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A bem da Nação

A MINHA OBSESSÃO COM JOSÉ SÓCRATES

 

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Dividi Portugal em dois campos: de um lado, aqueles que percebiam o perigo que Sócrates representava para a salubridade do regime; do outro, aqueles que não percebiam.

 

Ao contrário do que muita gente pensa, eu não conheço José Sócrates de lado algum. Nunca falei com ele. Nunca estivemos na mesma sala. E mesmo o processo que ele me colocou beneficiou-me muito mais do que me prejudicou: ganhei três vezes e a atenção que as pessoas me dedicavam triplicou. Estou-lhe grato por isso. Mais: eu fui um furioso opositor de Santana Lopes e depois do seu espectacular desastre enquanto primeiro-ministro, os dois primeiros anos do Governo de José Sócrates pareceram-me um oásis de competência e capacidade de liderança.

 

A minha atitude só começou a mudar com o acumular de casos, casinhos e casinhas, primeiro em 2007, com a questão da licenciatura, depois em 2008, com os projectos da Guarda, e finalmente no annus horribilis de 2009, com a casa da Braamcamp e as gravações do Freeport. Eram casos de gravidade muito diferente, mas denotavam um padrão – padrão esse que os portugueses manifestamente desvalorizaram, permitindo a Sócrates vencer as legislativas de Setembro de 2009. Quando nesse mesmo mês o Jornal Nacional de Manuela Moura Guedes foi suspenso (estamos a falar de uma televisão privada acabar com o seu jornal de maior audiência) e, no final desse ano, se começaram a conhecer os detalhes do Face Oculta e me deparei com a forma como o país e as suas principais instituições reagiram a um caso daquela gravidade, todos os sinais de alarme dispararam na minha cabeça.

 

Aí, de facto, dividi Portugal em dois campos: de um lado, aqueles que percebiam o perigo que Sócrates representava para a salubridade do regime; do outro, aqueles que não percebiam. E neste “aqueles que não percebiam” incluo tanto os devotos mais assolapados do engenheiro como aqueles que, não sendo devotos, achavam – e muitos continuam a achar – que ele era apenas “mais um político”, torcendo o nariz a tanta gritaria à volta da sua figura. A minha alegada obsessão deriva daqui: da incapacidade que o país, como um todo, demonstrou para reagir a um primeiro-ministro com o perfil de José Sócrates, que debaixo do nosso nariz tentou controlar em meia dúzia de anos a política, a banca, a justiça e a comunicação social – e que esteve à beira de o conseguir, não fosse o Lehman Brothers ter feito o favor de desabar.

 

Pior: esta anomia continua entre nós. Perante as gravíssimas revelações do Correio da Manhã de Sexta e Sábado, a comunicação social demorou dois dias a reagir. E muito timidamente. Porquê? Porque o CM é um jornal populista, como populista era o Jornal Nacional de Manuela Moura Guedes. Não interessa o que eles dizem – o que interessa é que o fazem num tom desagradável. Estão a ver o conceito de watch dog? Em Portugal, as pessoas bem-educadas apreciam apenas watch kitties. É melhor só miar. E baixinho. Parece que não aprendemos nada de nada. E enquanto eu achar que não aprendemos nada de nada, permitam-me a indelicadeza de continuar a insistir na minha obsessão. Porque o problema não está em Sócrates – está no país que permitiu que ele fosse duas vezes primeiro-ministro.

 

22/01/2015

 

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MAIS ALEMANHA!

 

 E PORQUE NÃO MAIS PORTUGAL?

 

O TRIBUNAL CONSTITUCIONAL ALEMÃO QUER A

EUROPA MAIS DEMOCRÁTICA

 

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Em democracia o executivo tem de ser controlado com eficácia. A política da UE não pode continuar só nas mãos do Governo e do Ministério dos Negócios Estrangeiros, decidiu o Tribunal Constitucional Alemão em Karlsruhe. O Parlamento nacional além do papel de legitimador das disposições da UE tem de ser envolvido também na sua feitura. O Tratado de Lisboa (espécie de Constituição da UE) não pode ser aplicado sem mais.

 

Pela terceira vez os políticos são admoestados por decisões do Tribunal, que exige maior legitimação democrática na aplicação do Tratado de Lisboa. Como na Alemanha não houve plebiscito nacional para legitimação do Tratado de Lisboa, o Tribunal põe-se ao lado do povo exigindo mais poder de participação e intervenção dos deputados federais em questões da UE e de outras.

 

A política europeia não pode continuar reservada aos Governos. Estes fazem passar decisões importantes na vida dos povos à margem do Parlamento reduzindo-o a um mero papel de legitimador no fim do processo.

 

Em países de consciência menos democrática a política da UE ainda continua a ser considerada matéria reservada ao Governo e ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, que sem grande dificuldade marginalizam o Parlamento. O Tribunal Constitucional Alemão diz não a esta situação. Admoesta os deputados para assumirem mais responsabilidade. Critica o facto de a Assembleia da República ter abdicado levianamente do seu direito de intervenção delegando sem mais competências em Bruxelas. O legislativo tem de se ocupar de novo com o Tratado de Lisboa, para o submeter às rédeas do povo e assim o disciplinar. O Parlamento não pode continuar a dar-se por satisfeito com informações vagas do Governo nem aceitar a mania sistemática dos segredos. O grande aliado da Assembleia Nacional é o Tribunal constitucional.

 

Os políticos, depois do puxão de orelhas do Tribunal, parecem ter aprendido a lição. Convencionaram considerar o Parlamento como parceiro nobre em questões de UE e não só. A parceria deverá relacionar-se a tudo o que tenha a ver com política interna e externa da UE e com convenções económicas internacionais.

