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A bem da Nação

VISTOS DOURADOS E A CORRUPÇÃO QUE OS ASSISTE

 

visto gold.png

 

Invista um milhão e adquira o direito de residência em Portugal

 

Portugal criou os “vistos gold” em 2012. Este programa corresponde a semelhantes práticas de outros países europeus.

 

O regime de emissão de autorizações de residência, para estrangeiros que queiram viver legalmente em Portugal, contempla a concessão ou renovação de “vistos dourados”. A aquisição do direito de residência implica que o estrangeiro faça uma “transferência de capital num montante igual ou superior a 1 milhão de euros, criação de pelo menos 10 postos de trabalho ou compra de imóveis com um valor mínimo de meio milhão de euros” como oficialmente se refere na página: http://www.ccilc.pt/pt/pedido-de-visto-dourado-tem-de-ser-feito-presencialmente-em-portugal#sthash.VUBmpwmq.dpuf

 

O destinatário do visto de ouro tem de permanecer, pelo menos, sete dias por ano em Portugal. Entretanto já foram concedidos 1.600 vistos no valor de mil milhões de euros, dos quais 972 milhões foram na aquisição de imobiliário.

 

O visto confere o direito de livre circulação no Espaço Schengen. O pedido de visto de ouro tem de ser feito pessoalmente.

 

No contexto da União Europeia, a medida de introdução dos vistos dourados é boa, porque atrai os investidores a Portugal mas é duvidoso no que respeita à compra de imobiliários. Importante seria investir na produção e não na especulação imobiliária que talvez só venha a favorecer os especuladores do grande capital estrangeiro.

 

O pedido de vistos dourados é, na sua esmagadora maioria, de chineses, seguindo-se a Rússia, o Brasil e Angola. Chineses compradores exigem às imobiliárias ou mediadores uma espécie de "renda garantida" de 6% a 8% sobre o valor de compra, durante 5 anos. Esta é uma percentagem elevadíssima atendendo à barateza do dinheiro na Europa. Também haverá o perigo de branqueamento de capitais…

 

O investimento no imobiliário revela-se muito rendoso, a longo prazo, atendendo à facilidade com que bancos da moeda imprimem notas que, cada vez mais, têm um valor quase só virtual. O problema para Portugal vem do facto de investidores internacionais do imobiliário comprarem os objectos mais rentáveis ou servirem-se dos leilões de bancos portugueses que geralmente beneficiam o comprador e não as pessoas hipotecadas (como me confidenciava um amigo com experiência no assunto e metido em assuntos de investimento de capital alemão).

 

Na sequência de investigações feitas em vários ministérios, contra funcionários corruptos no caso da venda de vistos a investidores estrangeiros, o ministro do interior, Miguel Macedo, tropeçou e caiu. Não podia manter o seu rosto levantado pelo facto de, na sua administração, serem detectados casos de corrupção, entre outros de suborno (cinco dos 11 arguidos ficaram em prisão preventiva, três deles são chineses).

 

O caso das investigações do Ministério Público a instituições políticas e a órgãos do Estado revela uma boa intenção no sentido de se obstar à corrupção e ao oportunismo vigente especialmente desde o 25 de Abril. O sistema democrático de Abril tem muito a recuperar neste sentido.

 

O facto de muitos actores do 25 de Abril terem refeito a democracia em Portugal não os legitima a dispor de Portugal nem a usufruir de uma cultura de corrupção por eles urdida.

 

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António da Cunha Duarte Justo

O CLIMA FAVORECEDOR DA POSE

 

A leitura de um passo das “Lettres Philosophiques” de Voltaire, que serviu de corolário a uma breve análise sobre “D. Maria I”, como biografia histórica assinalada por subtil intenção satírica da sua autora – Jenifer Roberts – levou-me, uma vez mais, a recrear-me com as «Cartas de Inglaterra», de Eça de Queirós, para nele procurar um antídoto contra algum despeito – (a par do prazer e reconhecimento por uma obra importante e sedutora) – que resultara da leitura dessa biografia real. Em Eça pude desforrar-me, rindo do retrato trocista que o escritor português faz dos ingleses e do seu carácter, do seu Times, das suas conquistas, da sua arrogância, da sua auto convicção de superioridade, sobre o universo inteiro.

