Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A bem da Nação

DA GUINÉ PORTUGUESA À GUINÉ-BISSAU

FHS-MBS-Guiné.jpg

 

Sessão na Sociedade de Geografia para apresentação do livro do embaixador Francisco Henriques da Silva e do Dr. Mário Beja Santos sobre a Guiné Bissau

A Guiné é um desafio ao desenvolvimento. Estado fracassado; povo miserável: doente e esfomeado. Pólo de atracção de toda a espécie de indesejáveis. Porquê? Tribalismo profundamente enraizado na cultura das populações locais. A desconfiança e o medo como padrão uniforme de relacionamento social. A mentira como forma de (in)comunicação. Impossibilidade de se estabelecer uma ordem pública.

Notável o esforço dos autores do livro para chamarem a atenção do mundo para tão trágica e grave situação. Será possível vencer este desafio? É óbvio que o mesmo ultrapassa os PALOPS mas estes poderiam servir de catalisadores. Para que se fizeram afinal a ONU e rede de agências especializadas? Ao fim e ao cabo, nem toda a intervenção externa é condenável. Caso para pensar muito e depressa.

A ordem pública é condição fundamental para ultrapassar o estado miserável.

06.11.14

Luís Soares de Oliveira.jpg

Luís Soares de Oliveira

ANSIEDADE. MEDOS E FOBIAS

Edvard Munch-O GRITO.jpg O grito

Autor: Edvard Munch

Fonte: Wikipédia livre

 

Mal que atinge cada vez mais as pessoas, pelos apelos da sociedade moderna, a ansiedade excessiva apresenta aspectos psíquicos e manifestações físicas que prejudicam a saúde e a qualidade de vida. Quando essas manifestações se tornam respostas exageradas, recorrentes, a medos imaginários, irracionais, sem motivação real a situações ou objectos comuns chamamos fobias. Pessoas neuróticas em geral são as mais acometidas. Submetidas a alguma situação ou objecto especificamente estressante as pessoa fóbicas podem apresentar choro compulsivo, tremores, sudorese, taquicardia, respiração ofegante, e até ataques de pânico, com descontrole total, mental e físico.

 

Independe de factores sociais ou ambientais a fobia é desencadeada por um temor exagerado ou infundado, mesmo diante de uma explicação convincente, diferentemente do medo que representa uma resposta de preservação física diante de um real perigo. Temos medo de ao atravessar uma rodovia sermos atropelados, de andar à noite em ruas desertas e sermos assaltados,... São situações de verdadeiro risco que deixam nosso organismo em alerta, com medo. Já a fobia aparece quando o indivíduo se vê à frente de uma situação para a maioria corriqueira, mas para o fóbico cruciante, temerosa. Pessoas normais têm medo, não fobia. O medo há como lidar com ele, evitando o perigo, solucionando problemas; a fobia precisa de tratamento.

 

Sigmund Freud, fundador da psicanálise, dizia que a fobia tinha origem em algum episódio traumático ocorrido na infância e que deixou marcas no subconsciente. A pessoa não sabe o porquê do medo, só sabe que ele aparece quando vê algo ou passa por alguma situação específica. A coisa de que se tem medo seria o símbolo de outro medo inconsciente. A psicanálise tenta desvendar o mistério aplicando testes e recorrendo a métodos de regressão psicanalítica.

 

As fobias podem levar a doenças físicas como hipertensão e a ataques de pânico com limitação de expectativa de qualidade de vida. Na fobia social o indivíduo evita sair de casa, não quer ser observado ou criticado, sente-se mal com a avaliação que possam fazer dele, tem medo de ser depreciado ou não corresponder ao que esperam de sua pessoa. São as fobias de quem tem pavor em falar, escrever ou assinar documentos e cheques em público, de dar aula, ou de se encontrar no meio de um grupo de gente. É o medo exagerado de ser confrontado, ou ser humilhado num ambiente social. Esse tipo de fobia, frequente em pessoas susceptíveis com baixa auto-estima, nas tímidas com dificuldade em se sociabilizar, e em migrantes, pode prejudicar as relações interpessoais e até profissionais. Esses indivíduos tendem à depressão ou a se anularem socialmente, ou ainda a recorrerem a drogas, como o álcool. Com certa frequência foram crianças submetidas a algum tipo de bullying e que carregaram essa marca para a vida adulta. Detectada a doença, quanto mais cedo se começa com exercícios de psicoterapia de apoio, e até, se necessário, drogas antidepressivas ou ansiolíticas, melhor será a resposta ao tratamento. A escola ajuda muito quando observa a criança e avisa os responsáveis ao perceber o problema.

 

Agorafobia trata-se de um transtorno psíquico quando a pessoa tem medo de ter medo. É, em extremo, a sensação de que vai morrer ou ficar louca aquele momento (ataque de pânico). É uma distorção cognitiva, em que se supervaloriza uma situação de risco. É o medo de não ter recurso, de não ter ajuda, de não ter saída. O indivíduo não se importa em ser criticado ou avaliado pelas outras pessoas, só o medo de não ter como escapar de uma circunstância difícil o perturba. Ficar em casa ou em lugar seguro, rodeado por quem possa ajudá-lo é o que deseja. Isso limita-lhe as vivências. São pessoas com medo de certos animais, de atravessar túneis, subir a locais altos, entrar em elevadores, ficar em lugares fechados ou desconhecidos, de viajar de navio ou avião. Esses fóbicos sofrem por antecipação, por problemas imaginários que raramente se tornam reais. Em comum foram crianças que tiveram pais super protectores, preocupados demasiadamente em proteger os filhos dos riscos e perigos da vida quotidiana. Nestes casos o melhor seria tentar dessensibilizá-los através de técnicas de exposição gradativa ao objecto ou situação fóbica, e nos quadros agudos com técnicas de relaxamento onde o paciente usa a imaginação, a respiração e ansiolíticos. Treinar com ajuda do terapeuta a enfrentar o que lhe causa a fobia, várias vezes, até controlar o medo ou diminuir o grau de ansiedade a um limite razoável, ou cognitivamente anular os pensamentos instintivos, confrontando-os com a realidade, seria uma forma de tratamento em longo prazo.

