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A bem da Nação

PENSANDO…

 

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Dúvidas? Sou um poço profundo de dúvidas e nem todas são construtivas. Mas, não é que não admita as construtivas; as construtivas têm, intrinsecamente, conselhos e os conselhos são, normalmente, desdenhados por pessoas que estão convencidas que já sabem tudo, principalmente, já a sabem toda. Então não há um sindicato que introduziu uma greve na ordem política portuguesa, usando o direito constitucional que lhe é conferido pelo legislador constituinte de 74, como direito inalienável dos trabalhadores desvirtuando o objectivo das greves que é a defesa dos direitos dos trabalhadores face ao comportamento antissocial e ditatorial dos patrões.

 

Este sindicato introduziu uma novidade no corporativismo sindical que é usar as suas prerrogativas constitucionais para abocanhar um negócio para os seus associados que é ficar com 20%, à borla, de uma empresa que, por enquanto, continua a ser de todos nós. Mas, ainda mais, o tal sindicato, sendo de trabalhadores de elite, comporta-se em defesa de umas dúzias de suseranos e ignora os direitos dos outros trabalhadores da empresa, os servos da gleba. Um sindicato que pretende praticar capitalismo selvagem. Isto é uma novidade, para quem há quarenta saiu de um capitalismo monopolista de Estado, por força de um movimento militar que fez valer a regra de todos determos os mesmos direitos e deveres e os privilégios serem devidamente controlados. “…para certezas que nunca deixe de ver como provisórias, excepto uma, a de que é capaz de compreender tudo o que for compreensível; ao resto porá de lado até que o seja, até que possa pôr nos pratos da sua balancinha de razão. A tudo pese. Pense.”[1]  E eu, seguido o conselho do autor, que idêntico no final do texto, estou a pensar, usando a balancinha da razão, e pesando tudo. Mas, já pesei quase tudo usando a razão. Um sindicato destrói uma empresa que ainda é nossa para que os seus sócios sejam considerados parte de um negócio sem pagar nada e com uma montanha de exigências capitalistas, antissociais e antidemocráticas. E, depois, vangloria-se de ter provocado um prejuízo de milhões. O desbocado, para não lhe chamar outra coisa, que fez esta afirmação vangloria-se de uma vitória pírrica. Se a estupidez pagasse imposto já devia ter sido posto sob a vigilância do fisco.

 

Mas, parafraseando o autor citado acima, sou incapaz de compreender o incompreensível, (Serei burro!) e por isso não ponho de lado esta incompreensão e por isso penso:

 

Que os novos legisladores acrescentem na Constituição, numa futura alteração, que as greves que forem iniciadas por sindicatos para defesa de direitos individuais de classes privilegiadas em prejuízo de interesses colectivos, na mesma empresa, serão consideradas ilegítimas e responsáveis pelos prejuízos.

 

Se o Governo tiver Homens de antanho, por exemplo, com a força dos de 1640, devia pôr-lhes uma acção cível de indemnização pelos prejuízos provocados a todos nós.

 

Mas, atenção que fique claro que não concordo que se proceda a privatizações de jóias da coroa nacionais, no entanto, se o Primeiro-ministro do PS não tivesse deixado o país no estado caótico em que o deixou; o Primeiro-ministro da coligação do PSD/CDS, não teria sido obrigado a vender quase tudo e proceder a uma política de austeridade, enfim, mais trotskista, perdão troikista, que a própria troika.

 

Ad impossibilia nemo tenetur[2].

 

Pensei, pesei e disse!

 

Luís Santiago.jpg Luís Santiago

 

[1] Agostinho da Silva, in 'Textos e Ensaios Filosóficos'

 

[2] Ninguém é obrigado a fazer o impossível.  

 

EPITÁFIO À LÍNGUA DE CAMÕES

Este texto é da autoria de Teolinda Gersão. Escritora, Professora Catedrática aposentada da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Escreveu-o depois de ajudar os netos a estudar Português. Colocou-o no Facebook.

