Conta-se a história de que Marilyn Monroe teria proposto a Albert Einstein fazerem um filho para que a criança tivesse a beleza dela e a inteligência dele.
Ao que Einstein teria respondido que o perigo seria que a criança nascesse com a inteligência dela e a beleza dele.
Nunca se especulou sobre qual a valsa a cujo embalo esse encontro se faria.
Republicanismo e Terrorismo em Luta contra a própria Descrença
Atentado de Paris – Cultura árabe e sua Ficção em Efervescência
O mal é como o cuco; procura ninhos alheios onde coloca os ovos que outros chocam.
Não nos encontramos num conflito religioso como a república, o cinismo ou a ingenuidade da ‘correcção política’ nos quer fazer entender; trata-se, por um lado, de um confronto de culturas em que uma cultura árabe, através da religião, quer afirmar a sua supremacia geoestratégica contra outras supremacias e mundivisões; trata-se da falência de uma política ocidental de estratégica errada que tem desestabilizado o mundo árabe e as sociedades ocidentais e trata-se por outro lado dos paradigmas da ciência (razão) e da religião (sentimento) falidos que se confrontam num estado secular vazio e desautorizado.
Estados malcomportados recusam-se a encarar as consequências das suas ideologias, políticas económicas e realidades sociais por elas criadas, pensando que os problemas com que se debatem se podem iludir e adiar, bastando para isso qualificar o efervescer da sociedade como conflito religioso ou como uma questão de estrangeiros, extremistas e racistas descontentes. Isto não passa de uma impostura fraudulenta, de que a república secular se serve, para jacobinamente desacreditar a religião dos seus cidadãos para melhor poder continuar a desobrigar-se num modo de vida ad hoc.
O cerrar fileiras da classe política europeia e o sucesso da “marcha republicana” de Paris, não nos pode iludir do facto que os modelos da religião, da ciência e da política falharam, encontrando-se a sociedade no início de um caos de guerrilha e de asilo interior. Profanaram o templo do povo e agora andam à procura dos cacos!
O Ocidente perdeu o sentido, não me refiro ao religioso; perdeu o seu tecto metafísico, abusou de si e dos outros; agora colhe os frutos do que plantou.
A alienação ideológica, religiosa, secular, científica e política, em que se tem vivido, demole todos os padrões acabando na autodestruição. Na falta de sentido e visão global da vida, resta a guerrilha da opinião em nome de não importa o quê. Uns combatem em nome da república contra Deus, outros em nome de Deus contra a república, cada qual atrás da sua bandeira, sem contar com o próximo. Chega a ter-se a impressão que um estado ou uma religião que prescindisse de combater perderia os seus heróis e os seus santos/mártires.
Numa sociedade moderna stressada, tudo passa a ser soldado num campo de batalha em que todos se provocam; os caricaturistas lutam pela liberdade, os islamistas combatem pelo seu Maomé e os tolerantes lutam contra a intolerância dos intolerantes. Na nossa luta pelas verdades republicanas tudo se julga bom sem notar que justifica a luta pela luta e procura o sentido nela.
Se se observam as coisas mais de perto, pode chegar-se à conclusão que o combate é o mesmo e tem a mesma fonte: islamistas ecaricaturistas combatem a própria incredulidade. Os radicais da república, da liberdade ou da religião têm problemas de balance, faltando, na sua personalidade, o equilíbrio entre sentimento e razão, passando assim a um estado de recalcamento, nuns da religiosidade (afecto), noutros da racionalidade. E como racionalidade e afectividade não se juntam o homem combate-se a si mesmo.
Na Europa o povo sente-se inseguro; não se sente levada a sério pela classe política e tem medo de falar espontaneamente porque o seu falar pode não corresponder ao pensar politicamente correcto que determina o que é opinião boa ou opinião má e isto tem consequências drásticas imediatas no seu ambiente de convívio, porque, de repente, pode ser deitado ao ostracismo, pelo simples facto de pensar diferente da manada ou dos seus diferentes pastoreios. O pensar politicamente correcto, tem medo do pensamento diferenciado e, para manter a sua hegemonia, logo coloca uma opinião não conforme, na esquina ou cena dos extremistas de direita ou de esquerda. Isto acontece na escola, entre colegas docentes, entre amigos ou conhecidos e em meios sociais como Facebook, etc. Deste modo se evita uma maneira de estar racional e humana porque evita o pensamento logo à partida e impede a prática da tolerância.