 

Aprender a hierarquizar ansiedades e medos é definir fobias. Combatê-las é uma questão de paciência e persistência para toda a vida.

 

Uberaba, 06/11/2014

Maria Eduarda Fagundes.jpg

Maria Eduarda Fagundes

JUNCKER, O SINALEIRO

 

Juncker.png

Jean Claude Juncker é adulto, já foi Primeiro Ministro do seu país durante tempo suficiente para não ter estatuto de espontâneo em praça de toiros, deve ter uma cartucheira de defensores, não precisa de mim para nada.

 

Mas eu acho que o homem fez bem e está a ser atacado por quem tem mau perder. Porquê? Porque não faz mais do que provocar a desejada concorrência fiscal dentro da UE.

 

A partir do momento em que a matéria tributável seja calculada do mesmo modo em toda a União Monetária, serão as taxas que definirão as matérias colectáveis em cada Estado.

 

O percurso começou pela lenta uniformização contabilística (aquilo a que eu chamo o POCUE - Plano Oficial de Contas da União Europeia); a progressiva standardização do método de cálculo da matéria tributável ainda não é uma realidade mas não poderá deixar de ser o caminho; as taxas serão o elemento concorrencial entre Estados.

 

Eu, na minha qualidade de Contribuinte, anseio pela chegada do dia em que os Estados se digladiem fiscalmente pois a concorrência beneficiará aquele que praticar taxas mais baixas como se vê pelo que aconteceu com o Luxemburgo. E aos Contribuintes tanto individuais como colectivos desse ganhador da competição sobrarão mais uns cobres. A essa sobra chama-se poupança e todos sabemos que é dela que nasce o investimento. Produtivo, de preferência.

 

Portanto, Juncker não é o mau da fita, é o sinaleiro da concorrência fiscal europeia.

 

E muito grato lhe estou!

 

Novembro de 2014

 

Chipre Norte-Mosteiro de Belapais 3.JPG

Henrique Salles da Fonseca

LA TAULA DE CANVIS

FGA-La Taula de Canvis.jpg

Apareció durante el reinado de Jaime I El Conquistador (1213-1276). La legislación romana y goda que regían este negocio fue sustituida.

Estos son algunos de los artículos de esta legislación bancaria:

El 13 de febrero de 1300 se estableció que cualquier banquero que se declarara en bancarrota sería humillado por todo el pueblo, por un voceador público y forzado a vivir en una estricta dieta de pan y agua hasta que devolviese a sus acreedores la cantidad completa de sus depósitos.

 El 16 de mayo de 1301 se decidió que los banqueros estarían obligados a obtener fianzas y garantías de terceras partes para poder operar, y a aquellos que no lo hicieran no se les permitiría extender un mantel sobre sus cuentas de trabajo. El propósito de ello era señalar a todo el mundo que estos banqueros no eran tan solventes como aquellos que usaban manteles, es decir, que estaban respaldados por fianzas. Cualquier banquero que rompiera esta regla (por ejemplo, que operase con un mantel, pero sin fianza) sería declarado culpable de fraude.

Sin embargo, a pesar de todo, los banqueros pronto empezaron a engañar a sus clientes.

Debido a esos engaños, el 14 de Agosto de 1321 se estableció que aquellos banqueros que no cumpliesen inmediatamente sus compromisos, se les declararía en bancarrota, y si no pagasen sus deudas en el plazo de un año, caerían en desgracia pública, lo que sería pregonado por voceros por toda el pueblo. Inmediatamente después, el banquero sería decapitado directamente enfrente de su mostrador, y sus propiedades vendidas localmente para pagar a sus acreedores.

Existen evidencias documentales de que esto se cumplía.

Por ejemplo, el banquero catalán Francesc Castelló, fue decapitado directamente frente a su mostrador en 1360, en estricto cumplimiento de la ley. 

 

A TOMAR NOTA...

¿Por quién empezamos?

Recebido por e-mail; Autor não identificado

ESCREVER MACAU EM PORTUGUÊS

 

20.png

 

FALAR DE NÓS

 

 

“... a literatura de Macau em língua portuguesa continuará a crescer, a renovar-se e, sobretudo, a ser uma das mais representativas expressões artísti­cas da Região.”

Maria Antónia Espadinha, vice­-reitora da Universidade de S. José

 

Quando o fotógrafo profissio­nal e artista António Duarte Mil-Homens – ele próprio, poeta – quis tirar o retrato a dezenas de pessoas com obra publicada so­bre temática macaense ou inspirada nesta abençoada terra, incentivado­ra, pela história e pelas suas gentes, de projectos literários, algumas de­las terão estranhado tal propósito. Explicada a intenção de se organi­zar uma exposição, na sequência de uma outra levada a efeito em 2013, dedicada a escritores locais de lín­gua chinesa, a anuência de quantos foram contactados viabilizou a mos­tra há poucas semanas inaugurada no edifício do antigo tribunal e futu­ra sede da biblioteca central.

Propósitos da mostra

Dois objectivos nos parecem ób­vios: homenagear, por um lado, os escritores de Macau e, por outro, apelar à participação de outros – e tantos são! –que ainda não quiseram ou não puderam partilhar os seus testemunhos e publicar os seus tra­balhos, não obstante a existência de meios para garantir as edições.

