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A bem da Nação

AUSTERIDADE, A MÁ?

 

Dinheirama

 

O que é a austeridade? É a imposição de condicionantes ao esbanjamento de dinheiros públicos com que tradicionalmente os Governos compram os votos dos eleitores para se eternizarem no Poder. A austeridade é, portanto, uma política virtuosa.

 

Mas há mais: a moral nórdica (sobretudo alemã) assenta no princípio do dever (a famosa ética kantiana) a favor do bem comum pela dedicação ao trabalho (a que os madraços chamam «alienação»). Nada disto tem a ver com as «carnavaladas» sulistas. E agora os carnavalistas refulgiram com o dinheiro a rodos do BCE esquecendo-se (propositadamente?) de que o BCE intervirá APENAS a nível dos mercados secundários. Ou seja, esses rios de dinheiro que ai vêm destinam-se a financiar a banca e não os Governos. E agora entra outro problema: haverá em Portugal projectos aprováveis em número suficiente para corresponderem à benesse do BCE? É claro que me refiro a projectos enquadráveis no novo modelo de desenvolvimento (produtivo de bens e serviços transaccionáveis), não no «modelo» que nos atirou para a ruina baseado nessa falácia do consumo como motor do desenvolvimento.

 

Parem, pois, os foguetes – o Carnaval não é para já!

 

Janeiro de 2015

 

HSF-Mékong.jpg

Henrique Salles da Fonseca

«TRATAR DA CONSTIPAÇÃO QUANDO TEMOS UMA PNEUMONIA»

 

A frase ouvi-a eu ontem, à representante do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, figura seráfica que vai escorregando noções de boa formação moral, olhos azuis de menina modesta que acusa, acusa, como se não soubesse fazer mais nada neste mundo do que acusar, que para isso foi ensaiada, no seu discurso paralelo aos demais discursos da mesma banda, gotas de água caindo do telhado, monocórdicas, intransigentes, puras e embaladoras, numa solidariedade vivificadora da terra ressequida dos mais necessitados. Para ela não há desvios na sua visão dos acontecimentos, dura e inflexível no seu show macio de anjo azul que se preza, ditando pareceres condenatórios. Do lado do Governo apenas vê o negativo, sem cuidar das contingências, e sem se espantar dos gastos extraordinários da população que ela defende como pobrezinha, no espectáculo de uma tal Violeta - tão sintomático de pobreza real, de facto, mas não, afinal, no sentido pecuniário do termo.

 

Vem mais dinheiro da Europa e isso é mais um motivo para se acusar o Governo - Catarina Martins também - Governo a quem todos os homens e mulheres cultos deste nobre país diziam que era preciso renegociar a dívida, antes de a pagar. Também foi a opinião do Sr. Mário Draghi, homem rico, generoso e dirigente actual do BCE, o qual, contrariando a dura Srª Merkel, mulher de trabalho e exigente de boas contas, resolveu injectar mais dinheiro nas economias esfarrapadas, na tentativa de as erguer.

 

Mas ao invés de nos alegrar, tal decisão de imediato provocou rixas e novos ataques ao Governo, lembrando o espectáculo dos muitos cães agarrados ao osso, cada qual rosnando mais alto, sem deixarem o Governo parar para ponderar na forma de proceder.

 

Cuido que Catarina Martins entende que tal dinheiro serve apenas para mezinhas de tratamento de constipação, não chega para a nossa pneumonia.

 

Assim somos, ab initio, míseros, mesquinhos e ávidos, saecula saeculorum. Espertalhões, sempre, adeptos da fórmula, segundo o nosso Vieira, "Comei-vos uns aos outros", aplicada aos peixes apenas para disfarçar, com a particularidade de os maiores devorarem em maior quantidade. É certo que não é exclusivo nosso. Mas se tantos o escreveram entre nós, senhores, além disso, de uma “Arte de Furtar” do século XVII, decisiva na acusação da corrupção geral, se o próprio João de Deus o diz tão airosamente, que havemos de fazer para o impedir, frágeis que somos? Riamos com João de Deus:

 

João de Deus.png

 

O Dinheiro

 

O dinheiro é tão bonito,

Tão bonito, o maganão!

Tem tanta graça, o maldito,

Tem tanto chiste, o ladrão!

O falar, fala de um modo...

Todo ele, aquele todo...

E elas acham-no tão guapo!

Velhinha ou moça que veja,

Por mais esquiva que seja,

Tlim! Papo.

 

E a cegueira da justiça

Como ele a tira num ai!

Sem lhe tocar com a pinça;

E só dizer-lhe: «Aí vai...»

Operação melindrosa,

Que não é lá qualquer coisa;

Catarata, tome conta!

Pois não faz mais do que isto,

Diz-me um juiz que o tem visto:

Tlim! Pronta.

 

Nespécies de exames

Que a gente faz em rapaz,

São milagres aos enxames

O que aquele demo faz!

Sem saber nem patavina

De gramática latina,

Quer-se um rapaz dali fora?

Vai ele com tais falinhas,

Tais gaifonas, tais coisinhas...

Tlim! Ora...

 

Aquela fisionomia

É lábia que o demo tem!

Mas numa secretaria

Aí é que é vê-lo bem!

Quando ele de grande gala,

Entra o ministro na sala,

Aproveita a ocasião:

«Conhece este amigo antigo?»

— Oh, meu tão antigo amigo!

(Tlim!) Pois não!

 

João de Deus, in 'Campo de Flores'

 

Berta Brás.jpg Berta Brás

A GUERRA DO AFEGANISTÃO...