Por todo o mundo há incêndios e incendiários mas a sociedade encontra-se à chuva e o busílis é que ninguém sabe onde abrigar-se. O que a sociedade civil critica na sociedade árabe, como a prática do gueto, pratica-o ela mesma, na medida em que cria os seus guetos de opiniões e mentalidades cerradas (partidárias, religiosas, ideológicas) numa sociedade declarada aberta mas com carris ideológicos que determinam o desencontro das pessoas.
Por vezes tem-se a impressão que, na opinião pública, estados laicos se servem do Islão e da religião para segundas intenções. Onde se procuram culpados não se procura solução; ao poder interessa manter as massas distraídas e em filas para que uns se contentem com o ter razão e outros com ter o poder.
A classe política, em muitos sectores, brinca com o fogo, contentando-se com o rumor do ventre da sociedade que se expressa em posições antagónicas de grupos, por vezes direccionados, que se desqualificam uns aos outros e deste modo ilibam os governos de responsabilidades. Além de não saberem lidar com sentimentos só sabem enquadrar a realidade em termos alternativos de sim-não e de ou-ou.
Continua em “O pensamento está de férias em tempos emocionais”
António da Cunha Duarte Justo
Republicanismo e Terrorismo em Luta contra a própria Descrença
Atentado de Paris – Cultura árabe e sua Ficção em Efervescência
O mal é como o cuco; procura ninhos alheios onde coloca os ovos que outros chocam.
Não nos encontramos num conflito religioso como a república, o cinismo ou a ingenuidade da ‘correcção política’ nos quer fazer entender; trata-se, por um lado, de um confronto de culturas em que uma cultura árabe, através da religião, quer afirmar a sua supremacia geoestratégica contra outras supremacias e mundivisões; trata-se da falência de uma política ocidental de estratégica errada que tem desestabilizado o mundo árabe e as sociedades ocidentais e trata-se por outro lado dos paradigmas da ciência (razão) e da religião (sentimento) falidos que se confrontam num estado secular vazio e desautorizado.
Estados malcomportados recusam-se a encarar as consequências das suas ideologias, políticas económicas e realidades sociais por elas criadas, pensando que os problemas com que se debatem se podem iludir e adiar, bastando para isso qualificar o efervescer da sociedade como conflito religioso ou como uma questão de estrangeiros, extremistas e racistas descontentes. Isto não passa de uma impostura fraudulenta, de que a república secular se serve, para jacobinamente desacreditar a religião dos seus cidadãos para melhor poder continuar a desobrigar-se num modo de vida ad hoc.
O cerrar fileiras da classe política europeia e o sucesso da “marcha republicana” de Paris, não nos pode iludir do facto que os modelos da religião, da ciência e da política falharam, encontrando-se a sociedade no início de um caos de guerrilha e de asilo interior. Profanaram o templo do povo e agora andam à procura dos cacos!
O Ocidente perdeu o sentido, não me refiro ao religioso; perdeu o seu tecto metafísico, abusou de si e dos outros; agora colhe os frutos do que plantou.
A alienação ideológica, religiosa, secular, científica e política, em que se tem vivido, demole todos os padrões acabando na autodestruição. Na falta de sentido e visão global da vida, resta a guerrilha da opinião em nome de não importa o quê. Uns combatem em nome da república contra Deus, outros em nome de Deus contra a república, cada qual atrás da sua bandeira, sem contar com o próximo. Chega a ter-se a impressão que um estado ou uma religião que prescindisse de combater perderia os seus heróis e os seus santos/mártires.
Numa sociedade moderna stressada, tudo passa a ser soldado num campo de batalha em que todos se provocam; os caricaturistas lutam pela liberdade, os islamistas combatem pelo seu Maomé e os tolerantes lutam contra a intolerância dos intolerantes. Na nossa luta pelas verdades republicanas tudo se julga bom sem notar que justifica a luta pela luta e procura o sentido nela.
Se se observam as coisas mais de perto, pode chegar-se à conclusão que o combate é o mesmo e tem a mesma fonte: islamistas ecaricaturistas combatem a própria incredulidade. Os radicais da república, da liberdade ou da religião têm problemas de balance, faltando, na sua personalidade, o equilíbrio entre sentimento e razão, passando assim a um estado de recalcamento, nuns da religiosidade (afecto), noutros da racionalidade. E como racionalidade e afectividade não se juntam o homem combate-se a si mesmo.
