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A bem da Nação

«A VIDA SERÁ SEMPRE BELA ENQUANTO HOUVER “ESPERTOS REGATINHOS”»

esperto ribeirinho.jpg

 

Foi este o comentário final que fez o Dr. Salles ao meu texto sobre Lafões, depois de ter afirmado que nele gostara especialmente dos “espertos regatinhos” o que muito me enxofrou, em específico sentimento de frustração, pois eu me esmifrara em citações e análises, ao sabor dos meus pensamentos e sentimentos, por meio da combinação dos grafemas da minha competência, tal como definia o nosso professor de Música do velho Liceu Salazar, em Lourenço Marques, Samuel Miguéns: “A música é a arte de exprimir os sentimentos e os pensamentos por meio da combinação dos sons”. Não se tratando, de facto, de música, o meu texto de pão-pão, queijo-queijo, no terra-a-terra da minha criatividade, nunca se me tinha feito, contudo, repúdio tão intenso, na preferência pelos regatinhos do Eça que punham a milhas as magnólias de Oliveira de Frades, referidas no meu texto, na sua beleza “tout court”, sem sequer um adjectivo a valorizar-lhes o porte, que, por via dos “espertos regatinhos” hoje assinalo como “gracioso”.

 

Mas reconhecendo o “quid” transformador de Eça, em qualquer frase que escreva, conformei-me com a observação, eu própria a subscrevendo, tanto mais que o Dr. Salles concluiu o seu comentário com um pensamento assertivo muito perspicaz, a frase do título: «A vida será sempre bela enquanto houver “espertos regatinhos”».

 

Na verdade, neste país rasgado ultimamente pelas auto estradas do progresso, emprestado que este seja, com os moinhos nas cristas dos montes produzindo energia, sente-se o vigor de um povo que outrora também produziu barcos e homens buscando outros mundos, em condições por vezes bem tenebrosas. Já não precisamos hoje, é certo, da égua de Jacinto ou do burro de Zé Fernandes para trepar a serra para a casa de Tormes, que possibilitou a fixação da divina tela queirosiana, que se lê e saboreia em cada sua frase musical, “petit poème en prose”:

 

Com que brilho e inspiração copiosa a compusera o divino Artista que faz as serras, e que tanto as cuidou, e tão ricamente as dotou, neste seu Portugal bem amado! A grandeza igualava a graça. Para os vales poderosamente cavados, desciam bandos de arvoredos, tão copados e redondos, dum verde tão moço, que eram como um musgo macio, onde apetecia cair e rolar. Dos pendores, sobranceiros ao carreiro fragoso, largas romarias estendiam o seu toldo amável, a que o esvoaçar leve dos pássaros sacudia a fragrância. Através dos muros seculares que sustêm as terras, liados pelas heras, rompiam grossas raízes coleantes, a que mais hera se enroscava. Em todo o torrão, de cada fenda, brotavam flores silvestres. Brancas rochas, pelas encostas, alastravam a sólida nudez do seu ventre polido pelo vento e pelo sol; outras, vestidas de líquen e de silvados floridos, avançavam como proas de galeras enfeitadas; e, dentre as que se apinhavam nos cimos, algum casebre que para lá galgara, todo amachucado e torto, espreitava pelos postigos negros, sob as desgrenhadas farripas de verdura, que o vento lhe semeara nas telhas. Por toda a parte a água sussurrante, a água fecundante. Espertos regatinhos fugiam rindo com os seixos, dentre as patas da égua e do burro; grossos ribeiros açodados saltavam com fragor de pedra em pedra; fios direitos e luzidios como cordas de prata vibravam e faiscavam das alturas aos barrancos; e muita fonte, posta à beira de veredas jorrava por uma bica, beneficamente, à espera dos homens e dos gados. Todo um cabeço, por vezes era uma seara, onde um vasto carvalho ancestral, solitário, dominava como seu senhor e seu guarda. Em socalcos verdejavam laranjais rescendentes. Caminhos de lajes soltas circundavam fartos prados com carneiros e vacas retouçando, ou, mais estreitos, entalados em muros, penetravam sob ramadas de parra espessa, numa penumbra de repouso e frescura. Trepávamos então alguma ruazinha de aldeia, dez ou doze casebres, sumidos entre figueiras, onde se esgaçava, fugindo do lar pela telha-vã o fumo branco e cheiroso das pinhas. Nos cerros remotos, por cima da negrura pensativa dos pinheirais, branquejavam ermidas. O ar fino e puro entrava na alma, e na alma espalhava alegria e força. Um esparso tilintar de chocalhos, de guizos, morria pelas quebradas. «A Cidade e as Serras”

