Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A bem da Nação

OS REGATINHOS DE EÇA

 esperto ribeirinho.jpg

 

Foi na juventude que li algumas obras de Eça de Queiroz e gostei. Comecei pelos Maias e depois lembro-me de ter passado pela Relíquia sendo que esta última também vi posta em teatro interpretada pela inesquecível Elvira Velez. Um fartote de riso. Ah sim, também li O crime do Padre Amaro e As minas de Salomão, traduções que amiúde passam por originais queirozianos. Foi já a Professora Berta Brás que me conduziu na leitura da Vida de Santos.

 

Inquestionavelmente, um bom escritor.

 

E o que resulta da obra de Eça? Uma crítica bem assertiva à sociedade portuguesa, sem dúvida, mas pondo-nos a ridículo de um modo que a partir de certa idade me começou a irritar. Deve ter tudo a ver com o 25 de Abril, época a partir da qual a comunicação social se dedicou a apontar-nos todos os defeitos do mundo, os que temos e os que os jornalistas inventam. E fá-lo a tempo inteiro. Então, como não posso mandar calar a comunicação social nem sequer mandá-la fuzilar sem julgamento prévio, decidi aligeirar o mais possível toda a maledicência que me rodeava e pus Eça de Queiroz na prateleira sem tencionar voltar a lê-lo enquanto o pesado ambiente crítico me rodear. Já bastam noticiários radiofónicos e telejornais!

 

Eis por que nunca li A cidade e as serras nem todas as outras obras de Eça que não citei até aqui. Et pour cause, não conhecia a bela frase «Espertos regatinhos fugiam rindo com os seixos, dentre as patas da égua e do burro». E como não a conhecia, julguei-a da autoria da Professora Berta Brás no texto que se intitula Na estrada de Lafões.

 

Então, como homem do asfalto, sorriu-me o bucolismo da paisagem atravessada por um regato a cantar nos seixos e eu montado na égua a molhar as mãos e os pés na água fria (para nós, homens de cavalos, não há patas mas sim mãos e pés a que mais correctamente deveríamos chamar braços e pernas; mas não, sempre dizemos mãos e pés; e, pelos vistos, nem desta vez Eça me corrigiu).

 

Diz a Professora Berta Brás que ficou enxofrada com o facto de, numa apreciação privada do texto que lhe enviei, eu ter dado preferência a uma expressão que, afinal, não era da sua autoria.

 

Ora, enxofrar a Professora Berta Brás é a última ideia que me pode ocorrer – mesmo depois de aceitar fazer alguma viagem de submarino ou ir a Marte sem retorno – pelo que o lapso resulta apenas duma vastíssima ignorância que reconheço mas que, na dimensão queiroziana, não tenciono colmatar nos tempos mais próximos.

 

Mas espero que me façam justiça – a começar pela Professora Berta Brás – reconhecendo que os espertos regatinhos são muito bem apanhados e que a vida continuará a ser bela enquanto eles rirem nos seixos.

 

Continuemos...

 

Abril de 2015

 

Angkor Wat a cavalo 1.JPG

Henrique Salles da Fonseca

O ACORDO ORTOGRÁFICO E O FUTURO DA LÍNGUA PORTUGUESA

 

 

Tem-se falado muito do Acordo Ortográfico e da necessidade de a língua evoluir no sentido da simplificação, eliminando letras desnecessárias e acompanhando a forma como as pessoas realmente falam. Sempre combati o dito Acordo mas, pensando bem, até começo a pensar que este peca por defeito. Acho que toda a escrita deveria ser repensada, tornando-a mais moderna, mais simples, mais fácil de aprender pelos estrangeiros.

 

Comecemos pelas consoantes mudas: deviam ser todas eliminadas. É um fato que não se pronunciam. Se não se pronunciam, porque ão-de escrever-se? O que estão lá a fazer? Aliás, o qe estão lá a fazer? Defendo qe todas as letras qe não se pronunciam devem ser, pura e simplesmente, eliminadas da escrita já qe não existem na oralidade.

