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A bem da Nação

SOU REPUBLICANO PORQUE...

 

 

... Cristo disse que somos todos iguais perante o Seu Pai...

... não havendo, assim, os predestinados ao mando e os nascidos para servir...

... nem que haja uns que absorvam as prebendas deixando aos outros as ruas para dormir

SOU REPUBLICANO PARA QUE...

... todos usufruam da dignidade com que naturalmente foram ungidos

... todos tenham de seu e não tenham que estender a mão

... todos possam estar presentes e que outros não andem fugidos

... todos possam crescer intelectualmente até aos níveis superiores da Civilização

... todos possam diariamente ganhar o seu pão

... todos possam, no cabal respeito pelo próximo, ver os seus sonhos realizados

FICAREI REPUBLICANAMENTE SATISFEITO QUANDO...

...os meus ideais estiverem cumpridos

 

HSF - retrato por FGA

 Henrique Salles da Fonseca

E SERIA O QUINTETO DE CORDAS?

 

 

 

Cora Coralina, pseudónimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretãs, nasceu em Goiás em 1889 e faleceu nessa mesma cidade em 1985 depois de ter vivido quase 50 anos em São Paulo.

Poetisa e contista, tinha apenas a instrução primária e quando enviuvou passou a fabricar e vender pastéis e banha de porco. Publicou o seu primeiro livro quando já tinha quase 76 anos de idade.

Alheia a modismos literários, dá gosto lê-la e basta conhecermos os nomes que pôs aos filhos para lhe tomarmos o pulso e imaginarmos o que lhe ia por dentro: Paraguaçu, Eneias, Cantídio, Jacinta, Ísis e Vicência. É obra!

 

CORAÇÃO É TERRA QUE NINGUÉM VÊ

Quis ser um dia jardineira

De um coração – nada colhi.

Nasceram espinhos

E nos espinhos me feri.

Quis ser um dia jardineira

De um coração

Cavei, plantei.

Na terra ingrata nada criei.

Semeador da Parábola,

Lancei a boa semente a gestos largos...

Aves do céu levaram,

Espinhos do chão cobriram,

O resto se perdeu.

Na terra dura da ingratidão,

Coração é terra que ninguém vê – diz o ditado.

Plantei, reguei, nada deu, não.

Terra de lagedo, de pedregulho – teu coração.

Bati na porta de um coração.

Bati. Bati.

Nada escutei.

Casa vazia.

Porta fechada,

Foi o que encontrei...

 

HUMILDADE

Senhor, fazei com que eu aceite minha pobreza

Tal como sempre foi;

Que não sinta o que não tenho,

Não lamente o que podia ter

E se perdeu por caminhos errados

E nunca mais voltou.

Dai, Senhor, que minha humildade

Seja como a chuva desejada caindo mansa,

Longa noite escura numa terra sedenta

E num telhado velho.

Que eu possa Vos agradecer

Minha cama estreita, minhas coisinhas pobres,

Minha casa de chão, pedras e tábuas remontadas

E ter sempre um feixe de lenha debaixo do meu fogão

De taipa e acender, eu mesma,

O fogo alegre da minha casa

Na manhã de um novo dia que começa.

 

ANINHA E SUAS PEDRAS

Não te deixes destruir...

Ajuntando novas pedras

E construindo novos poemas,

Recria tua vida, sempre, sempre.

Remove pedras, planta roseiras e faz doces.

Recomeça.

Faz de tua vida mesquinha um poema.

E viverás no coração dos jovens

E na memória das gerações que hão-de vir.

Esta fonte é para uso de todos os sedentos.

Toma a tua parte.

Vem a estas páginas

E não entraves o seu uso

Aos que têm sede.

 

Os outros membros do quinteto, jongleurs de mots, podiam tocar sanfona, tambor ou matracas mas esta, quase pela certa, tocava fino, violino.

 

Outubro de 2014

Henrique Salles da Fonseca

 Henrique Salles da Fonseca

O MEU QUARTETO BRASILEIRO

 

 

Sim, bastaria que a minha ignorância não fosse tão vasta e o quarteto seria uma orquestra – e das maiores, as sinfónicas.

