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A bem da Nação

QUANDO AS AMIGAS CONVERSAM...

 «Coitados! Coitadinhos! Coitadíssimos!», mesmo sem sermos Dâmaso…

 

A minha amiga devolveu o livro do João Magueixo – «Bifes mal passados» – e considerou que não achava justa a crítica aos Ingleses, por muito que se tivesse rido das azougadas experiências de adaptação aos costumes britânicos, desse homem do sul, de uma pátria de sol e de água com fartura. Também falámos na incoerência da sua crítica, que não deixa de salientar alguns valores civilizacionais desse povo de um rigor educacional que nós não possuímos. Inglaterra é Inglaterra, para alguma coisa serve a característica fleumática britânica, para os definir num conceito de nobreza que já vem das histórias do Rei Artur.

 

Nem de propósito, mandou-me ontem a minha filha Paula o e-mail seguinte:

 

«Assunto: A ESTRANHA JUSTIÇA INGLESA...»

Quando é que a Justiça em Portugal é capaz de fazer um trabalho destes ? Em 2003, o deputado inglês Chris Huhne foi apanhado num radar em alta velocidade. Na época, a então mulher dele, Vicky Price, assumiu a culpa.

O tempo passou e aquele deputado passou a Ministro da Energia, só que o seu casamento acabou.

Price decide vingar-se e conta a história à imprensa.

Como é na Inglaterra, Chris Huhne, Ministro, demite-se primeiro do ministério e depois do Parlamento.

ACABOU A HISTORIA?

Qual quê! Estamos em Inglaterra...

... E em Inglaterra é crime mentir à Justiça.

Assim, essa mesma Justiça funcionou e sentenciou o casal envolvido na fraude do radar em 8 meses de cadeia para cada um e uma multa de 120 mil libras. Segredo de Justiça? Nem pensar, julgamento aberto ao público e à imprensa. Quem quis, viu e ouviu.

Segurança nacional? Nem pensar, infrator é infrator.

Privilégio porque é político? Nada!

E o que disse o Primeiro Ministro David Cameron quando soube da condenação do seu ex-ministro?

'É uma conspiração dos media para denegrir a imagem do meu governo?" ou "É um atentado contra o meu bom nome e dos meus Ministros"? Errado. Esqueçam, nada disso!

O que disse o Primeiro Ministro David Cameron, não foi acerca do seu ex-ministro, foi sobre o funcionamento da Justiça.

E o que disse foi:

'É bom que todos saibam que ninguém, por mais alto e poderoso que seja, está fora do braço da Lei.'

Estes ingleses são mesmo um bando de atrasados, não são...???»

 

É claro que, num sistema destes, não deve haver cadeias VIP como nós temos por cá para os casos da prevaricação superior. Mas talvez o sistema prisional britânico na sua exigência de recuperação dos prevaricadores, os trate a todos como seres humanos, exigindo que trabalhem para se dignificarem e aprenderem a não prevaricar, proporcionando-lhes a todos condições de habitabilidade prisional.

 

Nas “Cartas da Inglaterra” Eça de Queirós descreve os Ingleses como extremamente racistas, as classes nobres pairando acima do resto dos mortais, o que é deprimente para o resto dos mortais. Mas se o são, também são suficientemente humanos para respeitarem todo o indivíduo na sua condição de ser humano, proporcionando-lhe um sistema educacional, de saúde e de condições de vida relativamente justos. Conto o caso, a propósito, do Pedro, amigo e companheiro dos meus filhos mais velhos, que se deu mal por cá e foi com o filhito para Inglaterra, onde alguns familiares lhe estenderam, inicialmente, a mão. Em Londres encontrou trabalho e casa para si e para o filho, que é excelente aluno na sua escola, com promessa de poder vir a ser subsidiado para estudos superiores. Houve, contudo, na sua confissão, quando cá veio, uma informação que me deixou interdita. O Pedro não pode ter bebidas alcoólicas em casa. Caso contrário, perde tudo o que alcançou em termos de apoio social. Achei que tão drástica norma era uma intromissão na liberdade de cada um, que eu nunca me adaptaria a um sistema de big brother investigando e impondo. Mas talvez o Pedro aceite bem essas regras que lhe dão a possibilidade de viver bem, com uma compostura imposta, mas salvadora.

 

Nós aqui desdobramo-nos em dedicação – os que são bons e disponíveis – por gente que desistiu de viver condignamente, alguns por má sorte, é certo, mas outros porque se sentem bem vivendo parasitariamente à espera das sopas que outros fabricam e ainda outros distribuem, tentando livrá-los, numa rede em que todos colaboramos, nos peditórios da nossa caridadezinha não responsabilizadora.

Berta Brás 2.jpg Berta Brás

O 25 DE ABRIL DE BAIXO CONTINUA POR FAZER

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Uma Revolução do Conjuntivo – Portugal sem Amigos

 

Era uma vez a revolução do 25 de Abril. Aquele dia em que a História, começa a dizer-nos adeus e a acenar-nos de volta.

 

Sob tanta música e tanto aroma do passado, quem tem o poder da interpretação da História? Quem tem algo para dizer? A consciência da justiça perdeu-se. A renovação precisa de nova orientação.

 

Portugal partido deixou de ser inteiro

 

Portugal, sem querer, foi reduzido ao 25 de Abril. A nuvem da ideologia e a tradição jacobina não deixam raiar nele o sol de todos: o Sol é só delas, não o deixam ser bem-comum.

 

Revoluções e 25 de Abril há muitos! Para cada qual o seu Abril! Só Portugal não tem nenhum! Portugal partido deixou de ser inteiro porque o partido se esqueceu que é apenas uma parte do todo. Num país desagregado em que a Pólis não flui porque se confunde fluência com instabilidade, a vida política consta de portugueses de extremos: de opressores ou de vítimas com os correspondentes correligionários.

 

O 25 de Abril é dos portugueses ou de algum partido?

 

Sim, até porque, por vezes, na opinião pública se chega a ter a impressão que o 25 de Abril é pertença da esquerda e não do povo português. Elites portuguesas precisaram de uma “revolução” para alcançar uma democracia e uma prosperidade que outros povos conseguiram sem ter de dever nada a ninguém.

 

O público distraído vivia no arraial da festa e o cidadão pé-descalço, não sentia dores nos pés, devido ao encanto da música. Entretanto a música passou, o ritmo desacelerou e só a marcha continua numa cadência surda, a viver de ecos longínquos de solmizações desafinadas e reduzidas a “esquerda”-“direita”. Tudo, o vento levou. O que nos mantém unidos é a palavra democracia, embora já bastante rompida.

