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A bem da Nação

ACTIVIDADES PORTUÁRIAS E TRANSPORTES MARÍTIMOS NO ALGARVE

 

Lions Clube de Faro.png

 

Antes de iniciar a minha intervenção quero agradecer ao Governador do Lions Dr. Américo Marques o convite para estar aqui presente para tratar um tema que me é especialmente querido e relativo a este antigo reino dos Algarves a que estou fortemente ligado desde há sessenta anos e apresentar os meus cumprimentos ao Senhor Reitor da Universidade de Faro e à Senhora Professora Drª Maria João Bebiano e às demais entidades presentes.

 

1- Nota introdutória

 

Antes de iniciar o tema correspondente ao título desta comunicação quero explicar-vos muito resumidamente a minha posição neste assunto da Economia do Mar: comecei a dedicar-me a ele em 1984 quando fui admitido como membro da Academia de Marinha e da Sociedade de Geografia de Lisboa, depois de ter sido a partir de 1971 Administrador da Insulana e da CTM, Secretário de Estado da Marinha Mercante de Julho de 1974 a Março de 1975, Secretário de Estado das Pescas no Governo da AD e Presidente da Soponata de 1983 a 1991.

 

Nessa altura houve um núcleo de interessados, dos quais a maioria já faleceu, que tentaram a recuperação da nossa Marinha, entendida como o conjunto da Armada e das Marinhas Mercante, das Pescas e de Recreio, na verdade um autêntico “cluster” que desde D. Dinis controlava a nossa economia do Mar e que foi destruído organicamente em 74, perante o desprezo e a indiferença dos responsáveis políticos e corporativos com os resultados de todos conhecidos.

 

De facto nunca teria sido possível termos conseguido realizar os descobrimentos sem esta Marinha e só a partir de 2004 com a chegada de novos interessados no Mar se passou a falar de Economia do Mar mas sem haver qualquer preocupação ativa em recuperar a Marinha.

 

Aliás onde a estrutura governativa coloca as decisões relativas à economia da Marinha de Comércio e da Marinha de Recreio, esta principalmente através do Turismo, explica a discrepância entre os progressos científicos e políticos realizados pela Secretaria de Estado do Mar no que respeita ao alargamento da nossa zona atlântica e o pouco ou nada que tem acontecido nas atividades dependentes das Secretarias de Estado dos Transportes e do Turismo.

 

Portugal quando teve uma Marinha poderosa era independente e central, sem ela é dependente e periférico.

 

Para Portugal, o Mar sem Marinha é pouco mais do que paisagem.

 

Por outro lado a principal preocupação atual é, ou deve ser, a criação de postos de trabalho com o máximo valor acrescentado possível e preferencialmente com característica exportadora e exigindo pouco ou nenhum encargo para o Estado.

 

Os investimentos deverão ser preferencialmente realizados por privados mas é essencial que o Estado tome as decisões de forma operacional, para não continuarmos no velho sistema do condicionamento salazarista que me levou em tempos idos a afirmar que se Edison tivesse nascido em Portugal nunca teria inventado as lâmpadas, pois ao pedir a necessária autorização, esta ser-lhe-ia negada porque o Governo não sabia o que isso era.

 

Antes de passar ao capítulo seguinte não quero esquecer uma nota otimista recordando dois exemplos que demonstram que temos capacidade de atingir a excelência em Marinha: os caiaques do Nelo de Vila do Conde e os navios de cruzeiros do Douro.

 

2 -Interpretação do título de forma a explicar a apresentação de projetos já expostos e do que mais há a fazer para contribuir de facto para sairmos desta crise

 

O título desta comunicação aponta duas áreas de atividade que importa analisar a começar pela segunda ou seja pelos transportes marítimos realizados pela Marinha de Comércio, pela razão simples que não só é a que mais tempo precisa para ser corrigida mas também é a que menos postos de trabalho poderá criar rapidamente.

 

Mas outros tipos de transporte marítimo há que permitem ultrapassar aqueles inconvenientes e que são praticados em parte pela Marinha de Recreio.

 

Assim as atividades portuárias mais atrativas serão as destinadas a receber navios de cruzeiros e as utilizadas pelas embarcações de recreio.

 

Ao contrário da Marinha de Comércio o transporte marítimo realizado pela Marinha de Recreio tem um potencial de desenvolvimento muito elevado no Algarve mas que por isso merece alguns esclarecimentos dadas as várias confusões que tive ocasião de constatar durante o período em que fiz parte da Direção da Associação do Sotavento Algarvio.