 

 

Redacção – Declaração de Amor à Língua Portuguesa

 

Vou chumbar a Língua Portuguesa, quase toda a turma vai chumbar, mas a gente está tão farta que já nem se importa. As aulas de português são um massacre. A professora? Coitada, até é simpática, o que a mandam ensinar é que não se aguenta. Por exemplo, isto: No ano passado, quando se dizia “ele está em casa”, ”em casa” era o complemento circunstancial de lugar. Agora é o predicativo do sujeito.”O Quim está na retrete”: “na retrete” é o predicativo do sujeito, tal e qual como se disséssemos “ela é bonita”. Bonita é uma característica dela, mas “na retrete” é característica dele? Meu Deus, a setôra também acha que não, mas passou a predicativo do sujeito, e agora o Quim que se dane, com a retrete colada ao rabo.

 

No ano passado havia complementos circunstanciais de tempo, modo, lugar etc., conforme se precisava. Mas agora desapareceram e só há o desgraçado de um “complemento oblíquo”. Julgávamos que era o simplex a funcionar: Pronto, é tudo “complemento oblíquo”, já está. Simples, não é? Mas qual, não há simplex nenhum, o que há é um complicómetro a complicar tudo de uma ponta a outra: há por exemplo verbos transitivos directos e indirectos, ou directos e indirectos ao mesmo tempo, há verbos de estado e verbos de evento, e os verbos de evento podem ser instantâneos ou prolongados; almoçar por exemplo é um verbo de evento prolongado (um bom almoço deve ter aperitivos, vários pratos e muitas sobremesas). E há verbos epistémicos, perceptivos, psicológicos e outros, há o tema e o rema, e deve haver coerência e relevância do tema com o rema; há o determinante e o modificador, o determinante possessivo pode ocorrer no modificador apositivo e as locuções coordenativas podem ocorrer em locuções contínuas correlativas. Estão a ver? E isto é só o princípio. Se eu disser: Algumas árvores secaram, ”algumas” é um quantificativo existencial, e a progressão temática de um texto pode ocorrer pela conversão do rema em tema do enunciado seguinte e assim sucessivamente.

 

No ano passado se disséssemos “O Zé não foi ao Porto”, era uma frase declarativa negativa. Agora a predicação apresenta um elemento de polaridade, e o enunciado é de polaridade negativa.

 

No ano passado, se disséssemos “A rapariga entrou em casa. Abriu a janela”, o sujeito de “abriu a janela” era ela, subentendido. Agora o sujeito é nulo. Porquê, se sabemos que continua a ser ela? Que aconteceu à pobre da rapariga? Evaporou-se no espaço?

 

A professora também anda aflita. Pelo visto, no ano passado ensinou coisas erradas, mas não foi culpa dela se agora mudaram tudo, embora a autora da gramática deste ano seja a mesma que fez a gramática do ano passado. Mas quem faz as gramáticas pode dizer ou desdizer o que quiser, quem chumba nos exames somos nós. É uma chatice. Ainda só estou no sétimo ano, sou bom aluno em tudo excepto em português, que odeio, vou ser cientista e astronauta, e tenho de gramar até ao 12º estas coisas que me recuso a aprender, porque as acho demasiado parvas. Por exemplo, o que acham de adjectivalização deverbal e deadjectival, pronomes com valor anafórico, catafórico ou deítico, classes e subclasses do modificador, signo linguístico, hiperonímia, hiponímia, holonímia, meronímia, modalidade epistémica, apreciativa e deôntica, discurso e interdiscurso, texto, cotexto, intertexto, hipotexto, metatatexto, prototexto, macroestruturas e microestruturas textuais, implicação e implicaturas conversacionais? Pois vou ter de decorar um dicionário inteirinho de palavrões assim. Palavrões por palavrões, eu sei dos bons, dos que ajudam a cuspir a raiva. Mas estes palavrões só são para esquecer, dão um trabalhão e depois não servem para nada, é sempre a mesma tralha, para não dizer outra palavra (a começar por t, com 6 letras e a acabar em “ampa”, isso mesmo, claro.)