 

Muitos assuntos europeus terão de passar a ser discutidos na Assembleia da República da Alemanha antes de saírem de Bruxelas. Até agora Bruxelas fez praticamente o que quis sob a vontade dos Governos.

 

O melhor modelo de comparticipação popular em questões de UE é o dinamarquês. Aqui o Governo, nas suas conversações, está dependente das indicações do Parlamento.

 

Em Portugal o Governo continua a actuar sem necessidade de se justificar. Os interesses do Governo podem passar à margem dos interesses do povo.

 

Temos mais Alemanha e menos Portugal porque a Alemanha é mais povo, mais Nação enquanto Portugal é mais Governo, a pretexto de povo e de nação.

 

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António da Cunha Duarte Justo

A ESCADA DO GALEGO

 

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Também teve as suas ambiguidades, Salazar – tal como o galego da escada que ninguém descortina se ele está a subi-la ou a descê-la, segundo referência de António Pina do Amaral no artigo Salazar e Franco mas era indiscutivelmente um homem que sabia o que queria. E por isso permaneceu no seu posto longo tempo – tal como, afinal, Jardim, que também apreciou o posto – e Cavaco, e Soares, e tutti quanti – embora o controlo dos gastos daquele fosse mais visível, e sempre no amor da pátria, que conseguiu desendividar e fazer progredir - dentro de normas de avara mesquinhez, é certo, mas dentro de preceitos de ética mais visíveis. Outros homens lhe reconheceram a competência – espanhóis – como os que o texto de António Pina do Amaral identifica.

 

Eram estrangeiros, por isso imparciais, mas evoco ainda, a propósito de admiração, o meu amigo Juiz Dr. Brites Ribas, que me deu a conhecer um pouco de Lisboa e os “marinos” do café Central – (em nada, apesar de tudo, camaradas na parcimónia de Salazar, referida no texto de Pina do Amaral) – o qual amava Lisboa e admirava Salazar: Considerava-o o maior estadista português de todos os tempos, o mais inteligente. Era Juiz, conhecia-lhe a obra e tinha bom senso.

 

Este elegante artigo de Pina do Amaral revela um pouco dessa inteligência de Salazar em acção. E a simplicidade criteriosa do seu viver sem espectáculo. Mas sabendo convencer quem se propunha convencer, numa época perigosa e dúbia, em que conseguiu livrar o seu país ingrato das garras que dilaceraram outros com menos sorte.

 

Como somos ingratos, não queremos reconhecê-lo e preferimos “branquear” esse passado, menosprezando-o, trocando os nomes que àquele pertenceram, segundo uma “ponte” de partida para uma nova era, de muita presunção e de muita pobreza.

 

Ainda ontem tal mesquinhez foi visível, nas reacções dos partidos à nova injecção de dinheiros aos países necessitados da UE, para efeitos de desenvolvimento económico. Logo toda a Oposição entoou chufas ao Governo da austeridade que nunca tentara negociar a dívida, limitando-se a cumprir segundo as ordens recebidas – (mas suponho que também por escrúpulo de honestidade que, por mim, aprecio).

 

E foi por isso que não estranhei o ar radioso de António Costa, aproveitando o facto para logo apontar o dedo triunfalmente acusador, senhor que se segue, que não descura o trunfo a seu favor, como o galego na sua escada, já sem ambiguidade, pronto a subir.

 

Berta Brás.jpg Berta Brás

DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

 

Com a História aprende-se mas para isso é necessário conhecê-la.

 

Péron quis erigir um Estado social na Argentina, promoveu a industrialização forçada e abandonou a estrutura empresarial agrícola à sua sorte. A conjuntura internacional não ajudou à manutenção das exportações de cereais e de carne, a substituição de importações industriais não foi eficaz, a economia argentina entrou em colapso e o Estado faliu. Péron foi rapidamente encaminhado para o exílio.

 

Também nós erigimos um Estado social enquanto desmantelávamos a malha produtiva e, não contando com a ajuda excepcional americana de 1976-77 por intervenção do então Embaixador Carlucci, em 40 anos tivemos rupturas financeiras que por três vezes nos obrigaram a pedir ajuda externa.

 

Erigir um Estado social sem uma sólida base contributiva não passa de um absurdo. Foi nesse tipo de absurdo que vivemos durante tempo de mais. E agora não bastará equilibrar as contas públicas pois é fundamental erigir um novo modelo de verdadeiro desenvolvimento.

 

O novo modelo tem que se basear na produção de bens e oferta de serviços transaccionáveis – não mais insistindo na via do consumo – sob pena de a ruptura financeira regressar na medida da retoma dos défices comerciais. A contracção da procura interna resultou da necessidade imperiosa de redução da despesa pública com pessoal, não de políticas económicas implantadas no âmbito da prossecução de um novo modelo; o quase desaparecimento no mercado doméstico de sectores dedicados aos bens não transaccionáveis resultou do facto de ter sido necessário reduzir drasticamente o investimento público e o endividamento das famílias, não de políticas económicas de substituição.

 

Ou seja, o que já existe desse novo modelo é obra quase exclusiva das empresas que, perante o desmoronamento do mercado doméstico, se viabilizaram nos mercados externos. E, muito ou pouco, a taxa de emprego vem subindo continuadamente.

