem não viu conhece alguém que viu, ou tem alguém na família que viu, mas de qualquer jeito eu começo dizendo que esse respeito pelo ET de Varginha está garantido.”
6º lugar.
“Em Vidas Secas está retratado todo problema da miséria, da pobreza, da saída das pessoas do Nordeste para o Brasil.”
5º lugar.
“O meio ambiente é sem dúvida nenhuma uma ameaça ao desenvolvimento sustentável.”
4º lugar.
“Eu quero, então, voltar aonde eu comecei. Eu vou falar agora que aqui tem 37 municípios. Eu vou ler os nomes dos municípios, porque eu acho importante que cada um de vocês possam (sic) se identificar aqui dentro e, por isso… Eu ia ler os nomes, não vou mais. Por que não vou mais? Eu não estou achando os nomes. Logo, não posso lê-los.”
3º lugar.
“Eu ontem disse pro presidente Obama que era claro que ele sabia que depois que a pasta de dente sai do dentifrício ela dificilmente volta pra dentro do dentifrício. Então que a gente tinha de levar isso em conta. E ele me disse, me respondeu que ele faria todo esforço político para que essa pasta de dente pelo menos não ficasse solta por aí e voltasse uma parte pra dentro do dentifrício.”
2º lugar.
“Eu estou muito feliz de estar aqui em Bauru. O prefeito me disse que eu sou, entre os presidentes, nos últimos tempos, uma das presidentes, ou presidentes, que esteve aqui em Bauru.”
E finalmente, o 1º (ríssimo) lugar.
“Se hoje é o dia das crianças, ontem eu disse que criança… O dia da criança é dia da mãe, do pai e das professoras, mas também é o dia dos animais, sempre que você olha uma criança, há sempre uma figura oculta, que é um cachorro atrás.”
Ela é melhor que o saudoso Vicente Matheus! Até o Lula fica com inveja!
"Aimez-vous les uns les autres, comme je vous ai aimés" - voilà un message d'amour qui n'existe pas dans le Coran…
Question à un musulman:
- Voudrais-tu avoir l’immense gentillesse de me dire, (même approximativement) combien de fois le verbe «AIMER» figure dans le Coran ? Et, si possible, le numéro de la Sourate … dans lequel «aimer» est cité?
Je te remercie beaucoup d’avance, tout en te précisant que ta réponse sera diffusée sur Internet mais sans citer ton nom. Ne t’inquiètes pas!
Mais tu ne peux pas répondre! Pourquoi?
Bon, voila, je répond à ta place:
- dans le Coran, le terme «GUERRE» est employé 9 fois;
- celui de «SUPPLICE» 12 fois;
- «INFIDÈLE» revient 47 fois;
- le verbe «TUER» et ses conjugaisons 65 fois;
- le terme «FEU» (de l’enfer pour les mécréants) 150 fois;
- «MÉCRÉANT» 155 fois;
- et la palme revient au terme «CHÂTIMENT» avec 354 citations…
Pas une seule fois le verbe «AIMER» ne figure dans le Coran.
Aprendi a respeitá-lo e admirá-lo sem o conhecer ou conhecendo-o mal.
A sua figura austera quebrada de quando em quando com o sorriso de circunstância com que saudava qualquer pessoa impunha-me respeito e despertava-me curiosidade
O senhor representou para mim sempre um enigma, não na forma de ser séria e honrada que toda a gente que o conhece bem avalizava, mas sim na personalidade quase sempre distante que nunca atribuí á vaidade, mas a uma humildade recheada de orgulho ou a um espírito naturalmente introvertido.
Um amigo comum de nome David Luiselo Godinho Ribeiro Telles, vulgarmente conhecido por «Mestre David» encarregou-se ao longo de muitas horas de conversa, e de muitas viagens de carro, de me ir construindo a imagem do forcado de eleição, do homem de causas e do homem do Campo em toda a sua plenitude.
Como forcado começou aos dezassete anos, quando era estudante da antiga «Escola de Regentes Agrícolas de Santarém» no grupo de amadores dessa cidade, á época capitaneado por António Abreu, fundador do mesmo, vindo depois a ser comandado pelo Sr. D. Fernando de Mascarenhas (Marquês de Fronteira e Alorna e Conde da Torre).