A iniciativa partiu do Instituto Cultural, que contou com a esclare­cida intervenção da Casa de Portu­gal. Guilherme Ung Vai Meng, pre­sidente daquele Instituto, explicou, no acto de abertura, a razão de ser desta iniciativa incluída no seu pro­grama de acção:

“O Governo da Região Administra­tiva Especial de Macau anunciou, no Relatório das Linhas de Acção Gover­nativa para 2012, a criação da Casa daLiteratura de Macau, a qual tem, como objectivo a salvaguarda de obras literá­rias e documentos históricos de Macau, e a promoção e desenvolvimento da li­teratura sino-portuguesa. O Instituto Cultural realizou, no ano passado, a exposição ‘Caras da Literatura de Ma­cau em Língua Chinesa 2013’, mostra que teve como alvo escritores chineses de Macau. Este ano, em colaboração com a Casa de Portugal em Macau, o Instituto Cultural realiza a Exposição de Retratos ‘Escrever Macau em Portu­guês’. Os critérios de participação são ‘estar vivo, escrever textos sobre Macau e ter livros publicados’. Os escritores de Macau que satisfazem estes critérios fo­ram convidados a tirar uma fotografia. O objectivo é dar a conhecer ao público os escritores de língua portuguesa de Macau, fomentar o desenvolvimento da literatura portuguesa e promover a recolha de obras originais portuguesas de Macau.

Convidámos mais de trinta escrito­res de língua portuguesa a participar na Exposição.”

34 escritores

São exactamente 34 os escritores escolhidos, com breves descrições da obra literária de cada um: Agustina Bessa Luís, Alice Vieira, Altino do Tojal, Ana Cristina Alves, Ana Ma­ria Amaro, Ana Maria Magalhães, Ana Paula Laborinho, António Au­gusto Menano, António Conceição Júnior, António Correia, António Graça de Abreu, António Rebordão Navarro, Carlos Frota, Carlos Mar­reiros, Carlos Morais José, Carolina de Jesus, Cecília Jorge, Celina Veiga de Oliveira, Eduardo Ribeiro, Fer­nanda Dias, Fernando Sales Lopes, Isabel Alçada, Jorge Arrimar, Jorge Rangel, José Jorge Letria, Luís Sá Cunha, Manuel Afonso Costa, Maria Helena do Carmo, Miguel de Senna Fernandes, Pedro Barreiros, Rodrigo Leal de Carvalho, Rogério Beltrão Coelho, Rui Rocha e Tereza Sena.

Alguns, porém, não foram con­templados, como José Valle de Fi­gueiredo, Cândido do Carmo Aze­vedo, Leonor Diz de Seabra, Beatriz Basto da Silva, Amadeu Gomes de Araújo e António Aresta, por exem­plo.

Literatura de Macau

Mas, o que é ou como se caracte­riza a literatura de Macau em língua portuguesa? Maria Antónia Espadi­nha, professora emérita da Universi­dade de Macau e agora vice-reitora da Universidade de S. José, oferece­-nos esta resposta:

“Podemos dizer que literatura de Macau existe desde o momento em que alguém escreveu, em português, um poema, um conto, um ensaio tendo Ma­cau como tema ou como cenário fosse qual fosse a origem do autor.

Definir o que é ‘literatura de Macau em língua portuguesa’, circunscrevê­-la, não é fácil. Nas últimas décadas tem havido alguma preocupação em definir o que é a literatura de Macau. Partir de uma ou de várias dessas definições, maioritariamente propostas por autores chineses a propósito da literatura em língua chinesa pode de algum modo, facilitar-nos a tarefa. Podemos, no en­tanto, ressalvar que qualquer dos crité­rios que têm sido utilizados não satisfaz a todos, ou porque é demasiado restrito, ou porque, pelo contrário, é demasiado abrangente. Quanto a nós, preferimos um critério muito abrangente, até por ser ele o que melhor reflecte a maneira de ser do Território, porto de abrigo para todos os que a ele acorreram, terra adop­tiva de e adoptada por todos os que nela encontraram um lugar para viver.

Fazemos nossos a opinião e o critério enunciados por Cheng Wai-Ming para a Literatura de Macau, e que tanto YaoJing Ming (‘Em busca do habitável a partir da Antologia de Poesia Contem­porânea de Macau’) e Ana Paula Labo­rinho (‘Macau na Escrita, Escritas de Macau’) referem e citam.

Tomamos como ponto de referência as palavras de Cheng Wai-Ming, que considera ‘literatura de Macau’

  • ‘Quaisquer obras dos naturais de Macau’ ou
  • ‘as obras dos escritores titulares dos documentos de identidade de Ma­cau’, ou ainda
  • ‘Todas as obras que falem de Ma­cau ou tenham por temas a realidade de Macau, seja quem for o seu autor’.”

Parece – e bem – a Maria An­tónia Espadinha que se deve tam­bém integrar neste conceito a obra literária em patuá: “Se, à última definição proposta por Cheng Wai­-Ming, acrescentarmos três peque­nas palavras, estaremos a encontrar uma definição clara do objectivo que pretendemos. Diríamos então que a literatura portuguesa de Macau é constituída pelos textos literários es­critos em português ou em patuá, o crioulo macaense de base portugue­sa, e que tem Macau como tema ou como cenário.”

O fotógrafo

Natural de Lisboa e residen­te permanente de Macau, António Duarte Mil-Homens tem mais de 40 anos de experiência como fotógrafo profissional e artista, com 18 expo­sições individuais e trabalhos apre­sentados em 21 colectivas.

Leccionou já dezenas de cursos de Fotografia, incluindo workshops de Fotografia Digital. Obras suas in­tegram inúmeras colecções particu­lares. Este conjunto de retratos ates­ta bem a sua indiscutível qualidade.

Jorge Rangel.png

Jorge A. H. Rangel

Presidente do Instituto Internacional de Macau.

 

In Jornal Tribuna de Macau – 4NOV14

O DEUS DE OURIQUE

 

Terá razão, Vasco Pulido Valente, tem-se sempre razão quando apenas nos pertence a alta responsabilidade de demonstrar ao mundo a nossa competência e a nossa inteligência. É possível que daqui a um ano, já apeados, Coelho e Portas passem a opinar, que são pessoas capazes disso – somos todos, os com qualidades elocutórias - a troco de uma batelada a mais de euros para o pé de meia. É o futuro do Governo, foi o futuro dos anteriores, que agora estão na fase de opinar, num sentido apenas, sem jamais pararem para explicar o porquê do que consideram só asnático neste, sem admitirem razões justificativas para o erro nem aceitarem os motivos da sua política arrasante das economias.