 

Feitores e herdeiros do palco “25 de Abril” continuam a fazer acrobacias para adeptos e espectadores enquanto xamãs republicanos, por trás dos bastidores, garantem o descontentamento como continuidade nacional. Aqueles não têm perspectiva nem planos a longo prazo e estes não lhes deixam criar condições gerais.

 

A democracia recebeu um carácter regional: na monarquia rivalizavam-se as famílias nobres, na república rivalizam-se os partidos. As famílias nobres tinham a terra que os unia, os partidos une-os a ideologia. A sociedade portuguesa não tem uma filosofia conservadora coerente, nem uma filosofia de esquerda séria; na praça pública sobressai um discurso e uma praxis diletante de esquerda e de direita!

 

Portugal não tem amigos, e por isso não conhece alternativas; na gerência do Estado, a carência de programas (e de conceitos) é substituída pelo rotativismo partidário. Se antes vigorava o direito dos mais valentes depois passou a vigorar o direito dos mais fortes.

 

Inês de Castro imagem de um povo sem família que a acolha

 

Os políticos da nossa democracia são surdos à voz do povo. No escuro dos ministérios e nas lojas dos irmãos cruzam-se entumecidos os assassinos de Inês (de Castro) - a nação humilhada porque esquecida! Na voz da gente ecoam as súplicas de Inês num chorar meigo de mágoas temperadas num amor não correspondido; Inês sofre na aura do meu povo onde brilha o pôr-do-sol de uma era sem sol nascente. Inês é Portugal ao relento que continua a bater à porta do Estado, do rei Afonso que a assassina por “razões de estado” mas será reabilitada (só depois da morte) por razões do coração de um Pedro difamado... A Tragédia Castro é uma boa imagem da nação, do 25 de Abril e do povo que continua com destino trágico!

 

A democracia é povo e por isso se manteve longe do Estado; alguns queriam democratizar o sistema mas o sistema acabou por domesticá-los; ao integrarem-se no sistema, este sugou-lhes a personalidade tornando-os objectos do regime político e dos correspondentes grupos de interesse, sem ideais nem ligação ao povo: onde não há ideais não há povo. Por isso a nossa república não consegue produzir personalidades de perfil estatal (talvez se note alguma na sua sombra: Manuel de Arriaga, Ramalho Eanes, Salazar e algum que o leitor se lembre). A república tem sido boa e profícua em produzir opositores ao governo mas tem sido má em produzir governantes e personalidades íntegras.

 

O descontentamento é geral; por todo o lado surgem candidatos a presidente numa intenção de encurralarem o “estabelecimento” e a classe política corrupta. Quer-se uma unidade para lá do espectro esquerda-direita no sentido de uma unidade popular contra a corrupção, contra a elite. A revolta está bem patente mas como é de baixo não tem patentes que a façam valer. A história de Portugal tal como o regime de Abril, resume-se no dilema entre razão e coração, entre D. Afonso e D. Pedro (o Justiceiro) e que se resolve na Tragédia de Inês, na tragédia do povo, que se revela como a sustentabilidade de Portugal.

 

Há 41 anos festejava o povo, hoje festejam os funcionários dele. Neste contexto, as comemorações de Abril dão mais a ideia de serem um acto de auto-elogio ou de lavagem da própria consciência (ideologia) em louvores mesquinhos ou num bota-abaixo de um passado enevoado para louvar um futuro ensombrado.

 

O 25 de Abril de baixo continua por fazer e o 25 de Abril de cima encontra-se nas mãos de “mercenários”.

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António da Cunha Duarte Justo

LIDO COM INTERESSE – 2

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Título: A RIQUEZA E A POBREZA DAS NAÇÕES

 

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Autor: David S. Landes, Professor emeritus de História na Universidade de Harvard

 

Tradutora: Lucínia Azambuja

 

Revisor Científico: Henrique Manuel Lages Ribeiro

 

Editora: “Gradiva”, 7ª edição – Março de 2005

 

 

 

Há livros para ler; outros há para estudar. Este é dos que apetece saborear e por isso comecei a lê-lo em meados de Setembro e só o acabei ontem, dia de Natal. É claro que entretanto fiz outras coisas mas em regime de “livro de cabeceira”, não tive nestes meses mais nenhum.

 

Antes de começar a leitura, passei pela Internet para saber alguma coisa sobre um autor do qual nunca ouvira falar e li um comentário em inglês que me deixou siderado pois dizia da obra “o que Maomé não disse do chouriço”. Mas eu tinha que ler o livro que me fora oferecido por um casal amigo que muito estimo e com quem teria um dia mais tarde que conversar “à propos”. Preparei-me para o pior e . . . não concordo absolutamente nada com essa tal crítica que tentei agora encontrar de novo para confrontar mais detalhadamente com a opinião que entretanto construí mas não voltei a localizá-la. Esfumou-se, felizmente.

 

Contrariamente a essa crítica, não acho nada que a obra esteja repleta de incongruências do género de apresentar como verdadeiro nuns casos o que considera falso noutras situações. Essa acusação – claramente injusta, na minha opinião – só pode resultar duma leitura rápida ou incompleta de modo a que esse crítico considerou igual aquilo que para o autor era diferente. De facto, deparamos ao longo do livro com situações aparentemente semelhantes que produzem resultados diferentes mas essa é precisamente a grande tese do autor que consiste em a cultura ser a razão do desenvolvimento ou do atraso das Nações. Duas actuações governamentais aparentemente iguais exercidas sobre povos diferentes produzem resultados muito provavelmente diferentes.

 

Só que a tese vem formulada nas últimas linhas do Epílogo que logicamente é publicado depois do último capítulo, o 29 e isso exige uma leitura até ao fim e nunca em diagonal. Mas também quero acreditar que só lerá esta obra em diagonal quem se depare com alguma edição graficamente menos agradável ou com uma tradução menos boa que a portuguesa. O leitor português que se interesse por este tipo de assuntos não tem justificações para ler esta obra apressadamente.

 

Escrita despretensiosa, dá uma leitura fácil e já uma vez escrevi que se trata de um artigo de jornal a que o Professor Landes deu a forma de livro com 603 páginas a que juntou 52 de Notas, 81 de Bibliografia e apenas 19 de Índice Remissivo. Apesar do tamanho, é o contrário do enfadonho.

 

Para quem como eu se intitula economista, vai lendo constantemente ao longo do livro a diferença entre o que os economistas pensam e o que o autor acha. É curiosa a diferença e chegamos mesmo a dar por nós a pensar de modo mais filosófico e menos matematicamente. Para quem como eu se considera estatistófago, não deixa de ser curioso seguir os raciocínios do autor ao longo de todas aquelas páginas sem grandes provas quantitativas. E o mais curioso é que nem sequer fazem falta.

 

Mas isso não significa que eu esteja disponível para abdicar da tranquilidade de raciocínio proporcionado pela lógica matemática.