 

E que passo a indicar sumariamente: os portos de recreio e as marinas devem permitir não só a utilização de embarcações de maior valor e portanto com contribuições mais volumosas mas é essencial a existência de instalações que permitam não só o ensino das artes de navegar aos jovens mas também a prática da navegação a quem tem menos capacidade de pagar elevadas quotas para frequentar as marinas.

 

Também é importante que os responsáveis pelos atuais empreendimentos náuticos entendam que a existência de mais empreendimentos ao longo da costa algarvia não só não os prejudica como antes pelo contrário aumenta a valorização do conjunto que peca agora ainda pela sua pequena dimensão.

 

Sugere-se que se melhore o conhecimento desta atividade observando o que acontece nos principais centros náuticos nos vários países como quase todos os europeus, americanos, australianos, neozelandeses, etc bem mais desenvolvidos que nós, embora tenham começado a navegar muito mais tarde, quando tínhamos a melhor marinha da europa.

 

De facto a Marinha de Recreio tem áreas distintas que convém recordar: o turismo náutico de alto nível (de passagem e residencial), idem de nível médio, a pesca desportiva, com devolução do pescado ao mar, em embarcação própria ou em embarcação alugada com/ou sem arrais, o mergulho para ver e fotografar nas zonas onde o mar for propício, desportos com reboque, regatas de vela, remo e motor,etc…e tendo em conta o clima algarvio que permite quase cem por cento de prática ao longo do ano.

 

Ao contrário da tolice que foi o sol e praia que deu o desgaste de tanta beleza desta costa bem como provocou enorme taxa de sazonalidade.

 

Não podemos esquecer que o principal fator da competitividade é o humano. O que significa que se quisermos ter uma atividade náutica de valor elevado teremos que ter não só a mão de obra direta com a melhor preparação, mas todo o ambiente de enquadramento imbuído do espírito náutico, o que só se consegue se houver muitos praticantes náuticos em toda a população.

 

Para que isto seja possível há que rever todos os planos que de vez em quando aparecem, de forma a evitar o que tem acontecido com frequência: obras realizadas de forma incorreta usando betão e pedra em zonas lagunares como foi o caso da doca do Ginásio e do plano inclinado do Clube Náutico em Tavira, ou construindo caminhos para se ver o mar mas nada fazendo para se navegar nesse mar, como está a acontecer com o plano Polis, gastando-se verbas avultadas que criam muito poucos postos de trabalho e nenhum desenvolvimento náutico.

 

3- Alguns projetos e sugestões concretas

 

Apenas como exemplos, alguns deles já propostos há muitos anos mas sempre esquecidos ou contrariados, pois há mais potencial a aproveitar.

 

3.1-Aproveitamento com a máxima qualidade ambiental do estuário do Rio Arade até Silves

 

3.2-Melhoria da gestão da Ria Formosa que durante muitos anos era conhecida por nada autorizar mas tudo consentir. Se agora já está corrigida ainda bem, mas pelo que se vê não parece. É desejável que os respetivos responsáveis se convençam que o desenvolvimento não só é compatível com elevada qualidade ambiental mas também é neste campo igualmente exigente dela, pois só assim se poderão motivar os clientes mais importantes, isto é, os que mais lucros darão ao País.

 

3.3-Reestruturação da zona das Quatro Águas em Tavira, com a restituição de toda a zona da Ria afetada pelos assoreamentos causados pela forma deficiente como foram realizadas as obras da barra e que a Ria Formosa nunca cuidou de corrigir, a construção de uma marina que está planeada há mais de dez anos com os devidos acertos, aliás parte deles já discutidos oficialmente há mais de dois anos, e de um porto de abrigo junto ao forte do Rato bem como dos postos de atracação a montar em Cabanas e em Santa Luzia depois de serem desassoreados os canais de navegação.

 

3.4-Embora não seja matéria portuária também será conveniente implantar mais recifes artificiais que tem grande influência na rentabilidade da pesca local.

 

3.5-Construção de uma marina aproveitando o facto de haver um molhe de cerca de 1,5 km na foz do Guadiana, em má hora construído, mas agora muito útil para aí a instalar, destinada a dotar Vila Real de Santo António de uma unidade náutica de grande capacidade (cerca de 2000 p.a.) que terá forte impacto na redução do fator de sazonalidade local e permitirá ter uma zona para a náutica popular.

 

3.6-Construção de uma marina de grande dimensão, também mista, popular e mais alto nível residencial, em Castro Marim (cerca de 2000 p.a.)

 

3.7-Construção de marinas “off shore” em Vale de Lobo e na Quinta do Lago o que permitirá a defesa da costa e subir o nível da qualidade destes empreendimentos.

