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A bem da Nação

AS RAÍZES DA EXPANSÃO PORTUGUESA E EUROPEIA

 

Primeira observação: o título.

 

As duas expansões foram de facto uma pois tendo sido iniciada por Portugal, ela constituiu a ponta de lança que abriu o caminho para outros países a desenvolverem de tal modo que poderemos afirmar, sem receio de exagero patriótico, que os dois factos que mais contribuíram para o renascimento europeu foram os descobrimentos portugueses e a invenção da imprensa.

 

Infelizmente isto nunca foi bem tratado e aproveitado pelos líderes nacionais que após o início do século XVI raramente geriram o País de forma correcta, pelo que perdemos a independência e depois de a recuperar nunca soubemos aproveitar as imensas riquezas que os descobrimentos nos proporcionaram nem conduzir a população a compreender a sua dimensão e as suas potencialidades, do que resultaram as inúmeras dificuldades que o País sofreu até chegar à actual situação.

 

A segunda observação é sobre a palavra Marinha, pois foi pelo facto de termos a melhor Marinha da Europa no século XV que conseguimos realizar os descobrimentos marítimos e se não a tivéssemos nunca passaríamos de uma província pobre da Espanha.

 

Se o leitor quiser entender o que é a Marinha Portuguesa e for ao Google encontrará que é a Armada ou a Marinha de guerra, quando na verdade a epopeia dos descobrimentos foi feita pelo conjunto das Marinhas de Guerra, de Comércio e de Pesca e as demais actividades associadas como a construção naval, a geografia, a navegação, o fabrico de velas e de cabos, a cartografia, a artilharia, a medicina, etc, etc que estavam todas ligadas, como modernamente alguém classificou como “cluster”, praticamente desde D. Dinis e que foi destruído a partir de Julho de 1974, com relevo especial no Governo de Cavaco Silva.

 

A terceira e última observação é a explicação por que razão venho agora, de certa forma novamente, levantar esta questão: desde Abril de 74 que a Marinha Portuguesa, tal como eu a defino, por ignorância e preconceitos vários tem sido atacada, até que há cerca de duas semanas o comentador Prof. Marcelo Rebelo de Sousa apresentou entre outros livros uma “História da expansão e do império português”.

 

Logo fui comprá-lo e comecei a lê-lo na esperança de ver um trabalho que contrariasse este estado actual de desintere4sse pela marinha e corrigisse alguns erros persistentes entre nós quanto às raízes dos descobrimentos, que nos permitam compreender o papel essencial da Marinha não apenas nos descobrimentos mas mais ainda na própria formação do cidadão português destemido e produtivo.

 

Mas a leitura dos primeiros quatro capítulos originou a produção deste artigo pois não posso aceitar passivamente que não sejam devidamente explicadas as raízes sociais e técnicas que permitiram a realização de um dos mais importantes movimentos da história da humanidade que não pode ser reduzida à tenacidade de um navegador e à gestão de um príncipe.

 

Com efeito o interesse pela Marinha começou logo com o próprio D. Afonso Henriques, mas foi de facto D. Dinis quem, seguindo o que tinha sido iniciado por seu pai, organizou a nossa Marinha não só a de guerra, que era essencial para combater os piratas mediterrânicos e outros mas para garantir os movimentos da nossa Marinha mercante que aproveitou inteligentemente a tradição milenar do tráfego ao longo da nossa costa, ligando o mediterrâneo ao norte da Europa, e desenvolveu vários portos portugueses nomeadamente Porto, Lisboa e Lagos onde se constituíram núcleos de burguesia fortemente activa, tanto industrial como comercial, onde havia elevada percentagem de judeus.

 

O que explica que em 1383 na crise da sucessão de D. Fernando em que a maior parte da nobreza, muita dela de origem idêntica à de Castela, estava do lado do rei castelhano, enquanto o principal apoio a D. João I foi da burguesia atrás indicada o que permitiu a colaboração importante dos archeiros ingleses em Aljubarrota e a existência de uma Marinha de tal forma potente que em 1415 foi possível organizar a conquista de Ceuta sem que haja notícia de qualquer perturbação no comércio do país, embora tivessem sido usadas nela mais de uma centena de embarcações de grande porte, para a época.

 

Como a nossa expansão só podia ser realizada por mar quando D. Henrique toma conta dos negócios marítimos e portanto da expansão do país já havia toda uma estrutura técnica e empresarial que constituía a nossa Marinha.

 

Note-se que até então a navegação se processava junto às costas com navios com velas redondas e que não permitiam bolinar o que não só limitava as épocas em que se aproveitavam os ventos favoráveis como dificultava ou até impedia maior penetração no mar oceano. Mesmo assim fomos descobrindo ou apenas tomando posse de algumas ilhas atlânticas e simultaneamente conhecendo o regime de ventos do atlântico.

 

E se foi importante o feito de Gil Eanes em passar o Bojador, o mais importante foi logo a seguir termos construído caravelas que bolinavam e atingiam maiores velocidades, o que possibilitou o enorme avanço no conhecimento dos ventos oceânicos e o alargamento das deslocações.

 

É claro que o grande objectivo era chegar à Índia onde se sabia haver enormes riquezas enquanto no atlântico norte nada aparecia com interesse, até que finalmente Bartolomeu Dias passa o cabo da Boa Esperança, descobrindo o caminho marítimo para a Índia.

 

Mas o tráfego previsto para a ligação à Índia pressupunha a utilização de naus que tinham muito maior capacidade de carga mas que tinham que usar velas redondas, donde não bolinavam como as caravelas. O que logicamente obrigou D. João II a desenvolver esforços para se conhecerem os ventos do atlântico sul o que teria originado algumas expedições para este fim mesmo antes de se iniciarem as construções das naus.

 

De facto as naus para atingirem a passagem do Cabo da Boa Esperança tinham que se aproximar da costa brasileira e quando se conhece esta costa é fácil entender que Álvares Cabral ao atravessar o oceano até avistar o monte Pascoal, onde inclusive havia como abastecer de água, o que aliás não tinha feito em Cabo Verde por sugestão de Vasco da Gama, não é aceitável a ideia da descoberta casual.