Na Europa o povo sente-se inseguro; não se sente levada a sério pela classe política e tem medo de falar espontaneamente porque o seu falar pode não corresponder ao pensar politicamente correcto que determina o que é opinião boa ou opinião má e isto tem consequências drásticas imediatas no seu ambiente de convívio, porque, de repente, pode ser deitado ao ostracismo, pelo simples facto de pensar diferente da manada ou dos seus diferentes pastoreios. O pensar politicamente correcto, tem medo do pensamento diferenciado e, para manter a sua hegemonia, logo coloca uma opinião não conforme, na esquina ou cena dos extremistas de direita ou de esquerda. Isto acontece na escola, entre colegas docentes, entre amigos ou conhecidos e em meios sociais como Facebook, etc. Deste modo se evita uma maneira de estar racional e humana porque evita o pensamento logo à partida e impede a prática da tolerância.
Por todo o mundo há incêndios e incendiários mas a sociedade encontra-se à chuva e o busílis é que ninguém sabe onde abrigar-se. O que a sociedade civil critica na sociedade árabe, como a prática do gueto, pratica-o ela mesma, na medida em que cria os seus guetos de opiniões e mentalidades cerradas (partidárias, religiosas, ideológicas) numa sociedade declarada aberta mas com carris ideológicos que determinam o desencontro das pessoas.
Por vezes tem-se a impressão que, na opinião pública, estados laicos se servem do Islão e da religião para segundas intenções. Onde se procuram culpados não se procura solução; ao poder interessa manter as massas distraídas e em filas para que uns se contentem com o ter razão e outros com ter o poder.
A classe política, em muitos sectores, brinca com o fogo, contentando-se com o rumor do ventre da sociedade que se expressa em posições antagónicas de grupos, por vezes direccionados, que se desqualificam uns aos outros e deste modo ilibam os governos de responsabilidades. Além de não saberem lidar com sentimentos só sabem enquadrar a realidade em termos alternativos de sim-não e de ou-ou.
Continua em “O pensamento está de férias em tempos emocionais”
Corria o ano de 1968 quando decidi passar a usar lentes de contacto em substituição dos óculos (que usava desde os 5 anos de idade) que a cavalo me caíam constantemente para a ponta do nariz.
E a vida correu com a maior naturalidade só voltando a pôr os óculos durante o período da recruta militar não fosse alguma tropelia bulir com as lentes e, portanto, com os olhos. E, já de regresso à vida civil, um saco de viagem deu um tombo e os óculos que estavam lá dentro mal arrumados partiram-se e deitei-os no lixo. Até hoje não voltei a usar óculos a não ser para ler como qualquer ancião.
Até que na semana passada fui à inspecção para renovação da carta de condução e errei uma letra que o médico me mandara ler. Porque o erro não resultava de mau aproveitamento escolar, só uma razão oftalmológica justificava o engano e o médico perguntou-me há quanto tempo eu não ia ao oftalmologista. Ao que muito lhanamente lhe respondi que por certo há mais de 40 anos. Ao médico só não se lhe eriçaram os cabelos porque já estava munido de evidente alopécia mas, cavalheiro, exigiu que lhe prometesse sob palavra de honra que ia brevemente ao oftalmologista.
Saído da inspecção, procurei de imediato cumprir a palavra e fui a uma primeira consulta no início desta semana. E a conclusão é a de que não tenho qualquer doença oftalmológica e que tenho uma córnea muito boa. Não se tratando de matéria tauromáquica, fiquei também a saber que as lentes de contacto que uso há 47 anos (sempre as mesmas) já são fortes de mais para aquilo de que necessito actualmente e essa foi por certo a razão que me levou a não ler a tal letra. Mas se este primeiro exame foi feito com as lentes postas, o próximo deverá decorrer sem elas e com uma semana de visão ao natural.
Estou agora a escrever este texto sem as minhas companheiras de há 47 anos e, pelo que entretanto me foi dito que já não preciso de lentes tão fortes, não voltarei certamente a pô-las. Guardei-as na caixa que, também ela, me acompanhou por todo o mundo e agradeci-lhes o bem que me fizeram durante tanto tempo.
São 10 da noite e acabei agora mesmo de as arrumar na minha mesa-de-cabeceira, ali bem debaixo de olho, em merecida e agradecida reforma. Muito dignas, não são descartáveis, toda a honra lhes é devida.
