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A bem da Nação

A CORRUPÇÃO

 

Cortes de 1821.jpg

 

Portugal passou o século XIX (e porventura o XX...) a advogar e a tentar a sua própria “regeneração”. É nesta linha que se insere o movimento revolucionário de 24 de Agosto de 1820, que desencadeia uma acção cultural que fomenta a ideia recolhida e desenvolvida pelo positivismo: a necessidade de uma regeneração moral/social que fomente a material. Não pela revolução mas pelo progresso na ordem. Essa regeneração seria omnimoda: política, jurídica, cultural, estética, económica, financeira e religiosa, já que, num primeiro momento, não pretendia excluir a religião da esfera pública mas apenas libertá-la dos dogmas e, assim, fazer dela moralizadora da sociedade e antídoto das superstições. Eram, na política, os ideais liberais de Condorcet e Godwin de confiança absoluta nos progressos da razão, da ciência, da técnica e, fundamentalmente, da perfectibilidade humana.[1]

 

O positivismo não foi o único a dar-se conta da amplitude da corrupção político-social na vida do país. O que teve de particular foi a insistência na urgência da mutação de semelhante estado de coisas. E como a corrupção é da ordem dos comportamentos, logicamente seria pela via da moral que se lhe poderia pôr cobro. Partia-se deste dado: a corrupção atingiu tal amplitude que se tornou “sistemática, erigida em forma de Governo”.[2]

 

Apenas pela baixeza moral dos governantes e consequente usurpação dos bens políticos? Não. Dever-se-ia mais à falta de convicções profundas dos políticos, à sua má preparação técnica e à falta de capacidade de discernimento. De resto, ela não seria exclusiva da classe política pois atravessava toda a sociedade. Seria estrutural. E ter-se-ia instalado de tal forma q1ue o povo a julgava normal. Não apoquentava a maioria dos espíritos, com excepção de alguns ilustrados.

 

Para vincar esta ideia, os positivistas chamavam a atenção para algumas dimensões da corrupção que a tornariam imensamente maléfica. Em primeiro lugar, o facto de ser aceite culturalmente. Por exemplo, nas distinções honoríficas que ligavam a relevância social à fortuna sem atender sequer ao modo da sua aquisição. Além disso, a corrupção era favorecida pelo sistema classista: daí, o dado notório de só alguns grupos sociais assumirem as rédeas do poder.

 

(...)

 

Outro dado seria a preponderância do económico e do material sobre as questões político-morais. Esta falta de racionalidade ético-filosófica leva a que o espírito humano se deixe absorver pelas considerações da prática e nisso gaste as suas energias, quando o problema é de teoria, de concepção, na falta de um paradigma de actuação.

 

Finalmente, é de ressaltar uma [outra] dimensão: a interligação entre política e corrupção levava os bons a afastarem-se, a não quererem sujar as mãos. Assim, afastados os competentes, ficava aberto o caminho para o acesso dos demagogos: os de fácil expressão oral ou escrita mas sem conteúdos e de qualidade duvidosa[3].

 

D. Manuel Linda.jpg

D. Manuel Linda

Bispo das Forças Armadas

 

In Mundividência ético-social do positivismo português, BROTÉRIA, Fevereiro de 2015, pág. 131 e seg.

 

[1] ISABEL NOBRE VARGUES, A aprendizagem da cidadania. Contributo para a definição da cultura política vintista. Coimbra: Universidade de Coimbra, 1994

[2] TEIXEIRA BASTOS, Princípios de philosophia positiva extraídos do curso de philosophia positiva de Augusto Comte. Porto: Livraria Universal, 1883

[3] Teixeira Bastos exemplifica isto com os advogados e literatos os quais, segundo ele, substituíram – mas mal – as antigas corporações judiciárias e os doutores.

QUANDO AS AMIGAS CONVERSAM...