 

Outra complicação decorre da leitura igual qe se faz de letras diferentes e das leituras diferentes qe pode ter a mesma letra.

 

Porqe é qe “assunção” se escreve com “ç” e “ascensão” se escreve com “s”? Seria muito mais fácil para as nossas crianças atribuír um som único a cada letra até porqe, quando aprendem o alfabeto, lhes atribuem um único nome. Além disso, os teclados portugueses deixariam de ser diferentes se eliminássemos liminarmente o “ç”.

 

Por isso, proponho qe o próximo acordo ortográfico elimine o “ç” e o substitua por um simples “s” o qual passaria a ter um único som.

 

Como consequência, também os “ss” deixariam de ser nesesários já qe um “s” se pasará a ler sempre e apenas “s”.

 

Esta é uma enorme simplificasão com amplas consequências económicas, designadamente ao nível da redusão do número de carateres a uzar. Claro, “uzar”, é isso mesmo, se o “s” pasar a ter sempre o som de “s” o som “z” pasará a ser sempre reprezentado por um “z”.

 

Simples não é?

 

Se o som é “s”, escreve-se sempre com s. Se o som é “z” escreve-se sempre com “z”.

 

Quanto ao “c” (que se diz “cê” mas qe, na maior parte dos casos, tem valor de “q”) pode, com vantagem, ser substituído pelo “q”. Sou patriota e defendo a língua portugueza, não qonqordo qom a introdusão de letras estrangeiras. Nada de “k”.

 

Não pensem qe me esqesi do som “ch”. 

 

O som “ch” pasa a ser reprezentado pela letra “x”. Alguém dix “csix” para dezinar o “x”? Ninguém, pois não? O “x” xama-se “xis”. Poix é iso mexmo qe fiqa.

 

Qomo podem ver, já eliminámox o “c”, o “h”, o “p” e o “u” inúteix, a tripla leitura da letra “s” e também a tripla leitura da letra “x”.

 

Reparem qomo, gradualmente, a exqrita se torna menox eqívoca, maix fluida, maix qursiva, maix expontânea, maix simplex. Não, não leiam “simpléqs”, leiam simplex. O som “qs” pasa a ser exqrito “qs” u qe é muito maix qonforme à leitura natural.

 

No entanto, ax mudansax na ortografia podem ainda ir maix longe, melhorar qonsideravelmente.

 

Vejamox o qaso do som “j”. Umax vezex excrevemox exte som qom “j” outrax vezex qom “g”. Para qê qomplicar?!?

 

Se uzarmox sempre o “j” para o som “j” não presizamox do “u” a segir à letra “g” poix exta terá, sempre, o som “g” e nunqa o som “j”. Serto? Maix uma letra muda qe eliminamox.

 

É impresionante a quantidade de ambivalênsiax e de letras inuteix qe a língua portugesa tem! Uma língua qe tem pretensõex a ser a qinta língua maix falada do planeta, qomo pode impôr-se qom tantax qompliqasõex? Qomo pode expalhar-se pelo mundo, qomo póde tornar-se realmente impurtante se não aqompanha a evolusão natural da oralidade?

 

Outro problema é o dox asentox.

 

Ox asentox só qompliqam! Se qada vogal tiver sempre o mexmo som, ox asentox tornam-se dexnesesáriox.

 

A qextão a qoloqar é: á alternativa? Se não ouver alternativa, pasiênsia.

 

É o qazo da letra “a”. Umax vezex lê-se “á”, aberto, outrax vezex lê-se “â”, fexado. Nada a fazer.

 

Max, em outrox qazos, á alternativax. Vejamox o “o”: umax vezex lê-se “ó”, outrax vezex lê-se “u” e outrax, ainda, lê-se “ô”. Seria tão maix fásil se aqabásemox qom isso! Para qe é qe temux o “u”? Para u uzar, não? Se u som “u” pasar a ser sempre reprezentado pela letra “u” fiqa tudo tão maix fásil! Pur seu lado, u “o” pasa a suar sempre “ó”, tornandu até dexnesesáriu u asentu.