 

Na ausência de políticas públicas imaginadas adrede (e seus típicos subsídios e outras benesses de origem pública) foi a iniciativa privada que indicou o rumo da correcção dos erros acumulados e colhe perguntar se não será esta efectivamente a melhor solução limitando-se o Estado a fazer o que a mais ninguém compete, como sejam, a redução dos custos de contexto, a promoção da transparência dos mercados, a produção da legislação que garanta a introdução de lógica no método de formação dos preços e, em conformidade com o relatório "Doing Business" do Banco Mundial citado em 29 de Outubro de 2014 pelo The Economist, a modernização do quadro jurídico de forma a reduzir o tempo que demora entre nós resolver uma disputa ou liquidar uma empresa insolvente (leia-se em ambos os casos, a rapidez da Justiça) que o gráfico seguinte evidencia com os nossos principais parceiros apresentando resultados bem mais favoráveis que os nossos.

 

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O novo modelo de desenvolvimento está em vias de instalação pela mão das empresas mas carece de uma bem específica acção legislativa que o apoie.

 

Novembro de 2014

 

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Henrique Salles da Fonseca

«NEM VALE A PENA TER PENA DA GENTE A QUEM ISSO ACONTECE»

 

Entre os três artigos que neste Domingo pertencem à crónica “Dias Contados”, de Alberto Gonçalves (D.N., 18/1/15), sendo o primeiro artigo ainda em torno dos Charlies e dos seus direitos, destaco os dois últimos – “O Mistério da Educação” (13/1), sobre problemas da Educação, “Lindo Serviço” (14/1) a respeito da mudança da administração da RTP e do comentário seguinte, que ele acha humorístico, de Maria Rueff, a quem ele nunca concedeu, contudo, o atributo de humorista: “Conheço o Nuno Artur Silva há vinte anos. No fundo, o que eu quero mesmo é que ele devolva à RTP a capacidade de ser Charlie.”

 

Julgo que a frase de Maria Rueff quer apenas referir-se, na questão Charlie, a si mesma, a Ana Bola e outros actores que com elas contracenaram, em grotescas figuras de imitação e troça, que, provocando o riso imediato pelo reconhecimento da figura real que os seus bonecos distinguiam em ataque directo, de desmesura burlesca, visando sobretudo os governantes, não passavam de pura farsa, em caricaturas reconhecidas, chamariz do riso alvar, bem distante da ironia mais subtil que nos dá a comédia – não nossa, infelizmente – expressiva das sinuosidades dos caracteres humanos e alcançando uma maior dimensão crítica ou satírica, se não mesmo dramática, até por inadaptação à realidade – caso do “Misantropo” de Molière, cuja seriedade e intransigência contrastam com o mundo de futilidade e cinismo – o mundo da sua amada Célimène, onde aquele – Alceste – naturalmente sairá perdendo.

 

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Mas vejamos o engraçado artigo de Alberto Gonçalves:

 

«Lindo serviço» (14/1)

 

Não tinha Maria Rueff por humorista até ler, há dias no DN, o comentário da senhora ao novo administrador da RTP para os conteúdos: “Conheço o Nuno Artur Silva há vinte anos. No fundo, o que eu quero mesmo é que ele devolva à RTP a capacidade de ser Charlie”.

 

Além de engraçadíssima, a frase abre um mundo de possibilidades para a futura programação do canal público. “Ser Charlie” significa que se vai transformar o “Prós e Contras” num espaço de achincalhamento de Maomé? Ou que o Telejornal reservará meia hora para o inventário dos atentados em nome do Islão? Ou que, numa emissão especial da Praça da Alegria, os estúdios da estação acabarão destruídos à bomba? Ou que a próxima administração admite morrer pela liberdade?

 

Pensando bem, qualquer das hipóteses é pouco provável. O mais certo é que, a fim de “ser Charlie”, a RTP seja apenas aquilo que sempre foi: uma estratégia para retirar dinheiro de todos de modo a patrocinar meia dúzia. Dito de outra maneira, quem paga não escolhe e com aquele tipo de coragem que não se distingue do descaramento, quem recebe não se importa. Não é o lendário serviço público, mas é um lindo serviço.

 

Quanto ao «O Mistério da Educação», que foca as incapacidades de realização escolar em vários domínios, de que enfermam os nossos alunos, incapacidades reconhecidas pelo IAVE, com sugestões deste para as colmatar, o artigo de Alberto Gonçalves é realmente um mimo de graça, no apontamento de idiotia rebuscada de quem ditou o tal relatório, ao procurar no sinal de «igual» uma tentativa pedante de explicitação do termo – talvez por motivos ideológicos, de efeito milagroso sobre as cabeças dos camaradinhas juvenis, que assim se vão habituando às reivindicações igualitárias, junto dos pais, professores e todos os que eles se habituaram a considerar seus pares, por iguais dificuldades em aprender educação ou, no caso dos adultos, permissivos ou inertes, de a ensinar: Vejamos um excerto do referido relatório: “Sugere-se que seja dedicada especial atenção ao significado do sinal de igual (que estabelece uma relação de igualdade dos valores apresentados em cada um dos lados do sinal), trabalhando-se no sentido da passagem de uma visão “procedimental” (a seguir ao sinal de igual coloca-se o resultado) para uma visão relacional.”

 

Há lá nada mais simples para as cabecinhas da segunda classe! Leiamos o texto de Alberto Gonçalves:

 

«O Mistério da Educação» (13/1)

 

O Instituto de Avaliação Administrativa (IAVE) informa que os alunos da segunda classe dominam escassamente o português (mas apenas na escrita, na gramática e na leitura) e a Matemática (não entendem o conceito de igualdade e mostram dificuldade em contar dinheiro). Em Física, Botânica, Plasticina e Latim são fortíssimos, presume-se.

 

Isto é grave? Vamos com calma. No que respeita ao Português, o próprio IAVE prova que a respectiva compreensão é sobrevalorizada. Vejamos um excerto do referido relatório: “Sugere-se que seja dedicada especial atenção ao significado do sinal de igual (que estabelece uma relação de igualdade dos valores apresentados em cada um dos lados do sinal), trabalhando-se no sentido da passagem de uma visão “procedimental” (a seguir ao sinal de igual coloca-se o resultado) para uma visão relacional.” Quem fala assim possui, evidentemente, uma relação complicada com a língua (ou uma visão relacional míope da mesma), pormenor que não impediu os senhores do IAVE de emitir palpites alusivos.

