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A bem da Nação

A INVASÃO DOS PÁSSAROS

 

casas_ruinas.jpg

 

Na casa em ruínas

Há agora um vazio

De boca sem dentes

Onde nem os pássaros

Querem abrigar-se…

O que restou das paredes

Antes faustosamente

Cobertas a papel florido

Segura ainda

Um ou outro retrato

De infâncias perdidas

Com pardais debicando

A oliveira

E melros nos silvados.

 

Maria Mamede.png 

Maria Mamede

«ERA O TEMPO DAS QUIMERAS»

 

Zeca Afonso.jpg

 

Também me lembro de quando, em Lourenço Marques, recebemos o disco de 45 rotações de Zeca Afonso, contendo “Menino do Bairro Negro” e “Os Vampiros”, de que logo aprendemos música e letra, que nos ficou na memória para sempre:

 

Olha o sol que vai nascendo

Anda ver o mar

Os meninos vão correndo

Ver o sol chegar.

Menino sem condição

Irmão de todos os nus

Tira os olhos do chão

Vem ver a luz.

Menino do mal trajar

Um novo dia lá vem.

Só quem souber cantar

Virá também.

Negro, bairro negro, bairro negro

Onde não há sol não há sossego…

Menino pobre o teu lar

Queira ou não queira o papão

Há-de um dia cantar

Esta canção.

Se até dá gosto cantar

Se toda a Terra sorri

Quem te não há-de amar

Menino a ti?

Se não é fúria a razão

Se toda a gente quiser

Um dia hás-de aprender

Haja o que houver.

Negro….

https://www.youtube.com/watch?v=A_fRemms0uY

 

Era bonito, era comovente, dava para embalar os filhos, juntamente com outros fados de Coimbra que leváramos na bagagem. Mas tratava-se de baladas, baladas “do baladeiro Afonso”, na designação de Vasco Pulido Valente, que jamais nos passaria pela cabeça assim apelidar, na admiração do poeta, comovidos então com a sensibilidade do quadro dos meninos correndo, que em nada se assemelhavam às “Meninas” do Velasquez, e nos faziam imaginar situações de pobreza social pecaminosa, embora a condessa de Ségur e o Charles Dickens, Jorge Amado ou Gorki, além de “Os Miseráveis” da odisseica vida de Jean Valjean nos tivessem também alertado para os bairros negros da miséria infame.

 

Ocupada nas funções de trabalhadora e de mãe de família, e, de resto, amando o mundo, sem tempo para as leituras mais profundas que nos fariam odiar uma parte dele – a dos exploradores capitalistas da tradição de todos os tempos, de que já a Bíblia se ocupara, tanto no Antigo Testamento como nos tempos de Jesus, “Os Vampiros” do Zeca Afonso causaram deslumbramento e surpresa por ataque tão directo, que logo memorizámos e cantámos, mais em surdina, contudo, ou entre os amigos sorridentes:

 

No céu cinzento sob o astro mudo

Batendo as asas pela noite calada

Vêm em bando com pés de veludo

Chupar o sangue fresco da manada

Se alguém se engana com seu ar sisudo

E lhes franqueia as portas à chegada

Eles comem tudo

Eles comem tudo

Eles comem tudo e não deixam nada [bis]

 

A toda a parte chegam os vampiros

Poisam nos prédios poisam nas calçadas

Trazem no ventre despojos antigos

Mas nada os prende às vidas acabadas

São os mordomos do universo todo

Senhores à força mandadores sem lei

Enchem as tulhas bebem vinho novo

Dançam a ronda no pinhal do rei

Eles comem tudo eles comem tudo

Eles comem tudo e não deixam nada (bis)

 

No chão do medo tombam os vencidos

Ouvem-se os gritos na noite abafada

Jazem nos fossos vítimas dum credo

E não se esgota o sangue da manada

Se alguém se engana com seu ar sisudo

E lhes franqueia as portas à chegada

Eles comem tudo eles comem tudo

Eles comem tudo e não deixam nada (bis)»

https://www.youtube.com/watch?v=8ur7ne3SWwc

 

De facto, era a rir que cantávamos, com garra, o “Eles comem tudo” que nos excluía a nós do banquete, enquanto admirávamos a coragem do excluído social que trabalhara no mesmo liceu que eu – o liceu António Enes, um ou dois anos depois de mim – tendo sido transferido posteriormente para um liceu da Beira, por conduta doutrinária então condenada, apesar da fama poética. Quando, anos depois, abrimos os olhos e a mente para a realidade descolonizadora que ele ajudara a fabricar, já Zeca Afonso se banqueteava nas libações do seu triunfo em novas baladas que serviriam de senha aos novos tempos revolucionários, em que ele participou e continuaria, alguns anos mais, na repetição festivaleira anual da “vila morena” da sua solidariedade social.