 

Mas eu estou farto. Farto até de dar erros, porque me põem na frente frases cheias deles, excepto uma, para eu escolher a que está certa. Mesmo sem querer, às vezes memorizo com os olhos o que está errado, por exemplo: haviam duas flores no jardim. Ou: a gente vamos à rua. Puseram-me erros desses na frente tantas vezes que já quase me parecem certos. Deve ser por isso que os ministros também os dizem na televisão. E também já não suporto respostas de cruzinhas, parece o totoloto. Embora às vezes até se acerte ao calhas. Livros não se lê nenhum, só nos dão notícias de jornais e reportagens, ou pedaços de novelas. Estou careca de saber o que é o lead, parem de nos chatear. Nascemos curiosos e inteligentes, mas conseguem pôr-nos a detestar ler, detestar livros, detestar tudo. As redacções também são sempre sobre temas chatos, com um certo formato e um número certo de palavras. Só agora é que estou a escrever o que me apetece, porque já sei que de qualquer maneira vou ter zero.

 

E pronto, que se lixe, acabei a redacção - agora parece que se escreve redação.O meu pai diz que é um disparate, e que o Brasil não tem culpa nenhuma, não nos quer impôr a sua norma nem tem sentimentos de superioridade em relação a nós, só porque é grande e nós somos pequenos. A culpa é toda nossa, diz o meu pai, somos muito burros e julgamos que se escrevermos ação e redação nos tornamos logo do tamanho do Brasil, como se nos puséssemos em cima de sapatos altos. Mas, como os sapatos não são nossos nem nos servem, andamos por aí aos trambolhões, a entortar os pés e a manquejar. E é bem feita, para não sermos burros.

 

E agora é mesmo o fim. Vou deitar a gramática na retrete, e quando a setôra me perguntar: Ó João, onde está a tua gramática? Respondo: Está nula e subentendida na retrete, setôra, enfiei-a no predicativo do sujeito.

 

João Abelhudo.jpg João Abelhudo, 8º ano, setôra, sem ofensa para si, que até é simpática.

 

 

 

 

ACTIVIDADE POLÍTICA E CONSCIÊNCIA CRISTÃ – 3

 

Bem comum.jpg

 

O Cristianismo é transcultural não se define por reinos nem repúblicas cristãs

 

No cristianismo não há reinos nem repúblicas cristãs, não há união de política e religião como nas bases da religião islâmica que identificam cultura com religião nem tão-pouco na união de Estado e ideologia. Naturalmente também os cristãos não estão imunes das tentações do poder embora a sua filosofia os não legitime ao abuso nem à promiscuidade de poderes. O político cristão compromete-se a fomentar o politicamente possível, numa atitude ética proveniente da fé. É consciente da complexidade social e seus condicionalismos na tentativa de fazer o melhor e o justificável para o bem-comum.

 

Não é possível definir-se uma política cristã; esta pressupõe, nos seus actores, uma atitude humana de base de dedicação especial pelos mais indefesos da sociedade. Não há uma política cristã nem um cristão pode reivindicar para si o direito de fazer política cristã.

 

A fé cristã tem motivações ideais que favorecem uma orientação e critérios de valor para a acção: o Sermão da Montanha. A convicção cristã pode, porém, conduzir a diferentes posições, atendendo ao carácter soberano da consciência individual. Por vezes, o cristão confronta-se a si mesmo, entrando em conflito com uma ética de convicção e uma ética de responsabilidade social; estas conduzem a decisões de compromisso, numa tentativa de ultrapassar fronteiras denominacionais, tendentes a respeitar a dignidade e a liberdade humana do próximo. Tudo se torna pressuposto preliminar à avaliação.