 

Quanto à Matemática, o facto de as nossas crianças desconhecerem a igualdade é capaz de vir a ser-lhes útil num futuro em que, a julgar pelos indícios de analfabetismo, não terão grande legitimidade para reivindicá-la. E no que toca à contagem de dinheiro, o salário mínimo ou o subsídio de “inserção” contam-se num instante. Excepto, claro, no caso dos felizardos que consigam emprego num dos diversos, pedagógicos e indispensáveis organismos do Ministério da Educação.

 

Quanto às dificuldades de aprendizagem do Português e dum modo geral das demais disciplinas, para além dos condicionalismos provenientes da unificação do ensino e multiplicação de factores de descontrolo e divergência, o facto tem a ver também com a multiplicidade de informação que de repente se abate sobre os alunos, ainda mal habituados a uma leitura e escrita correctas, com justificação gramatical elucidativa, e a quem desde cedo são veiculadas informações sobre estruturas múltiplas, níveis de língua, variedades da lusofonia, quando nem se aperceberam ainda da forma correcta de articular as palavras.

 

«Coitado do Álvaro de Campos!»

 

Berta Brás.jpg Berta Brás

SALAZAR e FRANCO

 

Foi em Fevereiro de 1942, o encontro que definiu a sorte da guerra. Salazar encontra-se secretamente com Franco e obtém uma certeza: a não beligerância espanhola manter-se-á. O Presidente do Conselho de Ministros de Portugal saíra de Lisboa pela manhã. Ao almoço tinha lugar um insólito pic-nic.

 

Eram 10 da manhã do dia 10 de Fevereiro de 1942.

 

Ao chegar à Rua da Imprensa à Estrela para iniciar mais um dia habitual de funções, nesses tempos conturbados de guerra, o secretário de Oliveira Salazar, constata, perplexo, a ausência do Presidente do Conselho de Ministros. Mas pior: feitos uns contactos de entre os círculos que naturalmente deveriam estar a par de qualquer deslocação de Salazar, rapidamente se conclui que ninguém estava prevenido quanto a qualquer eventual saída ou motivo para ausência.

 

A situação assume foros de paroxismo quando se acrescenta ao rol dos faltosos mais um nome. Também o Director da PVDE, a antecessora da PIDE, o capitão de infantaria Agostinho Lourenço da Conceição Fernandes se não achava no seu posto, na Rua António Maria Cardoso, nem na residência sita a Avenida Barbosa du Bocage.

 

Facto consumado! No maior segredo, nem aos mais íntimos confessando a sua intenção, Salazar partira essa manhã, de automóvel, acompanhado de Lourenço e de dois oficiais de segurança, rumo ao Sul de Portugal. Passado o Tejo pelas nove e meia, junta-se-lhe em Estremoz o Embaixador Pedro Teotónio Pereira, que para o efeito se deslocara de Madrid, onde chefiava a legação portuguesa junto de Franco. Retomada a marcha, pela hora do almoço os viajantes estão perto da fronteira.

 

Dá-se então o ainda mais inesperado. A um gesto de Salazar, o motorista estaciona num local retirado da estrada. Cumprindo um ritual pré estabelecido, abre a bagageira da viatura e dali retira um cesto. Dali sai, queiram ou não os circunstantes acreditar, o farnel para o almoço. Disposto a não dar nota da sua presença e a isso juntando uma economia de despesa, Salazar confunde-se com a paisagem e quais turistas acidentais em improvisado piquenique, satisfaz assim as exigências vitais. Os outros acompanham-no em respeitoso silêncio.

 

Filho de camponês, a refeição é frugal. E, no entanto, é um momento decisivo da História contemporânea que então se vive. Não adivinhariam os poucos passantes que ali, nesse “déjeneur sur l’herbre” estava a jogar-se o futuro de Portugal e a sorte da Segunda Guerra Mundial.

 

Salazar dirigia-se a Sevilha para um encontro com Franco.

 

Iriam ver-se pela primeira vez. E, no entanto, até ali, tinham estado sempre juntos. O encontro, ocorrido nessa noite no Alcazár, seria decisivo.

 

O ambiente político e militar de então não poderia ser mais carregado. A ameaça de envolvimento de Portugal no conflito militar que, desde há três anos, dilacerava a Europa, era cada vez mais iminente. O país havia definido desde o princípio das hostilidades uma política de neutralidade, ditada pela Aliança Inglesa e pela consideração que não poderíamos por causa dela hostilizar os britânicos nem por efeito dela guerrear os alemães.

 

Mas, na concepção de Oliveira Salazar, a neutralidade jogava-se igualmente na frente atlântica, envolvendo o destino dos Açores e de Cabo Verde, e no bloco peninsular, envolvendo uma concertação com a Espanha. Com o Governo de Madrid Portugal firmara, logo em 1939, um “Tratado de Amizade e de não agressão” e em Julho de 1940 um Protocolo Adicional. Dois anos volvidos, em 1942, o panorama estava diferente e mais complexo.

 

Aos riscos de uma invasão nazi, que Hitler prenunciara com o Plano Félix, sucedem-se, em cumulação, os riscos de uma invasão Aliada, pois certos sectores das “nações unidas” não queriam correr o risco de deixar um país estrategicamente tão importante como Portugal ao acaso de uma ocupação pelo Eixo e da subsequente perda de posição dos pontos nevrálgicos dos Açores e de Cabo Verde.