 

Mas, na verdade, tenho estes quatro como os maiores: Vinícius de Moraes, Mário Quintana, Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade.

 

Diz-se que «no meio está a virtude» e aí estão o Mário Quintana e o Manuel Bandeira a receberem a minha preferência. Mas isto é o meu gosto a falar e não o mérito de cada um deles e o dos que estão nos extremos em particular. Gostos... Mas é claro que também aqui é como nos concursos públicos: todos ganham em mérito absoluto mas dois ganham por mérito relativo. Numa faceta são iguais: na erudição. Noutra ainda, pecam por vezes por igual: ignoram as ideias e jogam com as palavras. É então que lhes chamo «jongleurs de mots».

 Carlos Drummond de Andrade.png

Então, hoje é a vez de Carlos Drummond de Andrade, o farmacêutico que nasceu mineiro, morreu carioca mas fez todo o Brasil.

 

 

E eis-me baralhado no meio de tanto opus drummondiano. Não posso dizer quase às cegas que gosto de tudo mas, na verdade, há tanta poesia dele de que gosto que não sei por onde começar.

 

Vou avançar pelo meu velho caminho...

Congresso Internacional do Medo

Provisoriamente não cantaremos o amor,

Que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.

Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,

Não cantaremos o ódio, porque este não existe,

Existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,

O medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,

O medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,

Cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,

Cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.

Depois morreremos de medo

E sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas

Quadrilha

João amava Teresa que amava Raimundo

Que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili

Que não amava ninguém.

João foi para o Estados Unidos,

Teresa para o Convento,

Raimundo morreu de desastre,

Maria ficou para tia,

Joaquim suicidou-se e

Lili casou com J. Pinto Fernandes

Que não tinha entrado na história.

Purificação

Depois de tantos combates

O anjo bom matou o anjo mau

E jogou seu corpo no rio.

As águas ficaram tintas

De um sangue que não descorava

E os peixes todos morreram.

Mas uma luz que ninguém soube

Dizer de onde tinha vindo

Apareceu para clarear o mundo,

E outro anjo pensou a ferida

Do anjo batalhador.

Para Sempre

Por que Deus permite

Que as mães vão-se embora?

Mãe não tem limite,

É tempo sem hora,

Luz que não apaga

Quando sopra o vento

E chuva desaba,

Veludo escondido

Na pele enrugada,

Água pura, ar puro,

Puro pensamento.

Morrer acontece

Com o que é breve e passa

Sem deixar vestígio.

Mãe, na sua graça,

É eternidade.

Por que Deus se lembra

— mistério profundo —

De tirá-la um dia?

Fosse eu Rei do Mundo,

Baixava uma lei:

Mãe não morre nunca,

Mãe ficará sempre

Junto de seu filho

E ele, velho embora,

Será pequenino

Feito grão de milho.

 

Bani das minhas preferências aquelas peças que considero acéfalas, por falta de sentido e apenas jogam com os sons. E estava eu nestas releituras quando me lembrei de Cora Coralina, essa, sim, exclusivamente baseada nas ideias e quase esquecendo o som das palavras.

 

E o quarteto faz-se quinteto. Será de cordas? Isso é o que vamos ver...

 

Outubro de 2014

Henrique Salles da Fonseca em Curaçao (2011)

 Henrique Salles da Fonseca

CARTA ABERTA AOS PORTUGUESES

 

 

 

Para que serve um Parlamento

 

Só ontem tomei conhecimento duma proposta que alguns deputados, chamados de esquerda, apresentaram na Assembleia Nacional para que fossem eliminados os bustos dos Presidentes da República dos tempos da “Ditadura”, em uma exposição na Assembleia Nacional comemorando 100 anos de República e que em 2014, bem feitas as contas, seriam 104!

 

Mas até aqui tudo bem se nem sequer sabem fazer contas, nós desculpamos.