...vista em 1880 por Eça de Queiroz

 

Eça de Queiroz foi um observador arguto da guerra do Afeganistão, não a do Obama, mas a dos ingleses imperiais do sec. XIX, e sobre ela escreveu páginas implacáveis que talvez os nossos governantes, já que os estrangeiros não sabem português, tivessem interesse e proveito em ler e meditar. Aí vão elas (escritas em 1880):

 

Os ingleses estão experimentando, no seu atribulado império da Índia,a verdade desse humorístico lugar comum do sec. XVIII: 'A História é uma velhota que se repete sem cessar'. O Fado e a Providência, ou a Entidade qualquer que lá de cima dirigiu os episódios da campanha do Afeganistão em 1847, está fazendo simplesmente uma cópia servil, revelando assim uma imaginação exausta. Em 1847 os ingleses, "por uma Razão de Estado, uma necessidade de fronteiras científicas, a segurança do império, uma barreira ao domínio russo da Ásia..." e outras coisas vagas que os políticos da Índia rosnam sombriamente, retorcendo os bigodes - invadem o Afeganistão, e aí vão aniquilando tribos seculares, desmantelando vilas, assolando searas e vinhas: apossam-se, por fim, da santa cidade de Cabul; sacodem do serralho um velho emir apavorado; colocam lá outro de raça mais submissa, que já trazem preparado nas bagagens, com escravas e tapetes; e, logo que os correspondentes dos jornais têm telegrafado a vitória, o exército, acampado à beira dos arroios e nos vergéis de Cabul, desaperta o correame, e fuma o cachimbo da paz... Assim é exactamente em 1880. No nosso tempo, precisamente como em 1847, chefes enérgicos, Messias indígenas, vão percorrendo o território, e com os grandes nomes de "Pátria" e de "Religião", pregam a guerra santa: as tribos reunem-se, as famílias feudais correm com os seus troços de cavalaria, príncipes rivais juntam-se no ódio hereditário conra o estrangeiro, o "homem vermelho", e em pouco tempo é tudo um rebrilhar de fogos de acampamento nos altos das serranias, dominando os desfiladeiros que são o caminho, a estrada da Índia... E quando por ali aparecer, enfim, o grosso do exército inglês, à volta de Cabul, atravacado de artilharia, escoando-se espessamente, por entre as gargantas das serras, no leito seco das torrentes, com as suas longas caravanas de camelos, aquela massa bárbara rola-lhe em cima e aniquila-o. Foi assim em 1847, é assim em 1880. Então os restos debandados do exército refugiam-se nalguma das cidades da fronteira, que ora é Ghasnat ora Kandahar: os afegãos correm, põem o cerco, cerco lento, cerco de vagares orientais: o general sitiado, que nessas guerras asiáticas pode sempre comunicar, telegrafa para o viso-rei da Índia, reclamando com furor "reforços, chá e açúcar"! (Isto é textual; foi o general Roberts que soltou há dias este grito de gulodice britânica; o inglês, sem chá, bate-se frouxamente). Então o governo da Índia, gastando milhões de libras, como quem gasta água, manda a toda a pressa fardos disformes de chá reparador, brancas colinas de açúcar, e dez ou quinze mil homens. De Inglaterra partem esses negros e monstruosos transportes de guerra, arcas de Noé a vapor, levando acampamentos, rebanhos de cavalos, parques de artilharia, toda uma invasão temerosa... Foi assim em 1847, assim é em 1880. Esta hoste desembarca no Industão, junta-se a outras colunas de tropa índia, e é dirigida dia e noite sobre a fronteira em expressos a quarenta milhas por hora; daí começa uma marcha assoladora, com cinquenta mil camelos de bagagens, telégrafos, máquinas hidráulicas, e uma cavalgada eloquente de correspondentes de jornais. Uma manhã avista-se Kandahar ou Ghasnat;- e num momento, é aniquilado, disperso no pó da planície o pobre exército afegão com as suas cimitarras de melodrama e as suas veneráveis colubrinas do modelo das que outrora fizeram fogo em Diu. Ghasnat está livre! Kandahar está livre! Hurrah! Faz-se imediatamente disto uma canção patriótica; e a façanha é por toda a Inglaterra popularizada numa estampa, em que se vê o general libertador e o general sitiado apertando-se a mão com veemência, no primeiro plano, entre cavalos empinados e granadeiros belos como Apolos, que expiram em atitude nobre! Foi assim em 1847; há-de ser assim em 1880. No entanto, em desfiladeiro e monte, milhares de homens que, ou defendiam a pátria ou morriam pela "fronteira científica", lá ficam, pasto de corvos - o que não é, no Afeganistão, uma respeitável imagem de retórica: aí, são os corvos que nas cidades fazem a limpeza das ruas, comendo as imundícies, e em campos de batalha purificam o ar, devorando os restos das derrotas. E de tanto sangue, tanta agonia, tanto luto, que resta por fim? Uma canção patriótica, uma estampa idiota nas salas de jantar, mais tarde uma linha de prosa numa página de crónica... Consoladora filosofia das guerras! No entanto, a Inglaterra goza por algum tempo a "grande vitória do Afeganistão" - com a certeza de ter de recomeçar, daqui a dez anos ou quinze anos; porque nem pode conquistar e anexar um vasto reino, que é grande como a França, nem pode consentir, colados à sua ilharga, uns poucos de milhões de homens fanáticos, batalhadores e hostis. A "política" portanto é debilitá-los periodicamente, com uma invasão arruinadora. São as fortes necessidades dum grande império. Antes possuir apenas um quintalejo, com uma vaca para o leite e dois pés de alface para as merendas de verão...

(in "Cartas de Inglaterra")

Assinatura Eça.png

 

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