 

É nesta ambiência que se dá o encontro entre o Generalíssimo Francisco Paulino Hermenegildo Teódulo Franco Bahamonde, o “caudillo” de todas as Espanhas, e o Presidente do Conselho de Ministros de Portugal, Professor António de Oliveira Salazar.

 

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Serrano Súñer, Franco e Salazar no Alcázar de Sevilha

 

À histórica conversa apenas assistiria Serrano Suñer, o recém-empossado Ministro das Relações Exteriores, líder da Falange, e cunhado de Franco. O jogo é denso, quer por causa das pessoas em presença, quer por virtude das realidades políticas do momento.

 

Preparado para todas as eventualidades, Salazar não ignorava a manhosa habilidade de Franco que, em declarações sucessivas, parecia decisivamente inclinado para o lado do Eixo nazi fascista, enquanto, por outro lado, dava sinais contraditórios aos Aliados de que respeitaria a “não beligerância” que definira no advento do conflito.

 

Ainda para complicar a cena, no tablado da encenação política, Franco, que até então havia jogado no apagamento intencional da sua imagem, fazendo projectar à boca de cena, a do seu cunhado, Serrano Suñer, cuja germanofilia era mais do que patente, surpreendera agora tudo e todos com um golpe de asa, invertendo os papéis e assumindo agora um papel decisivo na condução dos negócios políticos exteriores. Mas, para além das aparências da encenação política, Suñer era, naquele encontro, uma peça decisiva.

 

O seu passado quando da elaboração do Protocolo Adicional ao Tratado de não agressão havia deixado marcas indeléveis da sua má vontade contra a posição portuguesa. Negociado secretamente entre Teotónio Pereira e Juan Beigbeder Atienza, o documento havia sido aprovado por Franco, mau grado a fria oposição de Suñer, que para o efeito não desdenhara mesmo o animar uma campanha de imprensa hostil a Portugal.

 

Perante isto, Oliveira Salazar não ignora que parte decisiva do que disser ou fizer deve também visar o convencimento do cunhado do Generalíssimo, pois é dele que poderá vir o obstáculo definitivo a qualquer acerto que então se faça. Neste particular a sua vitória pessoal foi total. No plano político, a situação também não é fácil para um alinhamento da Espanha com a pretensão portuguesa de subsistência da neutralidade comum.

 

Internamente, eram cada vez mais activas as forças do regime que, confiadas numa vitória nazi, clamavam por um alinhamento militar ao lado de Berlim, a que se juntavam quantos pretendiam a oportunidade para concretizar uma anexação política de Portugal, viabilizando assim a formação de um bloco ibérico, mais satisfatório aos apetites hegemónicos imperiais de Castela. Provocatoriamente, a Falange havia mesmo mandado imprimir, no Auxílio Social de Valladolid um mapa da península no qual Portugal aparecia como uma província de Espanha.

 

Exteriormente, a cada vez mais intensa colaboração militar dos Aliados com a União Soviética, aliciava o endémico anti-comunismo espanhol a não alinhar com aqueles que estão agora no mesmo campo dos vermelhos contra os quais se havia erigido, em três anos sanguinolentos, a guerra civil. No meio deste “albergue espanhol” Franco, prudente e ardiloso. Instintivamente, Salazar está convencido de que Franco, mau grado o espectáculo das suas declarações e da dos seus, não dará o passo final em favor de Hitler e apenas pretende sossegar o Führer, entretendo-o no eterno jogo das esperanças.

 

A origem de Franco explica a sua psicologia. Fiel ao dito “se vires um galego numa escada nunca saberás se vai a subir ou a descer”, Salazar conta com a indefinição do seu interlocutor e não espera dele mais do que sinais. Formal, a conversa entre os dois estadistas decorre com fluência. Em atenção a Salazar, Franco fala no seu dialecto de origem, o galego, absolutamente compreensível pelo seu interlocutor. Atento, Suñer surpreende-se pelo que lhe é dado observar.

 

Minado de preconceitos políticos, mas arguto observador, rende-se incondicionalmente ao Presidente do Conselho português. Em entrevista posterior com o Embaixador alemão em Madrid, não hesita em declarar a sua opinião. Para si, Salazar é um “homem extremamente simpático, extremamente bem-educado, culto, amável, duma perfeita dignidade”. Mais tarde a amigos dirá que Salazar é “um homem de primeira ordem, com todo o rigor de um catedrático e a paixão de um místico”. Do lado de Franco o desconcerto é algo evidente. Cioso de um encontro com pompa e circunstância, fica desarmado por aquela discretíssima embaixada.

 

Uma década volvida, em 13.01.58, em entrevista ao jornal conservador francês Le Figaro, o Generalíssimo não esconderá os seus sentimentos acerca de Salazar que, para ele é “o mais completo e mais digno de respeito estadista que conheci. Olho-o como uma personalidade extraordinária pela sua inteligência, o seu senso político, a sua humanidade. O seu único defeito é a modéstia”.

 

Exercício de sedução, a conversa entre os estadistas não foi fácil. Violando a regra estratégica de que uma força cercada não faz manobras, Franco, fugindo para a frente, tenta convencer Salazar de que os Aliados preparam a invasão de Portugal, facto que a Espanha tomará então, a acontecer, como um acto de agressão contra si própria. No plano interno, mostra a funda preocupação pela aliança dos Aliados aos comunistas, face ao que só a esperança de que o III Reich liquide a Rússia lhe dá algum alento. Inteligente, Salazar percebe o equívoco acerca da eventual vitória a Leste e desloca o problema para o campo onde poderá estar mais à vontade.

