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A bem da Nação

O SEU A SEU DONO

O governo grego chefiado por Alexis Tsipras e representado nas instituições financeiras internacionais por Yanis Varoufakis tem sido particularmente infeliz na apresentação das suas pretensões e na formulação de desculpas em matéria de descontrolo do endividamento externo. Recorre a toda espécie de ameaças, insultos e até a gestos obscenos para afirmar direitos que ninguém reconhece a práticas tais como fuga aos impostos e outras de igual quilate. Assim não conquistam nem simpatias nem reputação.

 

Tal atitude é tanto mais lamentável quanto, ao que se tem vindo a apurar recentemente haverá provavelmente aspectos em que alguma razão assiste aos Gregos.  

 

Com efeito, em Fevereiro último, a revista alemã SPIEGEL, fundamentando-se num relatório do 194 páginas do Ministério da Finanças grego a que teve acesso, revelou que os nazis durante a ocupação militar de 1941 a 1944, forçaram o Banco Central grego a conceder-lhes empréstimos em dracmas. O montante dos empréstimos assim obtidos teria excedido 10 vezes os custos da ocupação do território grego. Isto é, Hitler pagou as despesas da ocupação militar da Grécia e parte da campanha no Norte de África com dinheiro emprestado pelas vítimas dessa ocupação. Porém, como o fez por via bancária, e invocou a Convenção de Haia de 1907, tais financiamentos não cabem na categoria de reparações por estragos de guerra e deverão ser contabilizados e tratados pura e simplesmente como empréstimos bancários. Pelas cálculos dos Gregos, a divida nazi não paga até hoje totalizaria no final da II Guerra Mundial 476 milhões de Reichmarks, ou seja o correspondente, em termos actuais, a €11 mil milhões, (suficiente para pagar 4% da divida soberana grega actual). Reconhece-se no dito relatório que o Governo alemão pagou ao Governo grego, em 1961, 115 milhões de deutsch marks como compensação ás famílias das vitimas de massacres mas isso não pode ser levado em conta como reembolso do empréstimo bancário forçado. São coisas de natureza diferente. Segundo o Spiegel, as revelações do MdF grego vem ao encontro de declarações feitas anteriormente pelo historiador alemão da Universidade de Atenas, Hagen Fleischer.

 

Segundo o Economist, de 21 de Março, a Grécia nunca desistiu formalmente das queixas em relação à ocupação alemã. Ludwig Erhard, ao tempo em que era ministro das Finanças da RDA, teria prometido pagar a divida após reunificação. Em Novembro de 1995, já após reunificação alemã, o Governo grego solicitou abertura de negociações sobre este assunto, mas Berlim fez orelhas moucas.

 

NÉMESIS~2

 

Perante os factos agora revelados, eu diria que Schäuble – ele também – encontrou Némesis e esta lhe imporá a obediência à lei das compensações para bem da harmonia da Humanidade.

 

O que os Gregos poderão reembolsar caso façam valer os seus direitos é uma pequena parcela da sua actual divida soberana mas o que está aqui em causa é o procedimento moral de devedores e de credores. Por isso, eu diria mais que os Gregos terão maiores probabilidades de êxito se retirarem este assunto do âmbito do Euro e o colocarem no contencioso bilateral germano-helénico.

 

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Luís Soares de Oliveira

TRÊS PRECONCEITOS...

 

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... que não permitem a Portugal recuperar a independência e pagar a dívida

 

Introdução:

 

Para ser possível um País ser independente é indispensável o seu domínio em algumas actividades em que seja competitivo e assim poder colocar-se em posição forte financeira e económica no contexto internacional.

 

Esta situação implica haver empresas nacionais capazes de dominar essas actividades o que significa dimensão e qualidade e os seus proprietários serem portugueses ou interessados em residir em Portugal e portanto se comportarem como tal.

 

Assim é forçoso haver condições para a formação de capital residente em empresas nas ditas actividades essenciais à nossa independência.

 

Por outro lado recordemos o significado de preconceito: ideia, sentimento ou opinião formado de forma deficiente e aceite como verdade indiscutível e assim passar a orientar decisões não permitindo a sua análise mais correcta.

 

Em versão mais ligeira poderá dizer-se de quem tem preconceitos: tenho a minha ideia feita, não me confundam com factos.

 

Aliás a nossa história, desde que bem contada, é clara quanto a este assunto e aos enormes prejuízos que sofremos porque quem nos governava não foi capaz de os evitar.

 

1º preconceito desenvolvido, tal como os outros dois, depois de Abril de 74:

 

Ódio ao capital

 

Esta revolução foi fortemente influenciada por forças da esquerda em geral e em particular pelo Partido Comunista cuja orientação natural era instalar em Portugal uma República Popular tipo RDA, e portanto a destruição do capital privado era um objectivo que muito pesou nos acontecimentos então em curso (o tristemente célebre PREC) e que inclusive influenciou a própria Constituição a ponto de ainda hoje esta se referir preferencialmente a PMEs e pouco a empresas de maior dimensão.

 

Ora algumas das actividades essenciais à independência do País, como a energia, a água, os transportes aéreos, ferroviários e marítimos, a exploração de minérios quer em terra quer nos fundos oceânicos, a metalomecânica pesada e/ou especializada, a indústria química, etc. exigem capitais avultados que sejam pertencentes a cidadãos nacionais ou pelo menos aqui residentes e assim directamente interessados no País e não apenas no dinheiro em jogo.

 

Porque se a maioria das empresas de um País pertencer a estrangeiros esse País é certamente uma colónia doutro ou doutros.

 

A experiência vivida no século XX particularmente durante a guerra mundial 39-45 devia ser aproveitada pelos actuais responsáveis pelos destinos do País, sem esquecer que ao contrário do que sucedia durante a ditadura em que pouca ou nenhuma participação popular havia, agora todos temos alguma responsabilidade pois os Órgãos de Soberania são eleitos para fazerem o que prometeram na campanha eleitoral e de acordo com a Constituição.