 

Nas auto estradas de múltiplos carros deslizando hoje velozes, ultrapassando um ou outro camião que outrora, na estrada nacional, em maior quantidade do que hoje, parece-me, embargavam maliciosamente a passagem aos carros, estes em múltiplas tentativas de perfuração do espaço barrado, já não há tempo para fixar os pormenores do descritivo imortal queirosiano, os tapumes laterais das vias amplas impossibilitando a perfuração dos espaços próximos, apenas as serranias revestidas do verde escuro das árvores próximas se destacando ao longe, a confinar com o azul do céu.

 

Fomos a Pinheiro de Lafões, uma zona que se destaca, no vigor saudável dos seus ares, na beleza incomparável dos casarios pintalgando as serras, de que em tempos fiz um retrato no meu terra a terra de rigor:

 

LAFÕES

Um vale, um rio, os montes,

Povoados dispersos

Aqui, além,

Quais jóias incrustadas na verdura

De cerrados horizontes.

No cimo, um céu escasso

Limitado pela linha das montanhas,

Guardando avaramente o seu tesouro

Sem permitir um passo

Para fora.

Lafões…

A harmonia do belo,

O desespero do pouco,

A ânsia ardente

Do infinito,

Tentando passar além

Inutilmente.

Que os montes ciosos

Recolhem o seu esplendor

Vaidosamente.

Ali se impõem,

Ali são donos,

Princípio e termo,

O infinito…

Lafões, quão belo!

Lafões, quão pouco!

(in “Cravos Roxos”)

 

Hoje eu não renegaria aqueles sítios de Lafões, ambicionando os espaços mais amplos das planuras marítimas. A televisão, a Internet, e sempre os livros, permitem um lugar feliz em qualquer parte do mundo. Mas, sobretudo, como afirma o Dr. Salles, porque «A vida será sempre bela enquanto houver “espertos regatinhos”».

 

Berta Brás.jpg Berta Brás

CARTA DE PINA MANIQUE AO DUQUE DO CADAVAL

 

 

Exm.º Sr. Duque de Cadaval:

 

Se meu nascimento, embora humilde, mas tão digno e honrado como o da mais alta nobreza, me coloca em circunstância de V. Ex.ª me tratar por TU, caguei para mim que nada valho.

 

Se o alto cargo que exerço de Corregedor da Justiça do Reino em Santarém, permite a V. Ex.ª, Corregedor Mor da Justiça do Reino, tratar-me acintosamente por TU, caguei para o cargo.

 

Mas, se nem uma nem outra coisa consentem semelhante linguagem, peço a V. Ex.ª que me informe com brevidade sobre estas particularidades pois quero saber ao certo se devo ou não cagar para V. Ex.ª.
 

Santarém, 22 de Outubro de 1795

 

Pina Manique.jpg Pina Manique

Juiz Corregedor de Santarém

 

Cópia autêntica da carta existente na Biblioteca Nacional de Lisboa redigida por Pina Manique, então Juiz Corregedor em Santarém (e futuro Intendente de Polícia do Marquês de Pombal), ao

Duque de Cadaval.jpg Duque de Cadaval, D. Miguel Caetano Álvares Pereira de Melo, então Corregedor Mor da Justiça do Reino.

 

 

OS RICOS QUE PAGUEM A CRISE – 2

 

 

Eu – Já cá estou de volta.

Ela – E que lhe disse a bola de cristal?

Eu – Que o Ronaldo vai ganhar a 3ª Bola de Ouro.

Ela – Não, a sério, o que disse ela sobre o futuro da Grécia?

Eu – Não disse nada porque não tenho bola nenhuma de cristal e se tivesse não a saberia consultar sobre nada. Já viu alguma vez uma bola de cristal ou de qualquer outra coisa adivinhar o futuro?

Ela – Não, nunca vi. Mas Você falou com tanta convicção...