 

Nem D. João II merece tal injustiça de avaliação da sua estratégia para garantir os interesses de Portugal e no enorme avanço da nossa cartografia em relação à Espanha e a quase todos os países europeus.

 

Ora basta olhar para o mapa do oceano atlântico para se perceber que as navegações feitas com aquela finalidade tinham fatalmente que descobrir o território a que depois se chamou Brasil e desencadear as movimentações políticas de D. João II no sentido de evitar a concorrência de Espanha.

 

Movimentações que culminaram com o aparecimento oportuno de Colombo, que levou os navios espanhóis para a América Central, tendo logo no regresso da sua primeira viagem vindo a Lisboa falar com ele, e ainda permitiu-lhe posicionar o meridiano de Tordesilhas de forma a englobar o Brasil na zona de influência portuguesa.

 

Nada disto aconteceu por sorte mas pela estratégia joanina.      

 

E se Colombo ficou com a fama de navegador pioneiro isso deve-se à importância que lhe foi dada pelas autoridades espanholas enquanto em Portugal pouco ou nada se fez no sentido de valorizar os nossos descobrimentos incluindo a mediocridade das comemorações de 1998 em Lisboa.

 

Aliás o mapa de Cantino ajuda a entender tudo isto quanto mais não seja porque sendo ele datado de 1502 nunca seria possível fazer o levantamento da costa brasileira nesse intervalo. Assim, Álvares Cabral capitaneou uma frota que foi tomar posse do Brasil e só foi dito ter sido uma descoberta por razões políticas.

 

Neste momento o nosso País está a ser gerido quase exclusivamente como uma tesouraria e aqueles que dominam os poderes político e económico mostram claramente não levar a sério a necessidade absoluta e urgente de reformar a estrutura política, económica e social que foi a principal causa desta e doutras crises que temos tido, se quisermos voltar a recuperar a independência, como manda a nossa Constituição, que tivemos nas épocas em que tínhamos Marinha efectiva, é forçoso recuperá-la rapidamente, não com reuniões e colóquios mas com decisões que originem a concretização das iniciativas necessárias e que até já há várias aguardando a indispensável vontade política.

 

Lisboa, 27 de Janeiro de 2015

 

Eng. J.C. Gonçalves Viana

José Carlos Gonçalves Viana

SERÁ QUE É?

 

A caricatura é mais forte que as restrições e que as proibições. É imortal porque é uma das facetas daquele diamante que se chama verdade.

Eça de Queirós - leio no cabeçalho da última página do D.N de9/1/15.

 

De facto, a caricatura favorece o nosso comodismo, pela percepção imediata do traço avultado com que o caricaturista desejou acentuar o que a sua sensibilidade, parti pris ou intenção crítica captaram, geralmente em propósito satírico, não exigindo grande esforço de leitura gráfica ou iconográfica para a risada grossa da conivência com o grotesco. A desmistificação dos valores que hoje se projecta no cartunismo, já a encontráramos em Rabelais, a desmesura, a licenciosidade, a anarquia, a oposição ao preconceito sendo motivos da sua criatividade, de extraordinária dimensão e causadores do riso, (embora em leitura prolongada), segundo o seu conceito de que Le rire est le propre de l’homme.

 

O que leva um sorriso misterioso como o de Mona Lisa a uma vigília demorada de observadores em frente do quadro, para se decifrar nos olhos, no rictus bucal se se trata de uma postura de seriedade, ou de breve sorriso que os seus olhos parecem traduzir, e simultaneamente a nitidez clássica da paisagem envolvente da Gioconda, contrastando com a paisagem de escolas pictóricas mais recentes, de impressões e colorido, com sugestões apenas, por vezes, das figuras, num universo de captação e de prazer imediatos, percebemos quanto evoluiu o conceito de arte, em paralelo, aliás, e em consequência do aburguesamento social, de gente mais sensibilizada para colher o breve, o imediato, reduzido o esforço de atenção ao prazer da cor e da deformação dos traços de alusão satírica.

 

Eça tem bem a percepção de que as pinceladas dos seus descritivos figurativos, redundam, as mais das vezes, na criação de tipos sociais, no avolumar do traço caricatural, bem ao contrário de Balzac, Stendhal, Zola, Flaubert, cujo conhecimento da psicologia humana se traduziu em minúcia e autenticidade das personagens, que não excluíam a intenção irónica, em que Flaubert foi mestre, e bem assim Balzac.

 

A caricatura é mais forte que as restrições e que as proibições. É imortal porque é uma das facetas daquele diamante que se chama verdade.

 

Eça, todo vibratilidade e versatilidade, sentiu bem, todavia, a diferença entre ele e os seus congéneres na criação das suas figuras. Afirma-o em cartas aos amigos, com mágoa, por criar fantoches sem vida interior, na sua galeria social, tipos de farsa, caricaturais, que nos fazem rir. Mas por isso mesmo fortes, no traço forte, na sua intenção de condenação e de risada imediata.

 

Transcrevo a carta de Eça a Ramalho, comprovativa destes dizeres, e, simultaneamente, da humildade intelectual de Eça, no reconhecimento dessas suas diferenças dos seus contemporâneos franceses:

Eu por aqui – não fazendo, não pensando, não vivendo senão Arte. Acabei O Primo Basílio – uma obra falsa, ridícula, afectada, disforme, piegas e papoilosa – isto é, tendo a propriedade da papoila: - sonolificente. De resto Você lerá – isto é, dormirá. Seria longo explicar como eu – que sou tudo menos insípido – pude fazer uma obra insípida: …. Os personagens – e Você verá – não têm a vida que nós temos: não são inteiramente des images découpées – mas têm uma musculatura gelatinosa: oscilam, fazem beiço como os queijos da Serra, espapam, derretem. Há – inquestionavelmente – alguma cena, alguns traços correctos: e há maravilhas de habilidade, da habilidade de métier; enfim, sou uma besta. E o que é triste é que me desespero por isso. Nunca hei-de fazer nada como o Pai Goriot; e você conhece a melancolia em tal caso, da palavra nunca! Não falo naturalmente do Primo Basílio – isso é uma ninharia, abaixo da crítica de um crítico de Penafiel, mas mesmo este novo romance (“A Capital”) – de que estou tão contente – não dá, não sai. Faço mundos de cartão… não sei fazer carne nem alma. Como é? Como será? E todavia não me falta o processo: tenho-o, superior a Balzac, a Zola, e tutti quanti. Falta qualquer coisinha dentro: a pequena vibração cerebral; sou uma irremissível besta!

