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A bem da Nação

AÍNDA O COLONIALISMO

 

DUBAI

 

Refiro-me aos dois textos que foram publicados sob a rubrica “Colonialismo” em http://abemdanacao.blogs.sapo.pt/colonialismo-1397602 sendo um escrito por Simone Weil – InA propósito da questão colonial nas suas relações com o destino do povo francês” (1943) e o outro por Abdelwahab Meddeb, InA DOENÇA DO ISLÃO.

 

Verificamos, por eles, uma progressão nos conceitos de colonialismo e descolonização comandados pelo povo americano – de pujança benemérita em compatibilidade com a sua pujança económica nos tempos de Simone Weil, de cooperação material na reciprocidade dos benefícios, nos nossos tempos, segundo o texto de Abdelwahab Meddeb.

 

A necessidade de resistência aos desígnios americanos segundo a advertência de Simone Weil não se processou contudo, seguindo-se as descolonizações - a nossa exemplar, como gostamos de referir, na descompressão de responsabilidades, nosso apanágio. Lembro-me de que, quando Kennedy foi assassinado – o meu João nasceu daí a dias – eu apenas referi com pena os filhos que ficavam órfãos, esquecidos os rancores para com quem usava do seu prestígio para destruir levianamente o contributo de outros para o desenvolvimento africano.

 

Este texto a propósito do conceito de colonialismos, anterior e actual, veio despertar velhos rancores que também traduzi em tempos, como os passos seguintes de “Ó cínica Inglaterra, ó bêbada impudente” (“Cravos Roxos”, 1981):

 

Ultimamente tenho-me lembrado muito dos versos do Guerra Junqueiro supracitados, tantas vezes referidos pelo meu paizinho com um gosto que sempre me surpreendeu, pois acho indispensável delicadeza em todos os nossos actos ou palavras, especialmente no caso de tratarmos com pessoas ou com nações de um nível económico-sociocultural superior ao nosso e nesse ponto não devemos ter veleidades de comparação com a Inglaterra, muito mais no norte do que nós.

 

Chamar hoje em dia, como no tempo do Guerra Junqueiro, bêbada à Inglaterra, é, por outro lado, pura descortesia, em contradição com o decréscimo de exportações sofrido presentemente pelo nosso vinho do Porto, facto esse notório de sobriedade e abstinência que anulam irremediavelmente os dizeres excitados do Junqueiro, declamados pelo meu paizinho com honrado vigor.

 

…Quanto ao cinismo da Inglaterra, o Guerra Junqueiro estava evidentemente escamado por causa da questão do mapa cor de rosa, quando a Inglaterra nos refutou a ocupação da parte da África em cor de rosa no mapa, mas de facto, não vejo cinismo nisso e apenas um fenómeno de atracção pela cor, comum a diversos seres.

 

Já o abandono dos Estados Unidos no caso de Angola (e mesmo de Moçambique) me surpreendeu, mas atribuí-o a uma ampla generosidade para com a Rússia, que tanto tem demonstrado a sua necessidade de se ampliar, e incluí a questão dentro de um justificativo de ordem bíblica, digno do apreço de Cristo e portanto do meu também, como sua afeiçoada. ….

 

O excerto de Abdelwahab Meddeb «O colonialismo deu lugar a alianças entre países soberanos» veio provar a razão daqueles que pensavam que os tais países democráticos apenas desejavam ocupar os lugares dos primeiros colonizadores, substituindo, é certo, domínio ou sujeição por colaboracionismo independente e apenas lucrativo para ambas as partes.

 

E eis a história desses donos do petróleo, nas suas realizações materiais de esplendoroso fascínio.

 

Quanto aos povos africanos independentes e livres, eles aí vêm em fuga dos seus espaços de ditaduras, os ditadores – esses sim - gerindo os seus bens e a sua autoridade próprios, no meio da miséria, da guerra e do infortúnio gerais, de vidas acabando, tantas vezes, no fundo desse Mediterrâneo que é traço de união monstruoso entre Europa, Ásia ocidental e África.