No seu tempo meu caro senhor, fardaram-se consigo, António, Joaquim e Zé Abreu, José Gois, Simão Malta, Ricardo Rohdes Sérgio, Francisco Torcato, A. Patrício, Gabriel Barata, Joaquim Grave, António Alcobia, António José Teixeira e mais alguns, além do já citado D. Fernando de Mascarenhas.
Com este naipe de aficcionados de solera, que elevaram a imagem do forcado amador ao respeito e muito contribuíram para a transformação do agarrar toiros na arte de os pegar, facilmente se compreende porque esta gente é referencia para os forcados amadores de uma forma geral e para o grupo de Santarém em particular.
No vosso grupo - de que são indiscutivelmente as maiores referencias -, criaram um bem inestimável a que se chama mística, mística essa que faz com que sobrevivam através dos anos na vanguarda com grandeza, sem abdicar de princípios, conceitos e estares.
Disse um dia o general “De gaule”: «A grandeza só é possível com mística».
Tendo tudo o que acabo de escrever em linha de conta, não é difícil compreender que para si, este grupo, o seu grupo, seja visto com paixão que numa forma livre e metafórica de escrita, me atrevo a dizer que o viveu quase como uma religião.
Foram dez anos de forcado, revividos depois com os seus filhos Manuel e António.
Mesmo nesta faceta de pai foi diferente de muitos nos quais eu me incluo, não deixando transparecer um esgare quando as coisas corriam menos bem ou se quer um sorriso quando as coisas corriam bem.
Com um fácies esfíngico a tudo assistia com alma de valente.
Foi curioso e enriquecedor falar consigo de forma informal na preparação de mais esta carta, na companhia de Mestre David, e como é natural, a minha atenção prendeu-se mais em alguns detalhes, como por exemplo, quando lhe perguntei quais as posições que ocupou no grupo e me respondeu que, pegava de caras, dava primeiras ajudas e cernelhava, acrescentando: “nunca fui estrela, estrelas foram fulano, beltrano e sicrano…”.
Este contraste absoluto com o que é por vezes tão comum, fala por si.
Depois destes anos ao serviço desta causa, veio a vida á séria no campo, que teve que pegar com a valentia e o estoicismo com que se agarrava aos toiros, depois da morte do senhor seu pai, quando já era órfão de mãe desde os 16 anos, que coincidiu com a crise na lavoura, na maioria dos casos, fruto da mecanização e não só.
Na casa agrícola fundada pelo seu bisavô, Eugénio Cortes Paim dos Reis, viveu o tempo em que o trabalho ou era braçal ou de origem animal que gerava a força motriz das alfaias, como exclusivas vertentes dos trabalhos da lavoura e mais tarde viveu a transição para a mecanização de que foi um dos pioneiros.
Fala das “tralhoadas”, das “amancias” dos“enchocalhamentos” e das castrações dos toiros bravo que seriam engatados ás charruas e grades, com saber e sentimento.
Todos estes trabalhos que me descreveu a titulo de“fait-divers, tinham os seus rituais.
Se outros motivos não considerasse, bastavam essas lições de história que aprendi ou aperfeiçoei consigo, desconhecida de muitos, e com largas perspectivas de se perder, para que eu lhe escrevesse esta carta“p’ra que a terra não esqueça”.
Explicou-me então: - A “tralhoada” era o conjunto de pessoal, das alfaias, do gado e etc., todo um mundo, que se deslocava para as terras que iam ser semeadas e a respectiva faina de toda esta gente em conjunto.
A título de curiosidade referiu-me um pormenor interessante que cito.
Deste conjunto fazia parte um cavalo, forte, com pouca classe e manso que transportava no dorso, enxadas, a comida e outros haveres dos trabalhadores, a que se dava o nome de “alforgeiro”, chegando alguns destes animais a um grau de fidelidade que ficavam parados sem estarrem amarrados a nada.
A “amancia” constava no engatar dos toiros bravos á charrua.
Numa charrua puxada por seis bois o toiro amansado era engatado em 5º lugar. Ao sexto chamava-se boi de encosto ou madrinha e todo este trabalho de subjugar o toiro ao trabalho laçando-o, era conseguido com a força dos homens aliada a expedientes de experiencia feitos.
Os bois de trabalho eram enchocalhados na primavera, e cada par tinha um tipo de chocalho diferente.