 

Aqueles deputados podem não gostar dos Presidentes do tempo do Salazar; direito deles, assim como talvez não gostem do Benfica ou do Sporting ou do F.C. do Porto. Eu por exemplo também não gosto dos tais deputados que se dizem de esquerda, porque só de esquerda é que se ganham prémios Nobel, como não gosto do rei Sancho II, nem da Leonor Teles, nem de João III que gastou uma fortuna para impor a Inquisição em Portugal e de muitos outros, como Afonso Costa que jurou um dia que em dois anos não haveria mais católicos em Portugal e, por acréscimo, posso afirmar que nunca gostei de nenhum dos Presidentes pós 25 de Abril, abrindo uma excepçãozinha – zinha mesmo – para Ramalho Eanes.

 

Mas jamais me passaria pela cabeça rasgar as páginas da História de Portugal onde estes personagens aparecem, até porque dificilmente se aprende com o que outros fizeram bem feito, mas sobretudo com os erros que podem e devem ser analisados, para daí se tirarem lições.

 

Uma das lições que tiro da atitude destes deputadinhos que não gostam do Carmona, do Craveiro Lopes e do Américo Tomás, é que antes de tomarem atitudes imbecis deveriam ter consultado os eleitores sobre o seu parecer, sem esquecer que há poucos anos o português mais querido da história de Portugal foi exactamente Salazar.

 

Esses mesmos deputadinhos não devem ter a menor noção do que seja um Parlamento, a não ser que é um meio brilhante para dele se tirarem vantagens pessoais, já que na vida privada possivelmente não conseguiriam trabalho nem como ajudantes de bar.

 

Uma dica para esses senhores: o Parlamento, em teoria, deveria servir para ajudar a conduzir o país, o povo, os portugueses, a níveis de dignidade, cultura, economia, saúde, etc., hoje quase tudo relegado ao “que se dane o povo”.

 

Mas enquanto continuarem a eleger-se mentecaptos... a Assembleia Nacional só servirá para esbanjar dinheiro, muito dinheiro, do país que empobrece.

 

E empobrece sem dignidade, sem valores humanos, sem cultura.

 

Que pena.

 

Fico a pensar se hei-de rir da estupidez desses deputados se chorar pelo mal que fazem.

 

3 de Outubro de 2014

 

Francisco Gomes de Amorim

 

 Francisco Gomes de Amorim

DEFESA DOS DIREITOS HUMANOS E DA DEMOCRACIA

 

 

Um outro Modo de continuar a Colonização?

Da imoralidade dos chamados países civilizados

 

Já Thomas Hobbes, em 1651 no “Leviathan” reconhecia que, no estado natural domina a luta de todos contra todos e que, para se conseguir a paz, o povo renuncia à liberdade submetendo-se a um governante.

Com o desenvolvimento da sociedade ocidental, em consequência da filosofia grega e da cultura judaico-cristã, o indivíduo emancipa-se cada vez mais do grupo, especialmente a partir da reforma protestante, da guerra da independência dos EUA e da Revolução Francesa. A consequência deste desenvolvimento deu origem à democracia representativa.

A segunda guerra mundial foi de tal modo humilhante para a pessoa humana que as nações reunidas determinaram elaborar a Carta dos Direitos Humanos.

Na Assembleia Geral da ONU a 20 de Dezembro de 1993, 171 Estados assinaram a Resolução 48/141, comprometendo-se a observar os direitos do homem e a aplicar a protecção dos direitos humanos nas legislações nacionais. Há países que submetem os direitos humanos às leis da Sharia e outros não cumprem o que assinaram.

Conflito de Identidades individuais, grupais e culturais

Tudo luta: uns pelos direitos (Democracia) outros pela religião! Por toda a parte, grupos de cidadãos entram em conflito com o Estado e gritam pelos seus direitos individuais ou culturais violados. Um sintoma claro da violação dos Direitos Humanos certifica-se no facto de Estados perseguirem ou não permitirem sequer organizações reivindicativas dos direitos humanos. Muitos governos especialmente muçulmanos e asiáticos rejeitam a concretização da convenção em nome da história e da tradição.

