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A bem da Nação

CITAÇÕES

  • Adão, o primeiro espoliado – e no próprio corpo.

 

  • As academias coroam com igual zelo o talento e a ausência dele.

 

  • Cada geração de computadores desmoraliza as antecedentes e respectivos criadores.

 

  • Há campeões de tudo, inclusive de perda de campeonatos.

 

  • Há homens e mulheres que fazem do casamento uma oportunidade de adultério.

 

  • No adultério há pelo menos três pessoas que se enganam.

 

Carlos Drummond de Andrade

NA ESTRADA DE LAFÕES

 

 

 

Encontrei em casa da minha prima Celeste, que vive em Pinheiro de Lafões, na casa adquirida por alturas do retorno a Portugal – na avalanche que impôs então oposições e entreajudas - um livro que também tenho, mas que o prazer da releitura me fez devorar nas três noites de alguma insónia, embora bem instalada num quarto de hotel – «Ulvense» – “que o meu pai pagará”, perdão, que a minha irmã pagou - as realidades aproximando-se, com mais glória, todavia, para a “Caranguejola” do Mário de Sá Carneiro, sonhando com um quarto de hospital, «tudo bem calafetado». Foi o livro de Ferreira de Castro – “A Curva da Estrada”, história de um advogado espanhol socialista - Don Álvaro Soriano - a braços com um grave problema de consciência – o de abandonar o partido de que fora leader e ingressar no partido nacional, um tanto manipulado pelos ditames de oposição ferrenha ao socialismo da irmã Mercedes - beata e amante da sociedade elegante dos nacionalistas afins de governo - que com ele vivia após a morte da mulher, e de seu filho mais velho Paco, que também lhe ocupava a casa após a separação da mulher, com quem casara por interesse. Lembrava-me de que esse livro fora comprado no Lobito, em Agosto de 1953, segundo assinatura, quando vim estudar para Coimbra, tendo iniciado numa livraria de lá a manipulação do dinheiro que o meu pai me entregara para a viagem, o qual, naturalmente não chegaria ao fim dela, pecha de que enfermaria a minha viagem posterior pela vida, de conta mensal na Coimbra Editora, em Coimbra, na Minerva Central em Lourenço Marques, além de outros centros comerciais confiantes na honorabilidade do meu propósito de solvência em prestações mensais – realidade de vivência infinita que umas linhas resumem.

 

Um livro que despertara a minha curiosidade pela diferença de propósito que encontrara nos livros dele que meu pai tinha na estante em Lourenço Marques – “A Selva”, “Terra Fria”, “A Lã e a Neve” – que achava pesados para a minha mente habituada a leituras novelescas, naturalmente preterindo essas, de sofrimento e miséria, segundo o credo dos amantes da humanidade, neorrealistas/marxistas na altura, da esquerda vária hoje. Tratava-se de um livro sobre gente interessante, quer sob o ponto de vista psicológico quer sob o ponto de vista ideológico e cuja releitura me trouxe visões antecipadas de manobras políticas e doutrinárias que a realidade posterior ao 25 de Abril apregoou a cada momento, cada vez com mais empenho.

 

“A Curva da Estrada”, numa terra de curvas na estrada, como essas dos meus tempos de infância, entre Pinheiro e Oliveira de Frades, Pinheiro e o Carregal, que percorríamos a pé na infância e mais tarde de carro, vias que ainda se mantêm, valorizadas pelas auto estradas do progresso. Gostei de reler. Naturalmente, um título simbólico, evocativo da “estrada de Damasco”, seguida por Paulo, perseguidor dos cristãos, posteriormente iluminado nessa estrada, a ponto de se tornar o maior apóstolo pregador da doutrina cristã, em dúvidas sobre si próprio, tal como se debate Don Álvaro Soriano, em hesitações morais e conflitos de consciência, que o fazem renunciar, passando a viver das suas recordações de anterior leader socialista, corajoso e lutador, herói para o filho mais novo – Enrique – que o enfrentou e o libertou, na “curva da sua estrada”. O credo socialista resume-se no final do livro: «É preciso amar os homens», a corrupção pertencendo, então, à frente nacionalista, de hipocrisia e manobras perversas, no pensamento do autor Ferreira de Castro, que, se vivesse hoje outros pruridos teria, menos unilaterais. Ou não teria nenhuns, perdidos nas auto estradas, inexistentes então.