 

Mas o que nos diz o Professor Landes?

 

A história começa por contar as desigualdades da natureza em que o Sol e o calor proporcionam o riso e o folguedo enquanto o céu cinzento e a neve convidam ao retiro sorumbático, ao estudo, ao trabalho. Daqui passa para uma dissecação dos métodos de obtenção de conhecimentos na China e na Europa, atribuindo ao método científico europeu os méritos do desenvolvimento. Daqui resultou a expansão europeia e a retracção chinesa. Os descobrimentos portugueses foram a consequência lógica desse desenvolvimento científico. Na esteira portuguesa seguiram os invejosos que não sossegaram enquanto não estabeleceram os respectivos Impérios não para expansão da Fé mas sim para esbulho das riquezas naturais. Sem poupar críticas ao que fizemos de errado (e não terá sido tão pouco como eu gostaria), o autor é claramente simpático para connosco mas deve ter grandes dificuldades em obter visto para visitar Madrid ou Roterdão. A Revolução Industrial inglesa foi fundamentalmente a consequência da acumulação de conhecimentos técnicos e científicos mas rapidamente foi ultrapassada pelos americanos e alemães que por sua vez passaram a sofrer a feroz concorrência japonesa e coreana. Quanto à China, o autor não acredita que seja possível ela continuar a destabilizar o resto do mundo como está a fazer actualmente pois os problemas políticos são estruturais e podem estragar todo o progresso que se tem verificado desde a morte de Mao Tsé Tung. O livro conclui-se com uma breve mas muito lúcida análise da crise asiática de 1997.

 

Recapitulando: o que é verdade para uns pode não o ser para outros; o sucesso induz ao retrocesso assim como a subida antecede a queda; os problemas de desenvolvimento só se resolvem pela massificação do conhecimento.

 

Poucos livros li com tanto prazer.

 

Lisboa, 26 de Dezembro de 2005

 

HSF - retrato por FGA

Henrique Salles da Fonseca

O 25

 

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Foi já depois de 25 de Novembro de 1975 que o Dr. Álvaro Cunhal foi condecorado como Herói Soviético com isso significando Moscovo que o «trabalho» estava feito e que havia que agradecer a «obra».

 

Como assim, se nesse 25 de Novembro os comunistas tinham sido apeados do poder que haviam usurpado em Portugal?

 

A resposta só pode ser uma: a URSS interessava-se mais pelo ex-Império Português do que por este pequeno canto europeu. E, de facto, todas as nossas antigas colónias africanas estavam então na mão dos soviéticos.

 

E tudo começara uns anos antes quando Moscovo constatou que não conseguia vencer os conflitos militares que durante tantos anos instigara. Então, se não conseguia vencer no terreno das guerras, havia que ir à retaguarda derrubando o regime político vigente em Portugal. E, de facto, foi no Largo do Carmo que em 25 de Abril de 1974 Portugal perdeu o Império.

 

Quando assentei praça em Mafra para o Curso de Oficiais Milicianos de Abril de 1970, uma parte significativa do meu pelotão era composta por homens que regressavam a Portugal depois de terem estado algures na Europa mas deixando uma nebulosa quanto aos locais exactos de que provinham. Seria do lado de cá ou do lado de lá? Nunca, aos inocentes, nos passou pela cabeça fazer a pergunta. Mas lembro-me de que cantarolavam amiúde melodias e letras do Zeca Afonso e de que, por vezes, se «esqueciam» aqui e ali de um ou outro livro que nós, os outros, não conhecíamos. Não eram graficamente apelativos e nunca lhes peguei e é por isso que continuo hoje, passados mais de 40 anos, sem saber se se tratava de literatura revolucionária ou se eram contos de fadas para amenizar as insónias. Mas como soldado recruta só pensa em dormir, não dou grande cabimento à hipótese do soporífero literário.

 

Vendo o filme ao contrário, não me restam hoje dúvidas de que o Partido Comunista Português deve ter então dado ordem aos seus militantes na diáspora com a idade apropriada para regressarem a Portugal, ingressarem no Serviço Militar Obrigatório e de seguida destabilizarem por dentro o nosso Exército.

 

E nós, os não politizados, sem percebermos nada do que se passava à nossa volta.

 

Foi então que comecei a ouvir falar de uma certa contestação à ideia de quererem que nós, os milicianos licenciados, fizéssemos o Curso de Comandantes de Companhia para de seguida nos mandarem desempenhar as funções de Capitães de Infantaria. Que isso era um absurdo, que para isso estavam lá os subalternos do Quadro que deveriam ser promovidos em vez de serem ultrapassados por milicianos mal amanhados, etc.

 

Nós, os economistas, safámo-nos dessa pois foi-nos dado escolher se queríamos ser Alferes de Administração Militar ou Capitães de Infantaria. E todos optámos pela caneta em vez da G3.

 

Já estava em Moçambique quando ouvi pela primeira vez falar do Movimento dos Capitães mas não liguei muita importância pois me parecia que se tratava de problema corporativo com solução administrativa. Já estava na disponibilidade – e novamente em Moçambique como civil – quando ouvi falar do Movimento das Forças Armadas e conclui que, afinal, a solução administrativa para o problema corporativo não tinha resultado (ou talvez nem sequer tivesse sido aplicada) e que a «bola de neve» estava a crescer.

 

Sempre me pareceu que o «problema» do Império tinha que ter uma solução política e que o empenhamento militar era uma forma de «aguentar» a situação enquanto a solução política era discutida, aprovada e implementada. Mas o radicalismo ultra do Estado Novo em nada ajudou Marcello Caetano e tudo deu para o torto. E teria que dar para o torto porque uma solução politicamente negociada não interessava a Moscovo. Havia que precipitar os acontecimentos e isso só se conseguiria a partir de dentro das Forças Armadas Portuguesas. Aí estava o MFA.

 

Muitos militares que alinharam nesse movimento foram inconscientemente manipulados e outros, admito que poucos, agiram conscientemente em consonância com as determinações do inimigo. Isto significou uma maioria de inconscientes e uma minoria de traidores.

 

Então, hoje comemoramos o quê? Eu espero por Novembro.

 

Lisboa, 25 de Abril de 2015

Henrique frente à Presidência da República do V

Henrique Salles da Fonseca

COLONIALISMO

 

 

 

A América, não tendo colónias e, por conseguinte, prejuízos coloniais e aplicando candidamente os seus critérios democráticos a tudo o que não olha para ela, analisa o sistema colonial sem simpatia. Está, sem dúvida, à beira de sacudir seriamente a Europa entorpecida pela rotina. Ora, tomando partido pelas populações submetidas por nós, fornece-nos, sem o perceber, o melhor apoio para resistir, no futuro próximo, à sua própria influência. A América não o percebe; mas o que seria desastroso era que nós também não o percebêssemos.