Assinatura Eça.png

Newcastle, 3 de Novembro de 1877 – (in "Correspondência" Vol. IV de OBRAS DE EÇA DE QUEIRÓS):

 

Simultaneamente, e segundo o dístico no cabeçalho da última página do DN, Eça é bem o homem que se sente feliz consigo próprio, pois com a sua arte ele pôde determinar o alcance social da caricatura, o traço forte e saliente tornando-se espelho do grupo social que o reflecte. Daí a função daquela, semelhante à da comédia de costumes: “Ridendo castigat mores”.

 

O certo é que o tal “diamante que se chama verdade”, pode ser facetado de diversas maneiras, segundo fontes de opinião diversificada, não deixando de ser um conceito subjectivo, tal como os demais conceitos, cuja verdade é hoje posta em causa, em liberdade democraticamente flexível.

 

Daí que as caricaturas do tipo “Charlie Hebdo”, na desmesura da sua verdade, tenham, como efeito, muitas vezes, uma risada amarela de resposta. Com consequências bem mais sombrias do que no tempo de Eça.

Berta Brás.jpg Berta Brás

«QUANTITATIVE EASING» EUROPEIA, A VERSÃO MÁRIO DRAHI E OS ETERNOS PROBLEMAS

 

Draghi.jpg

 

O «Quantitative Easing», na versão Mario Draghi, não é a solução milagrosa que se pensa e, além disso, chega tarde e a más horas. À falta de outras soluções mais convencionais, a opção por esta via disponibilizando mais dinheiro (1,1 bilião de euros!) constitui uma opção de risco. As taxas de juro estão muito baixas e, neste quadro, os bancos vão guardar o dinheiro ou exercer um controlo muito apertado do crédito, só o concedendo aos "grandes clientes", com garantias de retorno certo. Resta saber se estes irão injectar o capital na economia real, gerando emprego e dinamizando as empresas, se vão optar pela via especulativa ou, se, pura e simplesmente, o vão aplicar (ou seja, no fundo, imobilizar) em operações de rendimento garantido. Muito provavelmente, o crédito ao cidadão vulgar de Lineu será concedido de forma muito restritiva e a conta-gotas. O(s) interessado(s) terá(ão) de esperar por melhores dias, ou seja pela recuperação económica plena - se, quando e como.

 

Mais. Para completar o quadro, é preciso não esquecer que se vive na austeridade sem tréguas, nem quartel, e será ilusório pensar que se sairá dela, como num passe de mágica. O populismo grego ficará para os gregos e, muito sinceramente, que lhes faça o melhor proveito possível.

 

Em suma, a reacção da banca será muito provavelmente a que se antevê, com a tonalidade descrita ou com outra muito parecida.

 

É preciso, em breves pinceladas, traçar o quadro actual repisando pontos estafadamente debatidos, mas que nunca é demais relembrá-los. O nosso grande problema (ou melhor, o nosso duplo problema) consiste no desregramento e "laissez aller" a Sul e o fundamentalismo financeiro a Norte. Depois há questões de ordem psicológica que também pesam: uma Alemanha que vive sob o espectro de uma nova República de Weimar, de que conhecemos as consequências trágicas e um Sul que precisa de oxigénio para respirar e que começa a desesperar (a Grécia é um bom exemplo, mas não é o único, nem sequer o mais preocupante). Por outro lado, o Euro, lançado por vontade expressa de Mitterrand que, aterrado, queria controlar ingenuamente uma Alemanha gigantesca, e avança, então, a todo vapor, para Maastricht, lança a moeda única, aceitando um novo marco e as regras germânicas do mesmo, todavia sem harmonização fiscal, sem concordância das políticas orçamentais, sem regulação bancária comum e sem convergência de políticas económicas, convencido que as diferenças entre Portugal e a Alemanha eram comparáveis às existentes entre o Arkansas e a Califórnia, que também utilizam uma moeda única (o dólar) dentro do mesmo espaço comum (os EUA). Estava dada a receita para o desastre e deu-se. As assimetrias naturalmente emergiram: a Norte, ficaram os beneficiários a Sul os sacrificados. Estou obviamente a condensar o discurso. Mas as coisas, grosso modo, passaram-se assim. Luz ao fundo do túnel? Pois, por ora, não se vê, apenas uma luminosidade espectral que nem sequer augura nada de bom.

 

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Francisco Henriques da Silva

AVERTISSEMENT TERRIBLE!

 

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 Le cri d’avertissement de l’archevêque de Mossoul aux Européens

L’archevêque de Mossoul, Mgr Amel Shimoun Nona, fait partie de ces réfugiés irakiens de confession chrétienne qui ont fuit la barbarie islamique du «califat».

 

Dans une interview accordée au journal italien Corriere de la Sera, il lance un avertissement aux Occidentaux.

 

«Notre souffrance est un prélude à ce que vous-mêmes, chrétiens européens et occidentaux, souffrirez dans un futur proche», a crié l’archevêque à ses frères chrétiens d’Occident. «S’il-vous-plaît, il faut que vous compreniez. Vos principes libéraux et démocratiques n’ont aucune valeur ici. Vous devez reconsidérer la réalité du Moyen-Orient, car vous accueillez un nombre croissant de musulmans. Vous aussi, vous êtes en danger. Il vous faut prendre des décisions courageuses et dures, y compris en allant à l’encontre de vos principes. Vous croyez que tous les êtres humains sont égaux, mais ce n’est pas une chose certaine. L’Islam ne dit pas que tous les êtres humains sont égaux. Vos valeurs ne sont pas leurs valeurs. Si vous ne comprenez pas cela rapidement, vous tomberez victimes d’un ennemi que vous aurez accueilli dans votre maison».

