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A bem da Nação

PAVÃO

 

Maria Luís Albuquerque é uma figurinha que se tem imposto pela serenidade e firmeza das suas respostas quando é confrontada com as opiniões geralmente excitadas dos que discordam das políticas do Governo. E esses e essas, que ganharam novas forças com a vitória dos camaradas gregos de cor, têm-se esforçado por destruir o bom nome do seu país, que preferem caloteiro, e não olham a meios na sua aparente preocupação pelos que mais sofrem e até são forçados a sair dele em busca de sobrevivência. Não lhes importam as boas notícias sobre os frutos das políticas que os ministros trazem à ágora, troçam despudoradamente e sem educação dos governantes pacientes, pelejando em desgrenhadas vozes pela sua dama – a da ideologia do sentimento, que já estava inserida no nosso fado antigo do coitadinho/inha e na versão trocista do agradecimento humilde do “òbrigadinho é o que eu lhe desejo”.

O certo é que as alfinetadas velhacas sobre a posição de subserviência de Passos Coelho face ao estrangeiro, donde nos veio o pão, que ele pretende pagar, como pessoa honrada, colheram adeptos, na imprensa alemã também, que, ao que parece, se referiu ao posicionamento de dureza do nosso ministro e da nossa ministra das Finanças, relativamente à questão do financiamento europeu dos gregos.

 

Pavão branco.jpg

 

E o Sr. Varoufakis assim o entendeu, pois não deixou de o apontar, em falsos sorrisos de falsa compreensão dessa dureza, sugerindo atitudes rasteiras de vilões pobrezinhos que já passaram pelo mesmo e não são solidários com o problema dos outros.

Custa-me a crer que assim tenha sido da parte de Maria Luís Albuquerque, que se defende afirmando que nem uma vírgula mudou às exigências do euro-grupo.

Acredito nela. E a imagem de Varoufakis, contorcendo o tronco, a cabeça altiva ditando ditirambos sardónicos de alegre mistificação, não de louvor mas de chufa, lembrou-me o galo emproado do galinheiro, em torno das frangas desprotegidas, soltando o seu cocorocó dominador.

Na realidade, não vejo motivos para cocorócó.

 

Berta Brás.jpg Berta Brás

OS MANEZINHOS DA ILHA

 

 

MADUFA-Florianópilos.jpg

Foto: Santo Antonio de Lisboa (Florianópolis). Arquivo pessoal da autora

 

Uns dos primeiros colonos europeus a deitar raízes e marcar terreno no solo deste imenso país foram os açorianos. A principio individual e esparsamente, e mais tarde em levas migratórias colonizadoras, planeadas pelo reino, que se espalharam desde o norte (Maranhão, Amazonas) ao sul do país, mais notadamente no Rio Grande do Sul e Santa Catarina, onde a presença açoriana foi mais numerosa e evidente.

 

Os colonos começaram a chegar a Santa Catarina a partir do ano de 1748. Eram grupos de casais e aparentados fugidos de desastres naturais (em geral erupções vulcânicas) e da superpopulação que lhes traziam nas ilhas dos Açores crises de subsistência. As viagens e primeiras acomodações eram patrocinadas pelo Estado Português que precisava, por sua vez, ocupar o território e defender suas fronteiras americanas dos espanhóis. As promessas governamentais (D. João V) de lhes dar apoio financeiro, parcelas de terra, apetrechos agrícolas, umas poucas vacas e um asno, choupanas para abrigo e assistência no primeiro ano de Brasil, nem sempre foram cumpridas. Ao chegarem numa terra estranha, idealizada pelas quiméricas histórias de fartura e riqueza, de luxuriante beleza, mas ocupada por florestas cerradas e índios hostis, sem condições de habitação decente, seus ânimos, já abatidos pela crueza e insalubridade da viagem, arrefeciam. Ingénuos, rudes, crédulos, no entanto pressentiam que era uma viagem sem volta. Teriam pela frente uma nova epopeia, a da sobrevivência.

 

Saíram dos Açores para Santa Catarina de 1748 a 1752 cerca de 6000 pessoas. Entre as viagens e as iniciais dificuldades na Terra, supõem-se que perto da metade tenha perecido. Esses primeiros colonos sobreviventes foram distribuídos no Desterro (antiga capital de Santa Catarina), Lagoa da Conceição, na enseada do Brito, São José e Laguna. Em Porto Alegre (Porto de Dornelas) até 1752 estabeleceram-se 60 casais. Aí a terra foi favorável ao cultivo do trigo, feijão, milho, cevada, vinha, cânhamo, etc. Construíram moinhos e azenhas. Criaram gado, miscigenadamente, formaram estâncias, fizeram-se tropeiros, abriram caminhos para outros lugares.