 

É assim também o texto seguinte, sobre o Inverno em Londres, que no seu descritivo impressionista, nos lembra tantas outras páginas de tanta extraordinária beleza, precisão e graça semeadas ao longo da obra queirosiana multifacetada. E nos traz à memória o fleumático e original Craft, mas também as obras de Óscar Wilde, e os retratos e intrigas dessa nata de “humanidade superior” que nelas se desenha. Ou mesmo as obras de Charles Dickens, nos contrastes que estabelece entre a «humanidade» inglesa superior e a inferior, ou outras obras como as de Jane Austen ou das irmãs Brontë, os filmes sobre Sherlock Holmes, e o clima sombrio de Londres, “A Volta ao Mundo em 80 dias” e a figura direita e absurdamente impassível do actor David Niven, a contrastar com a do remexido Cantinflas, ou até a série britânica “A família Bel’Ami” que nos dá modelos de contrastes nos hábitos como nos comportamento entre os lordes, as ladies e a correcta e dedicada criadagem, tal como encontramos igualmente em “My fair Lady” …

 

Um encanto, poder relembrar o divino Eça, transcrevendo-o sem grande custo, da generosa Internet. Mas o retrato sobre os Ingleses e a sua acção e comportamento no mundo estão patentes em muito mais Cartas da Inglaterra”, que pedem a sua releitura.

 

Este, sobre o clima de Londres, faz-nos pensar que o frio, forçando à acção, à meditação e ao estudo, justifica a superioridade das competentes raças nórdicas sobre as meridionais do salero ou da dolência, sem, contudo, lhes justificar o desdém, que, já Cristo o fizera sentir, ninguém é suficiente isento de culpa ou vício para lançar pedrada assim, mesmo em democracia:

 

Eça de Queiroz.png

«O Inverno em Londres»

 

Eis aí o Inverno. Já todos os dias o encontro, e, agora mesmo, lhe ouço fora, na rua, sob a névoa tristonha desse fim de Outubro, a voz dolente e vaga: não é o velho semideus de atributos mitológicos, com a barba em flocos de neve sobre o manto branco de neve, soprando nos dedos, e o clássico feixe de lenha a tiracolo: é um rapagão enfarruscado, de casquete e chicote em punho, que vai conduzindo uma carroça negra com um forte percheron aos varais, pelo macadame já endurecido da geada, e soltando de porta em porta, o seu pregão melancólico: Coals! coals! (carvão! carvão!)

 

Estão, pois, findos os dias purpureados do lindo Outono inglês! Nada iguala o encanto suavizador e meigo dos meados de Outubro nestes condados do Sul. Um passeio, ao meio da tarde, nas pitorescas margens do Severn, ou ainda ao longo do Avon, riba que a memória de Shakespeare torna quase sagrada, ou pelas colinas amáveis de Surrey, é mais belo, o mais útil repouso que pode ter o espírito sobressaltado, cansado dos livros, ou do duro movimento da vida.

 

Tem-se aqui alguma coisa daquela paz etérea, que os poetas pagãos sonhavam nas perspectivas inefáveis dos Elíseos: somente a natureza particular do Norte, as linhas da arquitectura saxónia, o arranjo das culturas, dão a feição romântica e elegíaca que falta à paisagem latina.

 

Caminha-se n'uma luz ligeira, de um dourado triste, de um enternecimento quase magoado: o verde das relvas sem fim que se pisam, verde repousado e adormecido sob as grandes ramagens das árvores seculares e aristocráticas, solenes, isoladas, imóveis n'um recolhimento religioso, leva a alma insensivelmente para alguma coisa de muito alto e de muito puro: há um silêncio de uma extraordinária limpidez, como o que deve haver por sobre as nuvens, um silêncio que não existe na paisagem dos climas quentes, onde o labor incessante das seivas muito forte parece fazer um vago rumorido, um silêncio que pousa no espírito com a influência de uma carícia. E a cada momento são fundos encantadores de paisagem, de um vaporizado azul, com alguma torre d'Abadia coberta de heras, que surge d'entre robles, ou uma rica avenida de parques, onde se entrevêem vestidos claros correndo sobre as relvas, ou a histórica arquitectura de um castelo, de bandeira feudal na torre, que de repente aparece numa elevação, com os seus terraços de mármore escuro, os grandes prados onde pastam ou repousam os animais de luxo, os faiscantes meandros do rio entre a verdura e sons tristes de trompa, vindos da profundidade dos arvoredos...