Os primeiros levavam ao pescoço as “picadeiras”, os segundos “reboleiras” (compridos de modo a baterem-lhe nos joelhos) e os últimos levavam as “esquilas”.
Ao conjunto de bois da frente chamava-se “piadeiras”,ao segundo “força madrinha” e ao terceiro “rodas”.
As castrações eram brutais conduzindo ao envelhecimento e definhação.
Das suas narrações ficaram-me na memória estes retalhos de história, que ao publicitar esta carta, aqui deixo para que assim mais dificilmente se percam na memória do tempo.
Não posso de maneira nenhuma, deixar de falar no senhor como notável criador de cavalos.
A sua éguada foi fundada pelo Juiz João Maria dos Reis seu bisavô, com o intuito de ter cavalos fortes para o trabalho de campo.
Hoje que esse fim já não tem cabimento, veio o senhor a melhorar a coudelaria tendo em vista o toureio, obtendo vários produtos de grande qualidade.
Vários são os cavalos com o seu ferro a tourear em Portugal e Espanha quase todos da linha do “México” igualmente do seu ferro, com o qual João ribeiro Telles teve tantas tardes de êxito.
Teve ainda o senhor, por brincadeira, uma incursão no toureio a cavalo quando estudante da E.R.A.S numa garraiada da dita escola.
Consigo toureou António Alcobia e Joaquim Mascarenhas.
O cavalo que montou tinha o ferro “Cachado” e a vaca era do Galrinhas, corrídissima, e como se calcula a experiencia não foi famosa, mas da qual se recorda uma sorte verdadeiramente de caras…como me contou a rir“Mestre David”.
Foi sempre um homem que na vida pública assentou forma nas ideias e regime vigente em que nasceu e foi criado, nada de mais natural mesmo para quem como eu, foi educado num ambiente hostil ao regime, regime com o qual igualmente não concordava, como é público.
Ouvi-lo contar de forma respeitosa a atitude tomada pelo dr. Sousa Dias, republicano, anticlerical e progressista, quando o povo lhe foi entregar o padre Tobias (de Samora Correia) representante activo de todo o contrário e inimigo político figadal do dito padre, é de meditar.
Foi assim : o povo trazia o Padre amarrado para que o ilustre clínico se vingasse e quando lhe bateram á porta este disse: “ deixem o padre em paz, que ele vem almoçar comigo”. Depois de almoçarem juntos, conduziu ele próprio o sacerdote a bom porto.
Esta atitude reflecte a nobreza de sentimentos de quem a teve e define quem do lado politicamente oposto ao do Dr. Sousa Dias, a admira ao ponto de a citar como exemplo de grandeza moral.
Vi nas suas palavras por vezes um pouco de nostalgia perfeitamente compreensível do alto dos seus 88 anos, mas que certa lógica na sua argumentação, lhe pode dar pelo menos parte da razão.
Disse-me que Portugal perdeu uma boa parte da sua génese nas caravelas.
Não concordo completamente, mas não haja dúvida que fiquei a pensar…
Falar consigo foi um naco de tradição que saboreei ao mesmo tempo que desvendei parte da personalidade fechada.
Já uma vez tinha privado consigo em “Nimes” durante dois ou três dias e daí nasceu a ideia de um dia desvendar melhor a sua personalidade.
Aconteceu agora, o que me permitiu desvendar além do mais, recantos do Ribatejo antigo o que, para quem não o viveu mas adorava tê-lo vivido, é de todo gratificante.
Neste apanhado de quase um século de história, fica a minha homenagem ao homem, ao forcado, ao lavrador, ao criador de cavalos e ao cidadão, António Paim, “P’ra que a terra não esqueça”.
À PROCURA DE SEGURANÇA DE ACOLHIMENTO E DE CARINHO
A Vida é Sol e Sombra - um dar à Luz expresso no Eco do Grito do Nascimento
Somos eternos peregrinos sempre a caminho e a seguir o eco do grito primordial - aquela dor que nos separou do paraíso perdido, da harmonia vaginal, e que é a ressonância da consciência de se ser algo diferente daquele albergue a que se convencionou chamar terra. Desde que Adão comeu a maçã da sabedoria, desde que Jesus abandonou a gruta de Belém, desde o nosso grito ao sair do ventre da mãe, andamos (como indivíduos e como sociedade) na procura de organizar a vida de modo a sentir-nos em casa, aquele recanto onde nos sentimos acolhidos e seguros embora conscientes de que a casa não é nossa. Da casa, do lar faz parte o aconchego familiar, a língua, a religião (cultura), o trabalho, o biótopo social, rituais, tu e eu, eu e o outro.