 

Em Santa Catarina, a terra arenosa não favoreceu ao cultivo do trigo, aprenderam então com o índio a consumir a mandioca (mansa) no lugar desse cereal. Novas técnicas de artesanato, pesca e cultivo adquiriram. A vinha, o algodão, o linho tiveram algum sucesso apesar dos recrutamentos militares periódicos que desviavam os homens das actividades agrícolas. As lutas pela sobrevivência foram longas e intensas. Tiveram que se adaptar, superar dificuldades e deficiências, distâncias, faltas e doenças. Mesmo assim, quase esquecidos, colocaram em acção a tecnologia que trouxeram consigo. Construíram embarcações, engenhos e teares, abriram clareiras na mata, plantaram a vinha e os alimentos para subsistência. Levantaram casas, fabricaram louça, cestos e panos. Introduziram a renda de bilro, caçaram a onça que comia seu rebanho, tendo seus cães como fiéis companheiros (daí a grande quantidade de cães que ainda vagueia pela ilha de Santa Catarina), e a baleia para produzir óleo usado nas construções e como combustível. Enfim, fundaram vilas, projectaram fronteiras, fizeram revoluções, quiseram até ser um outro país!

 

Apesar do analfabetismo que nos primórdios medrava entre eles, passaram sua cultura, costumes e crenças, religiosidade, gastronomia e identidade para seus filhos. Apegados à família, ciumentos de suas mulheres, mesmo na pobreza e com as limitações que a terra e a política lhes impuseram, fizeram-se felizes e hospitaleiros.

 

Os mais aventureiros partiram para o sudeste e centro-oeste onde o ouro e as pedras preciosas, atractivas, reluziam. Muitos sucumbiram nas picadas e nas contendas, pela vida e pela fortuna, em busca do El-dourado. Os bem sucedidos enriqueceram, transformaram-se em grandes fazendeiros, latifundiários, chamaram amigos e parentes, daqui e/ou de além-mar, e com aventureiros de outras plagas, fizeram no interior brasileiro uma nova casta de gente que por largo tempo dominou a política das terras sertanejas.

 

Os que ficaram no Desterro agruparam-se, formaram famílias que se dispersaram em pequenos sítios e áreas. Isolados, agregados por natureza, as uniões entre essas famílias cada vez mais aparentadas deixavam a cada geração mais sequelas. A consanguinidade determinava nascimentos de crianças com maior número de deficiências físicas e mentais.

 

Mas os tempos rolaram, os séculos se sucederam, as contendas apaziguaram. Os caminhos melhoraram, por terra e por mar o espaço foi cada vez mais conhecido e pelo estrangeiro nacional (paulista, rio-grandense do sul e mineiro,...) e internacional visitado, (inglês, uruguaio, argentino,...). Santa Catarina viu os colonos imigrantes italianos, alemães, polacos, russos, chegarem e fazerem das suas terras focos de beleza e prosperidade.

 

Hoje, os descendentes dos primeiros colonizadores açorianos, os manezinhos da ilha, podem ainda ser encontrados nas pequenas comunidades de Florianópolis e algumas regiões costeiras de Santa Catarina. Porém, essa pequena população de “nativos” já se encontra em vias de extinção pelas miscigenações genéticas e culturais actuais, e pela voraz expansão imobiliária que, apesar das leis ambientais, nem sempre respeitadas, vem desde 1960 assolando a capital do Estado, expulsando o nativo de seu resguardado habitat, degradando impunemente a natureza e ocupando áreas que deveriam ser de preservação ambiental. Resultado da conhecida má política que só vê os ganhos pecuniários imediatos para um pequeno grupo de fortes proprietários, e que despreza o futuro de qualidade para o restante da comunidade ilhoa.

 

Morros desbastados da sua natural cobertura verde, ocupados perigosamente por construções levantadas em áreas de risco, com a complacência irresponsável da autoridade pública, vias congestionadas por gente deseducada que joga lixo nas praias e estradas, poluindo o visual e o meio ambiente, violência urbana crescente, cada vez mais incontrolável, é o panorama que se vislumbra em Florianópolis actualmente. Urge que haja políticas inteligentes e políticos eficientes que promovam o desenvolvimento seguro e sustentável desse rico património da natureza. “Enquanto houver algum recanto paradisíaco guardado por um “manezinho” risonho e pescador, enquanto ainda sobrarem locais intocados pelo homem “civilizado” e” empreendedor” a Ilha de Santa Catarina merece ser apreciada.

 

Tupaciguara, 14/02/2015

 

MEF-Mª Eduarda e Wilson Nunes.jpg Maria Eduarda Fagundes

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