 

Uma atitude cristã política caracteriza-se pelo princípio da dignidade inviolável da pessoa (dignidade de imagem de Deus – independentemente de credo - e como tal sujeito e não objecto) que se expressa no “amor ao próximo”); primeiro está a pessoa, só depois a instituição; outro princípio é o da complementaridade baseada no protótipo JC que integra o divino e o humano; todos são chamados à liberdade e a realizar o “reino de Deus”. A “ecclesia” é formada por indivíduos em comunidade convergente, na realização mútua de indivíduo e comunidade.

A consciência de comunidade, de que o todo também é formado pelas margens, torna a igreja advogada dos mais fracos na prática do princípio da solidariedade. A Igreja é a voz dos sem lóbi, dos marginais. Quando se declara p. ex. contra o aborto, ela torna-se a lóbi destes seres sem voz. Mais que o credo importam as obras: "Pelos seus frutos os conhecereis!“ (1.Jo. 2,1-6).

 

O Mestre reivindica que amemos os nossos inimigos mas não exige que nos deixemos matar por eles nem que o amor aos inimigos aconteça à custa de amigos. No meio está a virtude (como nos ensina a filosofia aristotélica) e só o divino é o lugar da perfeição. O político cristão procura estabelecer harmonia entre os pólos. Isto dá-lhe uma posição demarcada e competência de sustentabilidade histórica na tentativa de resolver os problemas sociais e na capacidade de intermediário nas posições antagónicas entre os partidos. O político terá de ver o que é justificável e depois decidir segundo a própria consciência no respeito pela dos outros. Ele, na qualidade de político, tem de se preocupar em estabelecer relações estáveis, também no interesse dos contribuintes não se podendo deixar levar por idealismos passageiros que poderiam prejudicar o povo no seu todo, a longo prazo. Política, religião, ciência e sociedade devem consciencializar-se da sua situação de interdependência e de processo.

 

Em tempos idos, tudo era mais fácil: bastava seguir um rei, um pastor; hoje, que somos chamados a tornarmo-nos individualmente mais responsáveis, somos puxados por forças anónimas em diversas direcções e sentidos, o que exige, de cada um, maior balance e equilíbrio, maior sentido de orientação e responsabilidade. Peter Sloterdijk diz: “A modernidade evidencia-se como a época dos projectos, e a época pós-moderna como a dos consertos”. Com o rápido desenvolvimento e mudanças da vida moderna, a realidade movimenta-se mais depressa do que a consciência comum, criando impasses e assimetrias inevitáveis.

 

Uma actualidade que não respeite a herança torna-se subversiva, criando um hiato entre o antes e o depois num agora caótico e desorientado. Jesus foi o grande radical da História quebrando com muitas tradições e com a moral tradicional, já ao nascer de uma virgem. Com ele todos são filhos de Deus, independentemente de estirpes ou famílias.

 

Na política e em lugares chave da sociedade, precisam-se, hoje mais que nunca, cristãos e pessoas de boa vontade com capacidade para se consciencializarem da chantagem a que a sociedade se encontra submetida.

 

O projecto ocidental dá resposta ao sentido da vida na universalidade da dignidade humana. As instituições e sociedades poderão morrer mas a ideia da dignidade humana não morrerá. O hindu Mahatma Gandhi, que conhecia bem o Induismo, o budismo e o cristianismo, constatava: “Cristo é a maior fonte de força espiritual que a humanidade conheceu.”

 

A mundivisão que tornou a Europa grande, no concerto das nações, deixou de estar presente na consciência pública actual devido ao jacobinismo ideológico.

 

Joachim Gauck, presidente de uma república descongestionada como é a alemã, não tem vergonha de testemunhar, na força do cargo que ocupa: "A política precisa de pessoas que acreditam em algo que é maior do que elas mesmas. Precisa de pessoas que têm uma atitude e a defendem com coragem. Precisa de personalidades convictas e, deste modo convincentes, como as que, para o nosso bem, vieram do ambiente cristão e do compromisso cristão”… „Sem cristãos este país seria diferente na política e na sociedade!... Acções e decisões políticas encontram, na Doutrina Social católica, padrões confiáveis da fé ". Um presidente da república portuguesa ou francesa nunca diria tal, por jacobinismo político ou, possivelmente, porque não teria razão para o dizer!