 

Para terminar faço votos de que estando nós em período eleitoral, os eleitores saibam pressionar os candidatos a se comprometerem, se ganharem as eleições, a fazerem como fez D.João II, que em dez anos nada escreveu mas as decisões que tomou e o que realizou deram a Portugal a Marinha mais poderosa dessa época e colocaram os portugueses em todo o mundo.

 

Em vez de falarem e escreverem muito, o que não chega para se criarem mais alguns milhares de postos de trabalho que tanta falta fazem e para se contribuir para a recuperação da nossa Marinha, que tão importante é para a independência nacional, que nestes últimos trinta anos tão maltratada tem sido.

 

Bem hajam pela vossa atenção.

 

Lisboa, 15 de Maio de 2015

 

Eng. J.C. Gonçalves Viana José Carlos Gonçalves Viana

«DEUS E O DIABO É QUE ME GUIAM»

 

Sartre.png Duas peças de teatro de capas escurecidas pelo tempo, que me vêm dos anos 60 em África e que releio com mais atenção: “Jacob e o Anjo” de José Régio, “Le Diable et le Bom-Dieu” de Jean-Paul Sartre. Ambas peças de tese, a primeira aplicando o conceito místico da luta do homem consigo próprio, nos seus medos e demónios, Jacob terreno em desassossego permanente, vencedor por uma noite desse Anjo que afinal o elevará, reconhecendo-lhe a força espiritual, quais Julião Hospitaleiro ou o Santo Cristóvão levados para Deus por Cristo Redentor.

 

Também a peça de Sartre, publicada em 1951, (e sigo o texto da colecção “Le Livre de Poche” desse mesmo ano, da Librairie Gallimard), explora o conceito, grato aos escritores existencialistas, do Bem e do Mal equivalendo-se, num espaço de lutas, desafios e sofismas entre a maldade e a procura da santidade, numa época de desabamento de estruturas e valores, como esse da 2ª Guerra Mundial por que tinham passado os escritores do existencialismo. Através do seu teatro, pôde Sartre difundir, de forma mais acessível, a sua ideologia que tanto atraiu os jovens dessa geração e posteriores.

 

Um homem poderoso e sem escrúpulos, Goetz, bastardo de casa senhorial, o maior guerreiro da Alemanha, no século XVI da Reforma luterana, participa inicialmente nas lutas do povo, em Worms, luta conduzida por seu irmão Conrad, contra o Arcebispo e a Igreja, traindo-os seguidamente, matando o irmão, mas decidido a arrasar a cidade do Arcebispo, por desafio a Deus e desejo de fazer o Mal, num desprezo total por tudo e todos. Convencido pelo cura Heinrich de que o Bem é mais difícil de construir do que o Mal, decide criar, nos domínios que herdou, uma ”cidade do sol”, fazendo unicamente o Bem, numa pretensão, ainda, desafiante e mistificatória, de falso profeta, tomando os estigmas de Cristo para si, por meio do punhal com que cortou as mãos, para salvar a amante Catherine do inferno, assumindo os pecados desta, antes de esta morrer, pecados de que ele próprio fora responsável, ao entregá-la anteriormente aos vilipêndios dos homens.

 

O VII quadro (a peça, sem unidade de tempo nem de espaço, tem onze quadros, de interior ou de exterior, conforme as cenas se passam em salas (do Arcebispo), igreja ou acampamentos), explora, na “Cité du Soleil”, du bonheur, onde só o Bem é permitido, o conceito de que só o olhar dos outros existe, desaprovador (o olhar de Hilda), (segundo máxima de “Huis Clos” (1943), de que “l’enfer c’est les autres”). Mas a revolta dos camponeses contra a Igreja, algum tempo dominada pelo medo desta, vai rebentar de novo, após as ficções de bondade de Goetz: “Agora os profetas pululam. Mas são profetas da ira, que pregam a vingança.”, dirá Nasty, incitando Goetz a pegar novamente em armas. As cenas finais são de extrema violência nos conceitos e nos actos – Goetz mata Heinrich que o vem julgar, desmistificando o seu comportamento de fantoche no Mal e no Bem, no vazio do mundo sem Deus:

Goetz, Sartre.jpg«Goetz: E porquê este silêncio? Ele que se mostrou à burra do profeta, porque recusa Ele mostrar-se a mim?

Heinrich:Porque tu não contas. Tortura os fracos ou martiriza-te, beija os lábios de uma cortesã ou dum leproso, morre de privações ou de voluptuosidades: Deus está-se borrifando.

Goetz: Quem conta, então?

Heinrich: Ninguém. O homem é nada….»