 

E adquire a certeza de que a única razão decisiva que fará a Espanha entrar na guerra contra os Aliados serão razões vitais de abastecimento, caso os víveres que lhe chegam através dos intencionais “buracos” ao bloqueio económico, se venham a mostrar insuficientes. E isso é algo que está ao alcance do Ministério da Guerra Económica (MEW) britânico definir. E a política de bloqueio aligeirou.

 

Regressado de Sevilha no dia seguinte, esgotado pela viagem e pela vertigem do que negociara, Salazar trazia a mais formidável certeza para o futuro próximo da guerra: sabe que a não beligerância espanhola se manterá.

 

António Pina do Amaral

ORAÇÃO DE CÃO

 

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Tenho um amigo Padre, o Carlos, que tinha um cão e o respeitava tanto que lhe cedia um lugar nobre na igreja: um lugar ao lado dos acólitos. Sempre que celebrava missa, lá estava o cão, de patas juntas, juntinho ao altar. Em atitude recolhida juntava, à sua maneira, a sua prece à dos humanos. As mesmas preocupações pareciam elevar-se juntas com o incenso para o céu.

 

Era de admirar tanta sintonia e solidariedade numa natureza de pecado e inocência. Naquela comunidade, mais habituada à rotina e ao folclore das festas litúrgicas, aquela atitude de solidariedade já presente no presépio e recordada no Natal, foi considerada inteiramente fora de estação. A atitude do padre, que não a do Fiel, provocara o sentimento de alguns fiéis, fazendo erguer aos ares a voz dos cães de guarda da ordem e do pensar correcto. Um uivar canino de timbre acirrado se ergue aos céus na praça pública.

 

“Um atrevimento”, “uma provocação “, “uma falta de respeito”, -murmurava o adro da sociedade. O gesto do padre provocara o sentir de parte daquela paróquia a Sul do Tejo. Com o tempo já se não distinguia entre paróquia e freguesia!

 

Ao Carlos, tão inocente como o “Fiel”, não lhe entrava na cabeça o porquê de tanta indignação nem da tal “Falta de respeito”. E lá, na parte que o distinguia do cão, o sacerdote questionava-se: “Falta de respeito?” De quem e do quê?”…

 

Ele que não acreditava numa sociedade de trelas e coleiras e habituado a alertar o humano para os embondeiros da sociedade que não deixam crescer erva nem arbusto debaixo da sua sombra, não podia entender o sentido dos uivos dalguns irmãos contra os mais pequeninos ali presentes no Fiel.

 

O motivo daquele desentendimento todo estaria na falta de sensibilidade, na falta de compreensão do evangelho por aquele rebanho alérgico a cães, o que, no entender de Carlos, se resumiria numa alergia a humanidade, numa ingratidão e falta de solidariedade para com os irmãos mais fracos da criação! “O que fizerdes ao mais pequenino a Mim o fareis…” lembra o Evangelho e o Carlos também.

 

Enfim, mais um atraso na realização da Boa Nova…, mais um sinal vermelho colocado pelos “embondeiros” do poder e da comunidade, no currículo duma pessoa honesta que apenas cometera o erro de ouvir a voz duma espécies vítima e descontente com a sua vida de cão. Afinal só lhe restava rezar e pedir a Deus que desagrave tanta descrença e desrespeito entre as criaturas… Sozinho e só como o cão, o amigo Carlos só encontrava consolo nas palavras que repetia em atitude meditativa: “Venha a nós o Vosso Reino…”

 

Também o Fiel, na sua atitude recolhida, tinha pedido ao mesmo Criador pelos irmãos que viviam sob o jugo dum destino preso a um cadeado. Também ele, no momento da oração dos fiéis, lançara um olhar para a cruz do altar, numa súplica, já não pelo pão, mas pelo restabelecimento da dignidade animal e da íntegra solidariedade, a todos comum, antes da queda do pecado original. Humilde, também ele pedia pelos senhores, pelos donos da trela para que Deus os ilumine.

 

“Que o coração una o que a razão desuniu!” -repetia o Fiel depois de cada prece, numa ladainha de pedidos, que mais faria lembrar um exame de consciência dos pecados do irmão Homem contra a natureza, contra animais e plantas do que uma acusação. Ele que, como o Carlos, se entrega todo inteiro ao dono, ao Senhor, em estado meditativo, já não ergue os olhos para o senhor mas para o Criador; que acabe com tanta ingratidão e falta de respeito entre as criaturas. “O justo conhece as necessidades do animal mas o interior do ímpio é cruel”(Prov 12, 10).

 

Um mundo sem donos nem senhores, uma sociedade de cães sem coleira seria o princípio dum mundo novo, justo e digno…um mundo de todos para todos!

 

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António da Cunha Duarte Justo

AREIA NA ENGRENAGEM

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No tempo do PREC, um senhor que tinha ocupado altos cargos na anterior ditadura, quando acusado de ser fascista, defendeu-se dizendo: “mas eu deitava muita areia na engrenagem”.

 

Ao ver o que tem sucedido nalguns ministérios, não posso deixar de pensar naquela frase. Não haverá quem esteja a deitar areia na engrenagem?
Se isso for o caso, pode perguntar-se: de iniciativa dos próprios ou às ordens de alguém?

 

Não tenho forma de saber.

 

Publicado no "Linhas de Elvas" de 27 de Novembro de 2014

 

Prof. Miguel Mota Miguel Mota

«MERDA! SÃO LÚCIDOS»

 

Enviou-me João Sena o artigo “Não ter onde cair morto” com a seguinte nota: «Apenas remeto. Não comento». Fiquei sem saber se é da sua autoria, ou se lhe veio por e-mail. Mas quem fez o texto deve saber do que fala quando escreve.

