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A bem da Nação

O 25 DE ABRIL DE BAIXO CONTINUA POR FAZER

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Uma Revolução do Conjuntivo – Portugal sem Amigos

 

Era uma vez a revolução do 25 de Abril. Aquele dia em que a História, começa a dizer-nos adeus e a acenar-nos de volta.

 

Sob tanta música e tanto aroma do passado, quem tem o poder da interpretação da História? Quem tem algo para dizer? A consciência da justiça perdeu-se. A renovação precisa de nova orientação.

 

Portugal partido deixou de ser inteiro

 

Portugal, sem querer, foi reduzido ao 25 de Abril. A nuvem da ideologia e a tradição jacobina não deixam raiar nele o sol de todos: o Sol é só delas, não o deixam ser bem-comum.

 

Revoluções e 25 de Abril há muitos! Para cada qual o seu Abril! Só Portugal não tem nenhum! Portugal partido deixou de ser inteiro porque o partido se esqueceu que é apenas uma parte do todo. Num país desagregado em que a Pólis não flui porque se confunde fluência com instabilidade, a vida política consta de portugueses de extremos: de opressores ou de vítimas com os correspondentes correligionários.

 

O 25 de Abril é dos portugueses ou de algum partido?

 

Sim, até porque, por vezes, na opinião pública se chega a ter a impressão que o 25 de Abril é pertença da esquerda e não do povo português. Elites portuguesas precisaram de uma “revolução” para alcançar uma democracia e uma prosperidade que outros povos conseguiram sem ter de dever nada a ninguém.

 

O público distraído vivia no arraial da festa e o cidadão pé-descalço, não sentia dores nos pés, devido ao encanto da música. Entretanto a música passou, o ritmo desacelerou e só a marcha continua numa cadência surda, a viver de ecos longínquos de solmizações desafinadas e reduzidas a “esquerda”-“direita”. Tudo, o vento levou. O que nos mantém unidos é a palavra democracia, embora já bastante rompida.

 

Feitores e herdeiros do palco “25 de Abril” continuam a fazer acrobacias para adeptos e espectadores enquanto xamãs republicanos, por trás dos bastidores, garantem o descontentamento como continuidade nacional. Aqueles não têm perspectiva nem planos a longo prazo e estes não lhes deixam criar condições gerais.

 

A democracia recebeu um carácter regional: na monarquia rivalizavam-se as famílias nobres, na república rivalizam-se os partidos. As famílias nobres tinham a terra que os unia, os partidos une-os a ideologia. A sociedade portuguesa não tem uma filosofia conservadora coerente, nem uma filosofia de esquerda séria; na praça pública sobressai um discurso e uma praxis diletante de esquerda e de direita!

 

Portugal não tem amigos, e por isso não conhece alternativas; na gerência do Estado, a carência de programas (e de conceitos) é substituída pelo rotativismo partidário. Se antes vigorava o direito dos mais valentes depois passou a vigorar o direito dos mais fortes.

 

Inês de Castro imagem de um povo sem família que a acolha

 

Os políticos da nossa democracia são surdos à voz do povo. No escuro dos ministérios e nas lojas dos irmãos cruzam-se entumecidos os assassinos de Inês (de Castro) - a nação humilhada porque esquecida! Na voz da gente ecoam as súplicas de Inês num chorar meigo de mágoas temperadas num amor não correspondido; Inês sofre na aura do meu povo onde brilha o pôr-do-sol de uma era sem sol nascente. Inês é Portugal ao relento que continua a bater à porta do Estado, do rei Afonso que a assassina por “razões de estado” mas será reabilitada (só depois da morte) por razões do coração de um Pedro difamado... A Tragédia Castro é uma boa imagem da nação, do 25 de Abril e do povo que continua com destino trágico!

 

A democracia é povo e por isso se manteve longe do Estado; alguns queriam democratizar o sistema mas o sistema acabou por domesticá-los; ao integrarem-se no sistema, este sugou-lhes a personalidade tornando-os objectos do regime político e dos correspondentes grupos de interesse, sem ideais nem ligação ao povo: onde não há ideais não há povo. Por isso a nossa república não consegue produzir personalidades de perfil estatal (talvez se note alguma na sua sombra: Manuel de Arriaga, Ramalho Eanes, Salazar e algum que o leitor se lembre). A república tem sido boa e profícua em produzir opositores ao governo mas tem sido má em produzir governantes e personalidades íntegras.

 

O descontentamento é geral; por todo o lado surgem candidatos a presidente numa intenção de encurralarem o “estabelecimento” e a classe política corrupta. Quer-se uma unidade para lá do espectro esquerda-direita no sentido de uma unidade popular contra a corrupção, contra a elite. A revolta está bem patente mas como é de baixo não tem patentes que a façam valer. A história de Portugal tal como o regime de Abril, resume-se no dilema entre razão e coração, entre D. Afonso e D. Pedro (o Justiceiro) e que se resolve na Tragédia de Inês, na tragédia do povo, que se revela como a sustentabilidade de Portugal.

