Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A bem da Nação

A ESCADA DO GALEGO

 

galegas na escada.jpg

 

Também teve as suas ambiguidades, Salazar – tal como o galego da escada que ninguém descortina se ele está a subi-la ou a descê-la, segundo referência de António Pina do Amaral no artigo Salazar e Franco mas era indiscutivelmente um homem que sabia o que queria. E por isso permaneceu no seu posto longo tempo – tal como, afinal, Jardim, que também apreciou o posto – e Cavaco, e Soares, e tutti quanti – embora o controlo dos gastos daquele fosse mais visível, e sempre no amor da pátria, que conseguiu desendividar e fazer progredir - dentro de normas de avara mesquinhez, é certo, mas dentro de preceitos de ética mais visíveis. Outros homens lhe reconheceram a competência – espanhóis – como os que o texto de António Pina do Amaral identifica.

 

Eram estrangeiros, por isso imparciais, mas evoco ainda, a propósito de admiração, o meu amigo Juiz Dr. Brites Ribas, que me deu a conhecer um pouco de Lisboa e os “marinos” do café Central – (em nada, apesar de tudo, camaradas na parcimónia de Salazar, referida no texto de Pina do Amaral) – o qual amava Lisboa e admirava Salazar: Considerava-o o maior estadista português de todos os tempos, o mais inteligente. Era Juiz, conhecia-lhe a obra e tinha bom senso.

 

Este elegante artigo de Pina do Amaral revela um pouco dessa inteligência de Salazar em acção. E a simplicidade criteriosa do seu viver sem espectáculo. Mas sabendo convencer quem se propunha convencer, numa época perigosa e dúbia, em que conseguiu livrar o seu país ingrato das garras que dilaceraram outros com menos sorte.

 

Como somos ingratos, não queremos reconhecê-lo e preferimos “branquear” esse passado, menosprezando-o, trocando os nomes que àquele pertenceram, segundo uma “ponte” de partida para uma nova era, de muita presunção e de muita pobreza.

 

Ainda ontem tal mesquinhez foi visível, nas reacções dos partidos à nova injecção de dinheiros aos países necessitados da UE, para efeitos de desenvolvimento económico. Logo toda a Oposição entoou chufas ao Governo da austeridade que nunca tentara negociar a dívida, limitando-se a cumprir segundo as ordens recebidas – (mas suponho que também por escrúpulo de honestidade que, por mim, aprecio).

 

E foi por isso que não estranhei o ar radioso de António Costa, aproveitando o facto para logo apontar o dedo triunfalmente acusador, senhor que se segue, que não descura o trunfo a seu favor, como o galego na sua escada, já sem ambiguidade, pronto a subir.

 

Berta Brás.jpg Berta Brás

DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

 

Com a História aprende-se mas para isso é necessário conhecê-la.

 

Péron quis erigir um Estado social na Argentina, promoveu a industrialização forçada e abandonou a estrutura empresarial agrícola à sua sorte. A conjuntura internacional não ajudou à manutenção das exportações de cereais e de carne, a substituição de importações industriais não foi eficaz, a economia argentina entrou em colapso e o Estado faliu. Péron foi rapidamente encaminhado para o exílio.

 

Também nós erigimos um Estado social enquanto desmantelávamos a malha produtiva e, não contando com a ajuda excepcional americana de 1976-77 por intervenção do então Embaixador Carlucci, em 40 anos tivemos rupturas financeiras que por três vezes nos obrigaram a pedir ajuda externa.

 

Erigir um Estado social sem uma sólida base contributiva não passa de um absurdo. Foi nesse tipo de absurdo que vivemos durante tempo de mais. E agora não bastará equilibrar as contas públicas pois é fundamental erigir um novo modelo de verdadeiro desenvolvimento.

 

O novo modelo tem que se basear na produção de bens e oferta de serviços transaccionáveis – não mais insistindo na via do consumo – sob pena de a ruptura financeira regressar na medida da retoma dos défices comerciais. A contracção da procura interna resultou da necessidade imperiosa de redução da despesa pública com pessoal, não de políticas económicas implantadas no âmbito da prossecução de um novo modelo; o quase desaparecimento no mercado doméstico de sectores dedicados aos bens não transaccionáveis resultou do facto de ter sido necessário reduzir drasticamente o investimento público e o endividamento das famílias, não de políticas económicas de substituição.

 

Ou seja, o que já existe desse novo modelo é obra quase exclusiva das empresas que, perante o desmoronamento do mercado doméstico, se viabilizaram nos mercados externos. E, muito ou pouco, a taxa de emprego vem subindo continuadamente.