• Nasci branco, o que me faz passar por racista. • Não voto à esquerda, o que me faz passar por fascista. • Sou heterossexual, o que me faz passar por homofóbico. • Não sou sindicalizado, o que me faz passar por traidor da classe operária e aliado do grande capital. • Sou cristão, o que me faz passar por cão infiel. • Já atingi uma certa idade e estou aposentado, o que me faz passar por velho pendurado nos que estão no activo. • Reflicto no que a imprensa informa, o que me faz passar por reaccionário. • Mantenho a minha identidade e a minha cultura, o que me faz passar por xenófobo. • Gostaria de viver em segurança e de ver os criminosos na prisão, o que me faz passar por membro da PIDE ou da Gestapo. • Acho que todos devem ser remunerados de acordo com o seu próprio mérito, o que me faz passar por anti-social. • Fui educado no sentido do dever, o que me faz passar por carrasco. • Considero que a defesa do meu país é uma responsabilidade de todos os portugueses, o que me faz passar por militarista. • Aprecio o esforço individual, o que me faz passar por um atrasado social. • Resumindo, nasci tarde de mais, o que me faz passar por um autêntico Neandertal.
* * *
Recebido por e-mail, Autor não identificado; traduzido do original francês com adaptação de pormenores e totalmente assumido por
Dois artigos saídos no Público sobre Cavaco Silva: um de Opinião, de Vasco Pulido Valente, de 1/4/13, tendo por título “Voto de não-confiança” e outro de 5/2, sob a rubrica “O respeitinho não é bonito”, intitulado “Cavaco e a filosofia da linguagem”, de João Miguel Tavares.
O primeiro expõe, com conhecimento psicológico (e historiográfico, próprio de quem muito leu de meandros mobilizadores nas decisões dos responsáveis da evolução pátria), um dislate de Cavaco Silva, envolvido nas artimanhas de Ricardo Salgado, ainda à solta, por ter pago alta caução, e procurando todos os argumentos que lhe retirem a si parte da culpa, incriminando os dos meandros habituais da política de acossamento que nos acompanha. Coelho e Portas não se escusarão a integrar mais um exame sobre uma embrulhada que o não será para eles, ainda jovens e suficientemente aptos a defender-se, conscientes do seu trabalho real no país que muitos Salgados enrascaram. Mas Cavaco Silva, vaidoso, ansioso de um protagonismo de meia tigela, “perdeu uma boa ocasião de ficar calado”, aquilo a que, de maneira tosca, se depreende do sério artigo de Vasco Pulido Valente.
Realmente, com as suas justificações entarameladas merece a crítica e o desdém das pessoas de alto gabarito intelectual, os tais da intelligentzia de bom-tom que defende a igualdade, a liberdade, a não exploração, e não perdoam àqueles que, não tendo tanta perspicácia ideológica, permanecem, todavia, de pedra e cal no seu posto, apesar da gritaria em seu redor. Ajudando, julgo, os que se empenham numa governação de esforço sem demagogia, para salvar uma pátria de atropelo.
Recordando outros presidentes, e especialmente o Dr. Mário Soares, cujos discursos se esgotavam na referência à liberdade conquistada, não compreendo, todavia, muito bem a ferocidade de Pulido Valente para com Cavaco Silva, a quem não desculpa a tacanhez intelectual de Presidente, apesar de uma política ministerial que lhe valeu, a seu tempo, um neologismo diferenciador – o cavaquismo – tal como outrora haviam surgido o fontismo, o franquismo, precedidos do eterno sebastianismo. Agora, Presidente sem poder, mas ainda no poder, lembra o leão envelhecido da fábula, sujeito aos coices, dentadas ou cornadas daqueles de que fora rei.
O artigo de João Miguel Tavares é mais esfuziante de graça leve, tomando as declarações ambíguas ou fugidias de Cavaco como forma de brincar com a linguagem e os seus estudos linguísticos que finalmente pôde aplicar, mostrando como se pode ter razão sempre naquilo que se diz ou não se diz de facto, e afirmar, assim, a duplicidade - a esperteza saloia no pensamento de Pulido Valente –do Presidente Cavaco Silva.