Eu – Figuras de retórica sempre dão jeito quando não sabemos como desembrulhar um problema.

Ela – Então isso significa que Você não sabe como vai acabar o problema grego.

Eu – Então isso significa que eu não sei como vai acabar o problema grego. Mas posso fazer alguns exercícios especulativos.

Ela – Muito bem, então vamos lá a isso! Estávamos nas senhas de racionamento.

Eu – Isso só acontecerá num cenário de ruptura com o Euro e eu julgo que o sentido maioritário do voto grego não foi por aí.

Ela – Então, esse cenário de ruptura com o Euro seria contrário ao sentido do voto grego.

Eu – Sim! A partir do que li e ouvi na comunicação social, foi esse o sentido que registei.

Ela – Mas o Tsipras e o Varoufakis ameaçam com a saída do Euro.

Eu – Sim mas, a ser como eu percebi e democraticamente falando, essa saída não faz sentido. E, depois, repare que o problema grego não tem tanto a ver com o Euro propriamente dito como com os critérios de Maastricht. Uma dívida que não ultrapasse os 60% do PIB e um défice que não ultrapasse os 3% exigem um esforço de contracção muito grande e isso não é exequível sem alguma convulsão social. Pagar impostos? Pagar os transportes públicos? Prescindir dum emprego público conseguido sabe-se lá com base em que critérios...? Retirar a pensão vitalícia às filhas dos funcionários públicos que ficaram órfãs na meninice? Os vícios de parasitismo são tão antigos que já se tornaram uma característica da sociedade grega. Mas nós também temos uns quantos por cá que se fartam de falar nos direitos adquiridos. Só que os de cá foram adquiridos por via revolucionária e os de lá vêm sobretudo do tempo da queda do Império Otomano em que a monarquia grega, para voltar ao poder, teve que «comprar» os súbditos, tanto os antigos da velha Grécia como os novos dos territórios que então deixavam de ser governados pela Grande Porta. E se não lhes satisfizessem todas as reivindicações, eram eles, os alemães da Casa de Schleswig Holstein Sonderburg Glücksburg, que ficavam sem trono. Então, vá de gastar o dinheiro que não existia para garantir o reino. Ou a reinação, se quiser.

Ela – E a reinação continuou nos tempos da República...

Eu – E VIVA A REPÚBLICA!!!

Ela – Então, como é que o Tsipras vai resolver o problema que tem nos braços?

Eu – Acabando com os vícios, apesar disso ser contrário a muita «coisa» que deu a entender durante a campanha eleitoral que o pôs no poder.

 

merkel_and_tsipras.jpg

 

Ela – Ele disse que ia «bater o pé» aos credores, a começar pelos alemães.

Eu – O que equivaleria a morder a mão que os alimenta ou, se quiser, a fazer negaças a quem lhes tem permitido ao longo de muitos anos viverem de um modo para que pouco contribuem.

Ela – Foram os ricos que pagaram essa crise, não é?

Eu – Não sei se são ricos. Sei que foi quem se coibiu de gastar, poupou um pouco ou muito conforme os rendimentos de cada um e emprestou essas poupanças à Grécia para que os gregos continuassem a não corrigir os vícios que lhes foram tolerados se não mesmo incentivados desde o tempo dos avósinhos.

Ela – Isso significa que se os ricos fecharem a torneira, os gregos vão ter que penar um bocado.

Eu – Tanto quanto nós, portugueses, temos penado para anularmos o défice público e para pagarmos a dívida externa tanto pública como privada.

Ela – Então, por que é que eles não fazem como nós?

Eu – Porque eles não são portugueses.

Ela – E isso que significa?

Eu – Nós temos uma certa honra em cumprir a palavra pagando as dívidas. Até porque os nossos credores podem muito bem não ser todos ricos.

Ela – Então, nós pagamos porque somos honrados e eles não pagam porque não o são?