 

Na ausência de políticas públicas imaginadas adrede (e seus típicos subsídios e outras benesses de origem pública) foi a iniciativa privada que indicou o rumo da correcção dos erros acumulados e colhe perguntar se não será esta efectivamente a melhor solução limitando-se o Estado a fazer o que a mais ninguém compete, como sejam, a redução dos custos de contexto, a promoção da transparência dos mercados, a produção da legislação que garanta a introdução de lógica no método de formação dos preços e, em conformidade com o relatório "Doing Business" do Banco Mundial citado em 29 de Outubro de 2014 pelo The Economist, a modernização do quadro jurídico de forma a reduzir o tempo que demora entre nós resolver uma disputa ou liquidar uma empresa insolvente (leia-se em ambos os casos, a rapidez da Justiça) que o gráfico seguinte evidencia com os nossos principais parceiros apresentando resultados bem mais favoráveis que os nossos.

 

The Economist.png

 

O novo modelo de desenvolvimento está em vias de instalação pela mão das empresas mas carece de uma bem específica acção legislativa que o apoie.

 

Novembro de 2014

 

C-HSF-Mékong.jpg

Henrique Salles da Fonseca

«NEM VALE A PENA TER PENA DA GENTE A QUEM ISSO ACONTECE»

 

Entre os três artigos que neste Domingo pertencem à crónica “Dias Contados”, de Alberto Gonçalves (D.N., 18/1/15), sendo o primeiro artigo ainda em torno dos Charlies e dos seus direitos, destaco os dois últimos – “O Mistério da Educação” (13/1), sobre problemas da Educação, “Lindo Serviço” (14/1) a respeito da mudança da administração da RTP e do comentário seguinte, que ele acha humorístico, de Maria Rueff, a quem ele nunca concedeu, contudo, o atributo de humorista: “Conheço o Nuno Artur Silva há vinte anos. No fundo, o que eu quero mesmo é que ele devolva à RTP a capacidade de ser Charlie.”

 

Julgo que a frase de Maria Rueff quer apenas referir-se, na questão Charlie, a si mesma, a Ana Bola e outros actores que com elas contracenaram, em grotescas figuras de imitação e troça, que, provocando o riso imediato pelo reconhecimento da figura real que os seus bonecos distinguiam em ataque directo, de desmesura burlesca, visando sobretudo os governantes, não passavam de pura farsa, em caricaturas reconhecidas, chamariz do riso alvar, bem distante da ironia mais subtil que nos dá a comédia – não nossa, infelizmente – expressiva das sinuosidades dos caracteres humanos e alcançando uma maior dimensão crítica ou satírica, se não mesmo dramática, até por inadaptação à realidade – caso do “Misantropo” de Molière, cuja seriedade e intransigência contrastam com o mundo de futilidade e cinismo – o mundo da sua amada Célimène, onde aquele – Alceste – naturalmente sairá perdendo.

 

Alberto Gonçalves.jpg

Mas vejamos o engraçado artigo de Alberto Gonçalves:

 

«Lindo serviço» (14/1)

 

Não tinha Maria Rueff por humorista até ler, há dias no DN, o comentário da senhora ao novo administrador da RTP para os conteúdos: “Conheço o Nuno Artur Silva há vinte anos. No fundo, o que eu quero mesmo é que ele devolva à RTP a capacidade de ser Charlie”.

 

Além de engraçadíssima, a frase abre um mundo de possibilidades para a futura programação do canal público. “Ser Charlie” significa que se vai transformar o “Prós e Contras” num espaço de achincalhamento de Maomé? Ou que o Telejornal reservará meia hora para o inventário dos atentados em nome do Islão? Ou que, numa emissão especial da Praça da Alegria, os estúdios da estação acabarão destruídos à bomba? Ou que a próxima administração admite morrer pela liberdade?

 

Pensando bem, qualquer das hipóteses é pouco provável. O mais certo é que, a fim de “ser Charlie”, a RTP seja apenas aquilo que sempre foi: uma estratégia para retirar dinheiro de todos de modo a patrocinar meia dúzia. Dito de outra maneira, quem paga não escolhe e com aquele tipo de coragem que não se distingue do descaramento, quem recebe não se importa. Não é o lendário serviço público, mas é um lindo serviço.