 

É certo que tem havido, ao longo dos tempos e por todo este mundo, muitos casos de capitalistas fraudulentos tal como maus médicos, maus árbitros, maus pais e por aí fora sem que se ponha em causa a actividade mas apenas a pessoa responsável em cada caso.

 

A questão de fundo foi criada primeiro pelo anonimato do detentor do capital, pela indefinição de regras tendentes a motivar maior participação de pequenos accionistas e acrescentado pela ausência de regulação internacional das movimentações de capitais.

 

Em resumo se quisermos ter desenvolvimento e independência temos de motivar a proliferação de capitais nacionais residentes e distribuídos, pois a situação atual de entregar as actividades essenciais a entidades estrangeiras é suicida e inconstitucional.

 

2º preconceito:

 

A Marinha mercante é colonialista, logo deve ser eliminada

 

A Marinha Portuguesa entrou em declínio no início do século XIX donde só saiu após 1945 e atingindo uma dimensão que lhe conferiu figurar entre as principais no período 50-60.

 

No entanto a frota desenvolveu-se baseada no tráfego com as nossas colónias, obviamente protegido e portanto com fretes muito favoráveis aos armadores o que de início facilitou os elevados investimentos, mas que posteriormente provocou nos armadores alguma quebra na sua capacidade de inovação, como se verificou na ausência de aproveitamento dos navios de passageiros para cruzeiros. Só o Funchal foi transformado e isso porque o Presidente da República de então se opôs à sua alienação.

 

Apesar disto em 1974 a E. Nacional de Navegação e a E. Insulana de Navegação já estavam a operar como terceira bandeira, mas o mercado internacional implicava termos condições de enquadramento desde o registo aos tribunais especializados, passando pelos sindicatos, que dificultava qualquer adaptação rápida á nova realidade.

 

Ainda por cima as mal denominadas nacionalizações acabaram com as empresas privadas com dimensão e desenvolveu-se o preconceito de que a nossa Marinha era cara e colonialista e podia e devia ser eliminada pois era mais barato ir ao mercado internacional quando era preciso. Esta evolução prolongou-se até ao Governo de Cavaco Silva onde se processou a destruição final, não por conceitos esquerdistas prequianos mas por novos rumos neoliberais cujos resultados estão bem à vista.

 

Os efeitos deste preconceito chegaram ao ponto de até influenciarem historiadores a desprezar o papel da Marinha na formação de Portugal e dos próprios descobrimentos marítimos que foram bem portugueses.

 

3º preconceito:

 

A Marinha de recreio é fascista, logo deve ser combatida

 

Antes de entrar no tema em título convém ter uma ideia do que se passava quanto à participação da população em actividades marítimas.

 

Além das frotas constituídas por navios de maior porte para o transporte de pessoas e bens para todos os locais onde havia portos, e das frotas de pesca, havia inúmeras embarcações de menor porte a remos e/ou à vela que permitiam a deslocação entre os locais ribeirinhos porque as estradas eram poucas ou nenhumas e portanto navegar era a única solução. E onde muitas vezes também era praticado algum recreio.

 

Assim só no estuário do Tejo por volta de 1950 haveria algumas dezenas de milhar de embarcações destas o que significa que o contacto da população com embarcações era normal e profundo.

 

Por outro lado a náutica de recreio tal como agora se entende, que teria começado alguns séculos atrás em Inglaterra e na Holanda, era praticada apenas por pessoas abastadas, em alguns casos mesmo muito como aconteceu com a taça da América há mais de um século, e em Portugal havia poucos praticantes, embora houvesse centros de formação náutica ligados à Mocidade Portuguesa onde quem não tinha meios para ser proprietário de um barco podia praticar. Como aconteceu comigo em 1946-48.

 

No entanto após a guerra mundial 39-45 os novos materiais e a melhoria do nível de vida proporcionaram enorme desenvolvimento da navegação de recreio particularmente na Europa e nos EU, com excepção de Portugal onde as autoridades responsáveis pela infraestruturas portuárias não se modernizaram, só tendo sido construídas instalações das mais caras que obviamente não permitem aos candidatos a praticantes se desenvolverem, nem proliferarem centros de formação acessíveis a qualquer bolsa.

 

Dada esta situação em 74 as forças esquerdistas apelidavam de fascista quem praticava desportos náuticos mesmo que fossem usadas embarcações modestíssimas e este preconceito entranhou-se de tal forma que hoje é espantoso o que se passa, como os exemplos que vos darei a seguir demonstram claramente.

 

Em 1997 a propósito da preparação das comemorações da 1ª viagem de Vasco da Gama à Índia numa sessão da Academia de Marinha dadas as ligações importantes desta cidade com esta viagem (construção das naus no estaleiro da Azinheira Velha, roteiro de Álvaro Velho do Barreiro e sua ligação com os Lusíadas, a existência de muitos trabalhadores que se adaptariam facilmente a novas actividades, etc.…) foi apresentada à Câmara Municipal um projecto de desenvolvimento que, tendo em consideração as condições naturais excepcionais do rio Coina para actividades náuticas, aliás onde durante séculos a nossa Armada tinha a sua base até se mudar para o Alfeite no século XX, proporcionaria a criação de muitas centenas de postos de trabalho com investimentos diminutos e quase totalmente cobertos com fundos externos ao município. Até hoje, embora várias tentativas posteriores tivessem sido feitas nada aconteceu.

 

O estuário do Tejo, pelo menos desde a Azambuja até ao Bugio tem capacidade para instalar actividades náuticas de recreio, grande parte delas com carácter exportador, e de produção de pescado do tipo idêntico ao da Flórida (com as adaptações inerentes às diferenças existentes) mas com o mesmo cuidado na preservação ambiental de alto nível. Há projectos concretos que criariam milhares de postos de trabalho, mas embora se sucedam as reuniões e os encontros em que se insiste na importância do mar mas nunca se fala em Marinha, continuam a faltar decisões.