 

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In A propósito da questão colonial nas suas relações com o destino do povo francês” (1943), in Écrits historiques et politiques, pág. 375, Paris, Gallimard, 1960

 

* * *

 

O colonialismo tradicional deu lugar, a pouco e pouco, a alianças entre países soberanos, que se desdobram em protectorados implícitos onde o poder protector partilha grande parte da riqueza com os autóctones que protege. Na Arábia Saudita ou nos Emiratos Árabes Unidos, o visitante fica impressionado com o conforto material que envolveu as cidades, cujo perfil é testemunho de uma americanização mais global, muito para lá dos produtos luxuosos que estorvam o quotidiano do povo. Contudo, a legislação daqueles países mantém a aparência estrita da lei religiosa arcaica, mesmo se, no que respeita ao direito dos negócios, garantia da participação local no mercado mundial, o contratante autóctone se enrosque, mais do que admite, no molde do direito internacional. Este tipo de acomodações faz-se às escondidas; e permite-se que se aja desde que se salvem as aparências.

 

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Abdelwahab Meddeb

In A DOENÇA DO ISLÃO”, ed. Relógio d’Água, Lisboa, 2005, pág. 78

 

 

 

 

 

 

UMA SESSÃO SOBRE A PAC


 

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 Durante a sua visita a Portugal, o Comissário para a Agricultura da União Europeia, Phil Hogan, realizou algumas visitas e participou em várias reuniões. Uma dessas reuniões realizou-se no auditório da ex-Estação Agronómica Nacional, em Oeiras, em 9-4-2015. O tema foi discutir a PAC (Política Agrícola Comum) 2014-2020. Presidiu a ministra da Agricultura e do Mar Assunção Cristas e teve a participação de numerosos técnicos e agricultores, alguns deles dirigentes de organizações da agricultura, como o Presidente da CAP, João Machado.

 

Abriu a sessão a ministra Assunção Cristas, que fez um relato do que foi a viragem da situação da agricultura portuguesa.

 

Permita-se-me um parêntesis para lembrar como, ao longo de vários anos e em diversos escritos, denunciei a deliberada destruição da agricultura que vinha sendo feita por governos PS e PSD. O máximo de intensidade de destruição foi atingido no governo PS de Sócrates. E por toda a parte e de muita gente, mesmo de quem nada sabia do assunto, se lia nos jornais e se ouviam clamores de que a agricultura não tinha qualquer futuro em Portugal e até que já nem havia agricultura! Sempre combati esses clamores, que sabia profundamente errados, pois conheço as potencialidades da agricultura portuguesa, apesar de variadas dificuldades. Com a actual ministra, a situação passou a ser totalmente diferente e cedo se viu esse facto. Poucos meses depois da posse, num Prós e Contras, na TV, mostrou uma enorme determinação de fazer muito melhor, além de uma dose de informação, para mim agradavelmente surpreendente, numa pessoa jovem e vinda de um sector muito diferente. E, desde então, todos cantam loas à agricultura, como a grande esperança no futuro.

 

Reatando o fio da meada, agradou-me o discurso da ministra. Descrevendo o aumento das exportações agrícolas, vários pontos acima da média nacional (devido à grande debilidade dos outros sectores da economia e a vitalidade deste), mostrou como foi reduzido o défice comercial agrícola, apenas nestes quatro anos. (Lembro o meu artigo intitulado “De 3 mil milhões de défice para 3 mil milhões de superavit”, no Linhas de Elvas de 5-1-2012). Também não se coibiu de dizer que discordava de alguns pontos da actual PAC.

 

Seguiu-se o discurso do Comissário Phil Hogan, que foi agradável e, pelo menos, a mostrar-se sincero. O debate que se seguiu foi moderado pelo secretário de estado da Agricultura José Diogo Albuquerque. Variadas pessoas da assistência, incluindo dirigentes de associações agrícolas e de sectores como a cortiça, a produção de porcos e outros, puseram questões, a que o Comissário respondeu.

 

Pareceu-me uma reunião útil e fiquei com a impressão de que este Comissário da Agricultura é algo melhor que os anteriores, que considerei francamente maus, em resultado da forma como actuaram. E lembro que a PAC foi iniciada, com grande êxito, pelo primeiro Comissário, para colmatar a deficiência de 50% de produtos alimentares, do conjunto dos seis países fundadores. Esse Comissário foi Sicco Mansholt, um agrónomo holandês de alto nível, que depois foi Presidente da Comissão. Os calamitosos erros da PAC vieram mais tarde, antes mesmo de Portugal aderir à então CEE.

 

Publicado no "Linhas de Elvas" de 23 de Abril de 2015

Prof. Miguel Mota Miguel Mota

CENTENÁRIO DO HOLOCAUSTO DOS ARMÉNIOS

 

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A perseguição turca conseguiu reduzir os 25% de cristãos da sua população para apenas 0,2%

 

A perseguição turca aos cristãos foi mais eficaz que a perseguição nazi aos judeus. Na área da Turquia, em 1915, 25% da população era cristã mas com o genocídio e a contínua perseguição e discriminação dos cristãos restantes, a Turquia conseguiu reduzi-los para 0,2% da população; hoje 99% da população turca é muçulmana. A Turquia, herdeira do Império Otomano compreende-se como Estado de etnia homogénea muçulmana.

 

A 24 de Abril de 1915 começou o genocídio arménio praticado pela Turquia na área do Império Otomano onde os arménios viviam como minoria desde o séc. 8 a.C. A Turquia deu então início ao extermínio da presença cultural arménia em Constantinopla, com incursões e aprisionamento massivo das elites arménias publicando depois a lei de deportação a 27.05.1915. (Ainda hoje são deportados arménios de Aleppo na Síria).

 

Seguia uma estratégia que consistia em organizar jovens arménios e soldados desarmados em “batalhões de trabalho” que eram depois assassinados em massa; os velhos, as mulheres e as crianças eram obrigados a sair em marchas da morte em direcção ao deserto sírio. Os arménios também eram transportados em vagões de animais no comboio-Bagdá, que a partir de 1915 deportava muitos arménios para o deserto onde eram assassinados em massa. (Já de 1894 até 1896 tinha havido perseguições com o assassínio de 80 a 300.000 arménios).

 

Conivência entre Alemanha e Turquia

 

O abate de uma sociedade civilizada em que foram mortos 1,5 milhões de arménios deu-se com a conivência da Alemanha. Aqui, como lá, numa tentativa de oportunismo ou de branqueamento das barbaridades cometidas no primeiro genocídio do séc. XX, os dois Governos não querem empregar o termo genocídio que designa o plano e execução do extermínio dos arménios.

