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A bem da Nação

SE A MINHA ILHA SOUBESSE…

 

Pico, Açores.jpg

 

Uma vez, na nossa juventude,

Subimos ao alto do Pico.

Lembras-te?!

Pela vida fora,

Sempre que quero encontrar-me,

Vou até lá

Agora em pensamento

E regresso, quase feliz!...

 

Maria Mamede.png Maria Mamede

AS RAÍZES DA EXPANSÃO PORTUGUESA E EUROPEIA

 

Primeira observação: o título.

 

As duas expansões foram de facto uma pois tendo sido iniciada por Portugal, ela constituiu a ponta de lança que abriu o caminho para outros países a desenvolverem de tal modo que poderemos afirmar, sem receio de exagero patriótico, que os dois factos que mais contribuíram para o renascimento europeu foram os descobrimentos portugueses e a invenção da imprensa.

 

Infelizmente isto nunca foi bem tratado e aproveitado pelos líderes nacionais que após o início do século XVI raramente geriram o País de forma correcta, pelo que perdemos a independência e depois de a recuperar nunca soubemos aproveitar as imensas riquezas que os descobrimentos nos proporcionaram nem conduzir a população a compreender a sua dimensão e as suas potencialidades, do que resultaram as inúmeras dificuldades que o País sofreu até chegar à actual situação.

 

A segunda observação é sobre a palavra Marinha, pois foi pelo facto de termos a melhor Marinha da Europa no século XV que conseguimos realizar os descobrimentos marítimos e se não a tivéssemos nunca passaríamos de uma província pobre da Espanha.

 

Se o leitor quiser entender o que é a Marinha Portuguesa e for ao Google encontrará que é a Armada ou a Marinha de guerra, quando na verdade a epopeia dos descobrimentos foi feita pelo conjunto das Marinhas de Guerra, de Comércio e de Pesca e as demais actividades associadas como a construção naval, a geografia, a navegação, o fabrico de velas e de cabos, a cartografia, a artilharia, a medicina, etc, etc que estavam todas ligadas, como modernamente alguém classificou como “cluster”, praticamente desde D. Dinis e que foi destruído a partir de Julho de 1974, com relevo especial no Governo de Cavaco Silva.

 

A terceira e última observação é a explicação por que razão venho agora, de certa forma novamente, levantar esta questão: desde Abril de 74 que a Marinha Portuguesa, tal como eu a defino, por ignorância e preconceitos vários tem sido atacada, até que há cerca de duas semanas o comentador Prof. Marcelo Rebelo de Sousa apresentou entre outros livros uma “História da expansão e do império português”.

 

Logo fui comprá-lo e comecei a lê-lo na esperança de ver um trabalho que contrariasse este estado actual de desintere4sse pela marinha e corrigisse alguns erros persistentes entre nós quanto às raízes dos descobrimentos, que nos permitam compreender o papel essencial da Marinha não apenas nos descobrimentos mas mais ainda na própria formação do cidadão português destemido e produtivo.

 

Mas a leitura dos primeiros quatro capítulos originou a produção deste artigo pois não posso aceitar passivamente que não sejam devidamente explicadas as raízes sociais e técnicas que permitiram a realização de um dos mais importantes movimentos da história da humanidade que não pode ser reduzida à tenacidade de um navegador e à gestão de um príncipe.

 

Com efeito o interesse pela Marinha começou logo com o próprio D. Afonso Henriques, mas foi de facto D. Dinis quem, seguindo o que tinha sido iniciado por seu pai, organizou a nossa Marinha não só a de guerra, que era essencial para combater os piratas mediterrânicos e outros mas para garantir os movimentos da nossa Marinha mercante que aproveitou inteligentemente a tradição milenar do tráfego ao longo da nossa costa, ligando o mediterrâneo ao norte da Europa, e desenvolveu vários portos portugueses nomeadamente Porto, Lisboa e Lagos onde se constituíram núcleos de burguesia fortemente activa, tanto industrial como comercial, onde havia elevada percentagem de judeus.

 

O que explica que em 1383 na crise da sucessão de D. Fernando em que a maior parte da nobreza, muita dela de origem idêntica à de Castela, estava do lado do rei castelhano, enquanto o principal apoio a D. João I foi da burguesia atrás indicada o que permitiu a colaboração importante dos archeiros ingleses em Aljubarrota e a existência de uma Marinha de tal forma potente que em 1415 foi possível organizar a conquista de Ceuta sem que haja notícia de qualquer perturbação no comércio do país, embora tivessem sido usadas nela mais de uma centena de embarcações de grande porte, para a época.

 

Como a nossa expansão só podia ser realizada por mar quando D. Henrique toma conta dos negócios marítimos e portanto da expansão do país já havia toda uma estrutura técnica e empresarial que constituía a nossa Marinha.