E há quem os ouça, os detractores, há até quem concorde, escondendo manhosamente os motivos do desaire em tanta austeridade, de contas a prestar com integridade. Contas que os que se esmeram agora em explicações e teorias, insistem em lavar daí as mãos impolutas. Mas tais entrevistas são, de facto, uma boa forma de acrescentar umas coroas aos vencimentos próprios, e o que a gente tem é inveja, não há dúvida. Eu, por exemplo, que “não sou nada, nunca serei nada, e nem sequer tenho “à parte isso todos os sonhos do mundo, consciente que sou dos entraves, das contingências, da indiferença do mundo em meu redor, além da “má fortuna” de que tanto se queixou Camões, nem sequer penso em invejar esses bem falantes televisivos, pois o que é bonito é mostrarmos ao mundo que somos capazes de nos exprimir com elegância, o que nem sempre sucede. É certo que outros temas poderiam ocorrer, factos da história, da filosofia, uma ou outra ensaboadela de matemática ou de língua e literatura portuguesa, ou outra próxima de nós, ou música, ou pintura, mas as audiências baixariam e não convém, temos de ser práticos, e viva o futebol, que esse sim, mete mesas redondas em todos os canais e em todas as horas. Por isso Passos e Portas acabarão a ganhar coroas nas entrevistas futuras, sucedâneas ao seu despejo governativo, afirma Vasco Pulido Valente, Tirésias clarividente e não cego como o outro, que tanto receou a oferenda do cavalo grego aos deuses também da amizade troiana, e acertou nos seus efeitos arrasadores.

Lamento que ninguém reconheça, a não ser os partidários de alma e coração, em Passos Coelho, um guerreiro de elmo e couraça, disposto a defender, qual Nun’Álvares, com a espada da coragem e da determinação, um país que estava nas lonas, desacreditado e esbanjando, sem dó nem piedade, o dinheiro alheio, numa postura de megalomania perfeitamente funesta e criminosa, quando, ao que parece, nem dinheiro havia para pagar aos funcionários.

Passos Coelho fez o que pôde, em termos de resgate – pelo menos dos juros, teve companheiros nessa távola redonda que todos se esforçam por arrombar em insinuações de desavenças mais ou menos boateiras, mas que satisfazem sobremaneira a avidez fofoqueira de uns e outros. que essa conta sobremaneira.

Porquê tanto derrotismo de Vasco Pulido Valente?

V.P.V. é inteligente, mas não é omnisciente, nem mesmo nenhum Tirésias, que, cego, adivinhava com os olhos do espírito, tal como aconteceu a Édipo, depois de cegar.

Que o Deus de Ourique dê muita força e coragem a Passos Coelho e aos seus pares. O mal nisso é que tem que contar com a grei que o cerca, o tal de “rebanho” segundo Pulido Valente. Espero ainda que os “pastores” Passos ou Portas não cumpram o destino que lhes augura o nosso “Tirésias” nacional. Não precisam. Nem mesmo a troco de lecas.

O texto de Vasco Pulido Valente, Público, 19/10/14:

O futuro do governo

João Grancho, o secretário de Estado do Ensino Básico e Secundário, acusado de plágio saiu dignamente do governo por sua própria vontade. Merece os nossos parabéns. Mas, no meio desta salvação, talvez muito merecida, é bom que se lembre os desgraçados que, por não se precaverem com um pequeno escândalo vão ficar onde estavam, sem nada que fazer, até ao último suspiro.

Com o caso Crato e o caso mais sério da dra. Cruz, o primeiro-ministro criou na coligação uma atmosfera de bunker, a que ninguém, nem o próprio Portas, consegue escapar. Estão ali todos para defender “a obra de salvação” da troika e do sr. Vítor Gaspar e nenhuma fraqueza é permitida. Hesitar, murmurar, criticar, são infames formas de trair a Pátria e empanar a glória de Passos Coelho.

Resta que o futuro dos génios que nos pastoreiam parece duvidoso. O primeiro-ministro arranjará com certeza um lugar condigno. Pires de Lima e Paulo Macedo também. Alguns voltarão a um escritório de advogados, que é uma boa maneira de continuar na política à socapa. A maioria ficará depenada e só. E mesmo que Portas se retire para Caxias-Colombey, não pode contar que o ponham em Belém daqui a vinte anos. Felizmente, a solução já foi encontrada: a entrada em massa de suas excelências na televisão e nos jornais. Competência não lhes falta: falam bem, discutem bem e não se atrapalham excessivamente com a verdade. Com uma gravata nova e um fato escuro, ninguém dirá que não se trata de uma nova geração de comentadores. Vale sempre a pena aproveitar as lições dos mais velhos.

Hoje, por exemplo, opinam com entusiasmo na televisão um antigo primeiro-ministro (Sócrates) e um futuro primeiro-ministro (Costa); quatro chefes de partidos políticos na reforma (Marcelo Rebelo de Sousa, Marques Mendes, Manuela Ferreira Leite e Francisco Louçã); praticamente qualquer pessoa que dirigiu as nossas finanças, com a prudência e o brilho que o país conhece (o exótico Braga de Macedo, Bagão Félix e Ferreira Leite – outra vez). Os programas pululam de economistas (alunos, assistentes, professores, para não falar de analfabetos com essa meritória mania). Tudo grita, tudo estica o dedo, tudo repete e se repete com um fanatismo não exactamente “orçamental”. Basta ao nosso querido governo aguentar um ano de sacrifício para se juntar a esta tropa fandanga. Não notaria a menor diferença.