A acentuação da cultura ou comunidade não precisa de ser contrária aos direitos individuais porque estes transcendem as culturas e devem ser garantidos dado o cidadão ter abdicado do direito de fazer justiça por próprias mãos, confiando esse direito ao Estado. Naturalmente há direitos individuais que colidem com a prática de estados e de culturas que se sobrepõem ao ideal da justiça para todos.

É um facto que o direito e a justiça estiveram em contínua mudança, sempre sob a plataforma cultural dominante. Os povos que viveram da colonização e da conquista impunham-se aos colonizados sem respeitar os seus direitos; esta é uma constante ao longo da História dos povos quer na colonização interna quer externa. Hoje as nações colonizadoras querem impor a obrigação de respeito pelos direitos humanos às nações a quem outrora os não concederam. No concerto das nações nem todas têm de facto os mesmos direitos: as grandes potências determinam a marcha e desrespeitam as mais pequenas.

A identidade cultural se quer ser centrada no indivíduo deve ser exercitada em campo aberto que possibilite afirmação e integração. Como a identidade individual se adquire através de um certo distanciamento em relação ao grupo e a identidade cultural se assegura no distanciamento e afirmação em relação às outras culturas, a luta é aceite como dado natural. Cada povo tem uma configuração própria, uma forma de expressão, pensamento e acção determinada por valores, normas e instituições que no seu conjunto determinam uma certa tensão relacional entre indivíduo e grupo, o que possibilita o desenvolvimento de um e outro. Os factores culturais que mais emprestam significado e sentido especial à cultura são, por um lado a democracia e por outro a religião, como se verifica na luta cultural entre o Ocidente e o mundo islâmico ou entre o capitalismo e o socialismo.

Cada cultura concretiza-se e manifesta-se nas suas realizações e valores que dão significado ao seu desenvolvimento. A mesma história dá consistência e projecção à própria identidade que precisa de uma base para se desenvolver, à imagem de um rolo negativo que ajuda a compreender o presente, ao ser revelado. Na época da globalização seria de esperar maior permeabilidade do indivíduo e das culturas evitando culturas e indivíduos a imposição dos próprios valores ou a fixação rígida na própria tradição.

Exportação de democracia como instrumento de colonização?

Cada cultura, para se impor, usa o que tem: uns exportam a democracia/ideologia e as armas, outros exportam a religião e a guerrilha.

O ocidente, para melhor impor a sua dominância em países economicamente menos desenvolvidos mas ricos em matérias-primas, alega o pretexto da defesa dos direitos humanos e em especial a democracia, para, em nome dela, desestabilizar estados. A exploração que outrora se impunha pela força introduz-se agora de maneira furtiva sob a exigência de que todos os povos devem tornar-se democráticos à maneira ocidental; doutro modo, são castigados com sanções económicas ou vêm, nos seus países, movimentos emancipatórios serem apoiados pelo Ocidente. O dilema da situação está, porém, no facto de países em vias de desenvolvimento precisarem de governos fortes e estáveis, e o desenvolvimento só ser possível, nestes países, com governos autoritários. O não reconhecimento desta realidade e interesses egoístas levaram a intervenções militares injustas.

Veja-se o resultado da intervenção na Líbia, no Iraque, bem como a revolta da geração Internet do Norte de África, etc. Foi pior a emenda que o soneto. Onde os estados democráticos intervieram, domina agora, em grande parte, a miséria e a anarquia. A organização do IS (terrorismo internacional de extremistas islâmicos) que é preciso enfrentar com coragem, foi fomentada por um Ocidente só interessado em defender interesses próprios e imediatos, como se viu no caso da Síria.

Se a democracia e os direitos do homem estivessem em primeiro plano, o Ocidente promoveria nestes países as economias locais e não o negócio com as armas, investiria no bem-estar e na formação e fomentaria a estabilização de estados. Os Estados ocidentais praticam, ad extra, uma política hipócrita exigindo deles o cumprimento de valores abstractos e praticando dentro dos próprios países a decadência dos próprios valores. Deste modo o Ocidente não tem legitimação nem qualificação moral para se armar em julgador de outros povos e culturas.