 

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 Membre de l’État Islamique devant des têtes de chrétiens décapités

FICO PENSANDO...

 

Pensar! A melhor explicação para “pensador” é a que disse Descartes. Mas tem muita excepção; tem muito animal que parece vivo, porque se mexe, come e consome, mas não pensa:

- Votam mal, e quase sempre assim o fazem porque não pensam nas consequências do seu voto;

- Os que vendo que tudo vai mal, não pensam no modo de melhorar;

- Aqueles a quem fazem lavagem cerebral, depois agem como autómatos;

- E a lista pode prolongar-se até...

 

Ninguém pode negar que os animais pensam. Têm por vezes atitudes que deixam os chamados humanos surpreendidos, descrentes do que vêem. Todo o ser vivo pensa como dizia o nosso amigo do século XVII. Até as plantas lutam entre si para ver quem em baixo da terra pega o melhor pedaço, fora dela lutam também para disputarem o melhor lugar para a sua fotossíntese. Mas o homem, tanta vez e tantos milhões ou biliões, não pensam ou acovardam os seus pensamentos.

 

E até ignoram uma máxima – MÁXIMA – “A NATUREZA NÃO PRECISA DOS HOMENS, OS HOMENS É QUE PRECISAM DA NATUREZA”, mas os tais humanos parecem empenhados em destrui-la!

 

E destroem-na e o pior e sobretudo destroem-se mutuamente, de todo o modo, até pelo modo mais patético: a ideologia das religiões!

 

E eu fico a pensar porque as religiões, todas, integralmente todas, nos seus primórdios, eram extremamente simples e depois se complicaram e abastardaram tanto!

 

Começa no zoroastrismo, depois o judaísmo, cristianismo e islamismo. Mesmo outras crenças, que são menos religiões do que filosofias de vida, como budismo e hinduísmo, nascem pela lógica da simplicidade.

 

Depois apareceram os “doutores” das chamadas “leis sagradas” e aí tudo começa a complicar-se, a gerar disputas, lutas, guerras, insanidade.

 

O zoroastrismo ou masdeismo, a primeira religião monoteísta foi fundada na Pérsia por Zoroastro cerca de mil e tantos anos a.C. Admitia a existência de duas divindades, que representavam o Bem e o Mal. Da luta entre essas divindades, sairia sempre vencedor o Bem.

 

Com o aparecimento do Islão, esta religião foi quase exterminada pela insana perseguição dos maometanos que fuçaram por todo o lado para queimarem os seus livros sagrados, Os Gathas. Sobrou pouco!

 

A comunidade zoroastriana no mundo contemporâneo pode dividir-se em dois grupos: os parses e os iranianos; em 2004 o seu número era estimado entre 145 e 210 mil. Falam uma variante da língua persa, o Dari, e receberam o nome de gabars, termo com conotações pejorativas no sentido de "infiel”. (Para os muçulmanos TODOS os outros são infiéis!)

 

Na Índia haverá cerca de 70.000, mais uns poucos no Reino Unido, nos EUA e na Austrália.

 

Mais ou menos coevo surge o judaísmo que, como Zoroastro, vai buscar o seu início a Abraão e impõe a Lei – não te portas bem e Deus manda-te uma desgraça qualquer, guerra, fome, fogo ou dilúvio.

 

O judaísmo, cuja base é a Bíblia, o Antigo Testamento, foi a Lei, através dos tempos interpretada e reinterpretada por muitos “doutores”, que a re-redigiram como lhes pareceu mais conveniente. Daí nasceu a Torá e o Talmude. Tiraram umas passagens da Bíblia, “torceram” um pouco outras e assim se fecharam, passando a considerar eventuais novos convertidos, prosélitos, como “psoríase” (doença de pele, não contagiosa, mas que causa coceira, queimação e dor), isto é, mal aceites.

 

Com a expansão das populações, há uns milhares de anos, dos primeiros judeus a saírem das terras do próximo oriente, - Judeia, Mesopotâmia, Cáucaso – alguns terão ido para a Ibéria e outros para a Europa Central. Os primeiros conhecidos como sefarditas e os outros como ashkenazis, ainda hoje seguem ritos diferentes, sendo os sefarditas muito mais abertos do que os outros que se consideram “superiores”, porque viveram numa região da Europa que se desenvolveu mais que a Península Ibérica!

 

Curioso notar a hipótese da origem da palavra Ibéria. Alguns “doutores” dizem que talvez seja derivado do rio Ebro, mas a verdade é que Ibéria ainda é uma região ao sul do Cáucaso, ao norte da hoje Arménia. E não custa variar um pouco a pronúncia da palavra para encontrar possíveis outras origens: ibera, ibero, ebreo, hebreu. Porque não?

 

Chegou Cristo, e não tardou muito que outros “doutores” se envolvessem em polémicas imbecis como a interpretação da palavra filioque que acabou separando os ortodoxos e a igreja de Roma. Mais tarde pela ganância e corrupção que envolveu o poderio papal, veio a Reforma, e com o debochado Henrique VII o anglicanismo, com a absurda situação de continuar nos dias de hoje a manter-se o rei ou a rainha como chefe da igreja, misturando política com religião, parecendo imitar os países com governos teocráticos, e dando origem a uma estúpida e sangrenta guerra anglo-irlandesa. Mas a maior caricatura do cristianismo deve ser o infindável número – centenas – de igrejas cristãs, com ritos particulares, espalhadas pelo mundo, como católicos, ortodoxos, coptas, siríacos, luteranos, mórmons, calvinistas, baptistas, pentecostais, neopentecostais, congregacionalistas, anabatistas, adventistas e mais um montão de outras, cada uma procurando das tão simples palavras de Cristo interpretá-las a seu bel-prazer e poder. Algumas não passam de lojas de venda de milagres, enriquecendo estupidamente os bispos!

 

Seis séculos mais tarde é Maomé quem aparece, e resolve criar uma religião para controlar os povos árabes que viviam em contínuas lutas entre si. Escreve um livro com centenas de páginas em que insiste que o único Deus é o que ele proclama. Os que não adoram o Deus dele são “infiéis”.