O artigo de Vasco Pulido Valente:
Opinião
Voto de não-confiança
01/02/2015
O Dr. Ricardo Salgado resolveu envolver o Presidente da República, o primeiro- ministro e o vice primeiro-ministro na suspeita e obscura falência do banco e do grupo Espírito Santo; e numa carta à comissão parlamentar de inquérito anunciou que tinha falado com os três muito antes do desastre se consumar. A manobra é inteligente. Sozinho e ainda à solta (por uma caução de milhões de euros) Ricardo Salgado precisa de “politizar” as coisas para turvar o caso ou, pelo menos, para reduzir a sua responsabilidade nesta infecta história. A simples revelação de que se encontrou com os mais poderosos representantes do Estado (sem revelar o que disse e o que lhe disseram), insinua uma cumplicidade que provavelmente nunca existiu, mas que, mesmo em hipótese, lhe fornece um saco de justificações.
Para sorte dele, o Dr. Cavaco reagiu com uma declaração embrulhada e comprometedora. Nada o impedia de reconhecer que vira Salgado e de lembrar cordatamente o seu dever de reserva. Com alguma parcimónia e gravidade, encerrava o assunto. Mas Cavaco, que sempre foi vingativo e provinciano, não ficou pela solução mais lógica e acrescentou muito excitado que nunca comentara a situação do BES, tinha citado simplesmente a opinião do Banco de Portugal sobre o BES – o resto era “mentira”. Ora, como o país logo concluiu, o Presidente da República não citaria a opinião do Banco, se não concordasse com ela. E, como o Banco se enganara, isto levou à ruína uns milhares de accionistas e depositantes do BES, que acreditavam na autoridade e no bom senso do dr. Cavaco.
A memória dos portugueses não é famosa e ninguém se lembrou do célebre episódio do “gato por lebre”, que inaugurou a carreira do homem. Só a esquerda, que o odeia com uma intensidade assustadora, ferrou o dente naquela miserável trapalhada e não a deixará tão cedo. E com razão. O Dr. Cavaco exibe a cada passo, até nos mais pequenos pormenores, a sua incapacidade para o cargo em que infelizmente o puseram. Este incidente não é uma gaffe inócua e desculpável, é uma intervenção profunda na vida material do país, agravada por uma fuga desordenada à franqueza e à verdade política. O sr. Presidente da República devia daqui em diante observar um silêncio penitente e total, com o fim meritório de não assanhar a crise que ele consentiu e em parte criou. Não merece a nossa confiança.
O artigo de João Miguel Tavares
Cavaco e a filosofia da linguagem
05/02/2015
Cavaco Silva, a 21 de Julho de 2014, na Coreia do Sul: “O Banco de Portugal tem sido peremptório, categórico, a afirmar que os portugueses podem confiar no Banco Espírito Santo, dado que as folgas de capital são mais do que suficientes para cobrir a exposição que o banco tem à parte não financeira, mesmo na situação mais adversa. E eu, de acordo com a informação que tenho do próprio Banco de Portugal, considero que a actuação do banco e do governador tem sido muito, muito correcta.”
Cavaco Silva, a 30 de Janeiro de 2015: “Eu já reparei que alguns dos senhores, e também alguns políticos, disseram e escreveram que o Presidente da República fez alguma declaração sobre o BES. É mentira. É mentira! Alguns invocam uma declaração que eu fiz na Coreia. Na Coreia, eu fiz três afirmações sobre o Banco de Portugal. E mais nada.”
Ora bem: perante estas duas declarações do senhor Presidente, há quem apressadamente aponte o dedo ao seu carácter esquivo e o acuse de se estar a contradizer em relação ao BES, sobretudo após Ricardo Salgado nos ter informado que se reuniu duas vezes em 2014 com Cavaco Silva, a última das quais a 6 de Maio, escassas três semanas antes do início do famoso aumento de capital do BES. Pessoas mal-intencionadas olham para isto e desconfiam que Cavaco sabe mais do que diz e se está outra vez a fazer passar por sonso.
Eu, pelo contrário, agradeço ao Presidente da República esta magnífica oportunidade para pôr em prática as centenas de horas de filosofia da linguagem que tive de digerir ao longo da universidade, e que nunca me tinham servido para nada. Até agora. Porque, de facto, há aqui um duplo problema de compreensão das palavras do senhor Presidente, certamente causado pelo pouco à-vontade da população portuguesa com a obra de Saussure, Wittgenstein, Austin ou Ricoeur, que há muito nos alerta para os escolhos na relação entre linguagem e realidade.