Hoje, 3 de Novembro:

1939

Em Moscovo, continuaram as negociações entre a URSS e a Finlândia para uma troca de territórios e alterações de fronteira, reivindicada pelos soviéticos. As contra propostas finlandesas foram apresentadas, nas quais se reconhecem as necessidades de segurança soviéticas, mas a Finlândia chegou ao limite no que diz respeito à manutenção da sua "independência, segurança e neutralidade." Os finlandeses recusam a utilização de uma base militar na Finlândia para uso dos soviéticos / O Senado dos EUA aprova o levantamento do embargo à exportação de armas aos beligerantes/ Na Grã-Bretanha, depois de reclamações de empregadores e sindicatos, o apagão é reduzido em uma hora, passando a acontecer de meia hora depois do anoitecer até meia hora antes do nascer do sol/ O primeiro-ministro Sul Africano, o general Smuts, promete defender as colónias britânicas na África, em caso de necessidade/ In Pretoria...

E revivamos outros tempos, de uma guerra bem mais sombria;

1940

Bombardeamento italiano de Salónica, Grécia/ Na Grã-Bretanha, é a primeira noite desde 7 de setembro que não há bombardeamentos sobre Londres. Houve 57 noites consecutivas de ataque e depois deste dia mais 10 se seguirão. Por noite, cerca de 165 aviões atacaram a cidade, caindo 13.600 toneladas de bombas incendiárias explosivas/

1941

Na área circundante de Leningrado, as forças alemãs do Grupo Norte do Exército continuam a tentar isolar a cidade dando Tikhvin um centro ferroviário a 100 milhas a leste da cidade. A luta é feroz e os contra-ataques soviéticos são ineficazes. Mais ao sul, Kursk cai para as unidades alemãs na junção de Grupo Central e do Grupo Sul do Exército. / Em Berlim, Hitler ordena que Rommel não recue, apesar da escassez de combustível e de material / No Norte de África, na Batalha de El Alamein, as forças do Eixo começam a recuar, mas são interrompidos quando a ordem de Hitler é recebida. Os italianos já estão em processo de retirada. Os britânicos são incapazes de continuar a pressionar as tropas sitiadas, para grande surpresa de Rommel, devido a dificuldades em movimentar rapidamente homens e equipamentos através dos campos minados / 500 aeronaves da Força Aérea dos Estados Unidos devastam o porto alemão de Wilhelmshaven/ Os nazis levam a cabo a Operação Festival Harvest na Polônia ocupada, matando 42 mil judeus / Dois comandantes supremos da insurreição nacional eslovaca, Generais Ján Golian e Rudolf Viest, são capturados, torturados e depois executados pelas forças alemãs/

Paula Almeida (Técnica Superior, Câmara Municipal de Cascais)

Berta Brás.jpg 

Berta Brás

PROJECTO A CAMINHO DA DERROTA

 

Descalabro.jpg

 

A presidente Dilma começou seu governo, em 2011, aparen­tando relativa independência frente ao seu criador, o ex-presidente Lula. Disse que daria à sua ges­tão um perfil administrativo e que não transigiria com a corrupção. Representava à época o figurino de gerentona e faxineira. Era tudo uma farsa, mera en­cenação para consumo dos ingénuos— e não faltaram os que acreditaram que a criatura era não só diferente do criador, como até, se fosse preciso, romperia po­liticamente com ele. Em quatro anos deixou um país com crescimento zero, um governo paralisado e marcado por escândalos de corrupção.

 

Agora o figurino que está tentando vestir é o da presidente que deseja dia­logar com os partidos e a sociedade. Mais uma farsa. Todo mundo sabe que Dilma não gosta de política. Nunca gos­tou. Na juventude transformou oposi­ção à ditadura em confronto militar — com trágico resultado. Quando chefiou a Casa Civil do presidente Lula foi elogi­ada pelo estilo de durona. Era a mãe do PAC, uma tocadora de obras. A coorde­nação política governamental era tarefa do próprio Lula. Quando assumiu a Presidência, Dilma fez questão de de­monstrar diversas vezes o absoluto de­sinteresse — até mais, enfado — pelas tarefas políticas. Ela não gosta de ouvir.

Decide por vontade própria.

 

No discurso de comemoração da vi­tória, a presidente já deu sinais de como pretende governar nos próximos quatro anos. E insistiu na proposta de reforma política petista que, entre outras coisas, despreza o papel constitucional do Congresso. O governo elabora as mu­danças e busca, via plebiscito, o apoio popular.

Para o PT, a negociação só in­teressa quando os opositores já entram derrotados e têm de aceitar as imposi­ções petistas.

 

Dilma liderou a campanha eleitoral mais suja da história. No primeiro tur­no, usou da mentira para triturar a can­didatura de Marina Silva. Guardou para a fase final da campanha os ataques à honra de Aécio Neves. E tudo sem qual­quer problema de consciência. Assim como Lula, Dilma passou a ter como princípio não ter princípio. O impor­tante era ganhar. Quem fez o que ela fez na campanha tem condições morais de dialogar com a oposição?

 

Dificilmente a reforma política — ou qualquer outra reforma proposta pelo governo — vai ocupar espaço na agen­da política. O escândalo do petrolão é de tal monta que poderá ter um (inicial­mente) efeito destrutivo e saneador (se as apurações forem até às últimas con­sequências). O encaminhamento das investigações comandadas pelo juiz Sérgio Moro já desnudou que o assalto dos marginais do poder à Petrobrás é o maior caso de corrupção da História do Brasil. E vai atingir os três poderes da República, chegando até, segundo depoimento do doleiro Alberto Youssef, ao Palácio do Planalto.

 

A oposição acabou sendo arrastada a exercer o seu papel pelo eleitorado. A crise de identidade foi resolvida ainda durante a campanha eleitoral. Diferen­temente das duas últimas eleições pre­sidenciais, desta vez, tivemos uma cam­panha mais politizada e com participa­ção popular. Fracassou a interpretação de que as manifestações de Junho de 2013 tinham sepultado a "velha políti­ca" Pelo contrário, basta recordar as dis­cussões nas redes sociais, o acompa­nhamento de toda a campanha, a exce­lente audiência dos debates televisivos, principalmente no segundo turno, e a permanência do interesse pela política após o 26 de Outubro.