Devido a tudo isto, acompanha-nos um sentimento de soledade, vestígio de um sofrimento devido a circunstâncias adversas e a um amigo, a uma amiga que nos falta.
A pressão de trabalho e de pessoas exaustivas esvazia o nosso interior e em casos extremos chega a levar ao Burn-out. Por isso se torna importante a conversa pessoal com um amigo, a troca de carinho, tomar iniciativas, ouvir música, fazer até exercícios de inspiração imaginativa do Sol (Deus), da bondade reconfortante e exercícios de expirar e sacudir a noite e os pensamentos pessimistas. A arte consiste em sacudi-los nalguma fogueira onde produzam labaredas que aqueçam e iluminem a existência, longe do fumo que intoxica. Somos feitos de fumo e de luz, de frio e calor. Como na electricidade o negativo pode ajudar a levar o positivo a dar luz. Para isso se realizar torna-se necessário um impulso inicial, a iniciativa de alguém, num mundo de graça à espera da Graça de alguém que acenda a minha graça para eu poder acender a graça de alguém.
Já ao nascermos gritamos lançando para fora a dor do trauma da unidade rompida, no desconforto da saída do aconchego do ventre maternal. Nesta desolação torna-se difícil encontrar o sentido, torna-se difícil ouvir a voz de quem chama por mim, de quem sabe o meu nome.
No cá fora do ventre, permanece a nostalgia da procura de uma placenta maternal que transmita calor e o encontro de uns braços que dêem segurança.
Muitas vezes o fado da vida leva-nos à procura de uma relação, de um elo que possibilite reatar o sentimento amoroso do acolhimento original; frequentemente a resposta esvai-se num ecoar afastado que repete a sensação do primeiro grito num longe distante de outeiros petrificados que se sucedem uns aos outros.
Então, os braços e as pernas movimentam-se desordenada e instintivamente na procura de alguém, para alcançar o que tinha no ventre materno. Do amor e dedicação experimentada aprenderá a integrar em si a ordem ou a desordem transmitida. Cada um de nós traz consigo as circunstâncias (o “pecado” original do pó do caminho por onde passa.
Saímos do albergue/gruta na procura de outras grutas e ao sentirmos aí carinho criamos uma segurança interior, se a não recebemos na infância talvez passemos a ser peregrinos ou forasteiros contentes ou descontentes na procura vincada de acolhimento.
O buraco não enchido pelo carinho familiar cria a ânsia de ser amado e procura no outro além da relação o carinho que não recebeu. (Muitas vezes, o próprio danificado-depressivo, cria um ambiente enevoado à sua volta num determinismo que repete o ambiente da infância – uma sensação de relação baseada na negativa; estas pessoas foram castigadas na infância e continuam a castigar-se criando, por vezes, situações que repetem a disposição e desacolhimento da infância.
O Samaritano desce do Selim do seu Pensamento
Hoje a sociedade é muito stressante para os pais criando neles má-consciência pelo facto de não terem tempo suficiente para receber e dar carinho, especialmente aos filhos.… Muitos, desiludidos de objectivos não conseguidos, passam a vida a bater à porta, de parceiro em parceiro, de albergue em albergue, à procura do que não receberam e que por vezes não podem dar.