O primeiro problema do conflito de interpretações Cavaco/povo português é lógico. Efectivamente, da conjugação das frases “O Banco de Portugal disse-me que o BES está porreiro” e “O Banco de Portugal é bestial” não resulta necessariamente a conclusão “O BES está porreiro”, na medida em que existe sempre uma hipótese de o Banco de Portugal poder enganar-se e continuar bestial. O segundo problema é performativo. Por trágico desconhecimento da Teoria dos Actos da Fala de John Austin, o povo confundiu o acto ilocucionário (uma certa ênfase na solidez do BES) com o acto perlocucionário (um convite para continuar a investir no banco e não ir a correr vender as acções). É um erro lamentável. Razão tem Nuno Crato: numa sociedade com tantas fragilidades educativas, não só não vamos a lado algum como corremos o sério risco de nunca compreender o Presidente da República.
A ver se percebem este raciocínio de uma vez por todas. Se um dia se descobrir que o Homem nunca foi à Lua, e os jornalistas pedirem um comentário a Cavaco, ele dirá: “Eu já reparei que alguns dos senhores disseram e escreveram que o Presidente da República fez declarações sobre a ida do Homem à Lua. É mentira. É mentira! Eu nunca disse que o Homem foi à Lua. O que eu disse é que tinha visto na RTP o Homem a ir à Lua. As declarações eram sobre a RTP. Não sobre o Homem, e muito menos sobre a Lua. E mais nada.” Querem saber como alguém raramente se engana e nunca tem dúvidas? É fácil: basta tornar-se um filósofo da linguagem.
Se corrupção INSTITUCIONALIZADA, insegurança e violência urbana e rural disseminadas, ingerência político-administrativa das instituições públicas, que estão esvaziando os serviços públicos de gente compromissada (concursadas) em prol das contratadas (por quem indique), mais baratas para o Governo; se a inferior qualidade pública da educação e da saúde deste país fossem potenciais para o desenvolvimento, não estaríamos na rabeira económica e evolutiva da América do Sul, estaríamos na ponta!
Cidadania vem com a EDUCAÇÃO, como diz o papa Francisco. Cidadania se adquire quando se vai para uma escola que ensina, que não fecha quando os marginais mandam, que respeita seus professores e o direito daqueles que querem aprender, que não tem seus computadores roubados, que não mata seus alunos e mestres. Cidadania se consegue quando o indivíduo tem acesso à justiça, à saúde na hora certa. Cidadania é ter seus direitos e segurança garantidos pelo governo, é não precisar ficar aprisionado em casa por portões de ferro e cercas eléctricas, é poder sair de casa a qualquer hora sem ter medo de ser morto ou assaltado, é poder levar seus filhos e netos à pracinha do bairro sem correr o risco de vê-los atingidos por uma bala perdida. Cidadania é ter orgulho e confiança no carácter de seu povo, é ter liberdade para viver. Mas isso não ocorre, o medo impera e nos cerceia, não temos segurança nas cidades grandes e nem nas pequenas. Bandidos circulam à vontade, matam (gente e gado) na cidade e na roça todos os dias. Os traficantes aliciam nossos filhos nas portas das escolas, os drogados fumam maconha nas nossas portas, invadem as nossas casas, roubam-nos e as autoridades quando chegam, não resolvem nada...
O país está mudando, é verdade, só que para pior. Funcionária pública em vários governos, nunca vi o povo tão desamparado e inseguro. Nunca vi tanta incompetência na condução do país, na formulação e execução das leis, em nome da liberdade... da marginalidade. Não acreditamos nas entidades representativas da governança onde a corrupção prolifera como um câncer metastático. Temos medo da polícia, que devia ser a nossa segurança. Quando conseguimos ser atendidos, não acreditamos nos diagnósticos dos médicos das UPAS ou do SUS. Tenho uma amiga com um problema neurológico grave que, como tantos outros, está numa maca no Pronto Socorro esperando uma vaga no hospital há dias... Se ter direitos no papel , mas não tê-los na realidade do dia a dia, é cidadania , devo estar iludida quando espero mais, muito mais do governo deste país.
Eu acredito na vontade de um povo que quer evoluir, quando ele tem a consciência que crescer exige trabalho e estudo sérios. Não se cresce por força de canetadas politiqueiras. Crescer despende muito esforço e investimento, isto sim muda o mundo, ...pra melhor.