 

Exactamente o contrário do que aconteceu com D. João II que nada escreveu mas em 20 anos colocou Portugal como a primeira potência marítima mundial.

 

Aliás passa-se o mesmo com o Sotavento Algarvio, com o Alqueva e outros mais desaproveitamentos certamente menores mas sempre importantes para quem vive lá.

 

Portugal com Marinha é um estado central (vide mapa do Atlântico),

 

Portugal sem Marinha é um estado periférico (vide mapa da Europa)

 

Para Portugal o mar sem Marinha não é mais do que paisagem

 

Estamos em plena campanha eleitoral: será que alguém se vai lembrar de agitar estas oportunidades, a começar pela comunicação social que tão mal tem tratado a nossa Marinha (entenda-se composta pela Armada e as Marinhas Comercial, de Pesca e de Recreio)?

 

Lisboa, 22 de Março de 2015

Eng. J.C. Gonçalves Viana José Carlos Gonçalves Viana

VULCANO

 

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Em apoio a algumas curtas mas certeiras análises de Vasco Pulido Valente, que sempre encantam pelo sabor epigramático das suas definições, este artigo de Teresa de Sousa (Público, 19/3/15), artigo sério, de aluna aplicada, que nos alerta para a eminência de um conflito entre as forças de leste e as de oeste, caso a Grécia saia do Euro e procure o seu Padrinho do leste, esgotados os apoios do seu Padrinho do oeste, que parece não aceitar mais as árias das suas artimanhas para protelar o cumprimento das suas promessas de pagamento. Escudados com o exemplo da digna Penélope, que desfazia de noite o manto que fabricava de dia, para não se comprometer com nenhum pretendente, os representantes do governo grego assim vão jogando às escondidas, entalados em compromissos que não pensam assumir, dando uma laçada e logo a desfazendo. ratos esquivando-se para outros terrenos onde poderão roer até ver.

 

Diz-se que Putin esteve desaparecido. Quem sabe se para combinar melhor com Tsipras os próximos passos da futura aliança salvadora da Grécia e ateadora da destruição no mundo para cá dos Urais?

 

Creio que os representantes do povo grego se não ralarão muito com isso, brincando também com o seu fogo próprio, Hefaísto empunhando as suas armas, no fulgor fátuo do fogo de que ele é o deus!

 

A Europa brinca com o fogo?

Teresa de Sousa.png Teresa de Sousa

 

  1. Jogo de poker? Berlim faz bluff? Ou é Atenas? As respostas ainda estão à espera de alguns esclarecimentos adicionais.

 

A primeira, que diz respeito a Berlim, é fundamental. Angela Merkel entregou a gestão da crise grega ao seu ministro das Finanças, através do Eurogrupo. Não quer a Grécia na agenda oficial da cimeira que hoje começa em Bruxelas, mas parece estar disposta a falar com o seu homólogo grego, Alexis Tsipras, à margem da reunião, por forte insistência deste último, e na companhia do Presidente francês e dos presidentes da Comissão e do BCE. Antes tinha confirmado que receberia o seu homólogo grego na segunda-feira em Berlim. Reserva totalmente o jogo. Entretanto, Wolfgang Schäuble eleva a parada, aproximando-se de um ponto de não retorno. Não é apenas a inflexibilidade quanto às reformas. O ministro voltou a colocar o cenário da saída do euro em cima da mesa e acrescentou-lhe outro, ainda mais preocupante: o chamado Grexident (a Grécia pode entrar em default por acidente, tornando a sua saída irreversível).

 

As interpretações do seu jogo não são unânimes. Para alguns analistas, trata-se de exercer a pressão máxima sobre Atenas para que mantenha os compromissos com as reformas e as metas definidas pelos credores. Para outros, Berlim chegou à conclusão de que uma saída da Grécia não teria um custo demasiado elevado, como teria tido em 2010, graças à menor exposição da banca europeia à dívida grega e à panóplia de novos instrumentos que a zona euro entretanto criou para limitar um contágio. Muitos governos europeus discordam, como discorda totalmente a Comissão Europeia. Aceitam-se apostas

 

  1. Do outro lado, surgem sinais contraditórios que dificultam o entendimento sobre o que tenciona fazer o governo grego. O Syriza encontra-se na posição “insustentável” de ter de “adiar” as promessas que fez aos gregos nas eleições de Janeiro. Calculou mal os apoios europeus e avaliou ainda pior a sua capacidade de pressão sobre Berlim, convencido que o risco de saída assustaria toda a gente. A posição de Alexis Tsipras é extremamente difícil. Continua a insistir que a Grécia não se deixará chantagear. Mas, ao mesmo tempo, move-se quase desesperadamente para encontrar uma solução, indo ao ponto de avisar que os cofres gregos estão perigosamente vazios. Aparentemente, Atenas tem uma escolha difícil: ou paga a dívida que vence este mês ou as pensões e os salários da Função Pública. Nesta situação, Tsipras tem de calcular muito bem os passos que dá sob pena de realizar a profecia da saída “acidental” de Schäuble. Por enquanto, continua a jogar com um pau de dois bicos. No dia em que a chanceler aceitou recebê-lo em Berlim no dia 23, o Governo grego anunciou a sua deslocação a Moscovo no dia 8 de Abril. É, mais uma vez, uma jogada arriscada que surge numa altura em que o efeito “Varoufakis” já não faz rir ninguém e o ar cordato de bom rapaz que Tsipras exibe em Bruxelas também já não conta para muito. Ontem, os únicos aliados de que dispõe, Juncker e Pierre Moscovici, o comissário responsável pelos assuntos económicos e monetários, revelaram o seu desânimo quanto às negociações, aumentando também eles a pressão sobre Atenas.
  2. Se era preciso mais algum sinal de que a questão grega envolve riscos enorme, mesmo que de outra natureza, ele veio de Washington. O Presidente Obama tem pressionado os responsáveis europeus para que resolvam rapidamente e a bem o problema grego. Decidiu enviar a Atenas Vitoria Nuland, subsecretária de Estado para a Europa e a Eurásia, para avaliar in loco a situação. Para Washington, a questão é fundamentalmente geopolítica. Deixada à sua sorte, a Grécia poderia inclinar-se cada vez mais para Moscovo, quebrando os laços com o Ocidente que a União Europeia garante. “A Rússia tem um grande interesse em ver a crise grega agravar-se”, diz ao Guardian Dimitris Keridis, professor de ciência política na Universidade de Atenas. “Precisamente porque [uma saída] afectaria a zona euro, enfraqueceria a Europa e afastaria a Grécia do Ocidente”. O diário britânico lembra que poucos sítios são tão importantes na região como a ilha de Creta, “onde estão instaladas capacidades de comando e controlo e apoio logístico aos Estados Unidos e à NATO”. “Se a Grécia saísse, a Turquia poderia ir a seguir”.

