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A bem da Nação

MEMÓRIAS – OS IPAD DA MINHA MOCIDADE

 

O primeiro brinquedo electrónico de que me lembro, e só por fotografias, teria eu um ano, foi um Fox Terrier. Pelo duro. Quando a minha Mãe lhe dizia para tomar conta do bebé, ninguém se aproximava que ele mostrava logo os dentes. Se fosse o meu Pai a dar a mesma “ordem”, ele sabia bem como fazer.

 

Um dia foram dar comigo a cuspir pelos do cão. Eu estava a comer um biscoito e o magnífico companheiro lembrou-se de dar também uma mordida e levou-me o dito biscoito. Eu não gostei e para o ensinar dei-lhe uma mordida! O Boby (nem sei já se era este o seu nome) nem sentiu a minha dura vingança.

 

Depois, como já contei um dia, teria uns dois para três anos, o meu primeiro contacto com a ciência. Uma velha amiga da minha avó, cheia de grana, comprara um carro novo, sempre com chauffeur muito bem fardado, que abria a porta de senhora, como seria de se esperar.

 

Um Chrysler Airflow 1934, moderníssimo, que acendia uma luz no interior quando abria as portas. Um encantamento que nenhum IPhone hoje pode proporcionar.

 

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Uma “máquina” moderníssima

 

Já na pré adolescência, as minhas electroniquices resumiam-se ao que de mais moderno havia naqueles tempos e eu mantinha-me sempre actualizado.

 

Jogar futebol em qualquer canto, ou na rua, com bolas de trapos, um esfolar as pernas com quedas e caneladas, muito melhor do que mandar SMS.

 

Lembro que um dia, regressando do liceu, teria uns onze anos, e sempre a “treinar” uns bons chutos, dei um numa pedra que rolou rua adiante e foi bater numa sacola de palha que dantes as tias levavam para fazer compras. Fez um som estranho, e eu fiquei paralisado, temendo que tivesse quebrado alguma coisa. O meu irmão, mais velho dois anos, deixou a encrenca comigo, e com razão e segui para casa. A “tia” que passava em frente do portão da casa onde morava Salazar queixou-se logo a um polícia que ali estava e por onde eu tinha que passar! Eu com medo das graves consequências fui andando de fininho, com o polícia a fazer cara de mau a olhar para mim. Quando passei na frente dele simplesmente me fez um sinal com a mão, de que merecia levar uma tapa! Levei foi um bom susto e deixei de treinar com pedras na rua, o que a minha mãe muito apreciou porque as botas passaram mais tempo a gastar-se!

 

Mais tranquilo era jogar com as tampinhas das garrafas de cerveja, que no Brasil chamam caricas! Era uma corrida emocionante. Sentados ou ajoelhados no chão, pelas pedras que bordam os passeios das ruas, dois ou mais atletas, iam dando piparotes nas caricas, para ver quem primeiro chegava ao fim. Se ela caía ou saía das pedras do “meio fio” tinha que voltar ao lugar da partida. Havia, como em todos os grandes desportos verdadeiros artistas. Eu... ficava entre alguns dos primeiros mas era raro ganhar. E quem ganhava levava as caricas dos adversários.

 

E jogar ao “bilas”, berlindes, no Brasil bolinhas de gude! Ainda lembro que os melhores eram aqueles que saíam de dentro das velhas e boas garrafas de pirolito! Para quem não sabe o que era um pirolito: um refresco feito de água, açúcar e limão, a que se juntava o gás carbónico. Dentro da garrafa havia uma bolinha de vidro que se fixava ao gargalo, vedando perfeitamente só com a pressão do gás. Uma invenção magnífica e um produto que havia em todo o Portugal, cada aldeia afirmando que o seu pirolito era o melhor de todos. Para o jogo faziam-se três buracos no chão, de uns dez centímetros de diâmetro, distanciados talvez uns dois metros; a técnica usada para fazer esses buracos, normalmente era com a parte traseira da sola do sapato ou da bota, porque ainda não tinham inventado o raio laser. A finalidade era acertar com os bilas dentro do primeiro buraco para prosseguir e quando chegava ao terceiro voltava para trás. Se não acertava, dava a vez ao concorrente. Quem fizesse uma ou duas voltas primeiro era o vencedor, e... tinha, como prémio, o direito de “abafar” o berlinde do outro. Mas estabeleceram-se regras, que como todas as regras e leis nunca eram de perfeita definição.

 

Assim, havia uns bilas que valiam muito mais que os simples vidrinhos de uma cor só. Raiados, maiores, de aço, dos rolamentos, todos tinham a sua hierarquia e quem possuísse um deles podia passar junto a qualquer jogador e “abafar” o mais baratinho com que ele estivesse a jogar. Chamavam-se “abafadores”, e seu “valor” era calculado em número das bolinhas plebeias. Como se pode imaginar estas situações normalmente acabavam na porrada e quem ganhava não era o abafador maior ou melhor mas o grupo de rapazes mais fortes.

 

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Os abafadores e os “plebeus”

 

Não existe, até hoje, nenhum IPad ou Nintendo com melhor jogo.

 

E as figurinhas das caixas de fósforos? Outro jogo surpreendente! Neste, a habilidade do artista tinha que ser muito sofisticada!

 

Só se usava a parte da caixa que tivesse o rótulo e, tal como nos “bilas”, havia hierarquia nas ditas tampinhas (das caixas). As regras eram simples: jogava-se a tampinha contra a parede e se ela caísse com a imagem para cima, ganhava. Ao contrário, perdia e o adversário tinha o direito de ficar com ela. Assim os “contendores” apresentavam-se sempre com uma boa dose de tampinhas, muitas delas “roubadas” em casa sem ser preciso destruir a caixa e as suas laterais onde se riscavam, e acendiam, os fósforos.

 

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 Algumas das “armas de antão”

(Do site www.forum-numismatica.com )

 

Claro que já não recordo da hierarquia das caixas mas, como em tudo, o seu valor estaria na raridade e/ou beleza. Caixas vindas de outros países certamente seriam preciosidades e dava para trocar por uma porção das comuns!

 

Também fui jogador de pião, mas, aqui que ninguém nos ouve, fui sempre péssimo! Enrolava-se-me o fio (barbante) nos dedos, o pião rodava pouco e os mais competentes competidores tinham um sádico prazer em atirar o pião deles contra os dos aselhas (desajeitados), como eu, que muitas vezes ficavam sem o brinquedo porque a ponta de ferro dos atiradores muitas vezes quebrava o nosso. É claro que só faziam isto os garotos mais velhos! Sempre a mesma covardia. Desde a nascença.

 

Além de futebol, que a partir aí dos dez anos já se jogava com bolas mais sérias, às quartas-feiras, no Liceu, na parte da tarde havia ginástica e aos sábados de manhã atletismo, que sempre gostei de praticar.

 

Reuníamo-nos no campo de futebol do liceu e havia alunos de todas as idades, desde os do 1° ano, dez-onze anos de idade, até aos finalistas, entre os 16 e 18.