 

Quanto às Arábias, essas explodem em luxo “asiático”, nas alianças feitas pela calada, com o tal povo americano do domínio, a coberto de uma solidariedade que redundou em tragédia, como era de prever.

 

Berta Brás.jpg Berta Brás

A CONTRIBUIÇÃO DOS MISSIONÁRIOS PORTUGUESES PARA A ACTUAL LÍNGUA VIETNAMITA

 

Em 1612, o xogunato de Edo (actual Tóquio) decretou a proibição do cristianismo nos distritos da sua jurisdição, estendendo-a posteriormente a todo o país e forçando a reconversão de todos os católicos. Os que se opuseram a esta medida foram condenados à tortura e à morte ou expulsos do território para Manila e Macau, em 1614.

 

Regressado da Cochinchina, Fernando da Costa, um português de Macau, relatou aos padres de Macau o que tinha visto naquele reino e manifestou-lhes a sua convicção de que seria possível convertê-lo à fé cristã.

 

Por isso, no início do ano de 1615, os padres Francesco Buzomi e Diogo de Carvalho desembarcaram na Cochinchina. Após o regresso do padre Diogo de Carvalho ao Japão em 1624, onde acabaria por ser condenado à morte, coube ao padre português Francisco de Pina, ido de Macau em 1617, ocupar o seu lugar.

 

Hoi An, Vietname.jpg

 

Foi na Missão de Hoi An, cidade onde estava estabelecida a residência dos jesuítas naquela região do Mar do Sul da China, no contacto diário com os locais, que Francisco de Pina se apaixonou pela língua anamita e se auto propôs a realizar uma tarefa exigente e pioneira: romanizar a língua escrita do actual Vietname, que até então, era apresentada sob o antigo registo baseado em ideogramas de feição chinesa.

 

Para que a difusão da fé cristã fosse eficiente era fundamental que fosse feita na língua local. Francisco de Pina foi o primeiro europeu a interessar-se pelo estudo da língua anamita e a falá-la fluentemente.

 

A língua vietnamita tem seis tons que estão na maioria das palavras sendo os mesmos definidos pelos acentos. Quase todas as palavras são monossilábicas, não tem declinações nem conjugações mas sim pequenas partículas que determinam o género das palavras e os tempos dos verbos. É uma língua com sons próprios e uma musicalidade própria, parecendo ser falada e cantada ao mesmo tempo. Durante séculos, devido à forte influência da cultura Han (dinastia chinesa), a língua vietnamita foi falada com uma fonética diferente da língua chinesa e escrita através de ideogramas chineses. Os vietnamitas não pronunciavam os ideogramas Han em chinês mas sim em sino-vietnamita, uma forma de pronunciar criada pelos próprios. Por volta do século X foi adoptado o ideograma Han como modo de escrita, o que deu origem à criação da escrita nacional denominada Chu Nom, um conjunto de ideogramas chineses e sinais que permitiam descrever sons e palavras vietnamitas sem raiz na terminologia chinesa. Estas palavras representavam metade do vocabulário vietnamita sendo a outra metade composta pelos termos sino-vietnamitas de origem chinesa.

 

A tarefa de romanização da língua anamita tornou-se complexa e morosa pois à medida que iam chegando novos missionários, oriundos de Portugal, Itália e França, Francisco de Pina tinha, simultaneamente, que continuar o seu trabalho e ensinar a língua anamita aos seus novos discípulos. Os frutos do seu trabalho ficaram patentes na quantidade de missionários falantes de anamita (35), muitos deles portugueses, que participaram, em 1645, numa reunião em Macau para definir a fórmula de baptismo, não em latim como era obrigatório mas sim em anamita para que, no preâmbulo de um baptismo, os paroquiantes locais entendessem bem o dogma católico de Deus e da Santíssima Trindade e não o confundissem com a existência de três Deuses.

 

Cinco desses missionários foram considerados peritos em língua anamita, com destaque para Gaspar do Amaral, considerado, então, o melhor especialista em língua anamita.