 

Note-se que até então a navegação se processava junto às costas com navios com velas redondas e que não permitiam bolinar o que não só limitava as épocas em que se aproveitavam os ventos favoráveis como dificultava ou até impedia maior penetração no mar oceano. Mesmo assim fomos descobrindo ou apenas tomando posse de algumas ilhas atlânticas e simultaneamente conhecendo o regime de ventos do atlântico.

 

E se foi importante o feito de Gil Eanes em passar o Bojador, o mais importante foi logo a seguir termos construído caravelas que bolinavam e atingiam maiores velocidades, o que possibilitou o enorme avanço no conhecimento dos ventos oceânicos e o alargamento das deslocações.

 

É claro que o grande objectivo era chegar à Índia onde se sabia haver enormes riquezas enquanto no atlântico norte nada aparecia com interesse, até que finalmente Bartolomeu Dias passa o cabo da Boa Esperança, descobrindo o caminho marítimo para a Índia.

 

Mas o tráfego previsto para a ligação à Índia pressupunha a utilização de naus que tinham muito maior capacidade de carga mas que tinham que usar velas redondas, donde não bolinavam como as caravelas. O que logicamente obrigou D. João II a desenvolver esforços para se conhecerem os ventos do atlântico sul o que teria originado algumas expedições para este fim mesmo antes de se iniciarem as construções das naus.

 

De facto as naus para atingirem a passagem do Cabo da Boa Esperança tinham que se aproximar da costa brasileira e quando se conhece esta costa é fácil entender que Álvares Cabral ao atravessar o oceano até avistar o monte Pascoal, onde inclusive havia como abastecer de água, o que aliás não tinha feito em Cabo Verde por sugestão de Vasco da Gama, não é aceitável a ideia da descoberta casual.

 

Nem D. João II merece tal injustiça de avaliação da sua estratégia para garantir os interesses de Portugal e no enorme avanço da nossa cartografia em relação à Espanha e a quase todos os países europeus.

 

Ora basta olhar para o mapa do oceano atlântico para se perceber que as navegações feitas com aquela finalidade tinham fatalmente que descobrir o território a que depois se chamou Brasil e desencadear as movimentações políticas de D. João II no sentido de evitar a concorrência de Espanha.

 

Movimentações que culminaram com o aparecimento oportuno de Colombo, que levou os navios espanhóis para a América Central, tendo logo no regresso da sua primeira viagem vindo a Lisboa falar com ele, e ainda permitiu-lhe posicionar o meridiano de Tordesilhas de forma a englobar o Brasil na zona de influência portuguesa.

 

Nada disto aconteceu por sorte mas pela estratégia joanina.      

 

E se Colombo ficou com a fama de navegador pioneiro isso deve-se à importância que lhe foi dada pelas autoridades espanholas enquanto em Portugal pouco ou nada se fez no sentido de valorizar os nossos descobrimentos incluindo a mediocridade das comemorações de 1998 em Lisboa.

 

Aliás o mapa de Cantino ajuda a entender tudo isto quanto mais não seja porque sendo ele datado de 1502 nunca seria possível fazer o levantamento da costa brasileira nesse intervalo. Assim, Álvares Cabral capitaneou uma frota que foi tomar posse do Brasil e só foi dito ter sido uma descoberta por razões políticas.

 

Neste momento o nosso País está a ser gerido quase exclusivamente como uma tesouraria e aqueles que dominam os poderes político e económico mostram claramente não levar a sério a necessidade absoluta e urgente de reformar a estrutura política, económica e social que foi a principal causa desta e doutras crises que temos tido, se quisermos voltar a recuperar a independência, como manda a nossa Constituição, que tivemos nas épocas em que tínhamos Marinha efectiva, é forçoso recuperá-la rapidamente, não com reuniões e colóquios mas com decisões que originem a concretização das iniciativas necessárias e que até já há várias aguardando a indispensável vontade política.

 

Lisboa, 27 de Janeiro de 2015

 

Eng. J.C. Gonçalves Viana

José Carlos Gonçalves Viana

SERÁ QUE É?

 

A caricatura é mais forte que as restrições e que as proibições. É imortal porque é uma das facetas daquele diamante que se chama verdade.

Eça de Queirós - leio no cabeçalho da última página do D.N de9/1/15.

 

De facto, a caricatura favorece o nosso comodismo, pela percepção imediata do traço avultado com que o caricaturista desejou acentuar o que a sua sensibilidade, parti pris ou intenção crítica captaram, geralmente em propósito satírico, não exigindo grande esforço de leitura gráfica ou iconográfica para a risada grossa da conivência com o grotesco. A desmistificação dos valores que hoje se projecta no cartunismo, já a encontráramos em Rabelais, a desmesura, a licenciosidade, a anarquia, a oposição ao preconceito sendo motivos da sua criatividade, de extraordinária dimensão e causadores do riso, (embora em leitura prolongada), segundo o seu conceito de que Le rire est le propre de l’homme.