 

Já nu qazu da letra “e”, também pudemux fazer alguma qoiza: quandu soa “é”, abertu, pudemux usar u “e”. U mexmu para u som “ê”. Max quandu u “e” se lê “i”, deverá ser subxtituídu pelu “i”. I naqelex qazux em qe u “e” se lê “â” deve ser subxtituidu pelu “a”. Sempre. Simplex i sem qompliqasõex.

 

Pudemux ainda melhurar maix alguma qoiza: eliminamux u “til” subxtituindu, nus ditongux, “ão” pur “aum”, “ães” – ou melhor “ãix” - pur “ainx” i “õix” pur “oinx”. Ixtu até satixfax aqeles xatux purixtax da língua qe goxtaum tantu de arqaíxmux.

 

Pensu qe ainda puderiamux prupor maix algumax melhuriax max parese-me qe exte breve ezersísiu já e sufisiente para todux perseberem qomu a simplifiqasaum i a aprosimasaum da ortografia à oralidade so pode trazer vantajainx qompetitivax para a língua purtugeza i para a sua aixpansaum nu mundu.

 

Será qe algum dia xegaremux a exta perfaisaum?

 

Maria Clara Assunção

in A BIBLIOTECA DE JACINTO

«A VIDA SERÁ SEMPRE BELA ENQUANTO HOUVER “ESPERTOS REGATINHOS”»

esperto ribeirinho.jpg

 

Foi este o comentário final que fez o Dr. Salles ao meu texto sobre Lafões, depois de ter afirmado que nele gostara especialmente dos “espertos regatinhos” o que muito me enxofrou, em específico sentimento de frustração, pois eu me esmifrara em citações e análises, ao sabor dos meus pensamentos e sentimentos, por meio da combinação dos grafemas da minha competência, tal como definia o nosso professor de Música do velho Liceu Salazar, em Lourenço Marques, Samuel Miguéns: “A música é a arte de exprimir os sentimentos e os pensamentos por meio da combinação dos sons”. Não se tratando, de facto, de música, o meu texto de pão-pão, queijo-queijo, no terra-a-terra da minha criatividade, nunca se me tinha feito, contudo, repúdio tão intenso, na preferência pelos regatinhos do Eça que punham a milhas as magnólias de Oliveira de Frades, referidas no meu texto, na sua beleza “tout court”, sem sequer um adjectivo a valorizar-lhes o porte, que, por via dos “espertos regatinhos” hoje assinalo como “gracioso”.

 

Mas reconhecendo o “quid” transformador de Eça, em qualquer frase que escreva, conformei-me com a observação, eu própria a subscrevendo, tanto mais que o Dr. Salles concluiu o seu comentário com um pensamento assertivo muito perspicaz, a frase do título: «A vida será sempre bela enquanto houver “espertos regatinhos”».

 

Na verdade, neste país rasgado ultimamente pelas auto estradas do progresso, emprestado que este seja, com os moinhos nas cristas dos montes produzindo energia, sente-se o vigor de um povo que outrora também produziu barcos e homens buscando outros mundos, em condições por vezes bem tenebrosas. Já não precisamos hoje, é certo, da égua de Jacinto ou do burro de Zé Fernandes para trepar a serra para a casa de Tormes, que possibilitou a fixação da divina tela queirosiana, que se lê e saboreia em cada sua frase musical, “petit poème en prose”:

 