“FOLHA QUE CAI”, NO CAFÉ DE DOMINGO

 

A minha irmã, sempre atenta ao esclarecimento da verdade – e vejo nisso os genes do meu pai, que não ia em leviandades de interpretações – não perdeu tempo para me informar sobre a dita palavra deceina, que eu escrevera desseina, e que tanto ela como a minha filha Paula logo tinham pensado que se escrevia com c e eu nem pusera essa hipótese, construindo, para a sua origem, erudita e fantasiosa etimologia resultante das viagens de Ulisses (Odisseus, em grego), que até, segundo se propalava, aportara a Lisboa, em barcos a remos, fundando a nossa Ulissiponem (étimo, ao que sei, também fantasioso), hoje visitada por cruzeiros de cortar a respiração, mas no tempo de Cesário Verde, em nostalgia de outras terras, as deslocações para o mundo só possíveis por via férrea:

Batem os carros de aluguer, ao fundo, Levando à via-férrea os que se vão. Felizes! Ocorrem-me em revista exposições, países; Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

(In “O Sentimento de um Ocidental”)

 

E mostrou-me o papel onde escrevera: «Deceinar (Regionalismo): lavar as meadas para lhes tirar a cinza da barrela», segundo um dicionário da Porto Editora – «Dicionário da Língua Portuguesa” – publicado em 2014. E logo eu desci à terra e achei que tais trabalhos de barrela eram mais coincidentes com os conhecimentos da minha mãe, que tantas vezes usara a palavra na sua vida e logo lhe apliquei o étimo “cinis, no genitivo cineris, que significava cinza em latim.

 

Entretanto, agora que lhe sei a grafia, procuro na Internet a palavra “deceinar” que usa igual fonte da minha irmã e confirma a origem da palavra.

 

Assim ficou reposta a verdade, antes mesmo de a minha irmã acabar a sua torrada, prova de que o meu texto anterior sobre a “desseina” e a hipotética ligação à Odisseia lhe mereceram atento repúdio, como a mim também, agora que sei.

 

Entretanto, falou-se de outras coisas – a escola, a educação e o desgaste dos professores – e a minha amiga saiu-se com esta, estávamos a apontar o massacre noticiarístico dos telejornais, iniciando-se infalivelmente por casos de acidentes, assassínios, crueldades:

É raro o dia em que um marido não mata a mulher. E agora também mata os filhos.

E a Paula, de acrescentar:

E a sogra. E o cunhado. E a família toda.

E a minha irmã, excitada:

Então e nos Estados Unidos? Um homem vai no passeio do lado esquerdo, e a polícia, de carro, vinda do lado direito, cruza a faixa contrária entra em transgressão e bumba, vai para cima dele.

Minha nossa!, exclama a minha amiga.

É por isso que eu, aos Domingos, fecho a televisão, ligo a rádio e leio os jornais e revistas – é a minha irmã que fala. Antes que nos dê um ataque

A Paula riu-se, num comentário sobre a tendência da nossa conversa, e a minha irmã concluiu:

A gente, desta idade, só está à espera que nos chegue alguma!

Mas a minha amiga não se ficou atrás nesta deceina do nosso pessimismo:

Ai que raiva, pá! Os anos passam tão depressa!

E a Paula, a rir:

Isto é pior do que o telejornal!

Com os nossos cafés, brindemos, então, antes, a João de Deus, que usou o efémero mais coloridamente:

 João de Deus.png

A vida é o dia de hoje,

a vida é ai que mal soa,

a vida é sombra que foge,

a vida é nuvem que voa;

a vida é sonho tão leve

que se desfaz como a neve

e como o fumo se esvai:

A vida dura um momento,

mais leve que o pensamento,

a vida leva-a o vento,

a vida é folha que cai!

 

A vida é flor na corrente,

a vida é sopro suave,

a vida é estrela cadente,

voa mais leve que a ave:

Nuvem que o vento nos ares,

onda que o vento nos mares

uma após outra lançou,

a vida – pena caída

da asa de ave ferida -

de vale em vale impelida,

a vida o vento a levou! 

(In “Campo de Flores”)

Berta Brás 2.jpg Berta Brás

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