 

Aí, os nossos jogos “electrónicos” resumiam-se a corridas, saltos, lançamento de disco; jogos de futebol e os de vólei faziam no ginásio. As “baterias” dos nossos equipamentos, naquele tempo parecia que nunca se descarregavam! Nem as “telas” nos cansavam a vista.

 

Só para terminar. O Verão passava na quinta dos meus avós, em Sintra. Ali, aos dez anos comecei a jogar o ténis, mas como havia irmão e primos mais velhos, a minha vez tinha que esperar e não havia muitos que quisessem aturar o “miúdo”! Então o meu entretenimento eram as árvores. Subir às árvores. Todas as que tivessem galhos à mão e sobretudo às figueiras!

 

Com todos estes exercícios “intelecto-eletrónicos” se foi passando a minha juventude assim como a de biliões de seres, que ainda hoje, os que sobram, sentem as lágrimas a quererem aflorar ao pensar como eram magníficos esses tempos fora de casa, ao ar livre, quando as SMS para os amigos era ir a pé a casa deles, combinar alguma brincadeira, um passeio a pé pela serra, sempre que possível fora dos trilhos e por cima de estevas e rochas.

 

Isso ou ficar sentadão, ou deitado, horas e dias sem fim, na frente dum mostrador dum PC ou dum Smartphone, tem alguma comparação?

 

Tem. Dantes não havia escolha, Deus seja louvado. Hoje tem.

 

Os jovens que escolhem o ar livre e os verdadeiros desportos merecem o meu respeito, sem que para isso precisem abster-se da informática. Como eu!

 

Rio de Janeiro, 14/02/2015

Francisco Gomes de Amorim

Francisco Gomes de Amorim

UM LIVRO ENCANTADOR

 

O meu irmão.png

 

Um livro sério, no seu tom tantas vezes faceto, um livro muito belo, na sua temática sobre uma doença que escolhe um filho para desgraçar uma família, unida em todo o caso no amor centrado nesse, incapacitado para uma vida de racionalidade, mas não para ser como meiga bênção apaziguadora e redentora dos sofrimentos dos que o amam. «O meu irmão”, um livro de Afonso Reis Cabral, Prémio LeYa 2014.

 

Afonso Reis Cabral.png

 

Uma vez mais uma acção de intriga ziguezagueante, com deslocações frequentes nos espaços e nos tempos, tempo presente o do Tojal dos começos da narração, o qual vai alternando com evocações dos tempos e espaços passados, ordenados por capítulos não numerados, a justificar a amálgama indiferente dos acontecimentos vividos, todos eles correspondendo-se na catástrofe de um ser deficiente na família, tempo de memória ao sabor do pensamento, centrado sobretudo nesse irmão Miguel, menino por vezes amável, por vezes birrento, e sempre amado com pleno amor. E nessa disparidade de eventos do passado ou do presente, nos capítulos sem numeração, vão alternando igualmente comentários em letra diminuta, como que pronunciados entre dentes pelo narrador, como espectador fora do contexto, em pensamento percuciente aclarando ou justificando procedimentos, poetizando-os, ironizando-os, ou mesmo introduzindo novos dados narrativos.

 

E a narração desse mundo passado, justificativo do seu mundo presente, assim vai surgindo em episódios, que a sensibilidade do narrador, feita de um misto de dorida revolta pela condenação sem culpa, que criou dureza, e um amor absoluto pelo irmão, vai envolvendo na poeticidade do seu discurso, também caricato, também de crítica, como disfarce de sentimentos que não pretendem resvalar em pieguice, outras vezes de um descritivo conciso, de beleza e precisão figurativa: ”Ponte da Telha é uma farpa humana nas costelas do monte”. Mundo da infância, da adolescência, com os pais e irmãs e o irmão mongolóide, a dor disfarçada em sorrisos de muito amor, as conveniências da família por vezes sobrepondo-se, como naquela semana passada na praia da Amália, tendo decidido que Miguel, que usava fraldas, ficaria entregue à APPACDM (Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental) e logo o arrependimento pairara, uma das irmãs “não aguentou”, indo buscá-lo e levando-o consigo para casa do namorado, telefonando a seguir:

 

A Inês telefonou-nos à noite. Tínhamos comido os percebes (apanhados pelo pai, nas rochas) e eu estava com a cara às bolas por causa das alergias.

- Fui buscá-lo e estou na quinta do Pedro. Não aguentei.

A minha mãe sempre teve um jeito feliz de sorrir e disfarçar. Também ela, mais do que qualquer um de nós, sentia remorsos.

- Fez bem – respondeu.

- Eu ouvia a voz de Inês por entre os inchaços e sabia que vinha aí coisa, mas aquelas pústulas ardiam e eu estava desconsolado porque perdera a oportunidade de assustar o meu irmão. Bastava mostrar-lhe a cara.

Depois rebentou uma frase assim de passagem.

- Hoje o Miguel foi sozinho à casa de banho pela primeira vez.

Ouvi o clique a desligar. Era um telefone retro, daqueles de roda com números. A minha mãe desligou-o com força.

 

Um enredo carregado de episódios, que põem em destaque actuações de uns e outros, episódios por vezes hilariantes, como aquele, da adolescência, no rio Paiva, em que flutuavam nas suas bóias a mãe, Miguel e o irmão/narrador - a mãe ora afastando-se de Miguel, ora aproximando-se dele para lhe molhar a cabeça com carinho, o narrador vivendo os êxtases sensuais do enredo do livro de Proust “À Sombra das Raparigas em Flor” - mas atentos uns nos outros, em invisível elo protector. De repente, Miguel ia causando o afogamento da mãe, a cuja bóia se agarrara, na necessidade animal de sobreviver” por ter perdido pé, e o irmão, em vez de acorrer imediatamente aos gritos da mãe, foi pôr a salvo primeiro, na margem, o livro das suas íntimas emoções, que não queria molhar. Os remorsos e a vergonha descarregaram-se posteriormente em fúria contra o irmão, cujo susto se manifestava no choro e no apelo lancinante a “Luciana”, a sua amada: «A minha mãe (salva pelo marido), chegou por fim à margem, retomando o sorriso de antes. Estendeu a mão húmida sobre a cabeça do Miguel, deu-lhe um beijo na testa e subiu devagar até casa.»

 

Luciana! A menina feia e demente por quem Miguel se apaixonara, na APPACDM, causa de rixas frequentes de Miguel com os companheiros da escola, que lha disputavam ou não, mas de quem ela se servia para provocar tantas vezes ciúmes no seu amado. Desde a adolescência, já antes de o irmão partir para Lisboa, em busca de um mundo de maior realização do que naquele Porto em que a casa se movia em torno de Miguel. Amor absoluto, causa das ingénuas explosões de alegria de Miguel perante os pais, quando bem sucedido, e de cólera animal, quando contrariado por Luciana. Amor que o tempo não destrói, que terá o seu clímax, muito após a morte dos pais, na busca tresloucada do narrador, pelas ruas do Porto, pelo irmão fugitivo, que ele encontrou finalmente na espelunca onde haviam vivido Luciana e a mãe e de que resultará a morte de Luciana, pela violência descontrolada do perseguidor, contrariado pelos dois fugitivos em todas as suas propostas de solução.