 

Gostei também do passeio às terras da minha infância, perfumadas, de casario entalado nas serras, paisagens miríficas, de ares límpidos e cortantes, de nevoeiros matinais descendo das serras distantes, desvanecendo-se sob um sol brilhante, as praças e ruas de Oliveira de Frades, modernizada, e os quintais da vila e aldeias cheios de magnólias e de cameleiras floridas das mais diversas cores, os canteiros cobertos de amores-perfeitos, os campos em pousio passageiro, laranjeiras e tangerineiras a vergar de ouro, outras árvores começando a revestir-se de rebentos, flores por toda a parte, “espertos regatinhos fugiam, rindo com os seixos, o casario das povoações alargado e bem pintado, a lembrar emigração e previdência para a velhice do retorno.

 

esperto ribeirinho.jpg

 

Mas a Celeste estava doente, foram três dias de companheirismo e alegria festiva e encorajante que se prolongam nos nossos desejos de melhoras, que o serão, rodeada que está pela irmã, o cunhado e os sobrinhos, nos afectos e vigília de longa data compartilhados.

 

A “curva da estrada” para Alberto Caeiro, uma interpretação prática, à maneira dele, pretendendo ser positiva e sem artifício nem filosofia, limitada a nossa visão ao que está antes da curva, que o nosso olhar descobre, sem lugar a suposições imaginárias inúteis e irreais. Bem diferente do romance de António Ferreira no conceito, a observação simplista à maneira “antimetafísica”, na realidade profundamente racionalista:

 

Para além da curva da estrada Talvez haja um poço, e talvez um castelo, E talvez apenas a continuação da estrada. Não sei nem pergunto. Enquanto vou na estrada antes da curva Só olho para a estrada antes da curva, Porque não posso ver senão a estrada antes da curva. De nada me serviria estar olhando para outro lado E para aquilo que não vejo. Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos. Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer. Se há alguém para além da curva da estrada, Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada. Essa é que é a estrada para eles. Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos. Por ora só sabemos que lá não estamos. Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva Há a estrada sem curva nenhuma.

 

Alberto Caeiro.jpg ALBERTO CAEIRO

 

 

Berta Brás 2.jpg Berta Brás

CURTINHAS CXXVIII

EURIBOR negativa.jpg

 

O DEDINHO NA BALANÇA

 

Ouve-se, e não se acredita.

 

A solução que o brilhante BdP encontrou para o problema bicudo dos Indexantes (Euribors várias) com valores negativos que arrastam as taxas nominais de juro dos empréstimos bancários para valores também negativos é, pasme-se!, permitir que os Bancos tenham mão-livre para fazerem o que melhor entenderem, desde que com uma conveniente cobertura contratual (qualquer serve), para que o serviço desses empréstimos, assim reacondicionados, continue a exigir de quem os deva efectivos pagamentos.

 

Swaps, swaptions, opções exóticas (que nem os próprios Bancos, muito provavelmente, perceberão de que se trata), tudo o que há pouco mais de um ano causou um rombo enorme no OGE (lembra-se, Leitor?), agora, com o nihil obstat do BdP, passa a ser “tiro livre”.

 

Literacia financeira? Protecção do cliente de retalho? Às urtigas, tudo isso. O que importa é que os Bancos fiquem confortáveis, mesmo que os spreads que aplicam nos seus empréstimos (para não falar já nas comissões e encargos que são introduzidas à socapa para arredondar rentabilidades brutas) lhes proporcionem sempre, feitas as contas, receitas - ainda que as taxas nominais de juro sejam negativas.

 

Seria pedir de mais ao BdP que tivesse feito bem as contas para se certificar de que a realidade é tão má quanto os Bancos a pintam - em vez de ter embarcado precipitadamente na ideia (nada sofisticada, diga-se em abono da verdade) de que: se há desembolso (é o que resulta de uma taxa nominal negativa aplicada tal qual), haverá de certeza prejuízo.