 

Francisco I, tal como historiadores independentes, designou de “genocídio„ o extermínio dos arménios, argumentando: "Onde não há memória, o mal mantém as feridas abertas". O Papa foi muito criticado na Turquia por ter empregado a palavra “genocídio”.

 

O Governo alemão, ao contrário do Parlamento Europeu e da França, evita empregar a palavra genocídio para designar o holocausto dos arménios por considerações semelhantes às que levaram a Alemanha a calar outrora o genocídio dos arménios. Esta torna-se numa situação insuportável, numa Alemanha que tão bem processou o seu passado (2° genocídio).

 

“Os alemães, aliados dos turcos na Primeira Guerra Mundial... viram como as populações civis foram fechadas em igrejas e queimadas, ou reunidas em massa em campos, torturadas até à morte, e reduzidas a cinzas”

http://pt.wikipedia.org/wiki/Genoc%C3%ADdio_arm%C3%AAnio.

Em junho de 1915, escrevia o cônsul-geral alemão em Constantinopla, Johann Heinrich Mordtmann ao Governo em Berlim: “Trata-se de aniquilar os arménios, como me dizia Talat Bey há algumas semanas”.

 

A política de extermínio com o uso de agentes químicos e biológicos, de gás tóxico e inoculação de tifo, os campos de extermínio, o processo sistemático e o planeamento da destruição de um povo inteiro, "organizado pelo Governo" serviram de exemplo para Hitler no genocídio dos judeus. Adolf Hitler encorajava os comandos superiores da Wehrmacht a 22/08/1939 dizendo: ”Quem fala hoje do extermínio dos arménios?”

 

Rößlert, então cônsul alemão em Aleppo, salvou muitos arménios e documentou as acções praticadas. Um representante da autoridade turca concluía a 31.08.1915: “A questão arménia já não existe”.

 

O respeito pelas vítimas é desvirtuado ao substituir a discussão do acontecido pelo discurso sobre a questão da propriedade de termo genocídio ou massacre. Pretende-se a paliação do crime.

 

Os arménios querem com razão que se reconheça como genocídio a perseguição de extermínio levada a cabo.

 

O historiador Hesemann considera o genocídio contra os arménios como a perseguição aos cristãos mais sangrenta da História.

 

Há histórias da História por contar, os informados sabem que cada época, cada ideologia, conta a História que mais lhe agradar. Também hoje se branqueiam revoluções e se ignora a realidade do que acontece em África direccionando-se a atenção dos povos para o marginal.

 

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António da Cunha Duarte Justo

AS CRUZADAS E O ESTADO ISLÂMICO

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Bem clamam por ajuda os cristãos do mundo árabe sobre o genocídio a que estão sendo submetidos, e o ocidente responde com ataques de drones e aviões. Matam uns quantos, mas quando matam um já se juntaram aos terroristas mais cem ou mil. Ainda agora mais trinta cristãos coptas foram degolados! Parece que a solução para a pacificação não vai acabar a não ser quando o EI ocupar Córdova, Marselha e... o resto.

 

Li, ou vi, há dias uma reportagem sobre um homem extraordinário, muçulmano, paquistanês: Abdul Sattar Edhi, que, junto a sua extraordinária mulher, Bilkis Edhi, criaram a Fundação Edhi. A obra que este homem tem feito é um espanto. Acolhe todos que a ele recorrem sem julgar que seja muçulmano, hindu, budista ou cristão. Já foi distinguido com altos prémios das Filipinas, Paquistão, Suíça, Rússia, etc. Organizam as festas de casamento entre os acolhidos no rito da religião a que pertencem, sabendo que cada um cumpre os seus rituais e orações de acordo com a sua vontade e não pela imposição.

 

Pena que são raros estes homens, e mulheres. Porquê?

 

Em 18 de Outubro de 1009, o califa fatímida al-Hakim bi-Amr Allah ordenou a destruição da Igreja do Santo Sepulcro em Jerusalém e de todos os edifícios associados, aparentemente enfurecido pelo que ele considerava como uma fraude dos monges na cerimónia "milagrosa" da descida do Fogo Sagrado, celebrada anualmente na igreja durante a vigília da Páscoa. O cronista Yahia nota que "apenas foi poupado o que era muito difícil de emolir". Procissões foram proibidas e, anos depois, todos os conventos e igrejas na Palestina foram destruídas ou confiscadas. Isto provocou grande indignação por todo o mundo.

 

Mas a história parece não ser “bem assim”! Al-Hakim nasceu no Egito, seria filho dum muçulmano xiita ismaelita e de uma cristã! O pai morreu teria ele uns nove anos, mas logo foi declarado “chefe” daquele grupo. Para acabar com as críticas que lhe faziam por ser filho duma cristã decidiu atacar os cristãos por todo o lado onde os encontrasse. Como se vê era um um cara sério. Se fosse hoje estaria à frente do ISIS!

 

Al-Hakim ficou conhecido pela sua intolerância religiosa contra judeus e cristãos e pelo seu comportamento excêntrico. Tentou destruir a Igreja Copta do Egipto e, em 1009, mandou destruir a Basílica do Santo Sepulcro. Em 1016 al-Hakim declarou-se Deus; graças à influência do seu vizir Hamzah ibn Ali ibn Ahmad, desenvolveu um culto em torno da pessoa do califa que está na origem da religião drusa. Foi Hamza que proclamou publicamente pela primeira vez que Hakīm era Deus. Hakīm enfrentou a oposição dos muçulmanos ortodoxos por aquilo que eles consideraram como apostasia e foi desdenhado pela sua violência extrema ao perseguir minorias religiosas.

 

O Papa Urbano II, no Concílio de Clermont-Ferrand, em 1095, quase noventa anos depois da destruição do Santo Sepulcro e da perseguição em Jerusalém aos cristãos, convocou a uma guerra “santa” contra os "infiéis" muçulmanos, o que não teve grande repercussão. Foi Pierre l'Ermite ou Pierre d’Amiens que assumiu a pregação das Cruzadas conseguindo juntar o primeiro contingente que acabou por reconquistar Jerusalém em 1099. Pierre d’Amiens desaparece nessa primeira batalha. Ninguém, em sã consciência se pode vangloriar sobretudo desta Primeira Cruzada, pelo horror que foi a sua caminhada através da Europa, dizimando judeus na sua passagem com a argumentação de que Jesus tinha sido entregue por estes. Foi obra de bárbaros, ladrões, totalmente indisciplinados, uma vergonha histórica.

 

Há quatro anos escrevi um texto sobre a conquista de Lisboa, e tinha estas passagens:

 

Não sei se alguém se lembra, mas foi no verão de 1147, que se juntaram (a 28 de Junho) à volta de Lisboa, uns milhares de loucos, chegados em 190 navios – colonienses, bolonheses, flamengos, normandos, francos, bretões, ingleses – e ofereceram seus préstimos ao rei Dom Afonso Henriques, para ajudarem na conquista da cidade de Lisboa.