 

Pierre Huard realçou o papel dos portugueses na elaboração dos dicionários bilingues “lusito-annamites”. Gaspar do Amaral redigiu um dicionário Anamita-Português e António Barbosa e Manuel Ferreira redigiram, cada um, um dicionário Português-Anamita. Todos os manuscritos nos quais foram registadas as formas arcaicas e as primeiras transcrições estão dadas como desaparecidas. O dicionário Viet-Latin do padre francês Pierre Pigneau de Béhaine, mais tarde Bispo de Adran, e o dicionário trilingue de Alexandre Rhodes são os únicos trabalhos de lexicografia que sobreviveram até hoje.

 

Dos missionários chegados à Cochinchina em 1624, distinguiu-se o jovem padre jesuíta francês, Alexandre de Rhodes, discípulo de Francisco de Pina e que mais tarde viria a reconhecer que os sermões do padre Francisco de Pina, em língua anamita, eram bem mais úteis do que os dos padres Emanuel Fernandez e Buzomi, pregados através de intérpretes.

 

A morte prematura de Francisco de Pina em 1625 fez com que Alexandre de Rhodes passasse a ser o seu precursor, prosseguindo com a sua obra, divulgando o alfabeto romanizado da língua vietnamita e elaborando uma gramática anamita e um dicionário Anamita-Português–Latim o que, erradamente, lhe conferiu o título de “Pai do Quoc Ngu”, relegando para segundo plano, durante séculos, Francisco de Pina, o jesuíta português que esteve na base deste inédito trabalho linguístico.

 

Georges Taboulet na sua obra “ La Geste Française en Indochine” afirmou que Alexandre de Rhodes não tinha inventado o Quoc Ngu. Segundo este, a transcrição fonética da língua anamita, através dos caracteres latinos e sinais convencionais, resultou de uma criação colectiva na qual participaram, de forma notável, os padres: Francisco de Pina, Gaspar do Amaral, António Barbosa e Christoforo Borri.

 

Os missionários utilizaram os caracteres latinos para transcreverem foneticamente a língua anamita. O modo de transcrição da língua anamita continha particularidades fonéticas do português, o que contribuiu para que a língua portuguesa tivesse ficado, historicamente, ligada a este processo de latinização.

 

Alexandre de Rhodes apenas teve o mérito de ter codificado, regularizado e vulgarizado a nova escrita.

 

As obras da autoria de Alexandre Rhodes: O Catecismo e o “Dictionarium Annamiticum, Lusitanum et Latinum”, com um manual de gramática anamita, publicadas em Roma, em 1651, marcaram a aparição do Quoc Ngu e concederam ao jesuíta francês um estatuto de superioridade relativamente aos outros missionários. Todavia, a publicação das suas obras ocorreu na segunda metade do século XVII, quando teve lugar o aperfeiçoamento das regras de transcrição do Quoc Ngu, denominada por segunda fase.

 

A primeira fase, referente à pesquisa e ensaio da transcrição da língua anamita, através da utilização de caracteres latinos, até à formação gradual do Quoc Ngu, ocorreu na primeira metade do século XVII cabendo, nessa fase preliminar, todo o mérito aos missionários portugueses Francisco de Pina, Gaspar do Amaral e António Barbosa e ao missionário italiano Christoforo Borri, o segundo europeu, depois de Francisco de Pina, a falar fluentemente a língua vietnamita.

 

No “ad lectorem” do seu dicionário, Alexandre de Rhodes prestou homenagem ao seu mestre Francisco de Pina reconhecendo os seus profundos conhecimentos da língua anamita e realçando o facto de ele ter sido o primeiro padre a pregar naquela língua.

 

Outro pormenor que não abona a favor de Alexandre de Rhodes tem a ver com os manuscritos dos dicionários de Gaspar do Amaral e António Barbosa, deixados por estes em Macau quando dali partiram, em missão religiosa, vindo a naufragar ao largo de Macau devido a um tufão, em 1646. Alexandre de Rhodes, terá então mudado a sua residência da Cochinchina para Macau onde, tal como outros missionários, terá consultado os manuscritos daqueles dois padres portugueses. No prefácio do seu dicionário, Alexandre Rhodes assumiu tê-lo feito.