 

Pelo menos publicamente, esta preocupação não parece incomodar os europeus, mesmo se a questão mais séria que Merkel quer discutir no Conselho Europeu seja a relação com a Rússia. Há, todavia, entre os europeus outro debate que é mantido quase em surdina e que diz respeito a um outro contágio, mas de natureza política. Muita gente defende que é preciso mostrar que o Syriza acabará por fracassar no seu objectivo de mudar as regras do jogo. O cenário contrário seria uma oferta ao Podemos e ao Cidadãos em Espanha, dando aos movimentos populistas mais um bom argumento para conquistar votos.

 

O problema é que há coisas “impossíveis” que rapidamente se tornam possíveis. Já ninguém fala da Crimeia, ocupada e anexada pela Rússia, porque uma coisa impossível aconteceu. A saída “impossível” da Grécia pode rapidamente tornar-se possível. Claramente, a Europa não está a conseguir definir aquilo que é o seu interesse fundamental, que permita ver os vários desafios que enfrenta num contexto global. Também não se espera que haja esse debate no Conselho Europeu. As decisões tomam-se cada vez mais à margem das cimeiras por um núcleo reduzido de protagonistas. É também por isso que os extremos ganham força política.

Berta Brás.jpg Berta Brás

AS MANIFESTAÇÕES ANTI-GOVERNO

 

 

No passado dia 15 do corrente, a manifestação foi um sucesso, mas quase virava desastre, quando um bando, composto de uns 20 – vinte – gorilas, machos e fêmeas, se preparava para a baderna, levando nas mochilas “soco inglês”, porretes, bombas caseiras, rojões e outras meiguices. Com a graça de Deus a Polícia viu a tempo e enjaulou a gorilada na Delegacia (não tinha homem, nem mulher com menos de 90 a 100 quilos e músculos académicos). Até hoje, uma semana já passada, não se sabe se ainda estão no “bem bom” ou cá fora a preparar a próxima investida.

 

Dizem que uns quatro milhões foram às ruas dizer à madama dona presidenta que isto está uma grande m***, a roubalheira outra m***, que a madama sabia SEMPRE de tudo, que o desgoverno está para além de desmoralizado, etc.

 

Tudo pacífico, incluindo famílias que levaram até filhos pequenos para que aprendam desde crianças a usar do seu direito de cidadania. Beleza.

 

No dia seguinte a palhaçada foi outra! Primeiro a opinião duns ministrecos engasgados a dizerem que boa tinha sido a primeira – a favor da madama e contra a corrupção – que em todo o país não deve ter juntado nem quatrocentos mil (onde os jornalistas encontraram pelo menos três imigrantes ilegais, africanos, que nem português falam e a quem pagaram R$ 30, e deram uma camiseta para aumentar a farra!).

 

Uma chalaça dos ministrecos e da madama, que parece não entender porque, com 84% da população a dizer que o desgoverno dela é péssimo, não vai de férias... permanentes.

 

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Mas o que mais gozo veio emprestar a estas manifestações foram as declarações do Sr. Bresser Pereira, advogado, master em não sei o quê, com um caricato e desastroso currículo ao passar, em 1987, pelo ministério da Fazenda, quando, levianamente afirmou que a manifestação anti governo foi das “elites”. Que delícia. Eu que recebo de aposentadoria o equivalente a 1,5 salários mínimos –hoje menos de US$ 480, por mês, por ter participado na manifestação, fui incluído no grupo das elites do Brasil!

 

Sinto-me profundamente lisonjeado e aguardo só um convite para ingressar nos quadros directivos da Petrobrás, Banco do Brasil ou Caixa Económica Federal, lugares onde as bolsas estão mais abertas... às elites. Às elites dele.

 

Assim como eu, centenas de milhares ou milhões de outros devem estar sonhando com o elitismo a que foram promovidos.

 

Para melhor nos situarmos, um pouco da história do glorioso Sr. Bresser Pereira (Wikipédia):

 

Em Abril de 1987, em meio à crise provocada pelo fracasso do Plano Cruzado (um plano além de desastroso, idiota), e com a inflação em alta, Luiz Carlos Bresser Pereira assumiu o Ministério da Fazenda do Governo José Sarney.

 

Um mês após a sua posse, a inflação atingiu o índice de 23,21%. O grande problema era o défice público, pelo qual o governo gastava mais do que arrecadava, sendo que nos primeiros quatro meses de 1987, já se havia acumulado um défice projectado de 7,2% do PIB. Então, em Junho de 1987, foi apresentado um plano económico de emergência, o Plano Bresser, onde se instituiu o congelamento dos preços, dos aluguéis, dos salários e a URP (Unidade de Referência de Preços) como referência monetária para o reajuste de preços e salários.