Entretanto aquela turba de “cruzados”, seguia para a Terra Santa, não por razões de fé, mas desvairados com a possibilidade de saques que os poderiam enriquecer ou tirar da miséria. Eram, na opinião do cronista deste feito, uns bárbaros selvagens, com excepção dos ingleses, uma vez que o cronista, um senhor ”R”, em carta ao senhor “O”, a eles pertencia!

Era difícil o entendimento entre eles, desconfiava cada grupo do outro que lhe poderia “passar a perna”, chegando a afirmar que o rei de Portugal os queria enganar a todos.

Por fim, Afonso Henriques prometeu que o saque ficaria todo com os cruzados e só a cidade com ele. Uma excepção se abria: o alcaide mouro poderia sair da cidade com toda a sua família e seus pertences, ao que se opôs o flamengo conde de Aerschot, porque cobiçava para si uma égua árabe que aquele tinha, e se propunha tirar-lhe de qualquer jeito!

Durou quatro meses esta luta de assaltantes e defensores, estes for fim, esgotados, mas ainda com razoável estoque de grãos e água, decidem parlamentar.

Dias depois a cidade acaba por se entregar.

O assalto foi bestial. Enquanto alguns, como ingleses e bretões procuravam cumprir com o combinado, saquear sim, mas sem maltratar os habitantes, outros grupos saqueavam, roubavam, incendiavam, matavam e estupravam as mulheres. Tão bestiais que até degolaram o bispo cristão moçárabe! Nada escapava à sua sanha.

Os lisbonenses fugiram, vaguearam, miseráveis, pelos campos, morrendo aos milhares.

 

Não durou um século o “reino” cristão de Jerusalém. Os nobres que ali viviam, não se entendiam o que tinha efeitos perversos na disciplina geral, crivados de invejas, intrigas e até traições, acabaram em 1187 derrotados pelo famoso Saladino – alā ad-Dīn Yūsuf ibn Ayyūb – curdo muçulmano, que se tornou Sultão do Egipto e Síria, estendendo o seu domínio ao Iraque, Iêmen e Hijaz.

 

Parece que hoje, face à bestialidade do EI, estão a fazer falta homens como Pierre d’Amiens, Godofredo de Bulhões e até Ricardo Coração de Leão. Parece que há mais al-Hakims do que Templários! E se o EI apanhasse Saladino, grande comandante mas não besta, talvez também o degolasse!

Vale a pena ver como reagiam os cristãos da Índia, no século XIII.

 

Do livro de MARCO PAULO, conforme a impressão de Valentim Fernandes de 1502.

 

Ho liuro terceiro

Da prouincía de Abastia.

Capitulo .xliij.

Decraradas sumariamente as principaes ylhas e regiões da Índia mayor que se estendem da prouincia de Maabar ... desceramos pellas terras mais principaes da Índia mediaã. a que per especial nome chamam Abastia. Onde Abastia he hüa grande prouincía que se parte em sete regnos. em que ha sete reys dos quaes huü que he senhor de todos he christaão. E os outros som partidos em duas partes. Os três delles som christaãos. e os outros três som mouros. Os christaãos desta terra tem huü synal douro em a fronte em maneira de cruz que lhe pooem quando se baptizam. E os mouros destas terras tem huü sygnal em a testa longuo atee ho nariz. ... Ho mayor Rey e os outros reys christaãos viuem dentro na prouincía. mas os mouros moram em os regnos dos extre­mos da prouincía contra a prouincia de Adem. Em esta prouincía de Adem preegou ho bemauenturado apostolo sam Thome. que muitos poucos conuerteo a Chrísto. E despoys se passou ao regno de Maabar onde despoys que muytos conuerteo foy de martyrio coroado. E alli he sepultado ho seu sancto corpo segundo em cima he já dito. Em esta prouincia os christaãos som muy boos cauaileyros valentes e ardidos em armas, que acerca ham continuadamente guerras com ho soldam de Adem. e com os Nubianos. e com outros muytos que som em as terras de todollos cabos em rredor e comarcas.

 

De huú bispo christaão que ho soldam de Adem fez

cir­cuncidar forçosamente por injuria da ífe christaã

e em desprezo do rey de Abastia que ho la mandou,

e da grande vinguança que foy feyta per aquella injuria.

 

Ca­pitulo .xliiij.

 

Em ho anno donosso Senhor de mill e cc lxxxviij. ho principal rey desta proumcia de Abastia quis hyr visitar ho sepulcro do nosso Senhor em Jerusalém. E decrarando ho preposito de sua deuaçam a seus barões foy per elles aconselhado que nom fosse la per pessoa, porque temiam que lhe viesse algua cousa em contrairo no caminho por quanto auia de passar por terra de mouros. E que por tanto lhe aconselhauam que enuiasse huu sancto bispo daquella terra ao sancto sepulcro, e que per elle mandasse os doões e offereçimentos de sua deuaçam. E elle consentindo a seus conselhos mandou la com solenne offerta ho dito bispo. Ho qual tornandose e pas­sando polla terra del rey de Adem cujos moradores som mouros, e ham os chrístaãos em grande odio. Ho dito rey de Adem prendeo ao dito bispo ouuindo que era christaão e embaxador dei rey de Abastia. E quando ho bispo foy apresentado ante el rey. ho rey ho ameaçou duramente, dizendolhe que se nom neguasse ho nome de Christo e recebesse a ley de Mafomede. que morreria por ello. Mas ho bispo com forte coraçom em a ffee perseuerando. per crara voz e de voontade se offereçia a morte, ante que ser partido da ffee e caridade de Christo. E emtom ho soldam de Adem veendoo assy firme no preposito. per força ho mandou circuncidar em desprezo da ffee christaã e do seu rey de Abastia. E ho bispo leyxado e assy já circuncidado che­gou ao seu rey de Abastia que era christaão. E quando el rey oüuio as cou­sas que acerca delle eram feytas per aquella muy grande indignaçom. foy yrado. e ajuntado grande exerçitu de gente e alifantes com castellos moueose com sua hoste contra as terras do rey de Adem. Mas ho soldam de Adem auendo em sua companhia dous reys outrosy com grande exerçitu lhe veeo emcontro. e cometerem batalha huu contra ho outro. E seendo muytos mor­tos do rey de Adem. ho rey de Abastia ficou vencedor. E loguo seguyo ao dito rey de Adem e foy tras elle atee dentro em sua terra. Mas os mouros querendolhes contradizer que nom entrassem, em tres lugares forom sem­pre vencidos do exerçitu do rey de Abastia que os seguya. E despoys das victorías todas andou per huu mes destruyndo continuadamente as ditas terras, com grande honrra se tornou a seu próprio regno.