 

Começa a perseguição aos judeus, cristãos, zoroastrianos, brâmanes, budistas, hindus e a destruição de sinagogas, igrejas e todos os lugares de culto de outras religiões. De todos os “infiéis”. Na história da Índia, entre inúmeras barbaridades, um sultão, Ad-Din Muhammad bin Ikhtiyar Bakhtiyar Khilji, ex escravo, no final do século XII, foi conquistando reinos e cidades e apoderando-se de todas as riquezas que encontrava, dizimando às centenas de milhares os “infiéis”. Atacou também o que ele julgou ser uma fortaleza. Não lhe custou nada invadi-la e, para grande espanto, todos os homens que lá viviam, não tinham uma única arma e andavam com a cabeça rapada. Não encontraram ouro nem pedras preciosas. O único espólio eram livros. Milhares de livros. Mataram os homens todos e levaram os livros.

Depois como não apareceu ninguém que os soubesse ler, queimaram os livros. Todos. Não era uma fortaleza, mas um mosteiro-universidade budista, fundado no século VII em Odantapuri, nordeste da Índia. Na história da Índia o nome de Muhammad Bakhtiyar e seus descendentes Khilji são malditos por terem destruído tanta sabedoria e tanta história que se perdeu, e atacado e matado constantemente hindus civis e religiosos.

 

De início os primeiros livros do Corão eram decorados com bonitas pinturas, inclusive com a figura de Maomé. Muito mais tarde os “doutores” islâmicos declararam que a representação de Maomé era uma blasfémia. Talvez o achassem feio! Quem sabe. Mas a verdade é que no século VII as artes estavam muito desenvolvidas e certamente algum dos “retratos” feitos na época deveria parecer-se muito com a pessoa. Mas hoje dá o resultado que todos acabamos de ver, apesar de na Internet se encontrarem inúmeras imagens do profeta.

 

Os muçulmanos que não alinham no extremismo querem convencer o mundo que o islamismo é uma religião de entendimento. Impossível. Quando eles consideram que só Allah, o Deus deles é o verdadeiro e que o Corão diz que é preciso combater todos os infiéis, esta “guerra”, este posicionamento, nada tem que leve ao entendimento.

 

Tal como no judaísmo, o Corão foi “interpretado por “doutores” que criaram o Hadhit, com histórias metidas de permeio no Corão. Mais tarde no século XVIII um pregador, Muhammad ibn Abd al-Wahhab, cria um movimento extremista, o wahabismo – os próprios muçulmanos acharam o termo pejorativo e passaram a chamá-lo salafista – acusado de ser "uma fonte de terrorismo global" e causar desunião na comunidade muçulmana, rotulando os muçulmanos não-wahhabistas como apóstatas (takfir) abrindo assim o caminho para o derramamento de sangue, fora e dentro do mundo muçulmano.

 

Dizem que o arcanjo Gabriel durante a noite ia sussurrar nos ouvidos de Muhammad as palavras do Deus que ele, durante o dia, pedia a secretários que escrevessem. Alguém acreditará que o arcanjo Gabriel fosse em segredo ao ouvido de Muhammad e lhe tenha dito: “Muhammad, logo que possas mata todos os cristãos e os judeus!”?

 

Hoje, os peregrinos que vão a Meca, enquanto circulam a Caaba, ouvem nos microfones a seguinte e constante “oração”:

“Ó Deus vence os injustos cristãos e os judeus criminosos, os traidores injustos; ataca-os com a sua ira; faz de suas vidas reféns de miséria; cubra-os com desespero sem fim, dor implacável e incessante de doenças; enche suas vidas com tristeza e dor e acaba com suas vidas em humilhação e opressão; inflige suas torturas e punições aos injustos cristãos e judeus criminosos. Esta é a nossa súplica, Deus; conceda o nosso pedido!”

 

Fico a pensar se o arcanjo também disse isto a Muhammad!

 

E pergunta-se: será isto uma religião do entendimento?

 

No século XVI, Akbar, o Grande, o maior imperador de toda a Índia, mongol, descendente de Tamerlão, foi homem de grande visão e conhecia o pensamento de Kabir e do Guru Nanak, que desdenhavam de qualquer filiação religiosa. Não era natural que os seus seguidores, muçulmanos ou hindus, xiitas ou sunitas, brâmanes ou jainistas, se degladiassem quando afinal todos acreditavam num Deus Único. No ano de 1579 convidou os jesuítas de Goa a visitarem a sua corte e disponibilizou seus escribas para traduzirem o novo testamento. Concedeu liberdade aos jesuítas para fazerem conversos e entregou-lhes até um filho para que o ensinassem. Mas os jesuítas não se limitaram a expor as próprias crenças, e terão “insultado” o Islão e o profeta! Suas observações enraiveceram os imãs, que promoveram uma rebelião de clérigos muçulmanos liderado por Mullah Yazdi e Muiz-ul-Mulk, o cádi chefe de Bengala, no ano de 1581, para derrubarem Akbar e colocar no seu lugar seu meio-irmão Mirza Hakim de Cabul, no trono Mogol. Akbar no entanto derrotou os rebeldes e aconselhou mais cautela aos seus convidados nas suas proclamações.

 

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Os jesuítas e outros clérigos na corte de Akbar

 

Tentou depois estabelecer uma religião sem divisões, procurando aproveitar o que cada uma tivesse de melhor e maior entendimento. Mas, assim que morreu em 1606, tudo voltou à mesma ignorância e luta.

 

Foi um esforço brilhante, isento, mas, infelizmente infrutífero.

 

Há dias uma sobrinha ou sobrinha neta de Churchill afirmou, veio nos jornais, que o “famoso” esteve quase a converter-se ao Islão! Também já li algures que o próprio Napoleão se terá entusiasmado com o Corão.

 

Só falta o Hollande, o Obama e o Rei dos belgas!

 

Mas o que falta mesmo é o ensino de religião. A França agora vai criar uma disciplina de Ética e Civismo, talvez para ensinar os franceses a não imitarem a ladroagem do Brasil.