De facto somos como uma proveta de vasos comunicantes em que o equilíbrio se adquire na troca de dar e receber numa mistura de fluidos mais ou menos cristalinos. De facto eu sou eu e o que o parceiro me possibilite que seja e o parceiro é ele e o que eu lhe possibilito que seja. Cada um espera do outro, aquilo que não tem e, porque também o outro anda à procura do que lhe falta, então chega a criar-se caminhos paralelos, onde cada qual se encastela no selim do seu pensamento. O refúgio do sentimento no pensamento projectado pode favorecer uma vida dupla que prolonga a dor que o sentimento e a falta de acção não satisfizeram. Na falta de relação próxima, da troca de carinhos, talvez por um condicionamento psicológico (narcisismo), não se criam momentos nem rituais comuns possibilitadores de laços; acontecem então monólogos em torno do ego que em vez de reconhecer a riqueza mútua da complementação, passa a recorrer à auto-afirmação pela celebração da própria dança em torno de actividades e iniciativas que o distraem da própria vida. A vida em comum para ser bem-sucedida faria lembrar o agricultor que tem muitas espécies de frutas e procura, da mistura de algumas delas, fazer o melhor sumo. Se sou maçã e se convivo com uma laranja não haverá como deliciar-se com o sumo de laranja ou, no caso de se querer fazer o melhor, observar a melhor percentagem de maçã e de laranja para obter um sumo mistura que agrade aos dois. O demasiado açúcar pode tornar-se enjoativo e o demasiado aziúme pode estragar a digestão.
Uma atitude equilibrada exige de nós humildade e altruísmo, compaixão e sintonia. Todos somos feitos de barro mas, uns e outros, podemos tornar-nos jarros onde o outro possa beber. Importante é a boa vontade e a bonomia para com o mundo exterior a nós. O Bom Samaritano (em Lucas 10:30-37) consegue encontrar o judeu a um nível que supera a inimizade secular entre os judeus e os samaritanos.
O samaritano desceu do seu jumento, acolheu e tratou o judeu que jazia ferido no chão, tratou-lhe as feridas com óleo e com vinho, símbolo da consolação, colocou-o no seu jumento (de igual para igual), e levou-o para um albergue.
O albergue é o símbolo do mundo interior do judeu, da sua ipseidade de que ele é hospedeiro no acolhimento da consolação dada/recebida. O samaritano ajudou sem tornar o outro dependente; retirou-se no momento oportuno em que o hospedado se torna senhor da própria “casa”. O salvado traz em si a salvação que deverá procurar, dentro não fora.
Em cada um de nós há uma gruta onde se encontra o pai e a mãe (Deus) à espera. Muitas vezes passamos a vida a viver em casa dos outros, à procura de nós, passando sede e frio quando no nosso interior se encontra a gruta de Belém onde os anjos estão prontos para nos receberem e aclamarem também. Aí encontramos a confiança básica original semelhante à que tínhamos no ventre materno. Então a confiança nos leva a entrar na ressonância divina, e a fé dá repouso porque nos oferece a confiança no bom fim de tudo o que fazemos ou acontece. A vida tem sentido e direcção porque nos encontramos três em comunidade e a caminho: eu e tu a seguir a Verdade.…
Uma nova situação lembra o eco do grito primordial, aquele grito que nos lançou na aventura da liberdade, condicionada também pela experiência original. No grito anunciava-se o medo de um fim que afinal se tornou no início de um caminho para uma ordem maior, saímos de uma gruta pequena para entrarmos no regaço eterno do universo. Do presumível fim veio a vida; a infinidade que atemorizava tornou-se princípio de nova vida. No fim de cada trajecto, de cada decisão há sempre uns braços abertos a receber-nos mesmo quando os não vemos por puro medo ou pelo barulho do grito. A razão é fria e distante como o universo mas Deus deu-nos o coração que tudo une e abrange com seu calor e acolhimento que a tudo confere o brilho do carinho. Não há luz que mostre o amor mas não há amor que apague a luz! Só o coração consegue derreter o gelo e produzir o fluido que une e torna visíveis as galáxias.
Encontramos espiritualidades, a caminho, que nos podem ajudar a chegar a casa e a sentirmo-nos bem nela. A segurança interior não comporta o medo que se quer agarrar a coisas fixas/seguras porque só se torna seguro quem aprende a andar por cima das águas. Nas janelas do teu interior até os véus dos teus dogmas e das certezas se esvaem. Surgimos do grito do medo mas no nosso interior e no mundo que ordenamos verificamos que há sempre uma oferta benévola, uma luz que espera por nós, que se encontra em nós. Uma vez no centro da nossa ipseidade, na nossa casa interior, descobrimos que o seu tecto é o universo e que no seu centro se encontra a divindade que nos move nele. Sinceridade e honestidade são meios que nos ajudam a chegar lá sem invalidar a tensão existente entre indivíduo e comunidade, entre a parte e o todo.