Com que brilho e inspiração copiosa a compusera o divino Artista que faz as serras, e que tanto as cuidou, e tão ricamente as dotou, neste seu Portugal bem amado! A grandeza igualava a graça. Para os vales poderosamente cavados, desciam bandos de arvoredos, tão copados e redondos, dum verde tão moço, que eram como um musgo macio, onde apetecia cair e rolar. Dos pendores, sobranceiros ao carreiro fragoso, largas romarias estendiam o seu toldo amável, a que o esvoaçar leve dos pássaros sacudia a fragrância. Através dos muros seculares que sustêm as terras, liados pelas heras, rompiam grossas raízes coleantes, a que mais hera se enroscava. Em todo o torrão, de cada fenda, brotavam flores silvestres. Brancas rochas, pelas encostas, alastravam a sólida nudez do seu ventre polido pelo vento e pelo sol; outras, vestidas de líquen e de silvados floridos, avançavam como proas de galeras enfeitadas; e, dentre as que se apinhavam nos cimos, algum casebre que para lá galgara, todo amachucado e torto, espreitava pelos postigos negros, sob as desgrenhadas farripas de verdura, que o vento lhe semeara nas telhas. Por toda a parte a água sussurrante, a água fecundante. Espertos regatinhos fugiam rindo com os seixos, dentre as patas da égua e do burro; grossos ribeiros açodados saltavam com fragor de pedra em pedra; fios direitos e luzidios como cordas de prata vibravam e faiscavam das alturas aos barrancos; e muita fonte, posta à beira de veredas jorrava por uma bica, beneficamente, à espera dos homens e dos gados. Todo um cabeço, por vezes era uma seara, onde um vasto carvalho ancestral, solitário, dominava como seu senhor e seu guarda. Em socalcos verdejavam laranjais rescendentes. Caminhos de lajes soltas circundavam fartos prados com carneiros e vacas retouçando, ou, mais estreitos, entalados em muros, penetravam sob ramadas de parra espessa, numa penumbra de repouso e frescura. Trepávamos então alguma ruazinha de aldeia, dez ou doze casebres, sumidos entre figueiras, onde se esgaçava, fugindo do lar pela telha-vã o fumo branco e cheiroso das pinhas. Nos cerros remotos, por cima da negrura pensativa dos pinheirais, branquejavam ermidas. O ar fino e puro entrava na alma, e na alma espalhava alegria e força. Um esparso tilintar de chocalhos, de guizos, morria pelas quebradas. «A Cidade e as Serras”

 

Nas auto estradas de múltiplos carros deslizando hoje velozes, ultrapassando um ou outro camião que outrora, na estrada nacional, em maior quantidade do que hoje, parece-me, embargavam maliciosamente a passagem aos carros, estes em múltiplas tentativas de perfuração do espaço barrado, já não há tempo para fixar os pormenores do descritivo imortal queirosiano, os tapumes laterais das vias amplas impossibilitando a perfuração dos espaços próximos, apenas as serranias revestidas do verde escuro das árvores próximas se destacando ao longe, a confinar com o azul do céu.

 

Fomos a Pinheiro de Lafões, uma zona que se destaca, no vigor saudável dos seus ares, na beleza incomparável dos casarios pintalgando as serras, de que em tempos fiz um retrato no meu terra a terra de rigor:

 

LAFÕES

Um vale, um rio, os montes,

Povoados dispersos

Aqui, além,

Quais jóias incrustadas na verdura

De cerrados horizontes.

No cimo, um céu escasso

Limitado pela linha das montanhas,

Guardando avaramente o seu tesouro

Sem permitir um passo

Para fora.

Lafões…

A harmonia do belo,

O desespero do pouco,

A ânsia ardente

Do infinito,

Tentando passar além

Inutilmente.

Que os montes ciosos

Recolhem o seu esplendor

Vaidosamente.

Ali se impõem,

Ali são donos,

Princípio e termo,

O infinito…

Lafões, quão belo!

Lafões, quão pouco!

(in “Cravos Roxos”)

 

Hoje eu não renegaria aqueles sítios de Lafões, ambicionando os espaços mais amplos das planuras marítimas. A televisão, a Internet, e sempre os livros, permitem um lugar feliz em qualquer parte do mundo. Mas, sobretudo, como afirma o Dr. Salles, porque «A vida será sempre bela enquanto houver “espertos regatinhos”».

 

Berta Brás.jpg Berta Brás

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2006
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2005
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2004
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D