Eu – Nós seguimos a política de honrar os nossos compromissos não ameaçando ninguém e fomos introduzindo medidas de redução dos défices de tal modo que os nossos credores começaram a acreditar em nós e os juros começaram a descer. Isso permitiu-nos pedir emprestado com juros cada vez mais baixos para amortizarmos empréstimos antigos, os da época dos juros altos. E se os défices anuais se forem reduzindo, então cada vez mais teremos que pedir cada vez menos até que passemos a ter saldos positivos e esses, sim, finalmente, servirão para reduzir o stock da dívida. Note que já vamos tendo saldos trimestrais primários positivos e esse é um primeiro passo no caminho do equilíbrio geral. À custa de quê e de quem? À custa de todos nós, os contribuintes, que fomos chamados a pagar mais e de todos nós, os beneficiários, que vemos as benesses a serem reduzidas.

Ela – Mas isso é a nível das contas públicas. E a dívida externa?

Eu – Sim, essa tanto é pública como privada mas acho que hoje ficamos por aqui pois tenho que ir ali ver se chove.

Ela – Ver se chove? Então não pode ver daqui?

Eu – Sim, posso mas é ali que estão as nabiças enquanto aqui só há cimento. Continuamos amanhã.

Ela – E os gregos?

Eu – Os gregos, não.

Ela – Não, o quê?

Eu – Até amanhã.

Ela – OK, inté!

 

Abril de 2015

 

Henrique em Angjor Wat.JPG

Henrique Salles da Fonseca

CITAÇÕES

  • Adão, o primeiro espoliado – e no próprio corpo.

 

  • As academias coroam com igual zelo o talento e a ausência dele.

 

  • Cada geração de computadores desmoraliza as antecedentes e respectivos criadores.

 

  • Há campeões de tudo, inclusive de perda de campeonatos.

 

  • Há homens e mulheres que fazem do casamento uma oportunidade de adultério.

 

  • No adultério há pelo menos três pessoas que se enganam.

 

Carlos Drummond de Andrade

NA ESTRADA DE LAFÕES

 

 

 

Encontrei em casa da minha prima Celeste, que vive em Pinheiro de Lafões, na casa adquirida por alturas do retorno a Portugal – na avalanche que impôs então oposições e entreajudas - um livro que também tenho, mas que o prazer da releitura me fez devorar nas três noites de alguma insónia, embora bem instalada num quarto de hotel – «Ulvense» – “que o meu pai pagará”, perdão, que a minha irmã pagou - as realidades aproximando-se, com mais glória, todavia, para a “Caranguejola” do Mário de Sá Carneiro, sonhando com um quarto de hospital, «tudo bem calafetado». Foi o livro de Ferreira de Castro – “A Curva da Estrada”, história de um advogado espanhol socialista - Don Álvaro Soriano - a braços com um grave problema de consciência – o de abandonar o partido de que fora leader e ingressar no partido nacional, um tanto manipulado pelos ditames de oposição ferrenha ao socialismo da irmã Mercedes - beata e amante da sociedade elegante dos nacionalistas afins de governo - que com ele vivia após a morte da mulher, e de seu filho mais velho Paco, que também lhe ocupava a casa após a separação da mulher, com quem casara por interesse. Lembrava-me de que esse livro fora comprado no Lobito, em Agosto de 1953, segundo assinatura, quando vim estudar para Coimbra, tendo iniciado numa livraria de lá a manipulação do dinheiro que o meu pai me entregara para a viagem, o qual, naturalmente não chegaria ao fim dela, pecha de que enfermaria a minha viagem posterior pela vida, de conta mensal na Coimbra Editora, em Coimbra, na Minerva Central em Lourenço Marques, além de outros centros comerciais confiantes na honorabilidade do meu propósito de solvência em prestações mensais – realidade de vivência infinita que umas linhas resumem.

 

Um livro que despertara a minha curiosidade pela diferença de propósito que encontrara nos livros dele que meu pai tinha na estante em Lourenço Marques – “A Selva”, “Terra Fria”, “A Lã e a Neve” – que achava pesados para a minha mente habituada a leituras novelescas, naturalmente preterindo essas, de sofrimento e miséria, segundo o credo dos amantes da humanidade, neorrealistas/marxistas na altura, da esquerda vária hoje. Tratava-se de um livro sobre gente interessante, quer sob o ponto de vista psicológico quer sob o ponto de vista ideológico e cuja releitura me trouxe visões antecipadas de manobras políticas e doutrinárias que a realidade posterior ao 25 de Abril apregoou a cada momento, cada vez com mais empenho.