 

O cenário económico é péssimo. Nem o doutor Pangloss diria que as coisas vão bem. O quadriénio Dilma conseguiu desorganizar as contas pú­blicas, estourar a meta de inflação, colocar em risco a saúde das empre­sas e dos bancos estatais e paralisar a economia do país. E qualquer proces­so de negociação política é muito mais difícil nessa Situação, pois o go­verno teria de ceder. E ceder faz parte da política, e Dilma odeia a política.

 

Na actual conjuntura aceitar o ace­no do governo é jogar na lata de lixo 50 milhões de votos. De votos opo­sicionistas. De eleitores que estão indignados com o — usando a ex­pressão do ministro Celso de Mello citada no julgamento do mensalão — projecto criminoso de poder petista. Não há desejo sincero de diá­logo. As palavras de Dilma não correspondem aos fatos. O que dizer de uma presidente que demonizava a adversária imputando a pecha de defensora dos banqueiros e — dias após à eleição — aumenta a taxa de juros e convida um banqueiro para o Ministério da Fazenda? É esperte­za ou falta de carácter?

 

O PT venceu a eleição presidencial, mas está longe de caminhar para ter o controle dos três poderes — sonho acalentado pelo partido. Perdeu 20% das cadeiras na Câmara dos Deputa­dos e, no Senado, manteve o mesmo número de assentos.

Tudo indica que não terá a presidência de nenhuma das duas Casas no próximo biénio. E a melhoria qualitativa da bancada opo­sicionista deve criar situações embara­çosas para o governo — e não faltam temas para explorar. Por outro lado, a composição do Executivo federal terá de ser ainda mais partilhada com os partidos que dão sustentação ao gover­no, enfraquecendo o projecto petista. E, se for aprovada a PEC da bengala ain­da este ano, a presidente Dilma perde­rá a oportunidade de nomear, devido à expulsória, cinco novos ministros para o STF, acabando com o sonho petista — e verdadeiro pesadelo nacional — de transformar aquela Corte em um puxadinho do Palácio do Planalto.

 

Já estamos em 2015, um ano de 14 meses. Ano agitado, o que é bom para a democracia. E tudo que é bom para a democracia é ruim para o PT. Vamos ter muitas surpresas. O projecto autoritário petista caminha para a derrota política: são os paradoxos da História.

 

4/10/2014

Marco António Villa.png

MARCO ANTÓNIO VILLA

Historiador

 

FRONTEIRAS E NAÇÕES

 

Mapa antigo de Portugal.png

 

Lá compareci na Faculdade de Letras da UL - estupendo edifício escolar salazarino (o tal período em que "nada de bom aconteceu ") que eu não conhecia - em obediência ao convite para participar na sessão comemorativa do 150 anos do TRATADO DOS LIMITES ENTRE PORTUGAL E ESPANHA DE 1864. Ouvi vários oradores que relataram as suas descobertas históricas em matéria fronteiriça, entre eles, o Prof. Doutor Hermenegildo Fernandes, Director do Centro de História da dita Faculdade, o qual, embora falando sobre um período histórico anterior ao Tratado, disse algo que me pareceu altamente esclarecedor. Segundo ele, um dos critérios a que obedeceu o traçado da fronteira estabelecido no Tratado de Badajoz de 16 de Fevereiro de 1267, celebrado pelos Reis de Portugal e de Leão (Espanha ainda não tinha sido inventada), e que definiu quase toda a fronteira como ele se encontra hoje, foi o respeito pelos marcos dos castelos dos senhores feudais suseranos de um e outro Rei e os termos das dioceses criadas pela Igreja, ou seja, o respeito pela autoridade estabelecida. Aqui temos o uti possidetis característico da ordem pontifícia, a Pax Christiana, na sua pura forma. (Em termos correntes, o princípio estabelecia que "já que conseguiste estabelecer aí o teu domínio, fica teu e a ti cabe manter aí a ordem").

 

E isto ajuda a compreender mais um dilema histórico do tipo ovo/galinha. No caso, trata-se de saber se foi a nação que fez a fronteira ou foi a fronteira que fez a nação.

 

Temos vários exemplos históricos. A nação judaica sobreviveu apesar da perda do território e suas fronteiras (a religião unia-os); os Vikings escandinavos já eram nação muito antes de fixarem fronteiras (o frio e o sangue unia-os), mas na Península ibérica (mais ainda do que no resto da Europa) antes da fronteira de Badajoz, a população compunha-se de uma salada de etnias e religiões. O que aqui fez a nação, o que nos deu homogeneidade e nos fez diferente dos espanhóis foi a fronteira, ou seja, o rei, seus suseranos e bispos e a religião destes. Antecipamos de quatro séculos o princípio Cujus regio, ejus religio, que viria a ser adoptado em Westefália, (início da paz laica) e isso permitiu-nos sossego interno enquanto os outros entre si se digladiavam.

 

Somos pois o produto de um processo top-down, (imposto de cima para baixo). E nos processos top-down, quando o topo fraqueja fica tudo estragado.

 

Luís Soares de Oliveira.jpg

Luís Soares de Oliveira

AS “EXEMPLARES” DESCOLONIZAÇÕES PORTUGUESAS

 

 

Muito interessante o livro “Mazagão – la ville qui traversa l’Atlantique”, de Laurent Vidal, um detalhado estudo sobre a famosa, e quase esquecida, transferência de toda a população duma cidade no Marrocos para uma nova terra perdida em local perdido na Amazónia.

 

El Jadida (Mazagão).jpg

Vista aérea, actual, de Mazagão, hoje chamada El Jadida

 

Talvez pouca gente saiba que, em 1769, Portugal decidiu abandonar a praça forte de Mazagão, isolada em território marroquino, com uma ilustre folha de serviços, na constante luta contra os mouros, e transferir cerca de 2000 pessoas, para um lugar a criar de novo nas margens do Amazonas.