 

Assim, nem o Mal nem o Bem contribuem para vencer a sua solidão de homem que descobre que Deus não existe. Retoma, afinal, a antiga determinação de combater, proposta por Nasty, à frente dos camponeses insubmissos, um homem “em situação”, adaptado às circunstâncias, decidido a matar quem se lhe opuser:

«Goetz:“ Nada receies, eu não fraquejarei. Causar-lhes-ei horror visto que não tenho outro modo de os amar, dar-lhes-ei ordens, porque não tenho outro modo de obedecer. Ficarei só com este céu vazio por cima da minha cabeça, porque não tenho outro modo de estar com todos. Há esta guerra para fazer e eu vou fazê-la.»

 

Premissa da corrente existencialista: O Homem é aquilo que faz, o Homem é aquilo que ele próprio se faz. Sem necessidade de Deus. Na responsabilidade dos seus actos.

 

É de 1941 a primeira edição de “Jacob e o Anjo”, (Primeiro Volume de Teatro), de José Régio, a 2ª de 1953, a 3ª, que sigo, de 1964, da Portugália Editora: “JACOB E O ANJO” mistério em três actos, um Prólogo e um Epílogo.

 

Como curiosidade, transcrevo a informação nela contida : « Esta peça subiu à cena pela primeira vez em Paris, no “Studio des Champs-Eysées”, na noite de 31 de Dezembro de 1952, numa adaptação de J. B. Geener feita sobre a tradução integral de André Raibaud”.

 

Um drama de estrutura una de acção tempo e espaço (palácio, em três cenários diferentes), baseado no versículo bíblico sobre a luta simbólica de Jacob e o Anjo: «Ficou só; e eis que um varão lutava com ele até pela manhã. – Génesis, cap. 32, v. 24), e tendo como fundamento dramático, o caso do Rei Afonso VI, traído pela mulher (Maria Francisca Isabel de Sabóia) e por irmão Pedro II, a pretexto da incapacidade daquele de gerar filhos.

 

Um Prólogo em discurso didascálico, situando a acção no espaço do quarto onde dorme o Rei, acordado pelo Anjo em cenário de luta sobre o leito, formando espécie de bailado de contraste entre o grotesco aterrado da atitude real e o sublime dos gestos do Anjo (papel, naturalmente, desempenhado por um bailarino de qualidade).

 

Com o grito de terror do Rei, começa o 1º Acto, já em plena manhã, e as sucessivas interpelações coléricas do Rei aos Guardas, que acorrem solícitos ao seu apelo de “Socorro!” e são várias vezes desfeiteados por um Rei cruel, disfarçando o medo contido no seu grito, aquando da figura do Anjo presente na janela, como pretexto para conhecer a dedicação dos Guardas servis, na frustração do seu desaparecimento da mesma janela, que o faz passar por louco aos olhos das sucessivas personagens.

 

Um Primeiro Acto, pois, com o desfilar das figuras ligadas ao Rei – Generalíssimo, Físico, Rainha, Poeta Oficial, Sumo Sacerdote, Juiz Supremo, além dos Guardas, vítimas da violência e do desprezo reais - alternando as suas falas, caracterizadas, dum modo geral, pelo pretensiosismo de uma superioridade arrogante, ou o pedantismo do discurso empolado, no caso do Poeta, ou a afectação e ironia do discurso da Rainha ao Rei ou ao Bobo, com a saliência dos discursos irreverentes do Anjo no papel de Bobo, terminando o Acto com a condenação dos Guardas e a expulsão do Bobo, que fora tentando, baldadamente, esclarecer o “Rei do baralho de cartas” da sua designação chocarreira, sobre a sua essência imaterial.

 

O Segundo Acto passar-se-á nos aposentos da Rainha, adornado com sobriedade e bom gosto, sem marcas de época, elementos de um cenário intemporal. Os assuntos são em torno da deposição do Rei, a pretexto das suas visões e incapacidades governativas: o diálogo “de salão”, entre a Rainha e o Duque irmão do Rei (futuro D. Pedro), este, galante e cínico, com o aparecimento inesperado do Bobo trocista, perante a cólera da Rainha, seguidos do Sumo Sacerdote, o Generalíssimo e o Juiz Supremo e os seus discursos melífluos (do Sacerdote) ou mais directos, na trama sobre a deposição do Rei. O Bobo intervém de novo e é mandado prender pela Rainha. Mas após a saída dos três representantes do poder, A Rainha volta a chamá-lo, insinuando-se, coquette:

« … Desde que chegaste que sonho o momento de me revelar, de me entregar… Mas quando hoje vieste, sem eu te chamar, estava dentro de outro papel, era outra… E foi sinceramente que me indignei, suponho. Aqui está, Demónio! Demónio ou Anjo, meu querido… Sonhei que só tu serias capaz de me fixar. Estou a falar-te como nunca falei a ninguém. Quero entregar-me como nunca me entreguei… Piedade! Não brinques comigo! Eu também sou infeliz… Como ninguém sonha que sou! (escorrega nas almofadas, estende os braços, está de joelhos no chão).