 

Mas não se pode compreender a evolução humana, e os Outros, sem se estudar religião. As religiões todas. Mesmo a dos ateus!

 

Porque será que ninguém pensa nisso?

 

22/01/2015

 

Francisco Gomes de Amorim, Junho 2013, Lisboa.jpg

 Francisco Gomes de Amorim

O BRASIL E SUA RAÍZES LUSÍADAS

 

comunidade luso-brasileira.png

 

Frequentemente somos surpreendidos, através dos mais diversos órgãos da comunicação social brasileira com manifestações que criticam de forma agressiva a formação cultural do Brasil em razão de sua ascendência lusitana, querendo desmerecer tudo o que foi alcançado na construção desta grande nação e que tem sido razão dos mais rasgados elogios em todo o mundo, pela sua capacidade de integração, convivência social, uniformidade linguística e a manutenção deste imenso território com características continentais.

 

O Brasil que é a maior nação da língua portuguesa, constitui o maior e o melhor exemplo de democracia pluri-racial de que temos notícia. Essa condição somente pôde ser alcançada pelas suas raízes histórico-culturais que a definiram e a moldaram a partir da chegada da esquadra de Cabral a estas terras.

 

Nessa época, o Brasil não existia como nação pela simples razão de que a esquadra capitaneada por Pedro Álvares Cabral, em nome da Coroa, apenas tomou posse de terras que já sabiam existir, mas que, para eles, era totalmente desconhecida a sua dimensão territorial. Verdade, faltava-lhes o conhecimento de sua extensão e a sua importância, pelo que, inicialmente, a chamaram simplesmente de Ilha de Vera Cruz. A partir de então, o Brasil passou a ser forjado e ampliado graças ao empenho, determinação e religiosidade dos portugueses, que passaram da conquista à demarcação das terras encontradas.

 

Só muito tempo depois é que o Brasil passou a existir da forma que nós o conhecemos, ou seja, depois da perda de muitas vidas e dispêndio de muitos sacrifícios. Convém não esquecer que o Brasil é fruto da tenacidade, da determinação e da coragem dos portugueses, que o definiram e moldaram geograficamente, dando-lhe ao mesmo tempo uma língua, uma cultura e uma religião.

 

Hoje, o Brasil é o principal responsável pela importância da língua portuguesa no mundo: são 190 milhões de pessoas a comunicarem na língua de Camões. Nos dias actuais, não se concebe que o tema “língua portuguesa” seja abordado sem que se mencione os falantes do Brasil, traduzido nos seus intelectuais, escritores, a música e a cultura geral do seu Povo.

 

Constituímos uma sociedade que promoveu, de forma admirável, a integração das três raças que, inicialmente, formaram o Brasil: o índio, o branco e o negro, moldando uma sociedade multifacetada, traduzida num povo admirado e estimado em todo o mundo.

 

Mas também nos defrontamos com opiniões contrárias, umas com fundamentação político-partidária, outras fruto da ignorância e da desinformação e ainda mal intencionadas por parte de terceiros, os quais, ao tentarem atingir as autoridades governamentais com quem se confrontam, acabam por prejudicar a imagem da presença portuguesa no Brasil causando um mal-estar a todos os que labutam quotidianamente por uma maior aproximação luso-brasileira.

 

Certas figuras chegam a afirmar “fomos invadidos!”. Mas que invasão? Como sabemos, na época da chegada da esquadra de Cabral não existia qualquer civilização evoluída ou Estado soberano que estivesse sendo ocupado. Existiam, sim, centenas de tribos indígenas, a maioria desconhecendo a existência das outras, falando línguas diferentes, muitas digladiando-se entre si e vivendo em estado neolítico, sem a noção da grandiosidade do território que habitavam.

 

Os portugueses chegaram pacificamente e levaram a esses povos a sua cultura, a sua religiosidade e o seu desenvolvimento. Os índios não foram dizimados, como alguns afirmam de forma maléfica. Alguns permanecem na sua condição tribal até os dias de hoje, face ao distanciamento com a civilização e, mais recentemente, graças a projectos de preservação das suas línguas e de seus costumes. Esses detractores citam o trabalho escravo do negro e do índio no desenvolvimento do Brasil. Sem dúvida que tal contribuição foi de grande importância naquela época, mas esquecem-se de mencionar os milhões de portugueses que para ali foram de forma espontânea e que deram o seu suor e morreram a trabalhar na construção desta grande nação. Porque, ao citarem os portugueses, se lembram apenas dos dirigentes, os comandantes militares e os donatários, deixando de reconhecer o esforço dos trabalhadores, dos operários, dos artesãos, dos soldados e dos missionários que deram o seu contributo e o seu sangue para que o Brasil alcançasse o gigantismo de hoje. Orgulhemo-nos de nossas origens, pois só temos razões de o fazer.

 

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Eduardo Neves Moreira

Ex-Presidente do Conselho Mundial das Comunidades Portuguesas

MORREU O REI DA ARÁBIA SAUDITA GRANDE PROMOTOR DO TERRORISMO

 

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O Comprometimento do Ocidente com o terrorismo internacional

 

Ontem, 23.01, morreu Abdullah, o rei da Arábia Saudita. Para se perceber a paciência do Ocidente com o maior fomentador do terrorismo islâmico sunita, interessa ter-se presente os interesses económicos e as inter-relações de importações e exportações entre o Ocidente e os países produtores de petróleo.

 

A Arábia Saudita financia o terrorismo internacional e a construção de mesquitas fora dos países islâmicos.

 

Na Arábia Saudita as mulheres têm poucos direitos. Só podem sair de casa na companhia de um homem, não podem conduzir carro e só podem estudar e casar com consentimento prévio; não possuem quase nenhum direito de decisão. Desde 2001 já podem requerer um bilhete de identidade.

 

Pratica-se a tortura, o espancamento, o açoitamento, a privação do sono, a torção dos membros, choques electrostáticos, assim como a ameaça de mordidelas de animais; há execuções públicas como castigo normal para crimes como: assassinato, adultério, sabotagem e apostasia.