 

Com o intuito de diminuir o défice público algumas medidas foram tomadas, tais como: desactivar o gatilho salarial, aumentar tributos, eliminar o subsídio do trigo e adiar as obras de grande porte já planejadas, entre elas o trem-bala entre São Paulo e Rio, a Ferrovia Norte-Sul (obras que NUNCA se concluíram) e o polo-petroquímico do Rio de Janeiro. As negociações com o FMI foram retomadas, ocorrendo a suspensão da moratória. Mesmo com todas essas medidas a inflação atingiu o índice alarmante de 366% no acumulado dos 12 meses de 1987.

 

É evidente que este Plano foi outro desastre!

 

No seu livro “Pactos Políticos” escreveu também: “Com a extinção do AI-5, em 3l de Dezembro de 1978, o país dava um grande passo no sentido da redemocratização. Esse passo fora uma clara conquista da sociedade civil, e dentro desta, particularmente da classe dominante, a burguesia, que desde o pacote de Abril de 1977, abandonara finalmente a postura autoritária e optara pela redemocratização do país”.

 

Nesse tempo Bresser Pereira era Administrador do Grupo Pão de Açúcar, um dos mais fortes do país. Não seria ele da elite burguesa dominante?

 

E continua no citado livro: “Quem é intrinsecamente autoritária é a fracção mercantil (especulativa e latifundiária) da burguesia brasileira, que sempre dependeu dos mecanismos de acumulação primitiva para apropriar-se do excedente económico”.

 

Fracção mercantil, especulativa e fundiária” em que ele colaborava, no comando.

 

Sr. Bresser Pereira: o senhor voltou ainda a ser ministro, presidente do Banco do Estado de São Paulo e outra mixarias, e eu é que sou das elites?

 

Dá aulas nos EUA e em Paris. Já contou aos alunos a desgraça que foram as suas experiências como governante? Será que terá a hombridade de lhes contar todas estas bobagens?

 

Tenha dó, e respeite a opinião dos outros, mesmo que sejam dessas tais elites de salário mínimo.

 

22/03/2015

 

Francisco Gomes de Amorim

Francisco Gomes de Amorim

DITOS ANTIGOS

 

 

Basta já termos alguns anos para nos lembrarmos dos antigos dizerem que Fulano ou Beltrano estava muito doente, que «tinha a espinhela descaída».

 

Sempre me intrigou tal expressão e foi debalde que perguntei e gente antiga mais ou menos culta ao que se referia tal moléstia. A primeira vez que ouvi a expressão foi ao médico que assistia aos meus Avós.

 

Para grande alívio do meu Avô que julgava estar com uma insuficiência coronária a que então se chamava «angina de peito», o médico disse-lhe que não era isso que ele tinha, que sossegasse, que talvez fosse a «espinhela descaída». Bastava ir ao hospital fazer uma radiografia e ficava-se logo a saber se era isso ou não. Mas que angina de peito não era pois o electrocardiograma não enganava.

 

Pela radiografia se ficou a saber que também não era a espinhela que o incomodava e... já esqueci a conclusão do diagnóstico e tratamento sequente mas ele acabou por morrer muitos anos mais tarde duma causa para que ainda hoje, passados 50 anos, não há cura: idade muito avançada.

 

E volta que não volta, lá ouvia eu referências à famosa «espinhela descaída». Neste sisma andei quase meio século até que há dias numa conversa de esplanada no meu clube veio o tema à baila e, mais uma vez, nem cultos nem remediados souberam responder. Mas uma das presentes era uma ilustre investigadora de ciências farmacêuticas cuja curiosidade se deve ter sentido “picada” e, vai daí, pôs-se à procura da solução do mistério.

 

Passados uns dias estava eu em casa a estudar outros assuntos na Internet e eis senão quando noto que tinha uma mensagem nova na caixa de correio. Fui ver e... a neve não caía do azul-cinzento do Céu, nem branca e leve nem branca e fria... Era, sim, uma mensagem da minha amiga farmacêutica que me esclareceu definitivamente sobre o significado da expressão misteriosa.

 

Então, assim reza a Wikipedia em http://pt.wikipedia.org/wiki/Espinhela que cito sem transcrever na íntegra para aguçar o interesse de quem quiser saber mais:

 

  • Espinhela descaída é a designação popular de uma doença caracterizada por forte dor na boca do estômago, nas costas e pernas, além de um cansaço anormal que acomete o indivíduo ao submeter-se a esforço físico. Segundo a tradição popular, a espinhela é um osso pequeno, flexível, parecendo um nervo, que se encontra no meio do peito, entre o coração e o estômago e que pode curvar para dentro.

 

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 Mais objectivamente, trata-se da ossificação do apêndice xifóide, cartilagem no extremo inferior do externo, que desse modo perde a flexibilidade e passa a interferir com os órgãos próximos – estômago, diafragma, fígado, pâncreas – causando incómodos como os referidos, ou seja, gastralgias, vómitos, perturbações respiratórias, pancreáticas e hepáticas.

 

Da terapêutica moderna nada refere a dita enciclopédia mas do receituário antigo faziam parte certas rezas que se dizia serem muito eficazes.

 

 

Espinhela descaída, portas para o mar;

Arcas espinhelas, em teu lugar.

Assim como Cristo, Senhor Nosso andou,

Pelo mundo arcas espinhelas levantou.

 

Mas havia quem se sentisse melhor com estoutra:

 

Espinhela descaída, ventre derrubado,

Eu te ergo, eu te curo, eu te saro.

Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo,

Da espinhela descaída estás curado.

 

E os exemplos são tantos que seria fastidioso transcrevê-los. De qualquer modo, se quem me lê sentir algum daqueles sintomas, sugiro que procure o médico e não o exorcista. Posso garantir de fonte segura que não foi com rezas que o meu Avô – uma das pessoas mais eruditas que alguma vez conheci – se curou mas sim e apenas com o apropriado tratamento médico.