 

Cristo transcende todo o ser e permanece para sempre um desafio para toda a política e para todo o cidadão.

 

FIM

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António da Cunha Duarte Justo

Teólogo

 

PS: este texto encontrar-se-á num livro a publicar.

 

ACTIVIDADE POLÍTICA E CONSCIÊNCIA CRISTÃ – 2

 

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O poder normativo do cristianismo na sociedade secular

 

Em termos cristãos, a dignidade humana implica o sentido da vida e a ressurreição confere-lhe optimismo.

 

O cristão é chamado a preocupar-se sobretudo com a parte da vida que passa na terra; se o faz com responsabilidade, o resto ser-lhe-á dado por acréscimo. Um provérbio português recorda: “religião quer-se como o sal na sopa”… sem ela a vida não teria sabor, mas em demasia, como se verifica da experiência muçulmana e da guerra dos 30 anos, torna a vida salgada.

 

O cristão é um ser aberto em diálogo, que forma e se forma na interlocução com a natureza, com o outro e com ele próprio em Deus; por isso não se define através de uma cultura. É uma proveta reagente de terra e céu em contínuo processo de desenvolvimento. Os seus instrumentos de abordagem da realidade e de realização são os sentidos e em especial a razão e a fé; estes não precisam de contradizer-se, são ao mesmo tempo luz e energia no processo de desenvolvimento individual e social.

 

A fé cristã é global (daí o termo “católica”, “universal”) e, como tal, a igreja tem que estar disposta a fazer compromissos, porque é integral, não exclui ninguém na consciência de que todos somos filhos de um Deus sem crenças (a revelação divina também se verifica na natureza e na História). Sim porque Jesus Cristo, o ser humano é feito de céu e terra! Para o político cristão, toda a pessoa, todo o cidadão tem filiação divina e constitui o centro da política. Já São Paulo dizia que o ser humano está chamado à liberdade na solidariedade com o Homem na qualidade de companheiro; o Homem é portanto o lugar da liberdade.

 

O poder normativo judeo-cristão espalhou-se por toda a Europa e por todo o mundo. Na sua visão holística, embora com muitos momentos de história escura e triste, influenciou e influencia o agir mundial individual e socialmente: liberdade, democracia, Direitos humanos, Estado de Direito, a igualdade dos géneros, uma solidariedade social que ultrapassa a sebe do crente, desenvolvimento sustentável e boa governação. Um “Deus pai” implica a visão global do Homem como irmão e uma comunidade católica (cosmopolitismo, globalismo) baseada na ética do amor ao próximo (estranho) e a Deus. Os direitos individuais são sagrados. O cristianismo é uma religião do chamamento; missionar o mundo dá-se como oferta, sem coacção. O político cristão está consciente do cristianismo como seu tecto espiritual que dá consistência e identidade a um povo chamado a espalhar a Boa Nova.

 

No contexto das civilizações, a mensagem cristã subsistirá sempre como a religião do Homem e da humanidade, não podendo ser reduzível a uma cultura; neste sentido a teologia fala também dos cristãos anónimos; o protótipo do Homem é Jesus Cristo (que une em si Céu e Terra) e não uma cultura.

 

O político cristão está chamado a propagar a ética cristã como directriz da sua política. Cristo assume responsabilidade por si e pelos outros o que quer dizer que o cristão não pode ser indiferente ao que acontece politicamente “lá fora”. Para ele, fora e dentro são partes da mesma realidade. A consciência é a directriz da acção cristã e o bom agir a sua prova.