 

D'aqui a dias, porém, por colina e vale, só haverá a triste névoa húmida que dura meses, ou a neve redemoinhando ao vento...

 

Esta monotonia, que começa escurecendo os campos desde Novembro, vai causar este ano uma inovação excelente nos costumes sociais da Inglaterra. Vai haver, de Dezembro a Maio, uma estação d'Inverno em Londres.

 

Como sabem, Londres só é habitado desde os começos de Maio até aos primeiros dias quentes de Agosto. O resto do ano, Londres é a caída Palmira ou a tenebrosa planície do deserto da Petreia. Ficam lá, é verdade, entre três a quatro milhões de humanidade: mas é uma humanidade subalterna, feita de barro vilão, sem valor social em Inglaterra: é a humanidade que não tem castelos, nem parques de três léguas, nem o seu nome no Livro d'Ouro, nem yachts de luxo para bordejar nas costas da Escócia; é a humanidade que não tem nas artérias o famoso sangue normando, esse sangue invejado, mais precioso que o de Cristo, cantado por todos os poetas da corte, e que foi importado pelos brutamontes cobertos de ferro, e peludos como feras, que acompanhavam a estas ilhas Guilherme da Normandia; é enfim a humanidade que Carlos Stuart, o Bem-amado, chamava a canalha, e que o grande sacerdote da Bela Helena, o pobre Offenbach, designava, com tanto critério, pelo nome de vil multidão: — é o trabalhador, o artífice, o artista, o professor, o filósofo, o operário, o romancista, tudo o que pensa, cria e produz.

 

É esta fresca ralé que fica em Londres: de modo que apenas a humanidade superior, os dez mil de cima, como aqui tão pitorescamente se diz, partem para os seus castelos, as suas vilas à beira mar, ou os seus yachts. — Londres, apenas habitado pela turba abjecta, torna-se sobre a face da terra, como a lamentável Cacilhas. Nenhum gentleman que se respeite e queira manter o seu bom nome social ousaria confessar que esteve em Londres em Janeiro: correria o risco de ser tomado por um tendeiro, ou, pior, por um filósofo, um poeta, um desses seres rastejantes, vis como o lixo, sem castelo e sem matilha de cães, que nenhuma Lady quereria ter no seu «rol de visitas».

 

Se um gentleman, tendo negócios instantes em Londres, é forçado a vir a este deserto de plebeus, guarda um incógnito severo; não chegará talvez a pôr barbas postiças; mas só se arrisca pelas ruas no fundo escuro de um coupé com os estores descidos, e o paletó rebuçando-lhe a face. Todavia uma aventura tão poderosa poucos a ousam!

 

Pois bem, tudo isto se vai reformar! E este ano será moda passear em Piccadilly, ou florear de rosa ao peito em Pall-Mall, em pleno Janeiro, na espessura dos nevoeiros.

 

Esta revolução considerável foi, como todas as fecundas revoluções, tramada, pregada, popularizada pelas mulheres. Havia longos anos que estes anjos sofriam com impaciência a melancolia da vida do campo, durante o longo Inverno saxónio. Ainda, nos primeiros tempos, depois de deixar as glórias de Londres e os esplendores da season, a existência era tolerável. Havia as regatas elegantes de Cowes; ia-se estar uma semana na ilha de Wight; depois vinham as festas da abertura da caça; seguia-se a época dos yachts, as viagens às costas da Noruega, às Hébridas, às praias elegantes da Normandia; depois, quando a corte está na Escócia, vinha a caça do veado, os bailes de gellies das montanhas... Enfim, vivia-se.