 

Não dão esses spreads para cobrir as perdas que o malparado tem vindo a causar aos Bancos num crescendo (e só por acaso darão)? Mas isso nada tem a ver com os Indexantes. Tem a ver, sim, com o modo como eles, Bancos, gerem o risco e constroem os seus tarifários.

 

Não é preciso ter os conhecimentos superlativos do BdP para perceber que, se eles têm dois únicos objectivos - conquistar quota de mercado e arranjar de qualquer maneira receitas que cubram os encargos inflacionados por estruturas empoladas - não vão resistir nada bem a um choque destes.

 

Mas, cabe perguntar, por mor de quê deve ser quem já deve a pagar por inteiro a factura de um modelo de negócio bancário que nos tem lançado em crise atrás de crise nos últimos 20 anos, ou quase? Perante o comprazido silêncio do BdP - note-se bem.

 

E, já agora, não souberam os Bancos prever a possibilidade deste cenário, contratualizando taxas mínimas?

 

E se os Indexantes forem por aí acima lançando o serviço das dívidas para níveis incomportáveis, vai haver reciprocidade, com o BdP a agir agora para proteger os devedores (estes, sim, totalmente expostos ao risco de taxa de juro - o que não é o caso dos Bancos, na presente situação)?

 

Não seria mais claro o BdP (ele, que deveria ser a Autoridade de Concorrência para o sistema bancário) orquestrar todos os Bancos para que estes, assim conluiados à vista de todos, de cada vez que o valor do Indexante atirásse uma taxa nominal de juro para o vermelho, lançassem mão de uma comissão extraordinária que, no cômputo final, entre juros e comissões, sempre lhes desse para receberem alguma coisinha que se visse?

 

Claro, seria. Mas o dedo na balança ficava à vista de toda a clientela - e isso embaciava prestígios.

 

Como tudo na Banca, também este problema tem frente e verso. E do lado dos Depósitos? Vai o BdP levar os Bancos a puxarem pela cabeça para oferecerem aos seus depositantes taxas de retorno positivas?

 

Este é que é o fundo da questão: as Euribors podem estar negativas, mas não para os Bancos “de cá” que têm de pagar caro (em comparação - porque têm mesmo que pagar) se quiserem financiar-se junto do BCE e dos mercados interbancários da Zona Euro (a estes têm um acesso muito, muito limitado). Por isso, não há razão económica que justifique que os Bancos “de cá” fixem taxas nominais negativas para os depósitos que captem.

 

Tivessem os Bancos “de cá” mais capital, fossem eles melhor geridos e, provavelmente, também beneficiariam, nos fundos que captassem, de taxas nominais negativas - o que lhes daria algum à vontade na actual conjuntura. Mas não.

 

Uma pergunta impõe-se: porque devem ser os devedores de retalho (os quais, por definição, possuem uma literacia financeira elementar) a pagar, através de truques vários de que sejam alvo, as falhas mais que conspícuas dos accionistas destes Bancos?

 

Accionistas que não capitalizam adequadamente os seus Bancos (daí o fraco acolhimento que os mercados interbancários lhes dispensam) e que têm sido complacentes com gestões que também não impressionam por aí além possíveis financiadores?

 

E como as perguntas são como as cerejas, uma outra: a que título vem agora o BdP fazer seus, objectivamente, os interesses desses tais accionistas? Não é missão do BdP, enquanto Regulador e Supervisor, agir para que os Bancos “de cá” sejam sólidos, bem capitalizados e bem geridos? Ou será, pelo contrário, dar-lhes mão-livre, permitir-lhes os comportamentos mais atribiliários - e, dessa maneira, passar a mensagem de que, se não for assim, esses Bancos nunca serão sólidos?

 

Enfim, não ocorreu ao bem apetrechado BdP fixar, supletivamente, esta regra simples: se, por efeito da evolução do Indexante, a taxa nominal de um empréstimo bancário for negativa, o devedor pagará sempre o spread - sendo contabilizado como amortização de capital a parcela equivalente ao produto dessa taxa nominal negativa pelo capital que se encontrar em dívida nessa data?

António Palhinha Machado A. Palhinha Machado

ABRIL de 2015

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