BOBO: (com doçura); Todos os seres humanos são infelizes. E cada um tem a sua maneira particular de o ser. Por isso cada um está absolutamente a sós com o seu sofrimento. A vida de cada um é um deserto inatingível aos outros desertos. O Espírito é que a todos acompanha. Não é o mesmo céu que paira sobre todos os desertos? Sofre, mulher. Só o sofrimento mostra à maioria dos humanos a companhia do Espírito. Sofre e levanta os olhos…

RAINHA (ergue-se violentamente): Não me fales essa linguagem ridícula! Não a entendo!......»

…….RAINHA: …. Não chamei esses homens senão para estar segura da sua fraqueza, da sua cupidez… senão para os manejar em meu proveito. São nojentos! Eles todos! E agora só quero tudo para te dar; para te dar tudo, meu amado! Avalias o que te ofereço? Sabes o que te dou?

BOBO: -Está lá no livro: um prato de lentilhas…

 

A cena dramática prossegue, o BOBO tentando chamar à razão a “pobre mulher”: «Pois sofre, mulher; pois luta; pois levanta-te; pois afirma-te e contradiz-te! Mas inútil será qualquer dos teus múltiplos subterfúgios… Mas Deus não pode ser enganado. Deixo-te na tua solidão. Assim continuarei a lutar contigo até ser vencido ou realmente vencer…»

 

E a história que dá o título ao drama:

BOBO ( com muita brandura): - Queres que te conte uma história? Uma breve história? Sempre os humanos embalaram a dor ou taparam o tédio com histórias… Ora ouve: Era duma vez um homem astuto que já enganara o pai e o irmão para obter privilégios sagrados. Claro que se chamava Jacob. Ora um dia o Senhor Deus viu este homem e pensou: «Manha não te falta para enganar os teus parentes. Se além disso és capaz de vencer qualquer dos meus Anjos, estás apto a ser um dos reis da Terra, o chefe dum grande povo…» Não vou jurar que o Senhor Deus se exprimisse tal qual eu. Mas o que é certo é que mandou descer à Terra um dos seus Anjos mais robustos…

RAINHA: Cala-te! Não te posso ouvir. …..

 

Segue-se o encontro com o Rei, em cena de retrospectiva das desilusões da Rainha, à sua meiguice sucedendo a fria justificação da destituição do Rei, caso não aceitasse a proposta da sua abdicação, o que provoca a cólera daquele e a ordem da Rainha aos Guardas para que o algemem, e o guardem à vista, “com as honras devidas”.

 

O espaço do ACTO III é o quarto da prisão perpétua do Rei, sombrio, com um tocheiro ao centro iluminando a cena, cadeirões de coiro nos cantos, um tapete, o rei deitado no chão sobre o ventre.

 

Diálogo inicial com o Bobo irónico, um Rei desfeito de ira, vergonha e dor, atraiçoado por todos em quem acreditara. Estes surgem e justificam-se perante o Rei, algumas cenas caricatas, o Rei querendo desfazer-se do Bobo, preso de terror, finalmente aceitando-o, tendo compreendido: «Mas eu estou pronto, meu Senhor! Cumpre em mim a tua vontade. Leva-me enquanto me alumia este raio da tua graça! Leva-me contigo e depressa… tenho pressa…

BOBO: Já não é a mim que deves dirigir essas palavras.

REI: Ensina-me então a palavra do Silêncio…

 

O Epílogo, de desmistificação do sagrado pelo profano caricato:

FÍSICO: Parece-me que desta vez está pronto

ENFERMEIRO: Melhor para todos. Já cá não fazia nada, coitado!

FÍSICO: Nada. Só dava trabalho.

ENFERMEIRO: Ainda resistiu bastante! Resistente era ele; como todos os maus, Deus lhe perdoe. …

 

Duas peças de teatro quase contemporâneas, tratando a temática da condição humana, Numa perspectiva teológica convencional o drama de José Régio, de grande nobreza e equilíbrio. Numa perspectiva agnóstica, naturalmente, a peça de Sartre, provocatória, indiciadora de novos tempos revolucionários.

 

Berta Brás.jpgBerta Brás

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