 

Quanto ao «O Mistério da Educação», que foca as incapacidades de realização escolar em vários domínios, de que enfermam os nossos alunos, incapacidades reconhecidas pelo IAVE, com sugestões deste para as colmatar, o artigo de Alberto Gonçalves é realmente um mimo de graça, no apontamento de idiotia rebuscada de quem ditou o tal relatório, ao procurar no sinal de «igual» uma tentativa pedante de explicitação do termo – talvez por motivos ideológicos, de efeito milagroso sobre as cabeças dos camaradinhas juvenis, que assim se vão habituando às reivindicações igualitárias, junto dos pais, professores e todos os que eles se habituaram a considerar seus pares, por iguais dificuldades em aprender educação ou, no caso dos adultos, permissivos ou inertes, de a ensinar: Vejamos um excerto do referido relatório: “Sugere-se que seja dedicada especial atenção ao significado do sinal de igual (que estabelece uma relação de igualdade dos valores apresentados em cada um dos lados do sinal), trabalhando-se no sentido da passagem de uma visão “procedimental” (a seguir ao sinal de igual coloca-se o resultado) para uma visão relacional.”

 

Há lá nada mais simples para as cabecinhas da segunda classe! Leiamos o texto de Alberto Gonçalves:

 

«O Mistério da Educação» (13/1)

 

O Instituto de Avaliação Administrativa (IAVE) informa que os alunos da segunda classe dominam escassamente o português (mas apenas na escrita, na gramática e na leitura) e a Matemática (não entendem o conceito de igualdade e mostram dificuldade em contar dinheiro). Em Física, Botânica, Plasticina e Latim são fortíssimos, presume-se.

 

Isto é grave? Vamos com calma. No que respeita ao Português, o próprio IAVE prova que a respectiva compreensão é sobrevalorizada. Vejamos um excerto do referido relatório: “Sugere-se que seja dedicada especial atenção ao significado do sinal de igual (que estabelece uma relação de igualdade dos valores apresentados em cada um dos lados do sinal), trabalhando-se no sentido da passagem de uma visão “procedimental” (a seguir ao sinal de igual coloca-se o resultado) para uma visão relacional.” Quem fala assim possui, evidentemente, uma relação complicada com a língua (ou uma visão relacional míope da mesma), pormenor que não impediu os senhores do IAVE de emitir palpites alusivos.

 

Quanto à Matemática, o facto de as nossas crianças desconhecerem a igualdade é capaz de vir a ser-lhes útil num futuro em que, a julgar pelos indícios de analfabetismo, não terão grande legitimidade para reivindicá-la. E no que toca à contagem de dinheiro, o salário mínimo ou o subsídio de “inserção” contam-se num instante. Excepto, claro, no caso dos felizardos que consigam emprego num dos diversos, pedagógicos e indispensáveis organismos do Ministério da Educação.

 

Quanto às dificuldades de aprendizagem do Português e dum modo geral das demais disciplinas, para além dos condicionalismos provenientes da unificação do ensino e multiplicação de factores de descontrolo e divergência, o facto tem a ver também com a multiplicidade de informação que de repente se abate sobre os alunos, ainda mal habituados a uma leitura e escrita correctas, com justificação gramatical elucidativa, e a quem desde cedo são veiculadas informações sobre estruturas múltiplas, níveis de língua, variedades da lusofonia, quando nem se aperceberam ainda da forma correcta de articular as palavras.

 

«Coitado do Álvaro de Campos!»

 

Berta Brás.jpg Berta Brás

SALAZAR e FRANCO

 

Foi em Fevereiro de 1942, o encontro que definiu a sorte da guerra. Salazar encontra-se secretamente com Franco e obtém uma certeza: a não beligerância espanhola manter-se-á. O Presidente do Conselho de Ministros de Portugal saíra de Lisboa pela manhã. Ao almoço tinha lugar um insólito pic-nic.

 

Eram 10 da manhã do dia 10 de Fevereiro de 1942.

 

Ao chegar à Rua da Imprensa à Estrela para iniciar mais um dia habitual de funções, nesses tempos conturbados de guerra, o secretário de Oliveira Salazar, constata, perplexo, a ausência do Presidente do Conselho de Ministros. Mas pior: feitos uns contactos de entre os círculos que naturalmente deveriam estar a par de qualquer deslocação de Salazar, rapidamente se conclui que ninguém estava prevenido quanto a qualquer eventual saída ou motivo para ausência.

 

A situação assume foros de paroxismo quando se acrescenta ao rol dos faltosos mais um nome. Também o Director da PVDE, a antecessora da PIDE, o capitão de infantaria Agostinho Lourenço da Conceição Fernandes se não achava no seu posto, na Rua António Maria Cardoso, nem na residência sita a Avenida Barbosa du Bocage.