 

Apesar de tantos crimes contra a humanidade e contra os direitos humanos o Ocidente é o grande aliado da Arábia Saudita.

 

Como exemplo refiro informações da HNA segundo as quais a Alemanha em 2013 fez exportações para a Arábia Saudita no valor de 1,7 mil milhões de euros (máquinas, produtos químicos, veículos e peças de veículos. A exportação de armas foi de 316 milhões de euros. Em 2013 as exportações da Arábia Saudita para a Alemanha atingiram os 9,2 mil milhões de euros. Além disso a Alemanha, em 2011, fez investimentos directos na Arábia Saudita no valor de 713 milhões de euros e em contrapartida a Arábia Saudita investiu na Alemanha, no mesmo ano, 25 milhões de euros. A Arábia Saudita fomenta o wahhabismo (interpretação fundamentalista do Islão) que produziu al Qaida e a ideologia do “Estado Islâmico”.

 

O dinheiro compra tudo; até a consciência democrática defensora dos direitos humanos não escapa.

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António da Cunha Duarte Justo

AUSTERIDADE, A MÁ?

 

Dinheirama

 

O que é a austeridade? É a imposição de condicionantes ao esbanjamento de dinheiros públicos com que tradicionalmente os Governos compram os votos dos eleitores para se eternizarem no Poder. A austeridade é, portanto, uma política virtuosa.

 

Mas há mais: a moral nórdica (sobretudo alemã) assenta no princípio do dever (a famosa ética kantiana) a favor do bem comum pela dedicação ao trabalho (a que os madraços chamam «alienação»). Nada disto tem a ver com as «carnavaladas» sulistas. E agora os carnavalistas refulgiram com o dinheiro a rodos do BCE esquecendo-se (propositadamente?) de que o BCE intervirá APENAS a nível dos mercados secundários. Ou seja, esses rios de dinheiro que ai vêm destinam-se a financiar a banca e não os Governos. E agora entra outro problema: haverá em Portugal projectos aprováveis em número suficiente para corresponderem à benesse do BCE? É claro que me refiro a projectos enquadráveis no novo modelo de desenvolvimento (produtivo de bens e serviços transaccionáveis), não no «modelo» que nos atirou para a ruina baseado nessa falácia do consumo como motor do desenvolvimento.

 

Parem, pois, os foguetes – o Carnaval não é para já!

 

Janeiro de 2015

 

HSF-Mékong.jpg

Henrique Salles da Fonseca

«TRATAR DA CONSTIPAÇÃO QUANDO TEMOS UMA PNEUMONIA»

 

A frase ouvi-a eu ontem, à representante do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, figura seráfica que vai escorregando noções de boa formação moral, olhos azuis de menina modesta que acusa, acusa, como se não soubesse fazer mais nada neste mundo do que acusar, que para isso foi ensaiada, no seu discurso paralelo aos demais discursos da mesma banda, gotas de água caindo do telhado, monocórdicas, intransigentes, puras e embaladoras, numa solidariedade vivificadora da terra ressequida dos mais necessitados. Para ela não há desvios na sua visão dos acontecimentos, dura e inflexível no seu show macio de anjo azul que se preza, ditando pareceres condenatórios. Do lado do Governo apenas vê o negativo, sem cuidar das contingências, e sem se espantar dos gastos extraordinários da população que ela defende como pobrezinha, no espectáculo de uma tal Violeta - tão sintomático de pobreza real, de facto, mas não, afinal, no sentido pecuniário do termo.

 

Vem mais dinheiro da Europa e isso é mais um motivo para se acusar o Governo - Catarina Martins também - Governo a quem todos os homens e mulheres cultos deste nobre país diziam que era preciso renegociar a dívida, antes de a pagar. Também foi a opinião do Sr. Mário Draghi, homem rico, generoso e dirigente actual do BCE, o qual, contrariando a dura Srª Merkel, mulher de trabalho e exigente de boas contas, resolveu injectar mais dinheiro nas economias esfarrapadas, na tentativa de as erguer.

 

Mas ao invés de nos alegrar, tal decisão de imediato provocou rixas e novos ataques ao Governo, lembrando o espectáculo dos muitos cães agarrados ao osso, cada qual rosnando mais alto, sem deixarem o Governo parar para ponderar na forma de proceder.

 

Cuido que Catarina Martins entende que tal dinheiro serve apenas para mezinhas de tratamento de constipação, não chega para a nossa pneumonia.

 

Assim somos, ab initio, míseros, mesquinhos e ávidos, saecula saeculorum. Espertalhões, sempre, adeptos da fórmula, segundo o nosso Vieira, "Comei-vos uns aos outros", aplicada aos peixes apenas para disfarçar, com a particularidade de os maiores devorarem em maior quantidade. É certo que não é exclusivo nosso. Mas se tantos o escreveram entre nós, senhores, além disso, de uma “Arte de Furtar” do século XVII, decisiva na acusação da corrupção geral, se o próprio João de Deus o diz tão airosamente, que havemos de fazer para o impedir, frágeis que somos? Riamos com João de Deus:

 

João de Deus.png

 

O Dinheiro

 

O dinheiro é tão bonito,

Tão bonito, o maganão!

Tem tanta graça, o maldito,

Tem tanto chiste, o ladrão!

O falar, fala de um modo...

Todo ele, aquele todo...

E elas acham-no tão guapo!

Velhinha ou moça que veja,

Por mais esquiva que seja,

Tlim! Papo.

 

E a cegueira da justiça

Como ele a tira num ai!

Sem lhe tocar com a pinça;

E só dizer-lhe: «Aí vai...»

Operação melindrosa,

Que não é lá qualquer coisa;

Catarata, tome conta!

Pois não faz mais do que isto,

Diz-me um juiz que o tem visto:

Tlim! Pronta.

 

Nespécies de exames

Que a gente faz em rapaz,

São milagres aos enxames

O que aquele demo faz!

Sem saber nem patavina

De gramática latina,

Quer-se um rapaz dali fora?

Vai ele com tais falinhas,

Tais gaifonas, tais coisinhas...

Tlim! Ora...

 

Aquela fisionomia

É lábia que o demo tem!