Reclamar dos políticos e governantes sempre que não cumprirem as promessas de campanha, apontar as mazelas que fazem o país retroceder, exigir das autoridades seriedade nos compromissos do Estado, é um dever de cidadania. Afinal, pago meus impostos, contribuo com meu trabalho para o desenvolvimento deste país, o mínimo que posso esperar do governo é seriedade para gerenciar as Entidades públicas nacionais, paz e segurança para criar e educar meus filhos e netos.
No Brasil, a sociedade perdeu a capacidade de indignação, aceita a corrupção e a morte dos cidadãos que sofrem violência com indiferença. Enquanto a França pára e mobiliza toda a policia para procurar os assassinos de 12 pessoas, vitimas da intolerância e fanatismo, no Brasil morrem 35 mil pessoas por ano, vitimas da violência, e as autoridades não fazem nada de concreto para mudar este quadro nacional. O povo, acostumado com tanta impunidade, nem liga...
Não vou fingir que não vejo as falcatruas e não vou ignorar as irregularidades feitas em nome da gasta bandeira da democracia. Não vou calar as faltas vividas todos os dias.
Vou sim reclamar e exigir como cidadã que cumpre suas obrigações, que o governo dê ao seu povo o que ele merece: respeito! Quem sabe um dia tudo isso muda, quem sabe uma hora o povo acorda e o país avança com cidadania?
Tem gente para tudo. Os que acreditam em Aúra-Masda, ou em Sang Ti, ou em Amon Ra, em Adonai, em Alá, em Cristo, no Pai ou no Espírito Santo, e em muitas outras formas, indefinidas, espirituais. Até em Maomé! Maomé, o indefinido, o que não se pode ver, nem reproduzir a imagem. Como Deus.
O homem tem que acreditar em qualquer coisa. Menos o ateu!
O ateu acredita na ciência. É o que ele diz. Esquece que Algo, alguma coisa, terá criado o Universo, seja a partir de uma molécula, dum átomo de carbono ou hidrogénio ou de uma ameba! E como para isso não encontra explicação, como ninguém, prefere ficar do lado mais cómodo e falar mal de tudo e todos, chamando-os de ingénuos.
É como aqueles que não votam. Para quê? Eles já sabem quem vai ganhar! São sempre os mesmos, os políticos, os corruptos. Então fica em casa, sentadão a ver na TV se ganha algum amigalhaço para depois lhe facilitar a vida. Não ganha. Bom, nem todos são assim!
Não votam e fica o poder na mão dos que lutam. Os tais que o ateu acha que são uns idiotas, e que acabam por se revelarem os únicos espertos.
E porque se discute, universalmente, a “ciência” das religiões, ele encontra defeitos e enigmas em todas e prefere abster-se de, igualmente, ser alvo de qualquer crítica. Creio que se pode chamar a isto covardia.
Lembro dois grandes actores teatrais de Portugal: Chaby Pinheiro (1873-1933) que fazia rir todo o teatro e brincava com um belíssimo poema de Guerra Junqueiro, O Melro, – O Melro, eu conheci-o, era negro, vibrante luzidio – mas que ele começava assim:
“O melro? Eu conheci-o. Era um pobre cão vadio...”
Ou a famosa Teresa Gomes (1882-1962), com uma graça imensa: “Se aquilo que a gente sente/ Cá dentro tivesse voz / E falasse às multidões / Seria muito indecente / Estar alguém ao pé de nós / Em certas ocasiões.”
Qualquer destas situações me lembra o ateu. Estranho!
O primeiro porque disfarça, brinca com o romântico poema, sem ofender, só para fazer rir. Teresa Gomes é mais objectiva, quando quer dizer: saiam de perto que eu vou malhar!
Ninguém se atreve a conhecer Deus. Só os falsos, os pretensiosos, os que usam a religião, não como dogma mas como ideologia de poder, e à sombra d’Ele cometem todas as atrocidades possíveis.
Isso tem-se visto desde a mais remota antiguidade, em todas as religiões, porque à sombra delas se fixava e fixa o poder.
O mais espantoso é verificar que em pleno século XXI continuem a existir extremistas, assassinos, que alegam estarem a matar em nome de Alá!
Agora os “doutores” islâmicos também declararam – ou determinaram? – que é blasfémia tirar os retratos que passaram a chamar-se “selfies”! Insanidade total.