 

Teve duas finalidades essa transferência de toda a população: primeiro acabar com o custo imenso de manter uma fortaleza, isolada na costa de Marrocos, abastecida por mar, apesar de no seu entorno os portugueses manterem uma espécie de horta e pomar, e sofrendo constantes ataques das tropas marroquinas, e ao mesmo tempo criar o maior número possível de vilas e defesa ao longo do Amazonas – Estado do Grão Pará – região cobiçada por uma série de potências, como a Inglaterra e França e até os Estados Unidos.

 

A folha de serviços de Mazagão marroquino é, a todos os títulos, notável. Uma pequena “cidade” fortificada, com saída directa para o mar, habitada por gente denodada que defendia o cristianismo contra o “paganismo dos mafomas”. Por outro lado a presença dessa pequena terra encravada em solo maometano era um “tremenda ofensa” para os seguidores de Maomé, e por muito e muita gente de que dispusessem, os mouros nunca foram capazes de vencer aquela posição. Só depois que Portugal se viu mais do que endividado – para variar – e ter concluído que a luta era insana, sem qualquer proveito nem para a cristandade nem para os cofres reais, é que negociou com o Sultão a entrega da praça fortificada, deixando sair toda a gente e podendo levar todos os seus pertences.

 

El Jadida planta.jpg

Mapa de Mazagão e suas hortas, vendo-se como era protegida a entrada/saída para o mar

 

"Mazagão", em terras marroquinas, encontrava-se sob o domínio da Coroa portuguesa desde 1486, embora os portugueses apenas nela se tenham instalado só a partir de 1502 quando ergueram uma torre e algumas instalações de campanha. Foi apenas em 1514 que a Coroa portuguesa decidiu a fortificação permanente do local. Em 1561 os mouros cercaram Mazagão com um exército de 150.000 homens, que abandonam dois meses e meio depois de terem sofrido mais de vinte e cinco mil baixas em combate, contra somente cento e dezassete portugueses.

 

Vale a pena, sobre este cerco, ler uma espantosa história tirada do livro “Homens, Espadas e Tomates” de Rainer Daehnhardt:

 

“Corria o ano de 1562 e o Rei de Marrocos, Xerife Muley Abdala, tinha conhecimento de que a guarnição portuguesa de Mazagão estava fortemente reduzida, tendo aí ficado apenas alguns mal providos arcabuzeiros. O Capitão-mor estava ausente e o mouro decidiu recon­quistar a praça portuguesa. Juntou um exército de 15.000 cavaleiros, 8.000 arcabuzeiros, 70.000 soldados de infantaria, com 12.000 gasta­dores e gente de serviço. Para os governar, mandou por Mestre de Campo General um cristão renegado, soldado velho e muito experi­mentado na guerra e que estivera muitos anos ao serviço do Imperador Carlos V.

Enviou também muita gente de artilharia e fidalgos de toda a Mauritânia, que consigo queriam compartilhar esta vitória segura.

 

Cercando a praça, viu que a sua artilharia seria de pouco efeito pe­rante as dimensões da muralha. Mandou então fazer uma trincheira de terra, com baluartes, tão alta que igualasse o muro para melhor com­bater os portugueses. Comandava a praça o Capitão-mor Rodrigo de Sousa com 100 cavaleiros e 700 infantes.

 

As notícias do cerco chegaram a Portugal e perante a grande desigualdade do número de combatentes resolveram muitos portugue­ses, sem licença da Rainha-Regente, Dona Catarina (D. Sebastião ainda só tinha 8 anos), fazerem-se ao mar para acudir à nossa gente. Um Jorge da Silva reuniu no Algarve 300 guerreiros voluntários e 100 marinheiros, que se fizeram a Mazagão à sua custa num velho navio, o que muito animou os sitiados. Os mouros, entretanto, atacavam a praça por todos os lados, ao mesmo tempo que construíam a sua rampa gigante para daí encher o fosso e chegar ao cimo das nossas muralhas.

 

A trincheira era tão larga que "pateavam por ela sessenta cavalos, todos a par". Considerando a sua rampa pronta, acometeram a praça, todos pelo mesmo lado, rompendo com a nossa defesa e implantando uma grande bandeira numa das nossas torres. A fúria dos nossos foi tanta que se envolveram com os mouros numa luta corpo a corpo, de tal forma que os corpos dos mortos e feridos enchiam o lugar. Não aguentando a nossa fúria, os mouros retiraram-se, perdendo milhares de homens e cinco das suas bandeiras. O cronista conta-nos: "Durou esta sanguinolenta e cruel batalha bem quatro horas, e foy de ambas as partes tão bem pelejada, que se não sabia julgar melhoria de algu­ma em todo aquelle tempo: espectáculo verdadeiramente horrendo à vista, e muy digno de ser estimado de todos.

 

Não conseguindo tomar a fortaleza pelo assalto directo, resolveram então os mouros, com a perícia dos seus engenheiros, construir uma grande mina para tentar chegar à muralha, por baixo. A sua ideia era rebentar uma grande quantidade de pólvora que derrubasse a nossa muralha, para assim mais facilmente poderem entrar.

 

Os nossos ouviam os toques de picareta e resolveram construir uma contra mina. No escuro da terra, encontraram-se e envolveram-se numa batalha sangrenta de onde os nossos saíram vencedores e depois se retiraram. Pensaram então os engenheiros mouros que os portugueses lhes tinham feito um favor com a contra mina, pois facilitara-lhes o avanço sob as muralhas. Fizeram de conta que tinham desistido de se aproximar por esta mina mas, na calada da noite, foram introduzindo grandes quantidades de barris de pólvora.