 

O papa Bento XVI resume a tradição humanista da igreja, já repetida originariamente na teologia e por outros papas da Idade Média, nas palavras seguintes: "Acima do Papa encontra-se a própria consciência, à qual é preciso obedecer em primeiro lugar; se fosse necessário, até contra o que disser a autoridade eclesiástica." Isto mostra a dignidade da Igreja Católica no respeito pela pessoa humana; a instituição, a religião não se coloca sobre o Homem; a sua matriz é o Homem, por isso não se reduz a uma doutrina, como revela a pessoa do Mestre. “Cristo é tudo e em todos” (Col 3,11). A sua pessoa (independentemente do religioso) é programa para todo o Homem e para todas as instituições do mundo sejam elas políticas, religiosas ou ideológicas (Nele se processa a inclusão do humano e do divino). A interpretação disto depende como sempre do espaço individual e da consciência humana no “aqui e agora”.

 

Uma política do desenvolvimento só é possível mediante o compromisso necessário perante a diversidade de situações e de pessoas. Por isso o político age no sentido do melhor compromisso de responsabilidade moral e não apenas pragmático.

 

A realidade humana exige compromisso e responsabilidade não deixando ninguém inocente. Nas decisões parlamentares, determinam-se leis, como o exporte de armas, o aborto, em que o cristão se torna também culpado. É contra o aborto mas tem de respeitar as decisões maioritárias para a generalidade. Na qualidade de cristão deve trabalhar para que a sociedade adquira uma outra atitude e, para isso, o cristão só possui o instrumento da palavra e do exemplo.

 

O cristão é um ser inacabado, feito de sagrado e profano; aberto e em aberto, com uma referência: JC a síntese da matéria e do espírito.

 

Nas coisas do mundo, quanto menos sei, mais sei que sei! Mas se mais reflicto, quanto mais sei, mais sei que não sei! Logo, quanto mais sei menos sei que sei... O físico e matemático Isaac Newton dizia: “O que sabemos é uma gota de água; o que não sabemos é o oceano”! De facto, só quem perde a inocência pode permanecer virgem!...

 

A doutrina do pecado original quer-nos dizer que a vida e o desenvolvimento provêm do jogo entre tentativa e erro, não deixando muito lugar para moralistas demasiado distantes da realidade. Adão na tentativa de comer a maçã da árvore da vida atingiu a faculdade da razão que o torna estranho à própria natureza e o leva a levantar a cabeça para a voz que o chama, “Adão onde estás?”. Ele que vivia num estado simbiótico com a natureza, não conhecendo lugar nem tempo, vê-se agora num novo estado, em diálogo, entre certeza e dúvida revelando-se como consciência aberta. O chamamento da fé e da razão leva-o a acordar para o mistério não podendo mais voltar ao paraíso perdido.

 

A certeza é a fronteira do desenvolvimento e do saber! Se não reconheces que a realidade acontece no ponto de intersecção dos diferentes interesses, passas a vida a fugir dela ou a combatê-la.

 

A vivência cristã não se esgota na certeza intelectual, ela intui-se também como desígnio de algo já experimentado (na compaixão). Isto confirma-o também a psicologia budista ao recomendar que para se resolver um problema ou sentimento negativo é preciso primeiro percebê-lo (senti-lo), depois visualizá-lo e finalmente explorá-lo em sintonia/simpatia consigo próprio; depois desta sequência o sentimento negativo pessoal dissolve-se.

 

Em muitos assuntos, o político cristão tem a vantagem de não se encontrar sozinho na sua opinião individual, ele tem atrás de si uma fábrica de pensamento que é a Igreja com suas encíclicas sociais e uma experiência e saber milenário que o podem ajudar na tomada de decisões. Dietrich Bonhofer dizia: “encontramo-nos aqui sendo só competentes nas penúltimas coisas”; as outras pertencem a Deus.