Mas numa secretaria

Aí é que é vê-lo bem!

Quando ele de grande gala,

Entra o ministro na sala,

Aproveita a ocasião:

«Conhece este amigo antigo?»

— Oh, meu tão antigo amigo!

(Tlim!) Pois não!

 

João de Deus, in 'Campo de Flores'

 

Berta Brás.jpg Berta Brás

A GUERRA DO AFEGANISTÃO...

...vista em 1880 por Eça de Queiroz

 

Eça de Queiroz foi um observador arguto da guerra do Afeganistão, não a do Obama, mas a dos ingleses imperiais do sec. XIX, e sobre ela escreveu páginas implacáveis que talvez os nossos governantes, já que os estrangeiros não sabem português, tivessem interesse e proveito em ler e meditar. Aí vão elas (escritas em 1880):

 

Os ingleses estão experimentando, no seu atribulado império da Índia,a verdade desse humorístico lugar comum do sec. XVIII: 'A História é uma velhota que se repete sem cessar'. O Fado e a Providência, ou a Entidade qualquer que lá de cima dirigiu os episódios da campanha do Afeganistão em 1847, está fazendo simplesmente uma cópia servil, revelando assim uma imaginação exausta. Em 1847 os ingleses, "por uma Razão de Estado, uma necessidade de fronteiras científicas, a segurança do império, uma barreira ao domínio russo da Ásia..." e outras coisas vagas que os políticos da Índia rosnam sombriamente, retorcendo os bigodes - invadem o Afeganistão, e aí vão aniquilando tribos seculares, desmantelando vilas, assolando searas e vinhas: apossam-se, por fim, da santa cidade de Cabul; sacodem do serralho um velho emir apavorado; colocam lá outro de raça mais submissa, que já trazem preparado nas bagagens, com escravas e tapetes; e, logo que os correspondentes dos jornais têm telegrafado a vitória, o exército, acampado à beira dos arroios e nos vergéis de Cabul, desaperta o correame, e fuma o cachimbo da paz... Assim é exactamente em 1880. No nosso tempo, precisamente como em 1847, chefes enérgicos, Messias indígenas, vão percorrendo o território, e com os grandes nomes de "Pátria" e de "Religião", pregam a guerra santa: as tribos reunem-se, as famílias feudais correm com os seus troços de cavalaria, príncipes rivais juntam-se no ódio hereditário conra o estrangeiro, o "homem vermelho", e em pouco tempo é tudo um rebrilhar de fogos de acampamento nos altos das serranias, dominando os desfiladeiros que são o caminho, a estrada da Índia... E quando por ali aparecer, enfim, o grosso do exército inglês, à volta de Cabul, atravacado de artilharia, escoando-se espessamente, por entre as gargantas das serras, no leito seco das torrentes, com as suas longas caravanas de camelos, aquela massa bárbara rola-lhe em cima e aniquila-o. Foi assim em 1847, é assim em 1880. Então os restos debandados do exército refugiam-se nalguma das cidades da fronteira, que ora é Ghasnat ora Kandahar: os afegãos correm, põem o cerco, cerco lento, cerco de vagares orientais: o general sitiado, que nessas guerras asiáticas pode sempre comunicar, telegrafa para o viso-rei da Índia, reclamando com furor "reforços, chá e açúcar"! (Isto é textual; foi o general Roberts que soltou há dias este grito de gulodice britânica; o inglês, sem chá, bate-se frouxamente). Então o governo da Índia, gastando milhões de libras, como quem gasta água, manda a toda a pressa fardos disformes de chá reparador, brancas colinas de açúcar, e dez ou quinze mil homens. De Inglaterra partem esses negros e monstruosos transportes de guerra, arcas de Noé a vapor, levando acampamentos, rebanhos de cavalos, parques de artilharia, toda uma invasão temerosa... Foi assim em 1847, assim é em 1880. Esta hoste desembarca no Industão, junta-se a outras colunas de tropa índia, e é dirigida dia e noite sobre a fronteira em expressos a quarenta milhas por hora; daí começa uma marcha assoladora, com cinquenta mil camelos de bagagens, telégrafos, máquinas hidráulicas, e uma cavalgada eloquente de correspondentes de jornais. Uma manhã avista-se Kandahar ou Ghasnat;- e num momento, é aniquilado, disperso no pó da planície o pobre exército afegão com as suas cimitarras de melodrama e as suas veneráveis colubrinas do modelo das que outrora fizeram fogo em Diu. Ghasnat está livre! Kandahar está livre! Hurrah! Faz-se imediatamente disto uma canção patriótica; e a façanha é por toda a Inglaterra popularizada numa estampa, em que se vê o general libertador e o general sitiado apertando-se a mão com veemência, no primeiro plano, entre cavalos empinados e granadeiros belos como Apolos, que expiram em atitude nobre! Foi assim em 1847; há-de ser assim em 1880. No entanto, em desfiladeiro e monte, milhares de homens que, ou defendiam a pátria ou morriam pela "fronteira científica", lá ficam, pasto de corvos - o que não é, no Afeganistão, uma respeitável imagem de retórica: aí, são os corvos que nas cidades fazem a limpeza das ruas, comendo as imundícies, e em campos de batalha purificam o ar, devorando os restos das derrotas. E de tanto sangue, tanta agonia, tanto luto, que resta por fim? Uma canção patriótica, uma estampa idiota nas salas de jantar, mais tarde uma linha de prosa numa página de crónica... Consoladora filosofia das guerras! No entanto, a Inglaterra goza por algum tempo a "grande vitória do Afeganistão" - com a certeza de ter de recomeçar, daqui a dez anos ou quinze anos; porque nem pode conquistar e anexar um vasto reino, que é grande como a França, nem pode consentir, colados à sua ilharga, uns poucos de milhões de homens fanáticos, batalhadores e hostis. A "política" portanto é debilitá-los periodicamente, com uma invasão arruinadora. São as fortes necessidades dum grande império. Antes possuir apenas um quintalejo, com uma vaca para o leite e dois pés de alface para as merendas de verão...

(in "Cartas de Inglaterra")

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