Que fazer para melhorar a situação?

A situação em que se encontram os povos onde há litígio armado é diferente da dos povos ocidentais; por isso a nossa solução não pode ser a mesma que a deles; isto numa perspectiva de querer resolver problemas no sentido de uma satisfação mútua. O problema não está nas pessoas mas na situação em que se encontram, e no facto de uns pertencerem a países colonizadores e outros a países colonizados, uns serem colonizadores e outros pretenderem sê-lo. Tudo isto cria uma relação de assimetrias e leva à contradição entre valores e interesses. No âmbito da violência é preciso resistir para que o mal não aumente. Mesmo assim o Homem resigna porque não conciliará o direito e a liberdade e junta a injustiça à desordem.

Nem o monopólio de interpretação cultural nem o monopólio da verdade favorecem o desenvolvimento individual e colectivo. Interpretações culturais devem situar-se sempre no âmbito do hipotético e com o fim de desenvolvimento mútuo, numa de entreajuda e colaboração complementar. A violência é derrota porque destrói a pessoa, cria vítimas e não reconhece a perfeição. A situação no Iraque e na Síria parece decorrer entre fraqueza seduzida e ferocidade irritada.

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 António da Cunha Duarte Justo

NO LANÇAMENTO DE «A GUERRA CIVIL DE ESPANHA»

 

 

Foi uma apresentação bastante assistida, no bonito espaço dos antigos Correios do Estoril. Eu fui com a minha filha Paula, houve referências, naturalmente, pelos colaboradores, ao trabalho de investigação apresentado no livro, e à qualidade da forma e do estilo, seguindo um percurso de rigor e elegância expositiva não isentos de sentido crítico e de vasta informação bibliográfica, que as andanças diplomáticas pelo mundo, do seu autor, contribuiriam naturalmente para fortalecer.

Por detrás da mesa foram pendurados na parede retratos de alguns dos implicados no processo, entre os quais Anthony Eden e o Almirante inglês de então, Léon Blum, Staline, Armindo Monteiro, de que o Embaixador Luís Soares de Oliveira referiu brevemente o papel, aquando da sua exposição final.

Um período bem agitado, o da Guerra Civil Espanhola, resultante do extraordinário desenvolvimento industrial da Espanha, e da multiplicação das forças do operariado, com as respectivas ideias de subversão, muito em voga, a um status de exploração e miséria provocadoras da cisão. Uma Guerra que provocou muitas mortes e atropelos, e as implicações junto dos outros povos, com escusas ou ajudas mais ou menos retraídas em que o cinismo ou a inanidade das relações políticas forçosamente se fez sentir.

No final da sessão houve as perguntas comedidas para o Sr. Embaixador responder e uma delas foi muito taxativa: se o Sr. Embaixador poderia salientar num breve traço, um resultado da Guerra Civil de Espanha para a Espanha. Com aplomb e delicadeza o Sr. Embaixador mostrou a dificuldade de uma síntese, numa simples ideia, e creio que respondeu com algo relacionado com a perda de importância posterior da Igreja. Transcrevo do seu livro, como apoio à sua frase, de que gostei mas esqueci:

“Em Junho de 1939, chegou a vez dos bispos. Uma nova Carta Pastoral colectiva em que pediam clemência para os vencidos foi impedida de publicação ou de referência em qualquer jornal. Unamuno tinha razão: o catolicismo de Franco era de padrão muito especial. O seu deus desconhecia o perdão.”

Para mim, que sou leiga, creio que a ditadura de Franco, além de construir uma Espanha poderosa, deixou um legado de amor pátrio, ao passar o seu testemunho, novamente, ao seu Rei, restabelecendo a Monarquia, como garante de uma continuidade apoiada em respeito pela História da sua Nação.

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 Berta Brás

A VESPA ASIÁTICA

 

 

A juntar à lista de pragas e doenças que afligem as abelhas e causam prejuízos aos agricultores, apareceu agora uma vespa, de nome científico Vespa velutina nigritorax, também chamada vespa asiática que, além de agravar as condições económicas da agricultura, é também capaz de atacar pessoas.