 

 

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Henrique Salles da Fonseca

(em Hoi An, Vietname, Novembro de 2014)

COLISEU

 

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Entre os nomes dos recreantes do Coliseu dos Recreios, citados por Alberto Gonçalves, na sua Crónica de 22/3/15 – Agitação Social - que ali foram para se exprimirem e exibirem as suas competências, em função de uma causa comum – desfeitearem o Governo para uma possível substituição por eles próprios - encontro um nome – Carlos Mendes – que tenho visto num programa musical de António Victorino de AlmeidaPianíssimo - intercalando umas dicas que pretendem ser cultas, e não passam de mastigações snobes sobre arte, acompanhado de uma senhora de idade no papel de pateta ignorante, recebendo as interpelações trocistas do seu cicerone, ignorante farfalhudo que nada explica, muito à maneira portuguesa, pretendendo ser engraçada e sendo apenas de uma gesticulação e elocução reles e atrevida. Não compreendo como se pôde macular de sketches grotescos os programas de um maestro e compositor de valor, nas deambulações acompanhadas que faz às cidades dos grandes compositores austríacos ou outros, contando da sua arte, dos seus destinos, das suas biografias e não raro exemplificando os seus ensinamentos com breves concertos demonstrativos ou mesmo com os magníficos concertos dados por uma excelente pianista austríaca. Se tal esquema programático partiu do próprio maestro português, que todos vêem como folgazão, parece-me um erro grave, que ofende a arte e os espectadores que não compreendem a ordinarice da segunda deambulação - a de Carlos Mendes e da sua acompanhante “doméstica” – aviltante e burlesca, sem respeito nem graça, não sei se para o compositor se elevar aos olhos do público, pelo contraste, se para rebaixar o próprio público português, na mistura indiferente de bom gosto e de ausência dele. Não me admira, contudo, que seja mais uma graça deste homem de valor mas ressabiado, a quem, nos idos da revolução de Abril, ouvi explicar que o hino nacional devia ser substituído, o que me chocou muito na altura, apesar de o meu pai lhe seguir religiosamente os programas de então, também itinerantes e de bengala, e ainda sem Carlos Mendes.

 

Troça, sim, merecida, é a do texto de Alberto Gonçalves a respeito de mais uma das reuniões feitas pela esquerda, no Coliseu dos Recreios, em demonstração de que o país não dorme, atento aos desmandos, com o pensamento nos que sofrem e instigando-os no sentido de revoltas que definitivamente apeiem o Governo. E aponta as figuras salientes dos participantes, que lá foram discursar ou recitar poemas ou cantar tristes baladas ou outros cânticos condizentes com a seriedade dos protestos, nos trocadilhos do mais baixo nível como esse do “Não TAP os olhos”, na mediocridade de doestos há muito repetidos, instigando ao ódio, numa prova de falso amor.

 

Riamos com Alberto Gonçalves, não só no artigo sobre a consciência cívica dos portugueses, mas nos seguintes, sobre a participação nas claques ou sobre a vasta história do mundo da esquerda com a respectiva ambição da nossa:

 

Agitação social

Alberto Gonçalves.png

 22 Março 2015

 

Exagera-se muito quando se acusa os portugueses de falta de consciência cívica. Só esta semana houve três admiráveis exemplos da nossa apetência para colocar o dedo na ferida, pôr os pontos nos is e repetir clichés. O primeiro foi o Congresso da Cidadania, Ruptura e Utopia, organizado pela Associação 25 de Abril, para pensar o estado do país. Naturalmente, pensou-se que o país vai mal. Entre os participantes, brilharam nomes como Marinho e Pinto (é um único indivíduo), Sampaio da Nóvoa (autodesignado "presidenciável"), o Sr. César dos Açores, o penteado de Paulo Morais e aquele rapaz do partido Livre. Melhor é difícil. Mas não impossível: o tal Dr. Nóvoa confessou dever a Abril tudo o que é (?) e declarou chegado "o tempo da coragem e acção". Garcia Pereira, aplaudido com entusiasmo, mostrou-se contra a prisão de José Sócrates. E Vasco Lourenço, promotor da coisa, exigiu a "autoridade moral de quem nos dirige" e prometeu pela enésima ocasião nova insurgência, armada ou não. Em suma, ou o povo desata a votar nas sugestões deixadas pelo Congresso da Cidadania, Ruptura e Etc., ou o povo será endireitado à força. Se a democracia não aprendeu os democráticos valores de Abril, a democracia precisa assaz compreensivelmente de uma lição.

 

O segundo exemplo de indignação justa prende-se com o movimento Não Tap os Olhos, trocadilho que diz tudo e que só por si merecia um prémio de criatividade. O movimento juntou no Coliseu dos Recreios artistas que se opõem à privatização da companhia aérea. Uma fadista explicou que a TAP não pode ser privatizada porque é um "valor de bandeira". Um fadista esclareceu que a TAP não pode ser privatizada porque um cunhado dele trabalhou lá. Carlos Mendes, Jorge Palma e Sérgio Godinho desfilaram sucessos. Maria do Céu Guerra cometeu a leitura de um poema. António-Pedro Vasconcelos falou em "delapidação do património", ficando por apurar se se referia ao património da TAP ou ao dos contribuintes que a financiam indirectamente e ao dos passageiros que directamente pagam várias vezes o preço de um bilhete low cost. Certo é que cabe a cada português assegurar que os artistas citados não descem à ignomínia de viajar em empresas estrangeiras. Caso contrário, os artistas juntam-se aos restantes e hipotéticos 75 mil subscritores de uma petição à AR e, de modo a provar que não brincam com o dinheiro alheio, compram a TAP só para eles.

 

Porém, o maior exemplo de levantamento popular e espontâneo, até pela grandeza da causa, é o menos noticiado. Falo evidentemente do Movimento Cívico José Sócrates, Sempre, com vírgula e tudo. O MCJS,S foi fundado por um reformado da PSP, uma funcionária autárquica, uma antiga professora e o inevitável empresário da Covilhã, cujos filhos andaram, julgo que de livre vontade, ao colo do ex-primeiro-ministro. O grupo convenceu-se de que Sócrates é um "preso político", encarcerado por um "plano da direita" e mantido fechado por "forças ocultas". Nem de propósito, respondem com um hino de apoio que inclui versos tão belos quanto: "Liberdade não morre/Nem silêncio pesado/De um povo a entristecer/Por te saber tão magoado".