 

Já então Miguel vivia com o irmão, ambos quarentões, este último libertando as irmãs, casadas e mães, do encargo de Miguel, no arrependimento por o ter abandonado quando jovem, indo estudar para Lisboa.

 

É no contexto da morte dos pais que surge a casa do Tojal, comprada pelos pais, onde viviam nas férias, e que o narrador compra às irmãs, aparente refúgio libertador dos pesos da vida, do trabalho e da preocupação pelos problemas sentimentais do irmão, incapaz de compreender o desaparecimento dos pais na sua vida. E de Luciana, A Luciana”que era dele, Luciana” que “era ele.”: Isto vai passar-se no Tojal. Ora o Tojal é perto de Arouca e longe de tudo o resto.”

 

Um Tojal de isolamento e de toscas figuras de barbárie, as dos caseiros, - a mulher – senhora Olinda - que acima de tudo ama o filho doente – Quim- rapaz imbecil e mau, centrado em si e nos seus ódios, com a habilidade única de saber conduzir o tractor – o marido esquivo, somítico e infeliz, desprezado pela mulher – Aníbal. Uma família boçal, vivendo da terra e para a terra, bichos imundos e solitários nos sentimentos, mas afinal manhosos e ferinos nas relações com os “fidalgos” da cidade, como é exemplo o diálogo entre as duas mães, em dada visita destes à sua casa no Tojal: A senhora Olinda costumava comparar o Miguel ao Quim, dizendo à minha mãe “O meu filho hoje sente-se melhor. E o seu?” Comparava o doente ao deficiente, o dependente ao dependente, mas a minha mãe sentia-se constrangida porque comparar é admitir conceitos abstractos e o Miguel correspondia a tudo menos a critérios predefinidos. O Miguel não era comparável ao Quim. Porém a Sr.ª Olinda insistia “E o seu?” e a minha mãe ripostava: “O meu está óptimo. É muito respeitado na área dele, dizem que é uma autoridade”. A senhora Olinda não percebia a resposta, bebia o resto do vinho e retirava-se.

 

Ao meu pai bastava a vista para se consolar. Também nunca lhe ocorrera comparar o Miguel ao Quim. Não se intrometia, limitava-se a beber o copo de vinho até ao fim.

 

Ao contrário, pois, de seu trisavô José Maria de Eça de Queirós, o escritor crítico das burguesias endinheirada ou intelectual, ou governativa, já esgotadas na graça mágica do universo queirosiano, Afonso Reis Cabral, 25 anos precoces, não repudia as figuras de uma ou mais realidades toscas, condizentes com um sentido existencial de proximidade democrática, sem distinções sociais, que lhe permitirão extravasar os seus dons de ironia e o seu sentido crítico. Tal irá acontecer também com o universo demencial da APPACDM, nos descritivos comportamentais dos deficientes e métodos de acompanhamento no seu habitat. Ou mesmo, na apologia irónica do verbete, a que se dedicou em função dos seus trabalhos enciclopédicos, verbetes que recordo igualmente dos meus tempos de estudo, coisa que não utilizei, ao contrário de colegas meus, por achar monótono, mais próprio de arquivistas, mas cuja aplicação hoje me parece visivelmente generalizada em todos os centros de pesquisa.

 

Um livro, afinal, também de suspense, uma figura hedionda tornando-se o centro da atenção de um pobre ser simpático e meigo, com o síndrome de Down, menino protegido pelos pais e mais tarde pelo irmão que acabará por matar – digamos sem querer, após a busca do irmão fugido - essa horrorosa e raquítica doente mental, elo de separação de afectos, mulherzinha teimosa, polarizadora da paixão do seu companheiro, e sobre a qual o narrador se lançará com sanha assassina, após ele próprio ter sido zurzido pelos dois “amantes”. Ao levá-la ao hospital, com a ajuda do irmão, suspeitando a sua morte e para se livrar de sarilhos policiais, terá ocasião de a transportar, deixando o irmão fechado no carro, para os lados de um vale, na serra do Valongo, onde a depositou “pequena, serena, quase bela”, numa cama de folhas secas, que arranjou para ela, quer para maior comodidade, no caso de estar viva, quer em homenagem poética, em caso da sua morte.

 

Miguel terá longa crise de raivas, apelos e acusações de meses, igual a outras que teve antes. Mas a história terminará com os dois irmãos apaziguados. E amigos, como sempre foram. No espaço de Tojais, prontos a regressar ao seu apartamento, no Porto:

 

O nevoeiro, mais forte sobre o rio, tapa-se sobre nós numa mudança de vento. Não consigo ver o Miguel, ele que ainda agora estava à minha frente. Estico o braço mas não o alcanço. Chamo-o e logo a mão dele agarra-se à minha com força. Quer-me próximo porque tem medo do que o rodeia. Tal como eu, também não vê no nevoeiro.

 

Regressamos lado a lado, devagar, tacteando. Perto do caminho que sobe para nossa casa, estreito-o com força. Murmuro-lhe ao ouvido «Miguel, não sei o que dizer», e ele responde “Não digas nada».

 

Berta Brás 2.jpg Berta Brás

A FAMÍLIA HELÉNICA DA KOSTA

Carta do leitor publicada na edição de 3 de Fevereiro de 2015

 

Senhor Director,

 

O meu nome é José Portugal. Chamam-me Zé. Tenho uma provecta idade e sofri há uns anos uma amputação grave, mas sobrevivi e ainda me sinto com forças para lutar. Vivo remediadamente, apesar de alguns familiares estroinas terem delapidado nas últimas décadas quase tudo o que tinha poupado ao longo da vida.

 

Moro na rua pobre de um bairro onde há inquilinos de diferentes posses. Umas ruas acima, para Norte, fica a casa de D. Escandinávia, uma senhora rica com três filhas muito trabalhadoras (as meninas Suécia e Dinamarca, para além da menina Noruega, que vive fora).

 

Perto desta família moram a Alemanha, a Áustria, a Bélgica, o Luxemburgo, a Holanda e a Inglaterra, todas com posses e boas casas. Nos arrabaldes do nosso bairro vivem famílias que aqui se estabeleceram há pouco tempo – desde a orgulhosa D. Polónia, cujos filhos são operários especializados, à pelintra D. Roménia, cuja prole vive de expedientes. Como disse, há de tudo no nosso bairro.

 

O quarteirão onde moro tem duas zonas: na de cima vivem a D. Irlanda, a D. França e a D. Itália; na zona de baixo estamos nós, a D. Espanha e a D. Grécia. É precisamente a propósito desta última que lhe escrevo.