Tenho informação de que o Ministério da Agricultura está a tratar do assunto. Mas vi notícias de que, no Norte do país, onde o ataque tem causado prejuízos nos apiários, o combate à praga está a ser feito por outros ministérios, nomeadamente os do Ambiente e da Administração Interna.

 

Não posso deixar de lembrar que a Estação Agronómica Nacional, antes da destruição levada a cabo por vários governos, possuía um Departamento de Entomologia, com bons investigadores, que certamente estaria indicado para o combate à nova praga, como fez em vários casos em que teve de actuar. Menos de dez anos depois da criação da Estação (pelo Decreto-lei 27.207, de 16 de Novembro de 1936), o Departamento de Entomologia, de que era Chefe o Eng.º Agrónomo Alexandre José Duarte, dirigiu, em 1944-1945, o combate a uma praga do gafanhoto Dociostaurus maroccanus, que estava a causar prejuízos à agricultura.

Portugal está cada vez mais vulnerável e com menos capacidade para se defender de ataques à sua agricultura, como este que agora surgiu. É extraordinária a incapacidade dos nossos governantes, particularmente nos últimos quarenta anos, para compreenderem que o dinheiro “gasto” com os laboratórios de investigação do Estado, independentes das universidades, é um fabuloso investimento. Não conseguem perceber que o eficiente combate a uma praga ou doença custa muito menos que o prejuízo que elas causam. E um combate eficiente só é possível com bons investigadores ou com pessoas ensinadas ou dirigidas por eles. Há muitos bons exemplos a demonstrá-lo.

Publicado no "Linhas de Elvas" de 2 de Outubro de 2014

 

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 Miguel Mota

EU NEM QUERO ACREDITAR

 

 

Contrariamente ao Luís Góis que encontra no mundo vários bens para serem guardados - tal o sorriso de quem passa, a acção de quem trabalha a cantar, a vela no alto mar livre, a chuva fecundante… - no seu belo fado, na sua voz extraordinária - eu estou de boca aberta, perfeitamente emudecida – siderada é mais culto - ouvindo gente das esquerdas eliminarem os bustos dos presidentes da República dos tempos da “Ditadura” de uma exposição na Assembleia da República, que contempla cem anos de Presidência – eu diria 104 - a pretexto de que tal emparelhamento significará branqueamento do fascismo.

 

Não, não posso acreditar em tanta acefalia a que o pertinaz sentimento de contestação, irredutível a qualquer tipo de reflexão e bom senso, levante a onda de protestozitos birrentos, de contestação só porque sim, que, de resto, se traduziram em resultado nulo.

 

Não, não vou desenvolver o tema inane. Mas recordo os versos de Luís Góis, que tentarei glosar pela negativa:

 

Eu não quero acreditar

Eu não quero acreditar

Que a tolice de quem brada

Seja um bem p’ra se guardar,

Que é luar ou sol de graça

Que nos venha alumiar

Que nos venha alumiar.

Eu não quero acreditar

Eu não quero acreditar

Que a acção de quem protesta

Com análise cavalar

Seja um bem p’ra se guardar,

Seja coisa p’ra cantar,

Seja coisa pr’a aceitar.

Eu não quero acreditar

Eu não quero acreditar

Que seja um bem p’ra se guardar,

Que presidentes de outrora

Sejam linchados agora

Na liberdade encontrada

No cravo de cor vermelha.

Eu não quero acreditar

Eu não quero acreditar

Que tal chuva de protestos

Seja um bem p’ra se guardar,

De gente de bem e sagaz

Seja coisa de aceitar

Com vontade de linchar.

 

Não, deixemos isto que é feio, ouçamos o imortal Luís Góis, pela Internet que seja:

https://www.youtube.com/watch?v=035FUgVlnyY&feature=kp

 

É preciso acreditar

É preciso acreditar

É preciso acreditar

Que o sorriso de quem passa

É um bem p’ra se guardar

Que é luar ou sol de graça

Que nos vem alumiar.