 

“A Curva da Estrada”, numa terra de curvas na estrada, como essas dos meus tempos de infância, entre Pinheiro e Oliveira de Frades, Pinheiro e o Carregal, que percorríamos a pé na infância e mais tarde de carro, vias que ainda se mantêm, valorizadas pelas auto estradas do progresso. Gostei de reler. Naturalmente, um título simbólico, evocativo da “estrada de Damasco”, seguida por Paulo, perseguidor dos cristãos, posteriormente iluminado nessa estrada, a ponto de se tornar o maior apóstolo pregador da doutrina cristã, em dúvidas sobre si próprio, tal como se debate Don Álvaro Soriano, em hesitações morais e conflitos de consciência, que o fazem renunciar, passando a viver das suas recordações de anterior leader socialista, corajoso e lutador, herói para o filho mais novo – Enrique – que o enfrentou e o libertou, na “curva da sua estrada”. O credo socialista resume-se no final do livro: «É preciso amar os homens», a corrupção pertencendo, então, à frente nacionalista, de hipocrisia e manobras perversas, no pensamento do autor Ferreira de Castro, que, se vivesse hoje outros pruridos teria, menos unilaterais. Ou não teria nenhuns, perdidos nas auto estradas, inexistentes então.

 

Gostei também do passeio às terras da minha infância, perfumadas, de casario entalado nas serras, paisagens miríficas, de ares límpidos e cortantes, de nevoeiros matinais descendo das serras distantes, desvanecendo-se sob um sol brilhante, as praças e ruas de Oliveira de Frades, modernizada, e os quintais da vila e aldeias cheios de magnólias e de cameleiras floridas das mais diversas cores, os canteiros cobertos de amores-perfeitos, os campos em pousio passageiro, laranjeiras e tangerineiras a vergar de ouro, outras árvores começando a revestir-se de rebentos, flores por toda a parte, “espertos regatinhos fugiam, rindo com os seixos, o casario das povoações alargado e bem pintado, a lembrar emigração e previdência para a velhice do retorno.

 

esperto ribeirinho.jpg

 

Mas a Celeste estava doente, foram três dias de companheirismo e alegria festiva e encorajante que se prolongam nos nossos desejos de melhoras, que o serão, rodeada que está pela irmã, o cunhado e os sobrinhos, nos afectos e vigília de longa data compartilhados.

 

A “curva da estrada” para Alberto Caeiro, uma interpretação prática, à maneira dele, pretendendo ser positiva e sem artifício nem filosofia, limitada a nossa visão ao que está antes da curva, que o nosso olhar descobre, sem lugar a suposições imaginárias inúteis e irreais. Bem diferente do romance de António Ferreira no conceito, a observação simplista à maneira “antimetafísica”, na realidade profundamente racionalista:

 

Para além da curva da estrada Talvez haja um poço, e talvez um castelo, E talvez apenas a continuação da estrada. Não sei nem pergunto. Enquanto vou na estrada antes da curva Só olho para a estrada antes da curva, Porque não posso ver senão a estrada antes da curva. De nada me serviria estar olhando para outro lado E para aquilo que não vejo. Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos. Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer. Se há alguém para além da curva da estrada, Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada. Essa é que é a estrada para eles. Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos. Por ora só sabemos que lá não estamos. Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva Há a estrada sem curva nenhuma.

 

Alberto Caeiro.jpg ALBERTO CAEIRO

 

 

Berta Brás 2.jpg Berta Brás

CURTINHAS CXXVIII

EURIBOR negativa.jpg

 

O DEDINHO NA BALANÇA

 

Ouve-se, e não se acredita.

 

A solução que o brilhante BdP encontrou para o problema bicudo dos Indexantes (Euribors várias) com valores negativos que arrastam as taxas nominais de juro dos empréstimos bancários para valores também negativos é, pasme-se!, permitir que os Bancos tenham mão-livre para fazerem o que melhor entenderem, desde que com uma conveniente cobertura contratual (qualquer serve), para que o serviço desses empréstimos, assim reacondicionados, continue a exigir de quem os deva efectivos pagamentos.

 

Swaps, swaptions, opções exóticas (que nem os próprios Bancos, muito provavelmente, perceberão de que se trata), tudo o que há pouco mais de um ano causou um rombo enorme no OGE (lembra-se, Leitor?), agora, com o nihil obstat do BdP, passa a ser “tiro livre”.