 

O estadão de vida desta família tem intrigado toda a vizinhança. A mãe, D. Grécia Helénica da Kosta, passa o tempo no cabeleireiro, nas compras e na pastelaria. A questão é que ninguém sabe de onde lhe vem o dinheiro, pois o marido nunca teve emprego conhecido e leva os dias deitado no sofá, a ver televisão e a beber vinho. Os filhos não trabalham nem estudam. Passam o dia a bronzear-se na praia e é rara a noite em que não dão uma festa lá em casa, partindo copos à medida que vão ficando mais alegres.

 

Todos os anos aparecem com carros de último modelo e redecoram a casa com móveis de luxo e electrodomésticos do melhor. Quando alguém lhes diz que a vida está difícil e têm de pensar no futuro, ficam muito ofendidos e respondem que têm todo o direito a isso porque são a família mais antiga das redondezas, com pergaminhos que vêm de há milhares de anos.

 

Eu também tenho pergaminhos, mas cá em casa não podemos dar-nos a esses luxos. E quando a crise aperta, então, passamos as passas dos Algarves. Foi o que aconteceu há uns tempos, quando toda esta zona do bairro foi afectada pelo ‘crash’ de D. América, uma família emigrada no outro lado do mar mas que mantém aqui muitos negócios. Em pouco tempo, a despensa estava vazia e quase não tínhamos pão para dar aos filhos. Numa aflição destas, e como pedir não é pecado, juntámo-nos e fomos à zona Norte do bairro pedir ajuda.

 

Fui eu, foi a D. Espanha, a D. Itália, a D. Grécia e até a D. Irlanda, que apesar de ser prima da D. Inglaterra, também estava aflita. Em nome dos vizinhos ricos, a D. Germana decidiu-se a emprestar-nos dinheiro, embora a juros altos.

 

Eu, D. Irlanda e D. Espanha pedimos com moderação, pois tencionávamos pagar e quanto menos devêssemos, melhor. Já D. Grécia Helénica da Kosta pediu mundos e fundos, argumentando que a família era grande e precisa de manter o nível de vida.

 

Desde então, tudo tenho feito para pôr as contas em dia. Cortei em tudo que era supérfluo, reduzi a metade as mesadas dos pequenos, dispensei uma das empregadas e só comemos carne duas vezes por semana. Poupando aqui, poupando ali, lá temos vindo a pagar a dívida e, se Deus quiser, em breve voltaremos a respirar fundo. O mesmo têm vindo a fazer D. Espanha e D. Irlanda.

 

Já na casa de D. Grécia da Kosta continua o farrabodó. O marido ainda não arranjou emprego nem dá mostras de querer trabalhar, mas a vida da família não se alterou. Há dias, os cobradores bateram-lhes à porta, mas a música estava tão alta que eles nem ouviram. E o filho mais novo diz que agora quem manda na família é ele e que não tem nada que pagar a dívida e que os ricos vão para o diabo, que ele não quer saber de nada.

 

Ainda por cima, querem que os do Norte do bairro continuem a pingar dinheiro, e que se for preciso os mais pobres, como nós, também hão-de contribuir para a família Helénica da Kosta, que não faremos mais do que a nossa obrigação.

 

O bairro está em polvorosa, como se pode imaginar. Com estas más influências, os filhos mais novos da família de D. Espanha também já dizem que querem passar o dia a cantar flamenco e a tocar castanholas. E até na nossa família há um primo em segundo grau, o Costa, parente dos Kosta por casamento, que diz que devíamos era seguir o exemplo de D. Grécia e mandar os credores à fava.

 

Faz-me impressão, tudo isto. Sempre me ensinaram que as dívidas são para pagar e que quem não tem dinheiro não tem vícios. Na fábula da cigarra e da formiga, que todos aprendemos na escola, quem fica sempre pior não é a formiga, que trabalhou e amealhou para comer no Inverno: é a cigarra, que tudo quis e nada fez.

Mas na casa dos nossos vizinhos Helénicos da Kosta o farrabodó continua – e, nos últimos dias, as festas e as celebrações sucedem-se, sem que a vizinhança perceba o que estarão eles realmente a festejar.

 

O novo chefe da família já diz que, se for preciso, arrasa o bairro e salve-se quem puder. Parece-me que ainda não percebeu que, se a coisa dá mesmo para o torto, ainda recebem ordem de despejo. E onde vão depois encontrar quem lhes mate a fome?

 

Uma coisa eu sei: cá de casa não sairá nem mais um cêntimo para alimentar os vícios da família Kosta.

 

Vão trabalhar, que faz bem à saúde!

 

Atenciosamente,

 

Anónimo.png José Portugal

 

 

Recebido por e-mail, Autor não identificado

«A EUROPA TEM OS DIAS CONTADOS»

 

Europa.png

 

É uma frase que escutei esta noite a José Pacheco Pereira, que me deu no goto. Estava-se na «Quadratura do Círculo», que hoje começou com a exposição de Pacheco Pereira a respeito de uma tal carta de gente grada portuguesa a um tal Passos Coelho, que também Jorge Coelho sumamente despreza, como “não tendo credibilidade”, sem “posições próprias”, e tendo que “engolir muita coisa que anda a dizer”, além de ter constatado tragicamente que “Portugal desapareceu do mapa”. Como Pacheco Pereira também já tinha largado aquela sobre “a Europa dos dias contados”, não estranhei tanto o negativismo pátrio de Coelho (Jorge), decididos ambos a liquidar Coelho (Passos) com todos os excessos das suas raivas impotentes contra a firmeza do PM nos seus comentários sobre as obrigações da Grécia para com quem lhe emprestou o dinheiro, os mesmos que o fizeram a Portugal. Dinheiro amaldiçoado pelos 32 subscritores da “nova carta portuguesa”, dirigida a Passos Coelho, por essa sua política de ressarcimento de dívida ter conduzido Portugal (tal como outros países irmãos em crise vivendo, como nós, do empréstimo – e do imposto, pecha antiga - ao desemprego e à miséria, como fez Passos ao pretender cumprir os seus compromissos e desejar que a Grécia cumpra os seus.

 

Encontro na Internet a tal carta a Passos Coelho dos 32 grados subscritores da sua banha de cobra para iludir pacóvios, fingindo bondade para com a Grécia que não é mais do que artimanha para condenar quem cumpriu acordos assumidos.