 

Sobre Lisboa, mais uns dados interessantes:

 

A cidade de Lisboa, provavelmente de origem nativa - ibérica - após a conquista romana foi sede de um bispado cristão (antes de 357), sendo uma das praças de apoio militar visigodo, a partir de meados do século V (MATTOSO). Os muçulmanos a conquistaram em 714, e a cidade tornou-se capital de distrito (kura). Os cristãos a retomaram em 953 e 1093, sempre perdendo-a pouco depois. Quando da conquista definitiva de Afonso Henriques, a cidade contava com aproximadamente 5.000 habitantes, 20 hectares (MARQUES).

 

11/04/2015

 

Francisco G. Amorim-IRA.bmp Francisco Gomes de Amorim                       

MUITA PARRA E POUCA UVA

 

Parra sem uva.jpg

 

O mal é que não conseguimos fechar os olhos nem tapar os ouvidos. Não, não vale a pena insistir nisto da nossa imaturidade, da nossa astúcia, da nossa prosápia ruidosa, da nossa pretensa qualidade de ironizar, que julgamos inteligente e a maior parte das vezes não passa de falta de princípios e de educação, a verdadeira ironia exigindo uma subtileza que nos falta. Vasco Pulido Valente descreve-os melhor do que ninguém, tanto no retrato sobre um António Costa que se deu ares de moderado, nas suas conversas com os dois companheiros da Quadratura, mas que, nas suas danças e discursos de rua, não passa do mesmo arruaceiro sem contenção vocabular nem ideias para melhorar o status comprometido. O mesmo que fazem os do striptease, desejosos de exibição ou de ganhar umas coroas, sem consciência nem vergonha do seu papel de bonifrates. Vasco Pulido Valente descreve-os, melhor do que ninguém. Com uma tristeza crescente:

 

O Salvador

Público, 3/4/15

 

O menos que se pode dizer da operação que levou António Costa a secretário-geral do PS e a candidato a primeiro-ministro é que não foi “elegante”.

 

Nessa altura, muita gente desculpou ou justificou a grosseria e a brutalidade da coisa, porque esperava de António Costa uma nova oposição ao governo lúcida e compreensível e, sobretudo, com princípio, meio e fim. A discrição e as meias-frases na Quadratura do Círculo davam a impressão de esconder um pensamento sólido e um plano político original, que nos tirasse do lugar-comum e da pura irrelevância do debate instituído. Infelizmente, não aconteceu nada disso. Nem nos rituais do Congresso Socialista, nem a seguir em meia dúzia de entrevistas de uma “prudência” claramente exagerada e de uma ambiguidade extrema, António Costa saiu da mastigação das velhas lamúrias da esquerda e da extrema-esquerda.

 

Esperança não trouxe nenhuma; e extinguiu depressa o entusiasmo das “primárias” do PS, em que não se sabe ao certo quem votou. Apareceu então um putativo salvador que se calava ou, quando se mexia, era como se andasse a pisar ovos. O que, de resto, não o salvou de erros sem desculpa. Prometeu baixar o IVA da restauração para 13% (como se os 23% não tivessem também o objectivo de melhorar a qualidade dos serviços prestados); prometeu a “reposição total” dos salários (do Estado, claro) e das pensões, sem explicar onde iria buscar o dinheiro para essa extravagância; prometeu que os municípios passariam a reter uma indeterminada percentagem do IVA, gerado localmente; e prometeu um “programa nacional” de “requalificação urbana”, aparentemente financiado pela “Europa”. Ora isto por um lado é muito, e por outro lado muito pouco. Meia dúzia de medidas não faz um plano estratégico; e um plano estratégico precisa de uma inspiração unificadora, capaz de ser adoptada e compreendida pelo cidadão comum.

 

Mas, para nossa desgraça, António Costa, talvez por falta de inspiração própria, não mostrou até agora capacidade para inspirar ninguém. No governo foi um razoável ministro; na câmara um administrador sofrível; e no partido um ambicioso hábil. O que não chega para um país sem futuro certo ou destino visível. Tropeçando de papel em papel e de comissão em comissão, António Costa vai fatalmente desaparecer, já desapareceu, no cansaço e no desespero dos portugueses.

 

Striptease

Público 4/4/15

 

Apareceram ultimamente muitos pequenos partidos da extrema-esquerda. Depois de uma grande agitação e uma dança de cadeiras muito complicada, só os peritos nesta espécie esotérica de fenómenos conseguem perceber o que separa esses partidos entre si, ou que separa um partido de um grupo, ou um grupo de uma qualquer “personalidade de televisão”.

 

Entre Marinho e Pinto, o “Livre – Tempo de Avançar”, o “Agir”, o “Juntos pelo Povo”, o “Nós” e o “Mas” (?) e outros de que provavelmente ninguém ouviu falar, a escolha é impossível, sem uma investigação miúda, histórica, pessoal e pormenorizada. Ainda por cima, antigamente esta extraordinária fissiparidade assentava nas querelas teológicas do marxismo, que, embora com repugnância, sempre se iam percebendo. Agora só há diferenças de programa, de estratégia ou de alianças num futuro imaginário ou improvável.

 

Fora isto, que não é pouco, aparecem quase dia a dia ajuntamentos com um papel na mão, que pretendem promover causas sem sentido, a roçar a pura idiotia, e se manifestam por aí com o vocabulário e a ênfase de uma religião apocalíptica. Ora, para além da facilidade de comunicar pela Internet, seria bom saber o que trouxe à cena política as várias guerrilhas do nosso patético radicalismo. Claro que a desagradável tendência para a exibição (e a exposição) explica uma parte substancial deste amor romântico pelo espectáculo. A peonagem obscura da sociedade portuguesa descobriu de repente que a política era um bom caminho para a “fama”; e a crise, naturalmente, produziu a sua própria colheita de “famosos”.

 

Mas de que estarão convencidos na intimidade da sua cabeça, se de facto a têm, os “protagonistas” das melancólicas seitas, que hoje ocupam a televisão e os jornais? Presumo que uns tantos ambicionam genuinamente governar, um impulso normal em pregadores de profissão. E não me admirava que meia dúzia de outros se convencesse mesmo de que a Pátria precisava das suas luzes. Mas, no fundo, suspeito que a comédia se basta a si própria. Aquelas pessoas que se arrebanham e separam, se elogiam ou injuriam, que se indignam ou extasiam, que prometem à Pátria a salvação ou o abismo, não aspiram a mais do que a passar o tempo, entre os membros da sua tribo que não sentem, como eles, o ridículo e a futilidade do exercício. E verdade seja dita são inteiramente inócuos.