 

Literacia financeira? Protecção do cliente de retalho? Às urtigas, tudo isso. O que importa é que os Bancos fiquem confortáveis, mesmo que os spreads que aplicam nos seus empréstimos (para não falar já nas comissões e encargos que são introduzidas à socapa para arredondar rentabilidades brutas) lhes proporcionem sempre, feitas as contas, receitas - ainda que as taxas nominais de juro sejam negativas.

 

Seria pedir de mais ao BdP que tivesse feito bem as contas para se certificar de que a realidade é tão má quanto os Bancos a pintam - em vez de ter embarcado precipitadamente na ideia (nada sofisticada, diga-se em abono da verdade) de que: se há desembolso (é o que resulta de uma taxa nominal negativa aplicada tal qual), haverá de certeza prejuízo.

 

Não dão esses spreads para cobrir as perdas que o malparado tem vindo a causar aos Bancos num crescendo (e só por acaso darão)? Mas isso nada tem a ver com os Indexantes. Tem a ver, sim, com o modo como eles, Bancos, gerem o risco e constroem os seus tarifários.

 

Não é preciso ter os conhecimentos superlativos do BdP para perceber que, se eles têm dois únicos objectivos - conquistar quota de mercado e arranjar de qualquer maneira receitas que cubram os encargos inflacionados por estruturas empoladas - não vão resistir nada bem a um choque destes.

 

Mas, cabe perguntar, por mor de quê deve ser quem já deve a pagar por inteiro a factura de um modelo de negócio bancário que nos tem lançado em crise atrás de crise nos últimos 20 anos, ou quase? Perante o comprazido silêncio do BdP - note-se bem.

 

E, já agora, não souberam os Bancos prever a possibilidade deste cenário, contratualizando taxas mínimas?

 

E se os Indexantes forem por aí acima lançando o serviço das dívidas para níveis incomportáveis, vai haver reciprocidade, com o BdP a agir agora para proteger os devedores (estes, sim, totalmente expostos ao risco de taxa de juro - o que não é o caso dos Bancos, na presente situação)?

 

Não seria mais claro o BdP (ele, que deveria ser a Autoridade de Concorrência para o sistema bancário) orquestrar todos os Bancos para que estes, assim conluiados à vista de todos, de cada vez que o valor do Indexante atirásse uma taxa nominal de juro para o vermelho, lançassem mão de uma comissão extraordinária que, no cômputo final, entre juros e comissões, sempre lhes desse para receberem alguma coisinha que se visse?

 

Claro, seria. Mas o dedo na balança ficava à vista de toda a clientela - e isso embaciava prestígios.

 

Como tudo na Banca, também este problema tem frente e verso. E do lado dos Depósitos? Vai o BdP levar os Bancos a puxarem pela cabeça para oferecerem aos seus depositantes taxas de retorno positivas?

 

Este é que é o fundo da questão: as Euribors podem estar negativas, mas não para os Bancos “de cá” que têm de pagar caro (em comparação - porque têm mesmo que pagar) se quiserem financiar-se junto do BCE e dos mercados interbancários da Zona Euro (a estes têm um acesso muito, muito limitado). Por isso, não há razão económica que justifique que os Bancos “de cá” fixem taxas nominais negativas para os depósitos que captem.

 

Tivessem os Bancos “de cá” mais capital, fossem eles melhor geridos e, provavelmente, também beneficiariam, nos fundos que captassem, de taxas nominais negativas - o que lhes daria algum à vontade na actual conjuntura. Mas não.

 

Uma pergunta impõe-se: porque devem ser os devedores de retalho (os quais, por definição, possuem uma literacia financeira elementar) a pagar, através de truques vários de que sejam alvo, as falhas mais que conspícuas dos accionistas destes Bancos?

 

Accionistas que não capitalizam adequadamente os seus Bancos (daí o fraco acolhimento que os mercados interbancários lhes dispensam) e que têm sido complacentes com gestões que também não impressionam por aí além possíveis financiadores?