 

«Apesar de concordarem que "a Europa vive uma situação difícil, pelas tensões militares na sua periferia e pelos efeitos devastadores de políticas recessivas que geraram desemprego massivo", os signatários apontam como problema "o aumento do peso das dívidas soberanas e a deflação", que abalam assim "os alicerces de muitas democracias"."Este momento exige por isso uma atitude construtiva, que conduza a uma cooperação europeia de que Portugal não se deve isolar", defendem. Os 32 subscritores da carta consideram que, "para evitar uma longa depressão, a União tem de combater a incerteza na zona euro e, para tanto, precisa de uma abordagem robusta que promova soluções realistas e de efeito imediato"."O momento actual oferece uma oportunidade que não pode ser desperdiçada para um debate europeu sobre a recuperação das economias e das políticas sociais dos países mais sacrificados ao longo dos últimos seis anos", sustentam. Os signatários consideram ser também do interesse de Portugal "contribuir activamente para uma solução multilateral do problema das dívidas europeias reduzindo o peso do serviço da dívida em todos os países afectados, que tem sufocado o crescimento económico, agravando a crise da zona euro". Defendem também a necessidade de Portugal favorecer "uma Europa que não seja identificável com um discurso punitivo mas com responsabilidade e solidariedade, que não humilhe Estados-membros mas promova a convergência, que não destrua o emprego e as economias mas contribua para uma democracia inclusiva". "Estamos certos, senhor primeiro-ministro, de que agora é o tempo para este apelo à responsabilidade numa Europa em que tanto tem faltado o esforço comum para encontrar soluções para uma crise tão ameaçadora", concluem os 32 subscritores da "Carta ao primeiro-ministro de Portugal".»

 

Foi, pois, sobre esta carta que se debruçaram os participantes da Quadratura do Círculo: Pacheco Pereira, também subscritor da carta, com as habituais banalidades do seu discurso doutoral, Jorge Coelho, com as banalidades toscas do seu discurso matreiro mascado de bom senso pacóvio, António Lobo Xavier defendendo uma posição mais rigorosa, sem o parti-pris dos outros contra o Governo.

 

E a vida continua, à espera dos dias da Europa dos 28 em contagem decrescente. Diremos, então, como Camões, para morrermos em beleza:

 

No mar tanta tormenta e tanto dano,

Tantas vezes a morte apercebida!

Na terra tanta guerra, tanto engano,

Tanta necessidade avorrecida!

 

Onde pode acolher-se um fraco humano,

Onde terá segura a curta vida,

Que não se arme e se indigne o Céu sereno

Contra um bicho da terra tão pequeno?

(Lus. I, 106)

 

Mas tenhamos fé em Lavoisier (ou mesmo em Jesus Cristo, «que não percebia nada de finanças»): «Na Natureza nada se perde…»

 

Berta Brás 2.jpg Berta Brás

O PAPÃO

 

 

 

Se a Grécia sair do Euro, a seguir será Portugal e Itália

Yanis Varoufakis.png

Yanis Varoufakis, Ministro grego das Finanças

(dos jornais, Fevereiro de 2015)

 

 

 

As afirmações de Varoufakis assentam sobretudo no que ele apelida de insustentabilidade das dívidas e na impossibilidade de manutenção da austeridade.

 

Relativamente a Itália, confesso que tenho dificuldade em sintetizar os problemas da Pátria da Máfia. Trata-se de um «caso macro de Polícia» que nunca se enquadrou nos compêndios por que estudei economia. E como nem sequer na minha terra sou polícia, não o serei por maioria de razão em terra alheia.

 

Mas relativamente a Portugal, acho que...

 

O que levou Portugal à falência?

 

Muito sinteticamente, não hesito em afirmar que «fomos ao charco» porque se procurou construir um Estado Social sem base contributiva suficiente. Monsieur de La Palisse não seria mais sintético nem sequer mais óbvio.

 

Historicamente, passámos do mercantilismo imperial pré-revolucionário para a sovietização da economia com o desmantelamento da base produtiva para «castigo do grande capital», para a macrocefalia da Administração Pública, para a reprivatização condicionada, para o lamber das feridas sem uma linha de rumo mas com custos de contexto sempre crescentes em espiral inflacionista e desvalorização monetária (nomeadamente o famoso «crawling peg» de Victor Constâncio), com Despesa Pública corrente incontrolada (Saúde e Educação à cabeça) e com Despesa Pública de Investimento (a política do betão) avessa ao cálculo da rentabilidade. Até que chegámos à CEE e passado pouco tempo ao Euro. Mas entretanto, para combater o aumento de preços, abriram-se as fronteiras à concorrência externa e o saldo da Balança Comercial desceu às profundezas do Inferno. Em paralelo «et pour cause», a dívida privada externa subiu aos píncaros.

 

E uma economia que vinha escondendo as suas maleitas com políticas antipiréticas como essa da desvalorização monetária, vê-se de repente com uma moeda forte num câmbio de Secretaria em que a opacidade dos mercados não permitiu qualquer lógica na formação dos novos preços. Então, no espaço de um breve instante, eis que o que, por exemplo, custava 20$00 (vinte Escudos) passou a ser vendido a € 1,00, ou seja, ao equivalente aos antigos 200$00 (duzentos Escudos). Sim, um crescimento de «apenas» 1000%. Para ocultar tamanha vergonha, os estatísticos colocaram nas séries uma interrupção por «mudança de critério estatístico».

 

À semelhança do que fiz com Itália, também no caso português deixo o crime entregue à Polícia na convicção de que finalmente se está a avançar no combate à corrupção. Mas, à cautela, digo como o ceguinho que «a ver vamos...»

 

O cenário imediatamente anterior à declaração de ruptura traduzia-se em muito grande despesa pública corrente – sobretudo (~70%) com pessoal – com a agravante de os trabalhadores dos sectores privados passarem a constituir despesa pública na passagem à aposentadoria, em desorçamentação de diversas componentes da Administração Pública (empresas públicas para tudo e para nada), na oficialização da fuga ao fisco (as Fundações que pululavam por todo o lado e também a pretexto de tudo e de nada), na atribuição ao consumo do estatuto de motor do desenvolvimento com perigosos níveis de endividamento das famílias (não só devido ao crédito à habitação mas também por causa do crédito ao consumo) transmitindo um balofo sentido de bem-estar da população em geral, um perigoso nível de endividamento do sistema bancário perante o exterior (com suspensões periódicas de operações sobre o exterior por parte de alguns Bancos), enfim, o fecho do acesso aos mercados primários para financiamento da dívida pública.

 

Como saímos do buraco?

 

Saímos do buraco com a ajuda da Troika de que tanta gente tão mal diz. Foi ela que nos financiou o suficiente para irmos pagando as dívidas que se iam vencendo e para o que não tínhamos os fundos necessários. Mas é claro que tivemos que ir corrigindo as «coisas» que nos haviam causado a falência para que esses novos empréstimos não fossem vãos. Tivemos que reduzir as despesas públicas com Pessoal (repito que eram cerca de 70% da despesa pública corrente) donde resultaram reduções salariais tanto nos funcionários no activo como nos aposentados. Dessa redução da massa monetária em poder duma parte importante dos consumidores, resultou uma significativa quebra no consumo, o que se repercutiu numa redução das importações e, com o aumento das exportações, provocou uma substancial melhoria na Balança Comercial. É claro que o Turismo ajudou muito à obtenção de saldos positivos perenes na Balança Corrente, o que, conjugado com os saldos positivos da Balança de Capital, permite reduzir a dívida externa privada. E com outras reduções que foram sendo feitas na despesa pública e com o combate à evasão fiscal, já começámos a ter saldos primários positivos em vários trimestres. E qualquer dia passamos a ter esses saldos perenemente positivos, ao que se deverão seguir saldos totais (com os juros da dívida) positivos.