 

Facto consumado! No maior segredo, nem aos mais íntimos confessando a sua intenção, Salazar partira essa manhã, de automóvel, acompanhado de Lourenço e de dois oficiais de segurança, rumo ao Sul de Portugal. Passado o Tejo pelas nove e meia, junta-se-lhe em Estremoz o Embaixador Pedro Teotónio Pereira, que para o efeito se deslocara de Madrid, onde chefiava a legação portuguesa junto de Franco. Retomada a marcha, pela hora do almoço os viajantes estão perto da fronteira.

 

Dá-se então o ainda mais inesperado. A um gesto de Salazar, o motorista estaciona num local retirado da estrada. Cumprindo um ritual pré estabelecido, abre a bagageira da viatura e dali retira um cesto. Dali sai, queiram ou não os circunstantes acreditar, o farnel para o almoço. Disposto a não dar nota da sua presença e a isso juntando uma economia de despesa, Salazar confunde-se com a paisagem e quais turistas acidentais em improvisado piquenique, satisfaz assim as exigências vitais. Os outros acompanham-no em respeitoso silêncio.

 

Filho de camponês, a refeição é frugal. E, no entanto, é um momento decisivo da História contemporânea que então se vive. Não adivinhariam os poucos passantes que ali, nesse “déjeneur sur l’herbre” estava a jogar-se o futuro de Portugal e a sorte da Segunda Guerra Mundial.

 

Salazar dirigia-se a Sevilha para um encontro com Franco.

 

Iriam ver-se pela primeira vez. E, no entanto, até ali, tinham estado sempre juntos. O encontro, ocorrido nessa noite no Alcazár, seria decisivo.

 

O ambiente político e militar de então não poderia ser mais carregado. A ameaça de envolvimento de Portugal no conflito militar que, desde há três anos, dilacerava a Europa, era cada vez mais iminente. O país havia definido desde o princípio das hostilidades uma política de neutralidade, ditada pela Aliança Inglesa e pela consideração que não poderíamos por causa dela hostilizar os britânicos nem por efeito dela guerrear os alemães.

 

Mas, na concepção de Oliveira Salazar, a neutralidade jogava-se igualmente na frente atlântica, envolvendo o destino dos Açores e de Cabo Verde, e no bloco peninsular, envolvendo uma concertação com a Espanha. Com o Governo de Madrid Portugal firmara, logo em 1939, um “Tratado de Amizade e de não agressão” e em Julho de 1940 um Protocolo Adicional. Dois anos volvidos, em 1942, o panorama estava diferente e mais complexo.

 

Aos riscos de uma invasão nazi, que Hitler prenunciara com o Plano Félix, sucedem-se, em cumulação, os riscos de uma invasão Aliada, pois certos sectores das “nações unidas” não queriam correr o risco de deixar um país estrategicamente tão importante como Portugal ao acaso de uma ocupação pelo Eixo e da subsequente perda de posição dos pontos nevrálgicos dos Açores e de Cabo Verde.

 

É nesta ambiência que se dá o encontro entre o Generalíssimo Francisco Paulino Hermenegildo Teódulo Franco Bahamonde, o “caudillo” de todas as Espanhas, e o Presidente do Conselho de Ministros de Portugal, Professor António de Oliveira Salazar.

 

franco-salazar-alcazar--644x362.jpg

Serrano Súñer, Franco e Salazar no Alcázar de Sevilha

 

À histórica conversa apenas assistiria Serrano Suñer, o recém-empossado Ministro das Relações Exteriores, líder da Falange, e cunhado de Franco. O jogo é denso, quer por causa das pessoas em presença, quer por virtude das realidades políticas do momento.

 

Preparado para todas as eventualidades, Salazar não ignorava a manhosa habilidade de Franco que, em declarações sucessivas, parecia decisivamente inclinado para o lado do Eixo nazi fascista, enquanto, por outro lado, dava sinais contraditórios aos Aliados de que respeitaria a “não beligerância” que definira no advento do conflito.

 

Ainda para complicar a cena, no tablado da encenação política, Franco, que até então havia jogado no apagamento intencional da sua imagem, fazendo projectar à boca de cena, a do seu cunhado, Serrano Suñer, cuja germanofilia era mais do que patente, surpreendera agora tudo e todos com um golpe de asa, invertendo os papéis e assumindo agora um papel decisivo na condução dos negócios políticos exteriores. Mas, para além das aparências da encenação política, Suñer era, naquele encontro, uma peça decisiva.

 

O seu passado quando da elaboração do Protocolo Adicional ao Tratado de não agressão havia deixado marcas indeléveis da sua má vontade contra a posição portuguesa. Negociado secretamente entre Teotónio Pereira e Juan Beigbeder Atienza, o documento havia sido aprovado por Franco, mau grado a fria oposição de Suñer, que para o efeito não desdenhara mesmo o animar uma campanha de imprensa hostil a Portugal.