 

O imperfeito não pode gerar a perfeição. Por muito controverso que pareça, Deus também pode falar através dos contrários à minha opinião e até mesmo através do mal. A opinião é livre, se regada pelos sentimentos, mas só o sol do pensamento a fará crescer. Reconheço opiniões boas mas não faltam as melhores. Ao definir só alargo a cerca do meu jardim. Uma opinião profunda será aquela que surge da liberdade acreditada no comprometimento com o JC, a melhor Realidade e o melhor símbolo de liberdade e compromisso. Para isso será preciso aprender a andar não só em solo seguro mas também sobre as águas do Mar, como fez o mestre da Galileia. Quem tem a coragem de andar sobre a água não é nenhum fantasma mas portador de inovação e de futuro.

 

O problema da liberdade surge sempre que cada um eleve a sua opinião a sentença certa. Liberdade total é impossível porque contradir-se-ia, não permitindo orientação. A capacidade de escolha já seria uma limitação. A dúvida em geral e em especial a dúvida metódica, própria do pensar ocidental, possibilitam a crítica que leva ao desenvolvimento; a crítica confere à civilização ocidental um estado de contínuo processo (“ecclesia” semper renovanda) de modernização e, deste modo, possibilita a antecipação à revolução. Numa democracia o povo não forma uma unidade; o reconhecimento da soberania da consciência individual possibilita a crítica social e naturalmente a necessidade de se aprender a lidar com ela.

 

A liberdade para ser sentida e despreocupada coloca o peso da própria vida no cabide da confiança: uns confiam em Deus outros na ideologia ou no interesse imediato. No cristianismo resta, mesmo assim, uma conta a saldar que é como dizia o filósofo Kant “o dever para consigo mesmo”. Uma sociedade livre e aberta possibilita a vida também aos adversários. O princípio da tolerância não deve porém neutralizar o da própria crença.

 

O sentimento de pertença a uma casa ampla com um tecto metafísico transparente fomenta a auto-estima que protege do medo e permite o auto desenvolvimento e o evoluir da própria opinião; esta deve ser expressa de maneira determinada, doutro modo o adversário sente-se emocionalmente encorajado ao ataque. A crítica pessoal só complica, por isso a crítica construtiva é baseada no problema e na sua solução.

 

(continua)

 

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António da Cunha Duarte Justo

Teólogo

ACTIVIDADE POLÍTICA E CONSCIÊNCIA CRISTÃ – 1

 

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O Político – Entre condicionalismos profissionais e consciência cristã

 

Fé e liderança são temas diferentes mas integráveis. “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, é uma máxima cristã que determinou o agir político da civilização ocidental. Deste modo estimulou diferentes energias a actuar de maneira complementar.

 

Em política procede-se ao exercício do poder e este implica, em democracia, o compromisso, o que pode levar um político a entrar em conflito com as próprias convicções.

 

A civilização ocidental deve o seu desenvolvimento a dois princípios: a dignidade humana e a divisão de poderes. “A ideia de que há uma dignidade inata ao homem é religiosa, de origem judeo-cristã”, bem como a ideia da divisão de poderes (seculares e religioso), como constata o historiador Heinrich August Winkler. E reconhece também que “o direito internacional é uma conquista ocidental” que tem como “objectivo a transferência do domínio do direito para as relações internacionais”. A História do Ocidente é o testemunho da disputa dos direitos humanos, do domínio do direito, da divisão de poderes e da falha contra eles. (No Ocidente, toda a pessoa tem o direito de invocar os direitos humanos em sua defesa).

 

O projecto ocidental não se deixa reduzir à vontade das maiorias democráticas, sejam elas seculares ou religiosas, esquerdas ou direitas, como demonstrou o final da República de Veimar. Já John Stuart Mil dizia que a tirania tanto pode ser exercida por governantes absolutistas como por maiorias. Assim, as democracias ocidentais dispõem de meios que as protegem: a soberania do direito e a divisão de poderes. Estes dão continuidade à sociedade pluralista[1].