 

O que leva um sorriso misterioso como o de Mona Lisa a uma vigília demorada de observadores em frente do quadro, para se decifrar nos olhos, no rictus bucal se se trata de uma postura de seriedade, ou de breve sorriso que os seus olhos parecem traduzir, e simultaneamente a nitidez clássica da paisagem envolvente da Gioconda, contrastando com a paisagem de escolas pictóricas mais recentes, de impressões e colorido, com sugestões apenas, por vezes, das figuras, num universo de captação e de prazer imediatos, percebemos quanto evoluiu o conceito de arte, em paralelo, aliás, e em consequência do aburguesamento social, de gente mais sensibilizada para colher o breve, o imediato, reduzido o esforço de atenção ao prazer da cor e da deformação dos traços de alusão satírica.

 

Eça tem bem a percepção de que as pinceladas dos seus descritivos figurativos, redundam, as mais das vezes, na criação de tipos sociais, no avolumar do traço caricatural, bem ao contrário de Balzac, Stendhal, Zola, Flaubert, cujo conhecimento da psicologia humana se traduziu em minúcia e autenticidade das personagens, que não excluíam a intenção irónica, em que Flaubert foi mestre, e bem assim Balzac.

 

A caricatura é mais forte que as restrições e que as proibições. É imortal porque é uma das facetas daquele diamante que se chama verdade.

 

Eça, todo vibratilidade e versatilidade, sentiu bem, todavia, a diferença entre ele e os seus congéneres na criação das suas figuras. Afirma-o em cartas aos amigos, com mágoa, por criar fantoches sem vida interior, na sua galeria social, tipos de farsa, caricaturais, que nos fazem rir. Mas por isso mesmo fortes, no traço forte, na sua intenção de condenação e de risada imediata.

 

Transcrevo a carta de Eça a Ramalho, comprovativa destes dizeres, e, simultaneamente, da humildade intelectual de Eça, no reconhecimento dessas suas diferenças dos seus contemporâneos franceses:

Eu por aqui – não fazendo, não pensando, não vivendo senão Arte. Acabei O Primo Basílio – uma obra falsa, ridícula, afectada, disforme, piegas e papoilosa – isto é, tendo a propriedade da papoila: - sonolificente. De resto Você lerá – isto é, dormirá. Seria longo explicar como eu – que sou tudo menos insípido – pude fazer uma obra insípida: …. Os personagens – e Você verá – não têm a vida que nós temos: não são inteiramente des images découpées – mas têm uma musculatura gelatinosa: oscilam, fazem beiço como os queijos da Serra, espapam, derretem. Há – inquestionavelmente – alguma cena, alguns traços correctos: e há maravilhas de habilidade, da habilidade de métier; enfim, sou uma besta. E o que é triste é que me desespero por isso. Nunca hei-de fazer nada como o Pai Goriot; e você conhece a melancolia em tal caso, da palavra nunca! Não falo naturalmente do Primo Basílio – isso é uma ninharia, abaixo da crítica de um crítico de Penafiel, mas mesmo este novo romance (“A Capital”) – de que estou tão contente – não dá, não sai. Faço mundos de cartão… não sei fazer carne nem alma. Como é? Como será? E todavia não me falta o processo: tenho-o, superior a Balzac, a Zola, e tutti quanti. Falta qualquer coisinha dentro: a pequena vibração cerebral; sou uma irremissível besta!

Assinatura Eça.png

Newcastle, 3 de Novembro de 1877 – (in "Correspondência" Vol. IV de OBRAS DE EÇA DE QUEIRÓS):

 

Simultaneamente, e segundo o dístico no cabeçalho da última página do DN, Eça é bem o homem que se sente feliz consigo próprio, pois com a sua arte ele pôde determinar o alcance social da caricatura, o traço forte e saliente tornando-se espelho do grupo social que o reflecte. Daí a função daquela, semelhante à da comédia de costumes: “Ridendo castigat mores”.

 

O certo é que o tal “diamante que se chama verdade”, pode ser facetado de diversas maneiras, segundo fontes de opinião diversificada, não deixando de ser um conceito subjectivo, tal como os demais conceitos, cuja verdade é hoje posta em causa, em liberdade democraticamente flexível.

 

Daí que as caricaturas do tipo “Charlie Hebdo”, na desmesura da sua verdade, tenham, como efeito, muitas vezes, uma risada amarela de resposta. Com consequências bem mais sombrias do que no tempo de Eça.

Berta Brás.jpg Berta Brás

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