 

Um texto carregado de indignação e o caso não é para menos. Também eu não compreendo uma lei que permite que seja «perfeitamente legal um cidadão ou cidadã ou uma família não ter qualquer bem em nome próprio.» Sobretudo se é o caso dum banqueiro que se mantém dos bens alheios, do sangue alheio, sem outro contributo para a sociedade.

 

Dir-se-á que esses capitalistas dão emprego a muita gente. Mas o termo “pindérico” do texto está muito bem aplicado ao nosso capitalismo. Um capitalismo essencialmente de exploração, que emprega muita gente com vencimentos de miséria. Tenho pouca experiência do assunto, funcionária que fui de um Estado também pindérico, mas, segundo o meu pai, relativamente criterioso, segundo a fórmula que ele evocava: “O Estado paga mal, paga tarde, mas paga sempre”. Mas lembro que em Lourenço Marques as empresas que melhor pagavam, respeitando os direitos e as competências de cada trabalhador, eram aquelas que tinham dedo inglês a geri-las, como a Shell, o John Orr, a Pendray e Sousa… Há dias li que a empresa ROFF foi premiada por obedecer a parâmetros de valorização e respeito humano, que a tornaram primeira entre as empresas de cá. É claro que tem dedo estrangeiro a geri-la. Mas penso que poderia servir de modelo a uma modificação de mentalidade na nossa parvónia de falcatrua e discrepância social.

 

Leiamos o texto acusatório, contra os «pedintes por profissão, que se lhes vê na cara” – altiva - os que nada têm em seu nome, soldados desconhecidos, condenados à vala comum:

«Apenas remeto. Não comento»

 

«Não ter onde cair morto»

 

A notícia de que a família Espírito Santo não tinha um único bem em seu nome elucidou-me sobre o tipo de sociedade em que vivemos, aonde chegámos. Juristas meus amigos garantiram-me que é perfeitamente legal um cidadão ou cidadã ou uma família não ter qualquer bem em nome próprio. Nunca tinha colocado a questão da ausência de bens no quadro da legalidade, mas no da necessidade. Acreditava que pessoas caídas na situação de sem-abrigo, refugiados, minorias étnicas não enquadradas como algumas comunidades ciganas podiam não ter nada em seu nome, mas até já ouvira falar no direito a todos os cidadãos possuírem uma conta bancária, um registo de bens, nem que fosse para prever uma melhoria de situação no futuro. Considerava um acto de reconhecimento da cidadania ter em seu nome o que pelo esforço, ou por herança era seu. Chama-se a isso “património”, que tem a mesma origem de pai e de pátria, aquilo que recebemos dos nossos antecessores e que faz parte dos bens que constituem a entidade onde existimos.

 

Estes conceitos não valem para os Espírito Santo, para estes agora desmascarados e para os da sua extracção que continuam a não ter bens em seu nome, mas têm o nome em tantos bens, em paredes inteiras, em tectos de edifícios, em frontarias, em supermercados, em rótulos de bebidas.

 

O caso da ausência de bens dos Espírito Santo trouxe à evidência o que o senso comum nos diz dos ricos e poderosos: vivem sobre a desgraça alheia. Até lhe espremem a miséria absoluta de nada possuírem. Exploram-na. No caso, aproveitam a evidência de que quem nada possui com nada poder contribuir para a sociedade para, tudo tendo, se eximirem a participar no esforço comum dos concidadãos. Tudo dentro da legalidade e da chulice, em bom português.

 

Imagino com facilidade um dos seus advogados e corifeus, um Proença de Carvalho, por exemplo, a bramar contra a injustiça, contra o atentado às liberdades fundamentais dos pobres a nada terem, à violência socializante e colectivista que seria obrigar alguém a declarar bens que utiliza para habitar, para se movimentar por terra, mar e ar, para viver, em suma. Diria: todos somos iguais perante a lei, todos podemos não ter nada, o nada ter é um direito fundamental. Para ter, é preciso querer, e os Espírito Santo não querem ter, querem o direito de usar sem pagar. O mesmo direito do invasor, do predador. A legalidade do não registo de bens em nome próprio para se eximir ao pagamento de impostos e fugir às responsabilidades perante a justiça é um exemplo da perversidade do sistema judicial e da sua natureza classista. Esta norma legal destina-se a proteger ricos e poderosos.

 

Quem a fez e a mantém sabe a quem serve. Os Espírito Santo não são gente, são empresas, são registos de conservatória, são sociedades anónimas, são offshores com fato e gravata que recebem rendas e dividendos, que pagam almoços e jantares. Não são cidadãos. As cuecas de Ricardo Espírito Santo não são dele, são de uma SA com sede no Panamá, ou no Luxemburgo. A lingerie da madame Espírito Santo é propriedade de um fundo de investimento de Singapura, presumo, porque não sou o contabilista.

 

Mas a ausência de bens registados pelos Espírito Santos em seu nome diz também sobre a sua personalidade e o seu carácter. A opção de se eximirem a compartilhar com os restantes portugueses os custos de aqui habitar levanta interrogações delicadas:

Serão portugueses?

Terão alguma raiz na História comum do povo que aqui vive?

Merecem algum respeito e protecção deste Estado que nós sustentamos e que alguns até defenderam e defendem com a vida?

 

Ao declararem que nada possuem, os Espírito Santo assumem que não têm, além de vergonha, onde cair mortos!

 

O ridículo a que os Espírito Santo se sujeitam com a declaração de nada a declarar com que passam as fronteiras e alfândegas faz deles uns tipos que não têm onde cair mortos, uns párias.

 

A declaração de “nada a declarar” em meu nome, nem da minha e mulher, filhos e restante família dos Espírito Santo, os Donos Disto Tudo, também nos elucida a propósito do pindérico capitalismo nacional: Os Donos Disto Tudo não têm onde cair mortos

 

O capitalismo em Portugal não tem onde cair morto!