 

Julgo que Vasco Pulido Valente lhe sofreu também a influência, embora com rigidez ilustrada, nos apoios seguros da sua intelectualidade de rigor, bem pensada e meditada, passando ligeiramente sobre os efeitos temporários das ideologias da fraternidade melodiosa. Doutra forma não lhe chamaria tão sacrilegamente o “baladeiro Afonso”.

 

Também a mim nunca me passaria pela cabeça, descontada a adesão aos “Vampiros” e ao “Menino do Bairro Negro”, pôr em causa a política de Salazar, admirava-lhe a cabeça e a coragem, David franzino contra os Golias do mundo. Mas a vitória dos “baladeiros” na busca da transformação na vida dos meninos do tal “Bairro Negro”, ou dos “Vampiros” foi esta que temos vivido há 40 anos, de gradual multiplicação dos casos, os “meninos” transformados em “os sem abrigo” ao abrigo da caridade pública, além dos muitos outros da rebeldia social, os “vampiros” perdendo a aura mistificatória do anonimato - rosnado em surdina, todavia - que lhes protegia a figura, na pequenez e fealdade das acusações actuais de uma frontalidade ruidosa e despudorada. E com a Revolução, até as canções viraram de carisma, o empenhamento social descambando em músicas malandras, para o rodopio das coxas femininas muito nuas, os pratos suculentos do país soalheiro acompanhando os apetites do povo garrido das vilas morenas da nossa terra, a televisão como principal foco de difusão das nossas luzes, em espectáculos de tudo isso, e mais entrevistas, e mais futebol, e muitos casos da nossa enfermidade social.

 

Era “o tempo das quimeras”, da expressão de Paco Bandeira", para os intelectuais de outrora, do “quanto mais longe era perto”, no empenhamento da esperança. É o tempo, agora, da queda na realidade, vivida cada vez mais de perto, no amargo da desilusão e da ausência mesquinha de ideal. O tempo do inconformado e lúcido Vasco Pulido Valente:

 

«Luta de Classes e capitalismo financeiro»

Vasco Pulido Valente

Público, 29/3/15

 

Houve um tempo em que toda a gente explícita ou obscuramente acreditava na “luta de classes” em versão marxista. Uns com requintes teóricos, tirados da vulgata de Estaline; outros na forma popular das 200 famílias (porquê 200?) da propaganda russa ou de Álvaro Cunhal no “Rumo à Vitória”. A minha geração, fosse de esquerda ou de direita, viveu na convicção de que existia um grupo terrível e maldoso de capitalistas, os “vampiros” do baladeiro Afonso, que usava Salazar (um lacaio de formação e origem) para nos meter na ordem e lhe permitir chupar o nosso querido sangue. Ninguém conseguia imaginar como seria um exemplar dessa satânica espécie. Por mim, só vi um, e de fugida: Jorge de Melo, a tremelicar de frio na Praia Grande como se estivesse na Sardenha. Fiquei desconsolado.

 

Mas não fiquei tão desconsolado como agora quando passaram à minha frente na televisão as grandes figuras do capitalismo financeiro cá de casa (segundo a doutrina, o mais poderoso e o mais cínico) e os seus servos da gleba. Era então por causa deles que tínhamos odiado a Ditadura e amado o povo; por causa deles que tínhamos sofrido e também tremido; por causa deles que se fizera o PREC à custa da economia do país. Nunca fui um crente, mas mesmo assim a patética cara do Diabo – finalmente revelada – e a descrição das suas mesquinhas trafulhices foram um desapontamento e uma tristeza. Não havia ali nada de especialmente maléfico e de aterrador. Os piores aldrabavam o cidadão comum com a mesma mediocridade e a mesma técnica de quem vende o vigésimo premiado, abusando como de costume de velhinhos na reforma e pategos de passagem. Para quê, meu Deus?