 

Há 41 anos festejava o povo, hoje festejam os funcionários dele. Neste contexto, as comemorações de Abril dão mais a ideia de serem um acto de auto-elogio ou de lavagem da própria consciência (ideologia) em louvores mesquinhos ou num bota-abaixo de um passado enevoado para louvar um futuro ensombrado.

 

O 25 de Abril de baixo continua por fazer e o 25 de Abril de cima encontra-se nas mãos de “mercenários”.

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António da Cunha Duarte Justo

LIDO COM INTERESSE – 2

David. S. Landes.png

 

Título: A RIQUEZA E A POBREZA DAS NAÇÕES

 

Landes_David.jpg

 

Autor: David S. Landes, Professor emeritus de História na Universidade de Harvard

 

Tradutora: Lucínia Azambuja

 

Revisor Científico: Henrique Manuel Lages Ribeiro

 

Editora: “Gradiva”, 7ª edição – Março de 2005

 

 

 

Há livros para ler; outros há para estudar. Este é dos que apetece saborear e por isso comecei a lê-lo em meados de Setembro e só o acabei ontem, dia de Natal. É claro que entretanto fiz outras coisas mas em regime de “livro de cabeceira”, não tive nestes meses mais nenhum.

 

Antes de começar a leitura, passei pela Internet para saber alguma coisa sobre um autor do qual nunca ouvira falar e li um comentário em inglês que me deixou siderado pois dizia da obra “o que Maomé não disse do chouriço”. Mas eu tinha que ler o livro que me fora oferecido por um casal amigo que muito estimo e com quem teria um dia mais tarde que conversar “à propos”. Preparei-me para o pior e . . . não concordo absolutamente nada com essa tal crítica que tentei agora encontrar de novo para confrontar mais detalhadamente com a opinião que entretanto construí mas não voltei a localizá-la. Esfumou-se, felizmente.

 

Contrariamente a essa crítica, não acho nada que a obra esteja repleta de incongruências do género de apresentar como verdadeiro nuns casos o que considera falso noutras situações. Essa acusação – claramente injusta, na minha opinião – só pode resultar duma leitura rápida ou incompleta de modo a que esse crítico considerou igual aquilo que para o autor era diferente. De facto, deparamos ao longo do livro com situações aparentemente semelhantes que produzem resultados diferentes mas essa é precisamente a grande tese do autor que consiste em a cultura ser a razão do desenvolvimento ou do atraso das Nações. Duas actuações governamentais aparentemente iguais exercidas sobre povos diferentes produzem resultados muito provavelmente diferentes.

 

Só que a tese vem formulada nas últimas linhas do Epílogo que logicamente é publicado depois do último capítulo, o 29 e isso exige uma leitura até ao fim e nunca em diagonal. Mas também quero acreditar que só lerá esta obra em diagonal quem se depare com alguma edição graficamente menos agradável ou com uma tradução menos boa que a portuguesa. O leitor português que se interesse por este tipo de assuntos não tem justificações para ler esta obra apressadamente.

 

Escrita despretensiosa, dá uma leitura fácil e já uma vez escrevi que se trata de um artigo de jornal a que o Professor Landes deu a forma de livro com 603 páginas a que juntou 52 de Notas, 81 de Bibliografia e apenas 19 de Índice Remissivo. Apesar do tamanho, é o contrário do enfadonho.

 

Para quem como eu se intitula economista, vai lendo constantemente ao longo do livro a diferença entre o que os economistas pensam e o que o autor acha. É curiosa a diferença e chegamos mesmo a dar por nós a pensar de modo mais filosófico e menos matematicamente. Para quem como eu se considera estatistófago, não deixa de ser curioso seguir os raciocínios do autor ao longo de todas aquelas páginas sem grandes provas quantitativas. E o mais curioso é que nem sequer fazem falta.

 

Mas isso não significa que eu esteja disponível para abdicar da tranquilidade de raciocínio proporcionado pela lógica matemática.

 

Mas o que nos diz o Professor Landes?

 

A história começa por contar as desigualdades da natureza em que o Sol e o calor proporcionam o riso e o folguedo enquanto o céu cinzento e a neve convidam ao retiro sorumbático, ao estudo, ao trabalho. Daqui passa para uma dissecação dos métodos de obtenção de conhecimentos na China e na Europa, atribuindo ao método científico europeu os méritos do desenvolvimento. Daqui resultou a expansão europeia e a retracção chinesa. Os descobrimentos portugueses foram a consequência lógica desse desenvolvimento científico. Na esteira portuguesa seguiram os invejosos que não sossegaram enquanto não estabeleceram os respectivos Impérios não para expansão da Fé mas sim para esbulho das riquezas naturais. Sem poupar críticas ao que fizemos de errado (e não terá sido tão pouco como eu gostaria), o autor é claramente simpático para connosco mas deve ter grandes dificuldades em obter visto para visitar Madrid ou Roterdão. A Revolução Industrial inglesa foi fundamentalmente a consequência da acumulação de conhecimentos técnicos e científicos mas rapidamente foi ultrapassada pelos americanos e alemães que por sua vez passaram a sofrer a feroz concorrência japonesa e coreana. Quanto à China, o autor não acredita que seja possível ela continuar a destabilizar o resto do mundo como está a fazer actualmente pois os problemas políticos são estruturais e podem estragar todo o progresso que se tem verificado desde a morte de Mao Tsé Tung. O livro conclui-se com uma breve mas muito lúcida análise da crise asiática de 1997.