 

A filosofia cristã alimenta-se da verdade e da dúvida

 

A sociedade do futuro precisa naturalmente do vitalismo religioso e da energia secular, mas não na contraposição de uns contra os outros; se não quisermos danificar o projecto de vida ocidental, será necessária uma interacção mútua e complementar de filosofia cristã e de poder secular, não podendo a ideologia secular açambarcar para si também o lugar de Deus. A sociedade ocidental manterá a sua sustentabilidade se continuar a superar o dogmatismo religioso e o dogmatismo científico na fidelidade à sua característica filosófica que engloba uma dinâmica dialogal entre verdade e dúvida (fé e razão) que lhe proporcionou especial desenvolvimento. (Também não será legítimo invocar os extremistas muçulmanos para, em princípio, se difamar toda a religião, como tão-pouco o estalinismo ou nazismo para se desacreditar a governação). Em cada época, tanto pessoas religiosas como políticas eram filhas do seu tempo e como tal portadoras dos vícios e virtudes da sua era.

 

A esquerda marxista e o capitalismo liberal pretendem dissociar o cristianismo da pessoa e da sociedade para mais facilmente colocarem o indivíduo sob a sua trela e melhor vaiarem o cidadão sem a concorrência de forças que não sejam económicas ou ideológicas. O cristianismo é a religião mais perseguida porque é a lóbi da dignidade da pessoa, dos pobres e dos discriminados[2]. Os valores cristãos (vindos dos judeus, gregos, romanos e das várias etnias) são a alma da cultura. Já o filósofo Augusto Comte era do parecer que uma sociedade sem religião não teria continuidade e o Estado estaria condenado à desintegração. De facto sustentabilidade de um estado ainda se baseia na fertilidade maternal do seu povo e na religião como processo aberto.

 

O “establishment” político quer um mundo bipolar: quer de um lado o capitalismo liberal redutor do homem a um objecto de produção e de mercado e, do outro, o neo marxismo redutor do homem a proletário – indivíduo singular indefeso (indivíduo sim mas não pessoa!) – em função de uma forma de estado todo-poderoso. As elites neo liberais e neo marxistas unem-se na mesma tarefa de desfraldarem o Homem. Procuram até ideologizar o próprio património nacional.

 

(continua)

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António da Cunha Duarte Justo

Teólogo

 

[1] A França é o exemplo de um Estado laico puro enquanto a Alemanha, tendo também ela a divisão de poderes de Estado e religião, age em parceria com a religião em sectores sociais, o que facilita uma vida social mais harmoniosa e o melhor aproveitamento de recursos humanos e económicos. Os Estados da França e de Portugal são mais orientados pela ideologia republicana exacerbada, enquanto na Alemanha domina o compromisso social que deu origem à economia social de mercado e ao milagre económico alemão.

 

[2] O neo-marxismo e o neocapitalismo tornaram-se duas ideologias irmanadas, que seguem uma estratégia de ocupação da administração pública e dos lugares centrais do saber, da política, da economia, dos Media e da arte. Sob a aura da arte escondem-se interesses ideológicos vestidos com o talar da inocência e da individualidade. O marxismo (comunismo) surgiu das necessidades da época, revelando-se então oportuno no sentido de consciencializar e organizar o operariado que era vítima da revolução industrial nascente (1760 – 1820). Hoje expressa-se como corrector da ideologia económica vigente continuando a deixar-se reduzir a uma perspectiva das redes económico-sociais da polis. Em nome do progresso usam como subterfúgio o ataque ao conservadorismo; em nome dessa luta pretendem irradiar o catolicismo que defende valores e direitos humanos individuais inalienáveis A Europa no seu processo de secularização conseguiu secularizar muitos dos valores cristãos. “Liberdade, igualdade, fraternidade” colocados sob a autoridade suprema da razão e da lei do estado, são a consequência lógica da liberdade, irmandade e igualdade dos filhos de Deus, propagada pela religião a nível individual e da comunidade. A aculturação de valores sublimes processa-se ao longo dos séculos.

 

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