Os ateus evitam falar sobre teologia, uma vez que para eles Deus é inexistente. Então filosofam. Talvez não conheçam conclusões como esta de Pascal: “A impossibilidade em que me vejo de provar que Deus não existe, revela-me a sua existência.”
E o que fazem os “grandes teólogos”? Procuram interpretar as palavras nos escritos sagrados. E cada um interpreta como lhe apetece ou entende, e como NINGUÉM entende coisa alguma de Deus, acabam por dar razão aos ateus que somente filosofam.
Camilo Castelo Branco, sempre mordaz, disse: “Deus não se deixa entender justamente para não sofrer confronto com estes miseráveis que nós somos”.
Ou Camões: “O que é Deus ninguém o entende / Que a tanto o engenho humano não se estende.”
Stephen Hawking, o grande matemático: “Agora a ciência oferece uma explicação mais convincente. O que eu quis dizer quando disse que conheceríamos ‘a mente de Deus’ [no seu livro “Breve História do Tempo”] era que compreenderíamos tudo o que Deus seria capaz de compreender se por acaso existisse. Mas não há nenhum Deus. Sou ateu. A religião acredita em milagres, mas estes são incompatíveis com a ciência”.
É evidente que os milagres são incompatíveis com a ciência! Se fossem compatíveis não seriam milagres! Mas e os tantos milagres que, todos os dias acontecem?
Os milagres saem de dentro de cada um na proporção do tamanho da sua Fé. Quem não tem fé faz como o ateu: ficar sentado à espera para ver o que acontece! Muito mais cómodo.
Um indivíduo não precisa de ser religioso para alcançar a felicidade. Mesmo nesta terra. Basta combater o próprio Ego e deixar o seu Eu espiritual dirigir a sua vida.
Que reconheça que a Natureza é a representação perfeita de Deus e a respeite, sem esquecer que a natureza não é somente um pôr-do-sol nos trópicos, as paisagens bonitas, os passarinhos coloridos, mas tudo, realmente tudo que a compõe, incluindo aquilo que se convencionou chamar de ser superior, o homem. Não superior à natureza, jamais. Superior só porque lhe foi insuflado um Sofhos, o espírito.
E o espírito, mesmo que ninguém acredite, não morre. Não pode morrer. Não veio da terra, para onde voltará “a embalagem para viagem”, como lhe chamou Nei Lopes. “Ao pó voltarás”, mas o espírito não é pó.
Libertando-se do corpo ele se reunirá ao Espírito Universal, infinito, ou voltará, como pensam alguns povos, para reencarnar outro corpo e tentar conduzi-lo pelo bom caminho.
Se Deus é a própria natureza, há que respeitá-la, respeitar o meio ambiente. Claro. Quando não este morre ou prepara a morte das gerações futuras.
Mas tem que começar por respeitar o seu próximo, o seu igual, alto, baixo, gordo ou magro, azul, verde, preto, branco ou amarelo.
Há quem insista em manter o racismo no seu DNA. Talvez nunca tenham visto um africano, de pele bem escura, que tenha sofrido uma queimadura grave. A epiderme vai embora e ele fica mais branco do que um finlandês.
E os idiotas são racistas por um problema de epiderme! Não sabem que eles têm a pele escura porque a natureza os presenteou com essa defesa contra o calor e sol.
A natureza sabe o que faz e o que é preciso. Mas quem criou uma natureza assim? A ciência? Algum ateu? Na natureza nada há supérfluo! (Averrois)
Aristóteles: “A nossa inteligência está tão apta para compreender as coisas altíssimas e claríssimas da natureza, como os olhos da coruja para ver o sol.”
Morre-se pela família e pela pátria, mas só um Deus morre pela humanidade.
Mahatma Gandhi constatava: “Cristo é a maior fonte de força espiritual que a humanidade conheceu.”
Não sei já quem escreveu: “O cristianismo é o milagre da normalidade.”
Imaginem só por um momento a vida de Francisco de Assis, o Poverello.
Completamente desligado da vida mundana, do ego, pobre, generoso, pregando o bem e o entendimento entre os tais “seres superiores”, e vejam como se comportam na Índia os jainistas, que insistem até em andar nus para que ao confeccionar roupas não matem um só insecto que a natureza ali tenha deixado.
Algum ateu se atreverá a criticar?
Pobre Poverello se hoje fosse apanhado pelos extremistas.
E pelos ateus. Sobretudo aqueles que dizem: “Sou ateu, graças a Deus!”