 

Sim, apesar de ainda haver um caminho árduo até à resolução de muitos problemas resultantes da acumulação de desmandos de lesa Pátria, já temos crédito que nos permite pedir agora emprestado a juros baixos para anteciparmos a liquidação de empréstimos antigos com juros altos. Por outras palavras, saímos do buraco.

 

E o que é que tudo isto tem a ver com a Grécia? Pouco, nada ou simples coincidências parciais nos problemas e quase nada na resolução dos ditos problemas como informam os jornais.

 

Então por que é que se a Grécia sair do Euro nós lhe havemos de seguir o caminho? Não vejo qualquer explicação para tal hipótese, a menos que se trate duma resolução política de abandono do projecto europeu mas isso é outra conversa que não vem agora à discussão. Causas financeiras de ruptura com a União Europeia não existem já; causas económicas, estão em vias de afirmação as que correspondem ao nosso novo modelo de desenvolvimento baseado na produção de bens e serviços transaccionáveis (e não mais no consumo); saldos externos perenemente positivos são o indício de que a política em curso é compatível com a pertença à Eurolândia.

 

A única «coisa» que os críticos – sobretudo internos, portugueses – não suportam é terem de reconhecer que o esbanjamento de recursos públicos na compra de votos para se eternizarem no Poder (ao estilo do «44» e seus amigos) foi uma das causas maiores do nosso afundamento. Mas que sirva também o nosso exemplo para todos os «syrizados» demagogos populistas que julgam que o dinheiro cai do Céu e não dos mercados que sempre hostilizam. E neste particular, não quero deixar de passar a mensagem de que a nossa sorte é ainda haver alguns ricos dispostos a pagar a crise que os perdulários criaram. Mas para que isso aconteça é fundamental que nos mantenhamos no cumprimento das regras de bom comportamento que eles, os ricos, definiram. E isso faz-se na UE. Então, um dia que já não precisemos desses ricos, poderemos, então e só então, pensar na saída da Eurolândia.

 

Portanto, a dívida pública portuguesa, mais do que sustentável, será amortizável logo que deixemos de ter défices públicos pois a dívida privada já está em condições de amortização progressiva e a austeridade mais não é do que a colocação do nível geral de vida dos portugueses no patamar do que somos capazes de produzir em economia aberta e na medida da competitividade conseguida.

 

Então, Varoufakys disse que nós seguiríamos a Grécia na saída do Euro por uma de duas razões: ou por bluff ou porque não sabe o que diz. Vou mais pela primeira hipótese.

 

É que assim como já não tenho idade para creditar no Pai Natal, também não tenho medo do Papão.

 

Fevereiro de 2015

 

Henrique Salles da Fonseca em Curaçao (2011)

Henrique Salles da Fonseca

SE A MINHA ILHA SOUBESSE…

 

Aldeia da Cuada.jpg

 

Vá lá, confessa

Que te sabe bem recordar

As corridas sem fim

E o jogo das escondidas

Na velha casa das Lajes...

E a Avó Glória, de avental imaculado

Laço perfeito e rendas

Nas alças

A enfeitar a mesa

De hortências azuis e iguarias!...

 

Maria Mamede.jpg Maria Mamede

O PENSAMENTO ESTÁ DE FÉRIAS EM TEMPOS EMOCIONAIS

 

De um lado a Ideologia “santificada” e do outro a Ideologia “correcta”

 

Em tempo escuro, a sociedade moderna, ao luar da sua razão e da sua fé, só parece conhecer pecadores e puros.(1) A paixão pelo preto e branco deixou de reconhecer as cores do arco-íris conduzindo a sociedade à loucura. Vivemos numa sociedade caricata a viver de meias-verdades e a vendê-las como verdades inteiras.

 

A pressão do pensar politicamente correcto (2) é hoje de tal ordem que até gente académica, quando ouve falar das barbaridades, cometidas por extremistas islâmicos logo reage referindo a violência praticada pelos cristãos através da "Inquisição" como se, no caso, o que estivesse em causa fosse o cristianismo ou o Islão, como se os problemas inerentes à governação pudessem ser desculpados com a religião, ou com histórias dum passado não evoluído. Colocam-se as religiões como centro do furacão, quando o problema mais que religioso, no que diz respeito ao islamismo em via nos países europeus, é um fenómeno social consequência das políticas sociais, económicas e de imigração assumidas pelos Estados depois da segunda guerra mundial e ao mesmo tempo um problema acentuado com a queda da União Soviética.

 

A política falhada, o jacobinismo de ideologias combativas na opinião pública, a situação miserável de bairros sociais degradados são cenários que preparam uma sociedade minada. Os jovens que iniciam uma carreira terrorista e se deixam recrutar para a guerra islâmica fazem-no porque se sentem fazer parte de um grupo socialmente desfavorecido e porque têm a percepção pessoal de injustiça na política. Sentem-se vítimas da sociedade e como tal, ao não fazer parte dela, não encontram motivos para se identificarem com ela. Vêm geralmente de famílias débeis e de bairros de segregação social. Os jihadistas são produto da nossa sociedade que é secular; discriminação social fomenta o fanatismo. A luta por uma causa grande dá-lhes personalidade e respeito. Quem não tem nada a perder encontra na luta uma perspectiva ou uma saída para a vida.

 

Desde 2011, os terroristas adoptaram a táctica de alvos de assassínio específicos conseguindo atingir o nervo da sociedade de modo a provocar nela mais agressão contra os muçulmanos e deste modo levar os muçulmanos a fanatizar-se e assim a identificarem-se mais com os terroristas.

 

Por outro lado os crentes do pensar politicamente correcto consideram o Islão tabu bem como os temas de imigração e se alguém colocar perguntas legítimas sobre os guetos muçulmanos e o fundamento do terrorismo islâmico logo é apedrejado com o burgau de racista, intolerante, nazista. Há que distinguir entre as tendências estratégias da cultura árabe por hegemonia e os conflitos de origem religiosa e secular que se originam no meio das sociedades ocidentais.

 

Na opinião pública encontram-se muitos orientadores de diálogo inter-religioso, vítimas do “pensar correcto”, que parecem sofrer do complexo de paternalismo ou de inferioridade no diálogo com o Islão, ao encararem o parceiro dialogante com desculpas de mau pagador (como se houvesse a proibição de pensar um pouco mais além do que a delicadeza permite), ou por razões de ofício e ao equacionar os problemas inerentes à sociedade como problemas religiosos sem tocarem a auto-compreensão subjacente à filosofia islâmica, a luta entre as civilizações, as diferentes sociologias e antropologias.