 

Perante isto, Oliveira Salazar não ignora que parte decisiva do que disser ou fizer deve também visar o convencimento do cunhado do Generalíssimo, pois é dele que poderá vir o obstáculo definitivo a qualquer acerto que então se faça. Neste particular a sua vitória pessoal foi total. No plano político, a situação também não é fácil para um alinhamento da Espanha com a pretensão portuguesa de subsistência da neutralidade comum.

 

Internamente, eram cada vez mais activas as forças do regime que, confiadas numa vitória nazi, clamavam por um alinhamento militar ao lado de Berlim, a que se juntavam quantos pretendiam a oportunidade para concretizar uma anexação política de Portugal, viabilizando assim a formação de um bloco ibérico, mais satisfatório aos apetites hegemónicos imperiais de Castela. Provocatoriamente, a Falange havia mesmo mandado imprimir, no Auxílio Social de Valladolid um mapa da península no qual Portugal aparecia como uma província de Espanha.

 

Exteriormente, a cada vez mais intensa colaboração militar dos Aliados com a União Soviética, aliciava o endémico anti-comunismo espanhol a não alinhar com aqueles que estão agora no mesmo campo dos vermelhos contra os quais se havia erigido, em três anos sanguinolentos, a guerra civil. No meio deste “albergue espanhol” Franco, prudente e ardiloso. Instintivamente, Salazar está convencido de que Franco, mau grado o espectáculo das suas declarações e da dos seus, não dará o passo final em favor de Hitler e apenas pretende sossegar o Führer, entretendo-o no eterno jogo das esperanças.

 

A origem de Franco explica a sua psicologia. Fiel ao dito “se vires um galego numa escada nunca saberás se vai a subir ou a descer”, Salazar conta com a indefinição do seu interlocutor e não espera dele mais do que sinais. Formal, a conversa entre os dois estadistas decorre com fluência. Em atenção a Salazar, Franco fala no seu dialecto de origem, o galego, absolutamente compreensível pelo seu interlocutor. Atento, Suñer surpreende-se pelo que lhe é dado observar.

 

Minado de preconceitos políticos, mas arguto observador, rende-se incondicionalmente ao Presidente do Conselho português. Em entrevista posterior com o Embaixador alemão em Madrid, não hesita em declarar a sua opinião. Para si, Salazar é um “homem extremamente simpático, extremamente bem-educado, culto, amável, duma perfeita dignidade”. Mais tarde a amigos dirá que Salazar é “um homem de primeira ordem, com todo o rigor de um catedrático e a paixão de um místico”. Do lado de Franco o desconcerto é algo evidente. Cioso de um encontro com pompa e circunstância, fica desarmado por aquela discretíssima embaixada.

 

Uma década volvida, em 13.01.58, em entrevista ao jornal conservador francês Le Figaro, o Generalíssimo não esconderá os seus sentimentos acerca de Salazar que, para ele é “o mais completo e mais digno de respeito estadista que conheci. Olho-o como uma personalidade extraordinária pela sua inteligência, o seu senso político, a sua humanidade. O seu único defeito é a modéstia”.

 

Exercício de sedução, a conversa entre os estadistas não foi fácil. Violando a regra estratégica de que uma força cercada não faz manobras, Franco, fugindo para a frente, tenta convencer Salazar de que os Aliados preparam a invasão de Portugal, facto que a Espanha tomará então, a acontecer, como um acto de agressão contra si própria. No plano interno, mostra a funda preocupação pela aliança dos Aliados aos comunistas, face ao que só a esperança de que o III Reich liquide a Rússia lhe dá algum alento. Inteligente, Salazar percebe o equívoco acerca da eventual vitória a Leste e desloca o problema para o campo onde poderá estar mais à vontade.

 

E adquire a certeza de que a única razão decisiva que fará a Espanha entrar na guerra contra os Aliados serão razões vitais de abastecimento, caso os víveres que lhe chegam através dos intencionais “buracos” ao bloqueio económico, se venham a mostrar insuficientes. E isso é algo que está ao alcance do Ministério da Guerra Económica (MEW) britânico definir. E a política de bloqueio aligeirou.

 

Regressado de Sevilha no dia seguinte, esgotado pela viagem e pela vertigem do que negociara, Salazar trazia a mais formidável certeza para o futuro próximo da guerra: sabe que a não beligerância espanhola se manterá.

 

António Pina do Amaral

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2006
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2005
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2004
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D