 

O que os mouros desconheciam é que, na realidade, havíamos cons­truído não uma mas duas minas, a coberto do barulho causado pelas suas próprias picaretas! Uma encontrava-se ao nível da deles e, a outra, mais abaixo. Já estávamos a contar que reutilizassem a sua mina e que a enchessem de pólvora. Entretanto, tínhamos colocado grande quan­tidade de pólvora na segunda, precisamente por baixo da mina deles e entupido a de cima. Antes que os mouros se aproximassem demais da fortaleza, fizemos rebentar a nossa. A deles explodiu juntamente. A intensidade do estrondo foi tal que levantou o planalto onde se encon­trava grande número de mouros! Conta o cronista: Levantou-se para o ar huma grande montanha de terra, bem povoada de lustrosos sol­dados mouros, e turcos, e todos armados, forão pelo ar feitos pedaços.

 

Foram mais de mil cavaleiros mortos, e feridos, e queimados hum numero quasi infinito. E o terreno se rebaixou mais de vinte palmos, tanto que ficou a nossa artilharia descuberta, e começou avarejar grande estrondo, acompanhado da arcabuzeria, e matava nos mouros com espanto.

 

Deve ter havido poucas explosões, antes do actual século, com esta envergadura e resultado!

(Pedro de Mariz: "Diálogos de Varia Historia", tomo II, diálogo quinto).”

 

El Jadida cisterna.jpg

A cisterna, por baixo da cidade

 

A guarnição portuguesa permaneceu sempre fiel e disposta sempre a dar a vida pelo rei e pela Cruz, honrando-se os seus habitantes dos feitos presentes e dos seus antepassados.

 

Alguns passaram anos prisioneiros dos mouros, aprendendo a falar árabe correctamente. Nas vésperas do abandono, Portugal pagou 800.000 reis para resgatar trinta e cinco prisioneiros portugueses.

 

Muito deles eram cavaleiros fidalgos, jovens que procuravam nas armas demonstrar a sua valentia e procurando o reconhecimento real, sempre à espera de novos ataques, sem que um só dia esmorecessem.

 

Furtado Mendonça, irmão do famoso e famigerado Marquês e Pombal, ministro da Marinha, foi o mentor e coordenador do abandono daquela cidade, entretanto novamente cercada por mais de 120.000 mouros “garantindo” que os portugueses não voltariam atrás no acordo, decidindo transferi-los, como colonos, para a Amazónia onde seria criada uma nova povoação, a Nova Mazagão.

 

Era gente preparada para lutar e defender as suas convicções, nenhum deles agricultor, sem mentalidade de colonos, muitos cavaleiros fidalgos, alguns tendo sido agraciados por mercê com o Hábito de Cristo, o equivalente hoje à honorífica Ordem Militar de Cristo.

 

E, de repente, todos são retirados da sua cidade-fortaleza, levando consigo pouco mais do que a roupa que tinham vestido, fazendo transbordo em Lisboa, como um bando de refugiados, para serem, como degredados, enviados para o “fim do mundo”, onde a maioria veio a passar fome e morrer de malária.

 

Este deslocamento de toda uma comunidade, brutal, fria, lembra os actuais campos de refugiados, onde vivem em condições quase zoológicas milhares de curdos fugidos ao extermínio.

 

Um desenraizar total, a perca dos vizinhos e amigos, da sua casa, da sua estrutura de vida, um autêntico inferno para adultos e crianças, que não sabem o que estão a fazer em barracas. Tal se passou em 1769.

 

Poucos conseguiram sobreviver de forma relativamente condigna, e de toda essa gente só dois foram capazes de se adaptar ao novo ambiente amazónico e viver da agricultura, através do trabalho de escravos e de índios que lhes foram entregues.

Portugal deveria ter prática de colonização. Começa no século XII com a Reconquista, levando gente do norte para ir ocupando o centro e sul do país. No século XV foram as ilhas, Madeira, Açores e Cabo Verde, mais tarde é Afonso de Albuquerque que promove o casamento de portugueses com mulheres indianas. A seguir foi São Tomé e o Brasil. Por fim Angola e Moçambique.

 

Mas as descolonizações foram “exemplares”, como esta de atirar com dois milhares de pessoas para o interior da Amazónia, sem que houvesse a preocupação de previamente criar condições de sobrevivência, e mais tarde o abandono das colónias de África e Timor, entregando os seus habitantes a infindas guerras fratricidas e os portugueses às suas sortes, espalhados depois pelos quatro cantos do mundo.

 

Por agora só lhe resta a possibilidade de... promover a descolonização do seu território europeu, dos milhares de novos colonos, idos do Leste Europeu, de África e do Brasil!

 

Passado glorioso com páginas lastimáveis.

 

Hoje a ex-Mazagão, El Jadida, está inscrita no Património Mundial da UNESCO. Uma beleza.

 

29/10/2014

 

Francisco Gomes de Amorim

Francisco Gomes de Amorim

O MURO

O Muro.jpg 

“Ainda hoje, passados esses tantos anos que o tempo teve até aqui chegar, com os cabelos tão ralos e brancos, as artrites herdadas das noites de emboscadas com água até à alma, o verdadeiro manicómio dos medos e dasolidão; ainda hoje, esbarramos com impotência de quem nada sabe ou quer saber o que aquilo foi, e, por isso, de nada nos valeu, nada nos deu, em nada nos compreendeu. Para nós, sempre uma revolta. Essa revolta de não saber onde estamos bem, de querer porque já quisemos e não nos deixarem querer – a indiferença dos outros, os que não souberam entender os nossos silêncios é, foi e será a ausência de que mais dói – e choramos por dentro, para acalmar a solidão de luz fria de néon em que nos transformámos, acalmar esta vida de merda. Chamo incompreensão, a esse desajuste com a história recente deste país que não soube viver culpas nem parir culpados”.

António Valente Batista, "O Muro", ed. Glaciar, 2013

 

Francisco Henriques da Silva.jpg

Francisco Henriques da Silva

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2006
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2005
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2004
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D