 

Querer hoje desculpar as barbaridades dos terroristas islâmicos com as barbaridades da “inquisição” onde Estado e Igrejas lutavam contra ideias novas, é subestimar o que acontece hoje com as barbaridades islâmicas não só pelo desfasamento histórico mas pelo facto de então não poder ser ninguém condenado sem primeiro ser submetido a um processo do tribunal da “inquisição„ o que, apesar das barbaridades da inquisição, significou um progresso para o tempo, em termos de desenvolvimento do Direito, dado o indivíduo passar a ter direito a um processo com julgamento. O Islão é hoje tão responsável pela violência que acontece em seu nome, como o foi a antiga cristandade pelos crimes que operava com a Inquisição.

 

Como a religião não deve justificar o terrorismo, a instituição religiosa deveria reinterpretar frases do Corão e das Adith (numa linguagem compatível com os tempos modernos e sem bajulação da modernidade) para ninguém poder argumentar que o que faz em nome de Alá. No máximo poderia fazê-lo em nome do seu Alá mas não em nome ou defesa do Islão. (Aqui é bom mencionar a atitude exemplar de Francisco I, também em relação a outras religiões; o Papa coloca, a nível social, como primeira prioridade das religiões fomentar a paz social e internacional, mesmo correndo o perigo de descontentar pessoas orientadas por princípios dogmáticos).

 

O recurso directo ao Corão ou às Hadith/Hadiz do profeta para justificar, a guerrilha torna-se compreensível numa estrutura muçulmana religiosa, que prescinde de um organigrama institucional central responsável e, como tal, incontrolável e presente em todo o lado, sendo inviolável a nível global.

 

Num ambiente de desorientação e de incapacidade, uns argumentam que falta um papa ao Islão, e uma interpretação teológica geral e por isso cada líder ou grupo pode declarar guerra em nome do Corão. É porém também um facto que os protestantes, não tendo organização central, não se servem da guerrilha; o mesmo se diga do judaísmo ou do budismo. Os muçulmanos fundamentalistas, na falta de estruturas centralizadas do poder, mais afincadamente se agarram às escritas do Corão, às Hadiz e à sharia. Muitas vezes não será tanto a crença que os move mas a vontade de um poder incapaz que, ao não encontrar refúgio na fé, se apoia, desesperadamente, na violência da guerrilha (3). Também pode encontrar-se na motivação o reconhecimento que na luta, a nível de argumentos perderiam, pelo que importa apostar na violência.

 

Um estado moderno não se pode defender do terrorismo porque a única maneira de o combater seria a ditadura. Por outro lado o Islão é um sistema completo (não separa o poder secular do poder religioso) e encerrado em si, vê-se confrontado com uma sociedade aberta de governo democrático mas mais decadente e como tal sem resposta para um Islão inseguro.

 

A sociedade islâmica precisa de muitos grupos que reconheçam, “Nós devemos revolucionar a nossa religião”, como apelou o presidente egípcio Al-Sisi at Al-Azhar.

 

A sociedade ocidental também se encontra num estado crítico e precisa de grandes correcções. Os valores ocidentais não se deixam reduzir à vontade de maiorias democráticas, como demonstrou o final da República de Weimar, nem tão pouco a assombrosas manifestações sobrecarregadas de sentimento, como a de Paris. O princípio da maioria deve ser acompanhado e sempre corrigido pela consciência da liberdade em conexão com outros valores e dos direitos humanos individuais inalienáveis. O estado secular, sem se tornar religioso, deveria redescobrir os fundamentos da sua civilização e deixar de os combater.

 

António Justo.jpg

António da Cunha Duarte Justo

Teólogo

 

(1)   Também muitos jornalistas sentem a pressão do pensar correcto, além de, como profissionais, sentirem responsabilidade social não tocando determinados temas para não correrem o perigo de serem utilizados no sentido de apoiarem movimentos populistas que muitas vezes generalizam e não diferenciam.

(2)   Um exemplo de tabus do pensar politicamente correcto: Se uma pessoa disser “na Arábia Saudita prevê-se a pena de morte para quem for apanhado com uma bíblia, e também quem se converter a outra religião está sujeito à pena de morte”, o argumento motivador do diálogo em pensar correcto será “sim, mas na idade média havia pessoas condenadas à fogueira por razões de apostasia. Uma simples informação provoca o medo de saber.

(3)   Muitos jovens muçulmanos encontram-se na parte sombria da vida sem perspectivas de futuro material e humano, vendo por isso a oportunidade de dar sentido à própria vida dedicando-se a uma missão considerada nobre como a de fundar o Estado Islâmico. A UE tem mais de 4000 jhiadistas a combater pelo Estado Islâmico, quando o Egipto não gera sequer a metade.

O MAL NÃO ESTÁ NOS PARTIDOS

 

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 Quase todos se queixam dos maus políticos e dos partidos. Só não se queixam os que beneficiam do sistema. São inúmeros os escritos referentes a esse tema e, na maioria dos casos, pedem que os partidos se reformem, alterando o seu procedimento.

 

Na minha modesta opinião, essa forma de abordar um problema, que é real, não está correcta. O mal não está nos partidos. Há muito tempo que considero que o mal está na nossa Constituição e no absurdo poder, um poder absoluto, ditatorial, que dá aos partidos. Posso prova-lo, pois em 1979, já lá vão mais de trinta e cinco anos, apenas cinco anos após a revolução, publiquei no “Expresso” o artigo “Partidofobia e partidocratite”, que termina com o seguinte parágrafo;

“Da vivência destes 5 anos parece podermos dizer que, partidos como congregações de cidadãos com o mesmo credo político, sim! Partidos como órgãos de poder paralelo, não! E partidos como órgãos de poder ditatorial, três vezes não!!”

 

Para corrigir este mal, que a mim parece evidente mas que os portugueses aceitam como bom, na “Proposta de Alterações à Constituição”, que publiquei em 2002 na revista universitária “INUAF Studia”, propus as seguintes alterações dos Artigos 149º e 151º:

Artigo 149º

Alterar para:

Os Deputados são eleitos por círculos eleitorais uninominais, constituídos por um conjunto de freguesias adjacentes, somando um total de (40.000 a 50.000 ?) eleitores ou, no caso de haver freguesias com mais do que esse número de eleitores, por bairros adjacentes, de forma a situarem-se dentro daqueles limites.

Artigo 151º

1 - Alterar para:

As candidaturas serão apresentadas, nos termos da lei, por um grupo de não menos de X nem mais de Y eleitores do respectivo círculo eleitoral.

Definir os números X e Y. Pode considerar-se como referência a eleição para o cargo de Presidente da República, em que a proporção é de, aproximadamente, um a dois por cada mil eleitores. Para um círculo de 40.000 eleitores teríamos 40 a 80 proponentes, que parece ser número aceitável.

2 – Suprimir

 

Isto é aplicar à eleição dos deputados exactamente a mesma norma que se usa para a eleição do Presidente da República, a única democrática em Portugal. Os que se queixam do Presidente da República apenas podem lamentar-se de não terem sabido eleger um melhor, pois não eram obrigados a fazer o que os chefes dos partidos – os actuais ditadores – quisessem mandar, como somos obrigados a fazer nas eleições dos deputados.