Afinal, sob as grilhetas da troika e a opressão reaccionária, Portugal agita-se. E só um desmancha-prazeres diria que, para isto, mais valia estar quieto.

 

Domingo, 15 de Março

Claques

Ao comentar os comentários de um comentador da bola, o treinador do Porto garantiu que, "se fosse português, estaria preocupado, porque esse senhor foi ministro". Não conheço as circunstâncias de Espanha e, evidentemente, o Sr. Lopetegui não conhece o nosso país, já que inúmeros sujeitos que andam pelas televisões e pela imprensa a passear o estatuto de adeptos fanáticos foram ou são ministros, secretários de Estado, deputados, juízes, advogados, médicos, etc. Todos acham normalíssimo acumular uma profissão de alegada responsabilidade com um discurso próprio dos Super Dragões, dos No Name Boys ou, em prol da equidade, da Juve Leo. E nenhum português se preocupa.

 

Sexta-feira, 20 de Março

O poder da fé

Se não contarmos com a Revolução Francesa, ou os joviais tempos do Terror, no princípio foi a URSS. Depois, todo o Leste Europeu. De seguida, Cuba, China e outros pedacinhos da Ásia. Nos anos 1960 e 1970, eram os movimentos de "libertação" africanos. Mais recentemente, a Venezuela e o Brasil. Agora, a Grécia. A extrema-esquerda passa a vida com esperanças de que desta vez é que o comunismo vai ser um sucesso. E é sempre um fracasso catastrófico, por regra coroado com genocídios e, nos casos moderados, com ópera bufa e abundante miséria. Mas se as recorrentes derrotas do comunismo no confronto com a realidade teriam o efeito de convencer pessoas normais de que a realidade talvez esteja certa, a extrema-esquerda não desanima à primeira. Nem à trigésima, de facto. Neste exacto momento, as atenções da rapaziada começam a voltar-se da comédia grega para Espanha, à espera do Podemos. Então não haviam de poder?

 

Berta Brás 2.jpg Berta Brás

AFECTOS

No aniversário da elevação de S. Mamede Infesta a Cidade

 

antiga-s-mamede-infesta.jpg

 

Corre o tempo sem cuidado

Da infância ao fim da vida

Corre o tempo e a idade

Acompanhando a corrida

Transforma tudo em redor;

Muita vez transforma a cor

E nela os seus cambiantes

Que ora escuros ou claros

Vão-nos dando a certeza

Que viver é de verdade

Dói, afaga e amarfanha

E a nossa vida, tão curta

Às vezes é tão tamanha…

Mas outras é tão risonha

Que a gente esquece e sonha

Que é dona da felicidade.

Assim também é a terra

Que por berço nos foi dada

Pequena ou grande que seja

Com muito ou pouco amor

É nossa por toda a vida;

E ‘inda que ela se reparta

Por muitas terras além

É sempre ela que é mãe.

E se mais não for memória

De valia, de menção

Há sempre algo de ternura

Quando a rezamos, baixinho

Na boca e no coração.

Cidade,

Aldeia, que importa?

Se a tivermos como nossa

E se um dia a escrevermos

Dentro do sonho em

Azul

Que nos ficou na saudade

É a coisa mais bonita

Vista brocados ou chita

Seja

Aldeia ou

Cidade!

Corre o tempo e é tão depressa

Que a vida passa, que finda;

Não importa se foi linda

No tempo que se viveu

Importa sim o que fica

Nas pegadas que deixamos

E todos quantos amamos

Nesta nossa caminhada

Tal como importa a raiz

Da nossa vida, matriz

Na terra que nos foi dada;

E ‘inda que ela se reparta

Por muitas terras além

É sempre ela que é

Mãe.

E se mais não for memória

De valia, de menção

Faz parte da nossa estória

Quando a rezamos baixinho

Na boca e no coração…

Cidade,

Aldeia, que importa?

Se a temos como nossa

E se um dia a escrevemos

Dentro do sonho em

Azul

Que nos ficou na saudade

É a coisa mais bonita

Vista brocados ou chita

Seja Aldeia ou Cidade!...

Maria Mamede.png Maria Mamede

AINDA O LIVRO DE JOÃO MAGUEIJO

 

bifes mal passados, magueijo.jpg Nunca fui a Inglaterra e poucos ingleses conheci. Conheci o John, que vivia na África do Sul, com a Carol, um casal de uma educação modelar a quem acolhemos na nossa casa numa altura em que houve cheias em Lourenço Marques. Como tinham vindo a férias em roulotte, os amigos de estúrdia – o Rui, o Raposo, não sei se o Knopfli também – revezaram-se para os ajudar durante as férias, alagadas por vários dias. Discretos, educados, de uma alegria feita de contenção e sensatez, diferente da estridência que os amigos portugueses punham nas suas graças de boémia galhofeira, embora generosa e acolhedora. Um casal exteriormente belo, correspondendo a uma beleza interior, como me pareceram mais tarde os pais da menina inglesa Maddie, passeando a sua tragédia de mãos dadas e forma aprumada e tensa, a impor ao mundo a sua dor real, suscitando no mundo uma real piedade. E todavia, não ignorei que esse mundo lhe proporcionou bons ganhos, anualmente, quando se despoletava nova arremetida em busca do mistério do desaparecimento de Maddie, e voltava a encontrar esses pais sempre belos, sempre unidos, sempre trágicos e contidos, com a televisão acompanhando-os, e creio que amigos britânicos poderosos também, castigando o polícia português – que ousara desmistificar o mito, ao alvitrar diferente solução para o caso – enviando os seus farejadores ingleses – homens e cães – num desprezo superior pela polícia portuguesa ineficiente. Lembrei novamente o mediático caso, que me fez suspeitar de que talvez Magueijo não falseasse a verdade na sua crítica acerba, estranhando, contudo, que cuspisse assim na mão de quem lhe estendera os braços para a ciência e para o emprego, e que, apesar disso, o continuava a aceitar desportivamente.