 

Apareceram ultimamente muitos pequenos partidos da extrema-esquerda. Depois de uma grande agitação e uma dança de cadeiras muito complicada, só os peritos nesta espécie esotérica de fenómenos conseguem perceber o que separa esses partidos entre si, ou que separa um partido de um grupo, ou um grupo de uma qualquer “personalidade de televisão”.

 

Entre Marinho e Pinto, o “Livre – Tempo de Avançar”, o “Agir”, o “Juntos pelo Povo”, o “Nós” e o “Mas” (?) e outros de que provavelmente ninguém ouviu falar, a escolha é impossível, sem uma investigação miúda, histórica, pessoal e pormenorizada. Ainda por cima, antigamente esta extraordinária fissiparidade assentava nas querelas teológicas do marxismo, que, embora com repugnância, sempre se iam percebendo. Agora só há diferenças de programa, de estratégia ou de alianças num futuro imaginário ou improvável.

 

Fora isto, que não é pouco, aparecem quase dia a dia ajuntamentos com um papel na mão, que pretendem promover causas sem sentido, a roçar a pura idiotia, e se manifestam por aí com o vocabulário e a ênfase de uma religião apocalíptica. Ora, para além da facilidade de comunicar pela Internet, seria bom saber o que trouxe à cena política as várias guerrilhas do nosso patético radicalismo. Claro que a desagradável tendência para a exibição (e a exposição) explica uma parte substancial deste amor romântico pelo espectáculo. A peonagem obscura da sociedade portuguesa descobriu de repente que a política era um bom caminho para a “fama”; e a crise, naturalmente, produziu a sua própria colheita de “famosos”.

 

Mas de que estarão convencidos na intimidade da sua cabeça, se de facto a têm, os “protagonistas” das melancólicas seitas, que hoje ocupam a televisão e os jornais? Presumo que uns tantos ambicionam genuinamente governar, um impulso normal em pregadores de profissão. E não me admirava que meia dúzia de outros se convencesse mesmo de que a Pátria precisava das suas luzes. Mas, no fundo, suspeito que a comédia se basta a si própria. Aquelas pessoas que se arrebanham e separam, se elogiam ou injuriam, que se indignam ou extasiam, que prometem à Pátria a salvação ou o abismo, não aspiram a mais do que a passar o tempo, entre os membros da sua tribo que não sentem, como eles, o ridículo e a futilidade do exercício. E verdade seja dita são inteiramente inócuos.

 

Berta Brás.jpg Berta Brás

 

 

 

CARTA ABERTA AOS ÓRGÃOS DE COMUNICAÇÃO SOCIAL E AOS ELEITORES

carta-aberta.jpg

 

Comunicação social e fatal dependência da democracia

 

Antes de 25 de Abril de 74 a comunicação social estava controlada e não havia qualquer controlo real da ligação entre o Poder vigente e a população além do que é normal numa ditadura, mesmo que não fosse tão rígida como a de Hitler ou a de Estaline.

 

Mas após esta revolução verificou-se haver nas eleições que passaram a ser livres enorme abstenção, sinal do desinteresse da população pela vida do País e pela sua própria vida pessoal e ainda ter havido ao longo do tempo abaixamento do nível da actividade dos participantes nos lugares constituintes dos Órgãos de Soberania donde resultaram gravíssimas consequências quer para a vida da população (como foi a vinda da Troika) quer para o País (como foi a destruição sistemática da nossa independência e da nossa identidade) reduzindo-se a gestão nacional como se se tratasse de uma simples tesouraria.

 

E isto refere-se principalmente ao período de 1985 a 2015 ou seja os últimos trinta anos, pois se me não falha a memória nas primeiras eleições após Abril de 74 a abstenção foi de 8% da população…

 

No entanto a lua-de-mel foi de curta duração e a abstenção cresceu rapidamente para valores próximos de metade dos eleitores até que perto de 85 começámos a ter maior estabilidade governamental e aproximação crescente com a Europa o que permitiria o desenvolvimento económico e social naturalmente dinamizando as empresas e a população para aumentarmos a nossa produção e a nossa riqueza.

 

E não faltaram fundos para os investimentos, produtivos é claro, que era preciso realizar, pois neste período entraram no País mais de 300 000 milhões de euros de subsídios europeus e empréstimos ao Estado, às empresas e aos cidadãos mas a produção nacional ficou praticamente na mesma o que significa que a maior parte desta verba não foi aplicada em investimentos produtivos mas em aquisições e despesas e provavelmente desvios que em nada contribuíram para produzir riqueza para o Estado e para a população.

 

E tudo isto sucedeu com Órgãos de Soberania eleitos livremente, é certo só por uma parte da população, e com uma Comunicação Social livre e sem Censura prévia.

 

No entanto passados todos estes anos a situação continua a piorar conforme está descrita em comunicações e artigos de vários autores incluindo eu próprio e portanto não vos vou roubar mais tempo com o passado e passo assim para o assunto actual.

 

É notório o desinteresse da população pelos problemas e respectivas soluções mais importantes para um melhor futuro do País, pois não tenho qualquer dúvida que uma parte substancial do futuro seja de quem for depende sempre dos protagonistas e portanto é essencial contribuir para essa participação que se pretende seja persistente, bem informada e mais proactiva que reactiva, como tem sido costume . O que só se torna possível com a acção eficaz da Comunicação Social e a participação ativa dos eleitores.

 

Mas tenho verificado que esta, a CS, não tem dado a atenção que julgo devida tanto a alguns temas essenciais como à pouca participação popular que já há muitos anos levou Aquilino Ribeiro a dizer que os Portugueses eram uns estassemarimbadistas.

 

Assim venho sugerir a Vexas (Dirigentes dos OCS) a criação de espaços diários reservados pelo menos a três temas em que seriam apresentadas análises, soluções, críticas elaboradas em parte por colaboradores seus e parte por convidados e participantes interessados.

 

1ºTema: Reforma estrutural do Estado.

2ºTema: Melhoria do enquadramento produtivo das empresas desde o capital até ao operacional pois a elas compete a criação de postos de trabalho e de riqueza.

3ºTema:Projetos concretos a desenvolver e a acompanhar, com o escrutínio dos Governantes e Autarcas envolvidos para esclarecimento das razões para os atrasos, as omissões e os desvios verificados.

 

Isto criaria mais interesse na aquisição de participantes e mais desenvolvimento na população hoje mais ainda do que em tempos atrás, desiludidos com os políticos e com as personalidades colocadas nos lugares mais importantes da sociedade e daria à nossa democracia o vigor que tanta falta lhe faz.

 

E estando nós em plena campanha eleitoral a oportunidade parece ser excelente.

 

Assim seja.

 

Lisboa, 20 de Abril de 2015

 

Eng. J.C. Gonçalves Viana

José Carlos Gonçalves Viana

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