 

Para as autarquias já se abriu o que chamei “uma pequena janela democrática” e é possível haver, também, candidatos independentes. (Os outros são “dependentes”). Mas assim deviam ser todos, e os partidos apenas com a função de apoiar os candidatos que entendessem. A existência dos partidos é perfeitamente correcta, mas nunca como órgãos de poder e muito menos como órgãos de poder ditatorial, que decidem quem pode ser candidato e até em listas de ordem fixa! Como já tenho dito, nunca fiz tenção de me candidatar a deputado, mas não tolero não ter esse direito, que considero inerente ao conceito de democracia.

 

Publicado no "Linhas de Elvas" de 29 de Fevereiro de 2015

 

Prof. Miguel Mota.jpg Miguel Mota

PÍCARO

 

Um estilo a definir-se em progressiva formulação irónica, tal é mais este artigo de Alberto Gonçalves, saído no DN de 8/2/15 – «Luzes da Ribalta» – denunciador de um crítico olhar atento ao pormenor da frivolidade de actuação de uma sociedade provinciana, sem grandes princípios educativos, e que por isso estica ainda mais as botas da sua pose, tal como o fazia já no século XIX, segundo denúncia queirosiana. De facto, o texto “Luzes da Ribalta” disso nos informa, a partir do estardalhaço criado à volta de qualquer produção de êxito português, sobretudo se tem a ocasião de ser utilizado lá fora, caso do candeeiro português num filme de Hollywood, ou o chapéu de Johnny Depp manufacturado numa fábrica de Oliveira de Azeméis. O que prova o nosso irredutível complexo de inferioridade face ao estrangeiro.

 

Igualmente o tom trocista percorre o artigo intitulado «Assim se vê a força da ANPC» (Autoridade Nacional da Protecção Civil), que «embora falte à ANPC um “c”, vítima do acordo ortográfico, não lhe falta empenho na salvação dos cidadãos desamparados face ao frio, ao calor ou ao clima ameno.» E segue-se o excesso de informação paternalista da ANCP, no caso de qualquer borrasca: «Para cúmulo, além de prever o frio, a ANPC ensina aos incautos como lidar com ele. Muitas pessoas ainda possuem a tendência natural de correr na neve em pelota, atitude que a ANPC desaconselha em favor do “uso de várias camadas de roupa”, coisa que, se pensarmos bem, até faz mais sentido. Na estrada, aos que pensam que o gelo e a geada favorecem velocidades superiores a 180 km/h, a ANPC recomenda uma “condução defensiva”. No interior das habitações, a ANCP arrefece os instintos de quem quer aproveitar as baixíssimas tarifas de electricidade e manter os aquecedores ligados a noite inteira: convém desligá-los antes de dormir. E o mesmo vale para as lareiras, já que o povo ignaro desconhece que o fogo pode incendiar uma casa. A ANPC justifica o nome e cumpre plenamente a função primordial do Estado: proteger-nos, visto que sozinhos não nos governamos. Seria justo sairmos à rua a gritar vivas à ANPC, desde que esta nos lembre da necessidade de um agasalho.

 

Christophe Michalak.jpg Na verdade, quando penso em programas franceses que, sempre que posso, me fazem deleitar-me frente à TV5, e comparo com os nossos, feitos no alarido e diversão constantes, não posso deixar de concordar com a expressão jocosa de Alberto Gonçalves, certamente que desejoso de ser tratado com menos infantilidade. Um simples programa de culinária, «Dans la peau d’un chef» por Christophe Michalak, antes do «Questions pour un Champion» reúne todos os requisitos de um programa simultaneamente cultural, educativo, de arte, de requinte e de educação, na sobriedade e precisão dos gestos e das falas, nos comentários e simpatia dos chefes, na realização por estes de um prato artístico que será a seguir imitado por dois concorrentes, em rigor horário, submetido à apreciação dos chefes. O mesmo se dirá de programas como «Thalassa» que nos fazem percorrer o mundo inteiro, no seu trabalho, nas suas paisagens, na sua cultura, no seu dinamismo. E tantos outros, que nos dão a conhecer a França, na sua História, na sua Arte, nas suas realizações. Para não falar em outros de diversão, de extraordinária dimensão artística, como os de Patrick Sébastien, animador de “Le plus grand cabaret du monde”, ou o dinâmico “Questions pour un Champion” que em nada se equipara ao lânguido e exibicionista programa da Manuela Moura Guedes na RTP.

 

Ao desviar-me da intenção primeira – a de comentar os artigos de Alberto Gonçalves – julgo dar-lhe apoio no seu desejo reformista, de ambicionar um melhor papel cultural para as nossas televisões, condicionados embora por tantos obstáculos da nossa natureza generosa e chocalheira, irradiando simpatia junto do povo festivaleiro. E pouco mais.

 

Quanto ao artigo «O buraco negro», que refere o divisionismo do PS relativamente às argúcias de Alexis Tsipras, na resolução do problema do défice grego, transcrevo o texto de Alberto Gonçalves, revelador igualmente do “vazio” argumentativo de António Costa, na dualidade pró ou contra Tsipras, que aponta a ambiguidade astuciosa do seu pensamento ambicioso de poder.

Indicaria, em reforço do pró de Costa, como demonstração provocatória pitoresca mais visível, a exclusão “espalhafatosa” da gravata convencional junto dos camaradas espanhóis. A exclusão da gravata torna mais vazio o buraco. Ou mais negro.

 

«O buraco negro»

 

Há eleições na Grécia e, de acordo com a sua incompreensível natureza, o PS divide-se. Certa ala hoje “marginal”, de Jaime Gama a Vital Moreira, discorda dos “delírios” do Syriza, enquanto as escolas de pensamento dominantes acham, sabe-se lá porquê, que o futuro de Portugal, da Europa e da humanidade dependem do sucesso do Syriza.

 

A questão é: qual Syriza? Os valentes que sonham demolir a hegemonia alemã ou os pelintras que imploram à Alemanha que não os deserde? Os revolucionários que desprezam as obrigações acordadas ou os desgraçadinhos que não conseguem uma reunião com a srª Merkel? Os pantomineiros que ameaçam sair da UE ou os pobres diabos temerosos de que a UE corra com eles?

 

Entre as altíssimas figuras socialistas, a única que mostrou perceber em absoluto a contraditória complexidade dos novos senhores gregos foi, sem grande surpresa, o líder António Costa. Em dois ou três dias, esse vibrante indivíduo celebrou a firmeza do Syriza, e a “involução” do Syriza, condenou a austeridade e a renegociação da dívida, defendeu o rigor e a irresponsabilidade, admitiu todas as soluções e comprometeu-se com nenhuma, desmontando de uma assentada as más-línguas que o davam como sucessor natural dos monumentos ao vazio que costumam mandar em nós. Nada disso: o génio do Dr. Costa é um vazio de outra dimensão e gabarito, talvez só comparável a um buraco negro, uma metáfora e, se não tivermos juízo, um destino.

 

Berta Brás 2.jpg Berta Brás

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