 

Também Garrett descreve os ingleses, ou antes, as misses inglesas das paixões de Carlos anteriores ao enamoramento com Joaninha. E Eça, nas “Cartas da Inglaterra”, nos traços de cupidez e domínio imperial britânicos, e em que o “Times” surge como exemplo da inflexibilidade e convencionalismo vitorianos por vezes comprometidos com uma tal partida alheia maliciosa, manchando-lhe a reputação. Ou no próprio “Os Maias”, o exemplo de um Craft de carácter e sensibilidade superiores, no tipicismo da sua fleuma contrastando com a vibratilidade espirituosa e exaltada de Ega ou com a pose pedante e vazia dos Gouvarinhos oficiais portugueses. Ou as figuras de “Uma família Inglesa”, de Júlio Dinis, a impecável e extremosa miss Jenny, o seu convencional e rígido pai, Mr. Whitestone, contrastando com o leviano mas sensível irmão e filho Carlos, que o amor regenera romanescamente para o trabalho e a responsabilidade familiar. Uma sociedade de bons princípios burgueses, que Júlio Dinis colheu nas leituras de Jane Austen, das irmãs Brontë, e que retomamos nas velhas misses Marples e outras personagens da Agatha Christie, quer dos livros quer do cinema, bem como em tantas figuras do cinema britânico, que nos fizeram estimar ou repelir a rígida sociedade aristocrática inglesa, que Óscar Wilde – sobretudo – é perito a descrever, quer nos comportamentos quer através das falas de personagens, exímias na exploração do paradoxo e da sátira a essa própria aristocracia a que pertence. Num plano mais realista, percorremos com Charles Dickens não só os sombrios caminhos da nevoenta Inglaterra – que os filmes sobre Sherlock Holmes igualmente mostram, bem como os contos fantásticos de Edgar Poë – como certos antros de miséria material e moral, perversa ou burlesca das classes mais desprotegidas.

 

Contudo, a “loira Albion” surge no meu espírito sempre na sua altivez e riqueza interior que a nós próprios, portugueses, originou uma família de Avis marcada pelo génio, pela mão materna de D. Filipa de Lencastre, “ínclita geração” de quem dependeu a descoberta do mundo para lá dos mares, mundo que, de resto, os ingleses, mais do que os outros povos, avassalariam, com a sua cultura, a sua língua, a sua civilização, colhendo nele os frutos da sua ambição poderosa e organizada, e deixando nele as marcas civilizacionais específicas, derrotados embora pelos protestos dos pacíficos Gandhis que não aceitaram a humilhação.

 

Eis os motivos da minha discordância com o livro “Bifes mal passados”, de João Magueijo. Talvez se eu tivesse que lá viver, também sentiria, na pele rebelde, certa zanga explícita nesse livro, contra a arrogância da discriminação social, em que são peritas as classes mais aristocráticas, tema igualmente das ironias de Eça. Mas conheço pessoas que lá viveram ou vivem e se deram muito bem. A minha irmã é das que lhes tem aversão, e concordo que ela sabe muito.

Berta Brás 2.jpg Berta Brás

 

 

ROUPA DE FRANCÊS

 

Louis Henri Loison (1771- 1816)

General francês que participou na primeira invasão francesa de Portugal sob o comando de Junot, Louis Henri Loison foi autor de numerosas pilhagens e de inúmeros actos violentos que lhe valeram a fama de homem cruel. Tendo perdido o braço esquerdo num acidente de caça em França, ficou conhecido em Portugal por o maneta.

Ir para o maneta

Loison tornou-se famoso pela sua crueldade, torturando e matando numerosas pessoas. Ficou no imaginário popular associado à expressão "ir para o maneta", com o significado original de ir para a tortura ou para a morte. Actualmente, a expressão pode significar "dar cabo de alguém ou de alguma coisa", "destruir", "escangalhar-se", "estragar-se", "perder-se e não ter recuperação".

A fama de crueldade valeu a Loison que o povo lhe dedicasse alguns versos:

 

Entre os títeres generais

Entrou um génio altivo

Que ou era o Diabo vivo

Ou tinha os mesmos sinais...  

 

Aos alheios cabedais

Lançava-se como seta,

Namorava branca ou preta,

Toda a idade lhe convinha.

Consigo três Emes tinha:

Manhoso, Mau e Maneta.   

 

Que generais é que devem

Morrer ao som da trombeta?

Os três meninos da ordem:

Jinot, Laborde e Maneta.  

 

O Jinot mai-lo Maneta

Julgam Portugal já seu:

É do demo que os carregue

E também a quem lho deu.

 

Consta que Loison escreveu a Napoleão referindo alguns Padres que lideravam as acções de guerrilha que os portugueses lhe moviam nas serranias nortenhas. Numa dessas cartas ter-se-á manifestado desiludido por não conseguir capturar nenhum desses Padres guerrilheiros para lhes dar o «tratamento» que costumava dar a quem aprisionava.

 

Dessas acções de guerrilha faziam parte emboscadas nos desfiladeiros por que o General tinha que fazer passar as suas tropas sendo frequente deixar mortos e feridos para trás.

 

Na pilhagem que se seguia às vitórias da guerrilha era costume despir os mortos e feridos passando as ditas roupas ao uso dos portugueses. Como é fácil de imaginar, tais indumentárias não estariam no melhor estado de apresentação e daí nasceu a expressão “roupa de francês” como a de má apresentação, de baixo custo ou de propriedade duvidosa.

 

Aqui fica mais um dito antigo.

 

Angkor Wat a cavalo 1.JPG

Henrique Salles da Fonseca

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