 

Mas, com a chegada de Dezembro, da neve, uma formidável lei social, a fashion, obrigava os dez mil de cima a recolherem-se aos seus castelos, à solidão do campo. E aí começava para as damas o tédio memorável!

 

Quando se não tem um château e parque como os de Inglaterra, pode parecer um sonho de paraíso o viver nessas faustosas residências, entre maravilhas d'arte, acumuladas por gerações, com mobílias de duzentos contos, um serviço de sessenta criados, vinte cavalos na cocheira e um parque de três léguas, um parque de romance, para passear sobre a neve dura quando o céu brilha claro. Mas a desgraçada dama, desde o seu primeiro dente acostumada a tantos esplendores, já lhes não encontra encanto; uma simples corrida, n'um velho fiacre de Londres, de loja em loja, é-lhe cem vezes mais doce. Depois, a vida do castelo é de um vazio pardo e tristonho. Os homens, esses, de manhã, têm a caça, os galopes furiosos, devorando prados, saltando sebes atrás de uma raposa espavorida, ao grito bárbaro de hally-hó! Depois à noite, tomado o banho e vestida a casaca, tem o grog forte no fumoir. Mas as desgraçadas damas? Todas bebem grog—mas raras são as que caçam. O dia é-lhes lúgubre. Uma burguesa, em Inglaterra, tem sempre uma ocupação, mesmo nas existências ricas: borda, pinta em porcelana, faz camisas para os pequenos Patagónios, ensina a ler os filhos dos caseiros, escreve as suas memórias ou corresponde-se com um Teólogo sobre pontos difíceis de doutrina.

 

Mas uma dama das dez mil não faz nada; os seus grandes talentos, a toilette, a graça de receber, a intriga politica, o brilho da conversação, o chic estético, cousas em que prima, não lhe servem no isolamento relativo do castelo, sob as torrentes da chuva. O seu palco natural é o salão de Londres. Ali no campo, nas longas galerias onde pendem as bandeiras que os seus antepassados tomaram em Azincourt ou Poitiers, ou, se os avozinhos nunca invadiram a França, as bandeiras compradas no antiquário da esquina, Mylady boceja; ou estendida num sofá, na sua robe-de-chambre de brocado branco de Génova, com uma novela caída no regaço, olha os flocos de neve empoando os grandes carvalhos do parque...

 

Depois vem a noite. É o pior. Os homens que fizeram talvez cinco léguas de galope atrás das raposas, ou que se estiveram adestrando em jogos atléticos, têm sono. De gardénia na casaca e pérola negra na camisa, estendidos para o fundo do sofá, derreados, meio adormentados pelo Nocturno de Chopin que um anjo louro preludia ao fundo da sala, são tão inúteis para a flirtation, o espírito, a intriga, o amor, como se fossem empalhados.

 

Debalde as pobres damas fizeram uma toilette de duzentas libras: debalde resplandecem, ás mil luzes de cera, os seus ombros de deusas. De nada vale. O gentleman anseia por deixar a sala, ir reconfortar-se com o seu brandy and soda, estirar aqueles membros que a raposa cansou, em lençóis bem perfumados e bem bassinés, e ressonar forte.

 

Esta situação era intolerável. E os homens mesmo sofriam. Galopar n'um cavalo de preço sobre a terra dura da neve, ao ladrar da matilha, por uma manhã de brisa fria—tem encanto. Mas pode-se isso comparar à delícia de ir tagarelar para o club, ter todas as noites três ou quatro bailes, fazer frases sobre a questão do Oriente, e cear com Miss Fanny, num quente boudoir de veludo, enquanto fora a plebe patinha na lama de Londres?! Não, não se pode comparar.

 

E por isso veio o momento psicológico, como diz esse ilustre homem de prosa, o sr. De Bismarck, em que ladies e lords concordaram que o Inverno no campo era bom para os lobos; e que para pares de Inglaterra, Londres era preferível. E aí está como se vai ter esta cousa inesperada na vida inglesa—o Inverno em Londres.

(In «Cartas de Inglaterra”, Eça de Queirós)

Berta Brás.jpg Berta Brás

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