 

Recapitulando: o que é verdade para uns pode não o ser para outros; o sucesso induz ao retrocesso assim como a subida antecede a queda; os problemas de desenvolvimento só se resolvem pela massificação do conhecimento.

 

Poucos livros li com tanto prazer.

 

Lisboa, 26 de Dezembro de 2005

 

HSF - retrato por FGA

Henrique Salles da Fonseca

O 25

 

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Foi já depois de 25 de Novembro de 1975 que o Dr. Álvaro Cunhal foi condecorado como Herói Soviético com isso significando Moscovo que o «trabalho» estava feito e que havia que agradecer a «obra».

 

Como assim, se nesse 25 de Novembro os comunistas tinham sido apeados do poder que haviam usurpado em Portugal?

 

A resposta só pode ser uma: a URSS interessava-se mais pelo ex-Império Português do que por este pequeno canto europeu. E, de facto, todas as nossas antigas colónias africanas estavam então na mão dos soviéticos.

 

E tudo começara uns anos antes quando Moscovo constatou que não conseguia vencer os conflitos militares que durante tantos anos instigara. Então, se não conseguia vencer no terreno das guerras, havia que ir à retaguarda derrubando o regime político vigente em Portugal. E, de facto, foi no Largo do Carmo que em 25 de Abril de 1974 Portugal perdeu o Império.

 

Quando assentei praça em Mafra para o Curso de Oficiais Milicianos de Abril de 1970, uma parte significativa do meu pelotão era composta por homens que regressavam a Portugal depois de terem estado algures na Europa mas deixando uma nebulosa quanto aos locais exactos de que provinham. Seria do lado de cá ou do lado de lá? Nunca, aos inocentes, nos passou pela cabeça fazer a pergunta. Mas lembro-me de que cantarolavam amiúde melodias e letras do Zeca Afonso e de que, por vezes, se «esqueciam» aqui e ali de um ou outro livro que nós, os outros, não conhecíamos. Não eram graficamente apelativos e nunca lhes peguei e é por isso que continuo hoje, passados mais de 40 anos, sem saber se se tratava de literatura revolucionária ou se eram contos de fadas para amenizar as insónias. Mas como soldado recruta só pensa em dormir, não dou grande cabimento à hipótese do soporífero literário.

 

Vendo o filme ao contrário, não me restam hoje dúvidas de que o Partido Comunista Português deve ter então dado ordem aos seus militantes na diáspora com a idade apropriada para regressarem a Portugal, ingressarem no Serviço Militar Obrigatório e de seguida destabilizarem por dentro o nosso Exército.

 

E nós, os não politizados, sem percebermos nada do que se passava à nossa volta.

 

Foi então que comecei a ouvir falar de uma certa contestação à ideia de quererem que nós, os milicianos licenciados, fizéssemos o Curso de Comandantes de Companhia para de seguida nos mandarem desempenhar as funções de Capitães de Infantaria. Que isso era um absurdo, que para isso estavam lá os subalternos do Quadro que deveriam ser promovidos em vez de serem ultrapassados por milicianos mal amanhados, etc.

 

Nós, os economistas, safámo-nos dessa pois foi-nos dado escolher se queríamos ser Alferes de Administração Militar ou Capitães de Infantaria. E todos optámos pela caneta em vez da G3.

 

Já estava em Moçambique quando ouvi pela primeira vez falar do Movimento dos Capitães mas não liguei muita importância pois me parecia que se tratava de problema corporativo com solução administrativa. Já estava na disponibilidade – e novamente em Moçambique como civil – quando ouvi falar do Movimento das Forças Armadas e conclui que, afinal, a solução administrativa para o problema corporativo não tinha resultado (ou talvez nem sequer tivesse sido aplicada) e que a «bola de neve» estava a crescer.

 

Sempre me pareceu que o «problema» do Império tinha que ter uma solução política e que o empenhamento militar era uma forma de «aguentar» a situação enquanto a solução política era discutida, aprovada e implementada. Mas o radicalismo ultra do Estado Novo em nada ajudou Marcello Caetano e tudo deu para o torto. E teria que dar para o torto porque uma solução politicamente negociada não interessava a Moscovo. Havia que precipitar os acontecimentos e isso só se conseguiria a partir de dentro das Forças Armadas Portuguesas. Aí estava o MFA.

 

Muitos militares que alinharam nesse movimento foram inconscientemente manipulados e outros, admito que poucos, agiram conscientemente em consonância com as determinações do inimigo. Isto significou uma maioria de inconscientes e uma minoria de traidores.

 

Então, hoje comemoramos o quê? Eu espero por Novembro.

 

Lisboa, 25 de Abril de 2015

Henrique frente à Presidência da República do V

Henrique Salles da Fonseca

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