 

Ainda em Macau, a missão jesuíta local terá acusado Alexandre de Rhodes de plágio quando este imprimiu e assinou um relatório sobre a situação no Japão, dirigido à princesa da Dinamarca, o qual havia sido escrito por outro missionário jesuíta.

 

Dicionário Vietnamita-Português

 

O próprio dicionário Anamita-Português-Latim com mais de 8 mil verbetes em língua anamita traduzidos para o português e para o latim, publicado em Roma em 1651, como sendo de sua autoria, suscita, ainda hoje, muitas dúvidas sobre quem terá sido o seu verdadeiro autor. Segundo o professor vietnamita Pham Van Huong, da Universidade de Bordéus, na capa do dicionário, Annamiticum está escrito de forma errada: Annnamiticum (com três enes), o que põe em causa os seus “bons” conhecimentos, não só do Quoc Ngu mas também de latim.

 

No interior do dicionário, outros pormenores reforçam a convicção de que terá sido um português e não um francês, o autor daquele dicionário. A pronúncia da vogal u é mencionada à portuguesa e não à francesa. Segunda-feira e Terça-feira estão traduzidas como: “Thu hai” (segundo) e “Thu ba” (terceiro). Só na língua portuguesa existem Segunda-feira e Terça-feira para designar dias da semana.)

 

Também a forma como se escreve Portugal em vietnamita (Bo Dao Nha) confirma a influência da língua portuguesa. Se o som correspondente ao fonema nh tivesse sido criado por Alexandre de Rodes, então esse fonema teria sido gn em vez de nh.

 

Dúvidas sobre a verdadeira autoria deste dicionário poderão ter estado na origem da recusa de uma segunda missão na Cochinchina, quando Alexandre de Rhodes a solicitou junto da Igreja Católica Portuguesa.

 

O falecido Padre Manuel Teixeira, jesuíta de Macau, sempre teve uma opinião muito pessoal sobre este assunto. Para ele, Alexandre de Rhodes não elaborou aquele dicionário. Limitou-se a assinar, como sendo de sua autoria, um dicionário que nunca escreveu.

 

Também na obra do jesuíta italiano Christoforo Borri “Relatione della nuova missione delli PP. della Compagnia di Giesu, al regno della Cocincina”, publicada em Roma, em 1631, apareceram pela primeira vez frases na escrita do Quoc Ngu, sob a forma de caracteres impressos, ainda sem acento tónico. Um Quoc Ngu anterior ao constante das obras de Alexandre de Rhodes.

 

A actual língua vietnamita não se escreve através de ideogramas como acontece nas línguas chinesa e japonesa ou noutros idiomas asiáticos. Embora tenha acentuação e sintaxe particulares, com acentos gráficos próprios, adaptados à pronúncia tonal da língua, apresenta-se-nos através dos mesmos caracteres utilizados na língua portuguesa, organizados em torno de um alfabeto. Foi Francisco de Pina quem iniciou o processo de latinização da língua anamita que viria a concretizar-se no Quoc Ngu, a escrita oficial da actual língua vietnamita, e no desenvolvimento e adopção oficial de um registo romanizado distinto do chinês.

 

Em 1945, Ho Chi Minh, primeiro presidente da República Democrática do Vietname, decretou que o Quoc Ngu seria a escrita oficial da língua vietnamita. A adopção do Quoc Ngu permitiu combater o analfabetismo, porque era mais fácil de ser aprendido que os ideogramas da escrita chinesa, e reconquistar a dignidade da cultura vietnamita que assim pôs termo à influência milenar da cultura chinesa.

 

 

29 de Outubro de, 2014

 

Raul Máximo Silva.jpg 

Raul Máximo Silva

 

In «Jornal Tribuna de Macau»

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