Com amor alumiar.

É preciso acreditar

É preciso acreditar

Que a acção de quem trabalha

É um bem p’ra se guardar

Que não há nada que valha

A vontade de cantar

A qualquer hora cantar.

É preciso acreditar

É preciso acreditar

Que uma vela ao longe solta

É um bem p’ra se guardar

Que se um barco parte ou volta

Passará no alto mar

E que é livre o alto mar.

É preciso acreditar

É preciso acreditar

Que esta chuva que nos molha

É um bem p’ra se guardar

Que sempre há terra que colha

Um ribeiro a despertar

Para um pão por despertar.

 

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  Berta Brás

MANUEL BANDEIRA

 

 

 

- Como se chama a fêmea do cupim?

- Como se conjuga o Presente do Indicativo do verbo «precaver»?

 

Se para um português à primeira pergunta corresponde chumbo pela certa, já quanto à segunda, fiquei a pensar e sou capaz de aventar algo como...

- Eu precavejo

- Tu precavês

- Ele precavê

- Nós precavemos

- Vós precaveis

- Eles precavêem

 

Será?

Ora se para mim o cupim é a bossa dos bois brâmanes, como é que se pode pôr a questão de a bossa ter fêmea? No máximo, seria o cupim da vaca. Mas não! Há certamente mais quem seja cupim algures nesse mundo de Cristo... Só pode! E então o que é esse cupim que tem fêmea? Pois não precisei de fazer como Augusto Gil quando disse «fui ver» e se deparou com a neve. Bastou-me chegar ao final do texto de Manuel Bandeira para saber que se trata de ave aquática do Rio Grande do Sul cuja fêmea se chama arará. E o mais interessante é que o poeta recorrera a ornitóloga amiga nordestina e a tudo quanto era dicionário e... nada. Foi preciso telefonar a uma cruzadista sua conhecida para que ela respondesse sem qualquer hesitação: arará!

 

E o mistério continua um pouco mais à frente quando me aparece um parentirso que o poeta trata por tu como se tal «coisa» fosse do mais natural que Deus tenha posto na Terra. Então ele conhece o parentirso e não sabia o nome da fêmea do cupim? Oh! Subida Academia que afinal nada sabes de ornitologia... Muito bem, fiquemos então a saber que o parentirso é um estilo assumido pelos bacantes e foliões quando em fúria nos idos da Antiguidade Clássica. Toma e embrulha!

 

Não se pense, contudo, que Manuel Bandeira tivesse por hábito «arrotar postas de pescada». Não! Lendo-o, ficamos com a sensação nítida de que ele dizia estas coisas como se elas fossem mesmo do conhecimento do comum dos mortais. E se na prosa ele usa de um humor fino e até mesmo jocoso, na poesia temo-lo frequentemente a abordar assuntos banais com uma naturalidade encantadora. Não raro, junta humor a poesia com uma ponta de «non sense» totalmente inesperada. É o caso de «PNEUMOTÓRAX»:

 

Febre, hemoptise, dispneia e suores nocturnos.

A vida inteira que podia ter sido e que não foi.

Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:

- Diga trinta e três.

- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...

- Respire.

...

- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.

- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?

- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

 

E também o «VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGADA» é humorístico:

 

Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada

 

Vou-me embora pra Pasárgada

Aqui eu não sou feliz

Lá a existência é uma aventura

De tal modo inconsequente

Que Joana a Louca de Espanha

Rainha e falsa demente

Vem a ser contraparente

Da nora que nunca tive

 

E como farei ginástica

Andarei de bicicleta

Montarei em burro brabo

Subirei no pau-de-sebo

Tomarei banhos de mar!

 

E quando estiver cansado

Deito na beira do rio

Mando chamar a mãe-d’água

Pra me contar as histórias

Que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada

 

Em Pasárgada tem tudo

É outra civilização

Tem um processo seguro

De impedir a concepção

Tem telefone automático

Tem alcaloide à vontade

Tem prostitutas bonitas

Para a gente namorar

 

E quando eu estiver mais triste

Mas triste de não ter jeito

Quando de noite me der

Vontade de me matar

— Lá sou amigo do rei —

Terei a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada.