 

E o aspecto? A indignidade? O medo da polícia (e da cadeia) que tresandava em cada resposta, em cada comentário? As personagens da nossa antiga imaginação apareceram – na figura de Ricardo Salgado, José Maria Ricciardi, Pedro Queiroz Pereira, Zeinal Bava, Henrique Granadeiro, e um ocasional director ou contabilista – e disseram que sim, e que não, e que assim-assim, e criaram um emaranhado de contradições e de mentiras, em que será preciso pescar à linha. Sinais de responsabilidade? Nem um. E a decência, a decência humana e comezinha do homem da rua, ao que parece não se usa em tão exaltadas regiões. Afinal, era esta a “luta de classes” de que nos falavam os papéis do PC e era este o “capitalismo financeiro” que dominava o mundo? O tempo que nós perdemos.

 

Berta Brás 2.jpg Berta Brás

GUERRA NA BOLANHA

FHS-Guerra na Bolanha Capa

 

DE ESTUDANTE, A MILITAR E A DIPLOMATA

 

Publiquei recentemente um livro subordinado ao título e subtítulo acima transcritos. Como existem, por ora, apenas 3 ou 4 referências e recensões criticas, que circulam na Net, permitam-me, um pouco egocentricamente apresentar um pequena sinopse e, que me perdoem o pecadilho, fazer um pouco a publicidade da obra. A 5 de Maio haverá uma sessão de apresentação na Sociedade Histórica da Independência de Portugal, no Largo de S. Domingos, em Lisboa, de entrada livre.

 

À semelhança de muitos jovens da minha geração, fui alferes miliciano de infantaria na então Guiné Portuguesa, entre 1968 e 1970. 27 anos mais tarde fui nomeado embaixador de Portugal na Guiné-Bissau independente, onde assisti e intervim, como testemunha privilegiada e como mediador, na guerra civil daquele país entre 1998 e 1999, o que já descrevi numa minha obra anterior “Crónicas dos (des)feitos da Guiné” (2012).

 

Não é de mais salientar que se tratou de uma situação sui generis, na medida em que, tanto quanto sei, fui o único embaixador que exerceu a chefia de uma missão diplomática, num território onde havia previamente combatido como militar.

 

O presente livro assume um carácter marcadamente intimista e autobiográfico. Para alguns talvez demasiado intimista, quase roçando a linha vermelha do pudor. Mas trata-se, como escreveu o meu antigo camarada de armas Mário Beja Santos, do “crepúsculo dos combatentes” – ou seja, a nossa hora - em que podemos dizer tudo o que nos vai na alma: para nós, hoje, com a idade que temos, já não existem segredos, nem angústias. Somos transparentes e frontais. Chegou o momento de nos assumirmos plenamente, com a coragem e o à-vontade dos cabelos brancos.

 

Este livro refere-se a três momentos distintos, na vida de um jovem.

 

Antes da guerra, ou seja, o dia-a-dia de um adolescente no Portugal dos anos 60 do século passado, da classe média urbana, que foi estudante e roqueiro, os seus hábitos, as suas leituras, o seu percurso académico e os respectivos namoros, até ao seu ingresso nas fileiras e as suas primeiras experiências, como militar.

 

Durante a guerra, a confrontação com um cenário bélico real numa terra estranha consistiu num reality shock complexo - o quotidiano da luta, as condições de vida, os dramas humanos envolvidos, as questões psicológicas, enfim, tudo o que marca de modo indelével um jovem para toda a vida.

 

Depois da guerra, surge uma nova etapa: o regresso definitivo. Como se processou a reinserção na sociedade portuguesa dos anos 70? Que objectivos de vida tinha quando voltou: a retoma ou não dos estudos, os primeiros empregos um tanto mixurucos, a vida sentimental e sexual, a diluição dos traumas de guerra? Que acolhimento lhe reservou o Portugal e os portugueses desse tempo?

 

Via de regra, a maioria dos autores menciona o que foi o conflito nas suas diferentes dimensões, por vezes, com uma incursão ou outra no passado anterior à ida para África, mas muito poucos mencionam a reintegração na sociedade que deixaram, aspecto que procurei abordar na minha perspectiva própria, com franqueza, sem subterfúgios e sem silêncios.

 

Francisco Henriques da Silva.jpg Francisco Henriques da Silva

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