 

Resta ir perguntar pelas declarações de bens dos Amorins, o mais rico dos donos disto, do senhor do Pingo Doce, do engenheiro Belmiro, dos senhores Mellos da antiga CUF, dos senhores Violas, dos Motas da Engil e do senhor José Guilherme da Amadora para nos certificarmos se o capitalismo nacional se resume a uma colecção de sem abrigo que não têm onde cair mortos! !

 

É que, se assim for, os capitalistas portugueses, não só fazem o que é costume: explorar os pobres portugueses, como os envergonham.

 

Os ricos, antigamente, mandavam construir jazigos que pareciam basílicas para terem onde cair depois de mortos – basta dar uma volta pelos cemitérios das cidades e vilas. Os ricos de hoje alugam um talhão ao ano em nome de uma sociedade anónima!

 

Os Espírito Santo, nem têm um jazigo de família! Eu, perante a evidência da miséria, se fosse ao senhor presidente da República, num intervalo da hibernação em Belém, declarava o território nacional como uma zona de refúgio de sem-abrigo, uma vala comum e acrescentava a legenda na bandeira Nacional:

“Ditosa Pátria que tais filhos tem... sem nada!”»

João Sena

 

Diremos que são lúcidos, como o Álvaro de Campos do poema infra, na melancolia de quem por vezes se sentirá “ao lado da escala social”, embora não por convicção, mas por lucidez prática:

 

Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa

Aquele homem mal vestido, pedinte por profissão que se lhe vê na cara

Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele;

E reciprocamente, num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo quanto tinha

(Excepto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago mais dinheiro:

Não sou parvo nem romancista russo, aplicado,

E romantismo, sim, mas devagar...).

Sinto urna simpatia por essa gente toda,

Sobretudo quando não merece simpatia.

Sim, eu sou também vadio e pedinte,

E sou-o também por minha culpa.

Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte:

É estar ao lado da escala social,

É não ser adaptável às normas da vida,

Às normas reais ou sentimentais da vida —

Não ser Juiz do Supremo, empregado certo, prostituta,

Não ser pobre a valer, operário explorado,

Não ser doente de uma doença incurável,

Não ser sedento de justiça, ou capitão de cavalaria

Não ser, enfim, aquelas pessoas sociais dos novelistas

Que se fartam de letras porque têm razão para chorar lágrimas,

E se revoltam contra a vida social porque têm razão para isso supor.

Não: tudo menos ter razão!

Tudo menos importar-me com a humanidade!

Tudo menos ceder ao humanitarismo!

De que serve uma sensação se há uma razão exterior para ela?

Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou,

Não é ser vadio e pedinte, o que é corrente:

É ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio,

É ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte.

Tudo mais é estúpido como um Dostoievski ou um Gorki.

Tudo mais é ter fome ou não ter que vestir.

E, mesmo que isso aconteça, isso acontece a tanta gente

Que nem vale a pena ter pena da gente a quem isso acontece.

Sou vadio e pedinte a valer, isto é, no sentido translato,

E estou-me rebolando numa grande caridade por mim.

Coitado do Álvaro de Campos!

Tão isolado na vida! Tão deprimido nas sensações!

Coitado dele, enfiado na poltrona da sua melancolia!

Coitado dele, que com lágrimas (autênticas) nos olhos,

Deu hoje, num gesto largo, liberal e moscovita,

Tudo quanto tinha, na algibeira em que tinha pouco, àquele

Pobre que não era pobre, que tinha olhos

Tristes por profissão.

Coitado do Álvaro de Campos, com quem ninguém se importa!

Coitado dele que tem tanta pena de si mesmo!

E, sim, coitado dele!

Mais coitado dele que de muitos que são vadios e vadiam,

Que são pedintes e pedem,

Porque a alma humana é um abismo.

Eu é que sei. Coitado dele!

Que bom poder-me revoltar num comício dentro da minha alma!

Mas até nem parvo sou!

Nem tenho a defesa de poder ter opiniões sociais.

Não tenho, mesmo, defesa nenhuma: sou lúcido.

Não me queiram converter a convicção: sou lúcido.

Já disse: Sou lúcido.

Nada de estéticas com coração: Sou lúcido.

Merda! Sou lúcido.»

Álvaro de Campos.png Álvaro de Campos

 

 

Berta Brás.jpg Berta Brás

FORAM ESSAS NINFAS...

Índias da Amazónia.jpg

 

... acobreadas púbico-alopécicas vivendo em pleno naturismo que por certo impediram António Vieira de subir aos altares mas as sofisticadas cínicas nas suas coloridas sedas não tiveram as artes capazes de impedir essa ascensão a Francisco Xavier.

 

chinesas ricas.jpg

Sofisticadas cínicas

 

P. António Vieira, SJ.png E se Vieira terçou a verve em defesa das inocentes desnudas perambulando pelo paraíso verde das Índias Ocidentais, foi Xavier que pediu ao Rei que enviasse o inferno inquisitorial para as Índias Orientais.

 

Então, a bondade condenada pelos verdugos torquemádicos perdeu os ossos nalguma vala anónima esquecida algures por ali próxima do prosaico Elevador Lacerda ligando o Mercado de Escravos às alturas da benesse divina na Sé de Salvador da Bahia mas o taumaturgo à ordem da Inquisição recebe culto e grande veneração ao corpo exposto em ataúde dourado nas longínquas paragens de Velha Goa.

 

S. Francisco Xavier.jpg

 

Nem sempre com justiça se faz a História.

 

De Denang para Hué.JPG

Henrique Salles da Fonseca

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