 

E como as perguntas são como as cerejas, uma outra: a que título vem agora o BdP fazer seus, objectivamente, os interesses desses tais accionistas? Não é missão do BdP, enquanto Regulador e Supervisor, agir para que os Bancos “de cá” sejam sólidos, bem capitalizados e bem geridos? Ou será, pelo contrário, dar-lhes mão-livre, permitir-lhes os comportamentos mais atribiliários - e, dessa maneira, passar a mensagem de que, se não for assim, esses Bancos nunca serão sólidos?

 

Enfim, não ocorreu ao bem apetrechado BdP fixar, supletivamente, esta regra simples: se, por efeito da evolução do Indexante, a taxa nominal de um empréstimo bancário for negativa, o devedor pagará sempre o spread - sendo contabilizado como amortização de capital a parcela equivalente ao produto dessa taxa nominal negativa pelo capital que se encontrar em dívida nessa data?

António Palhinha Machado A. Palhinha Machado

ABRIL de 2015

OS RICOS QUE PAGUEM A CRISE – 1

chuva-de-dinheiro.jpg

 

Ela: - Como seria o mundo se os Governos tivessem gasto apenas o dinheiro que recebem?

Eu: - Por certo, bem diferente da falência por que muitos fizeram passar os respectivos países.

Ela: - Por que é que os Governos gastam mais do que recebem?

Eu: - Porque querem comprar os votos dos eleitores com benesses sucessivas a que chamam «Estado Social» e, desse modo, se eternizarem no poder.

Ela: - A quem pedem os Governos dinheiro emprestado?

Eu: - Aos mercados.

Ela: - E quem são esses mercados?

Eu: - Somos nós, os que poupámos e não gastámos mais do que tínhamos.

Ela: - E por que é que se diz tanto mal dos mercados?

Eu: - Porque não sabem o que dizem.

Ela: - Como assim?

Eu: - Devem-se ter endividado até por cima das orelhas, estão falidos e cheios de mau feitio contra quem lhes deu crédito. E como já não há Inquisição, não os podem mandar para a fogueira. Por isso dizem mal dos mercados e de quem os faz mexer, a banca.

Ela: - É esse o problema da Grécia com a Alemanha?

Eu: - É exactamente esse o problema da Grécia com a Alemanha e com todos os outros credores nomeadamente nós, Portugal, que também lhes emprestámos umas massarocas. E é o problema também de todos os «syrizados» espalhados urbi et orbe que não querem reconhecer que só podem consumir na medida do que produzem. E se, de preferência, consumirem um pouco menos do que produzem, pouparão alguma coisinha e isso não lhes fará qualquer mal.

Ela: - E como vai isto tudo acabar?

Eu: - Pagando as dívidas como nós, Portugal, estamos a fazer ou emitindo senhas de racionamento como brevemente fará a Grécia.

Ela: - Senhas de racionamento?

Eu: - Exactamente! Mas para disfarçar, até lhe vão chamar «novo Dracma».

Ela: - E depois?

Eu: - Depois... vou ali consultar a minha bola de cristal e já volto mas duma coisa tenho a certeza: se os demagogos não voltarem por enquanto ao poder, a riqueza medir-se-á novamente pelo que cada um produzir e não pelo que cada um mamar; é que aqueles a quem os devedores chamam ricos estão fartos de pagar a crise e dizem que a carnavalada acabou. Mas eu vou ali consultar a bola de cristal. Até já!

 

Março de 2015

 

De Denang para Hué.JPG

Henrique Salles da Fonseca

PENSAMENTO MATINAL

LESO-korea_map.jpg

 This is the current map of Korea as of 1955. North and south Korea are separated on the 38th parallel

 leso-korea2001.jpg

 

Aqueles que não acreditam que as fronteiras geram diferenciação cultural deveriam meditar no caso da Coreia. Até à II GM era a sociedade étnica e culturalmente mais homogénea que existia neste mundo. Em 1945, os vencedores da Guerra traçaram uma fronteira dividindo Norte e Sul. Hoje são duas sociedades com culturas altamente diferenciadas, diria mesmo antagónicas, e os rendimentos per capita de uma e de outra estão distanciados de 1 para 20. Fico na minha, a fronteira foi criada para defesa de um poder local; a especificidade da cultura foi a resultante. A fronteira precedeu.

 

 Luís Soares de Oliveira.jpg Luís Soares de Oliveira

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