 

Ou ainda em «AUTO RETRATO»

 

Provinciano que nunca soube

Escolher bem uma gravata;

Pernambucano a quem repugna

A faca do pernambucano;

Poeta ruim que na arte da prosa

Envelheceu na infância da arte,

E até mesmo escrevendo crónicas

Ficou cronista de província;

Arquitecto falhado, músico

Falhado (engoliu um dia

Um piano, mas o teclado

Ficou de fora); sem família,

Religião ou filosofia;

Mal tendo a inquietação de espírito

Que vem do sobrenatural,

E em matéria de profissão

Um tísico profissional.

 

 

Mas nem sempre Manuel Bandeira está virado para a brincadeira. Por vezes é nostálgico como em «ANDORINHA»:

Andorinha lá fora está dizendo:

— “Passei o dia à toa, à toa!”

Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!

Passei a vida à toa, à toa…

 

E bem cedo se fartou dos parnasianos, os da métrica cronométrica e da rima bem rimada:

POÉTICA

Estou farto do lirismo comedido

Do lirismo bem comportado

Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao Sr. director.

Estou farto do lirismo que para e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo.

Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais

Todas as construções sobretudo as sintaxes de excepção

Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador

Político

Raquítico

Sifilítico

De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo

De resto não é lirismo

Será contabilidade, tabela de co-senos, secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos

O lirismo dos bêbedos

O lirismo difícil e pungente dos bêbedos

O lirismo dos clowns de Shakespeare

— Não quero mais saber do lirismo que não é libertação!

 

E por aí além... até que outro poeta, seu amigo, lhe disse quando se comemoraram os 50 anos da sua poética...

 

Certamente não sabias

Que nos fazes sofrer...

É difícil explicar

Esse sofrimento seco,

Sem qualquer lágrima de amor,

Sentimento de homens juntos,

Que se comunicam sem gesto

E sem palavras se invadem,

Se aproximam, se compreendem

E se calam sem orgulho.

Não é o canto da andorinha, debruçada nos telhados da Lapa,

Anunciando que a tua vida passou à toa, à toa.

Não é o médico mandando exclusivamente tocar um tango argentino,

Diante da escavação no pulmão esquerdo e do pulmão direito infiltrado.

Não são os carvoeirinhos raquíticos voltando encarrapitados nos burros velhos.

Não são os mortos do Recife dormindo profundamente na noite.

Nem é tua vida, nem a vida do major veterano da guerra do Paraguai,

A de Bentinho Jararaca

Ou a de Christina Georgina Rossetti:

És tu mesmo, é tua poesia,

Tua pungente, inefável poesia,

Ferindo as almas, fogo celeste, ao visitá-las;

É o fenómeno poético, de que te constituíste o misterioso portador

E que vem trazer-nos na aurora o sopro quente dos mundos, das armadas exuberantes

E das situações exemplares que não suspeitávamos.

Por isso sofremos: pela mensagem que nos confias

Entre ônibus, abafada pelo pregão dos jornais e mil queixas operárias;

Essa insistente mas discreta mensagem

Que, aos cinquenta anos, poeta, nos trazes;

E essa fidelidade a ti mesmo com que nos apareces

Sem uma queixa, no rosto entretanto experiente,

Mão firme estendida para o aperto fraterno

– O poeta acima da guerra e do ódio entre os homens –,

O poeta ainda capaz de amar Esmeraldas embora a alma anoiteça,

O poeta melhor que nós todos,

O poeta mais forte

 

 Carlos Drummond de Andrade 

 

Mas este fica para mais logo...

Outubro de 2014

Chipre Norte-Mosteiro de Belapais 3.JPG

Henrique Salles da Fonseca

REVISÕES

 

Ao contrário de Alberto Gonçalves, votei sempre no CDS desde a primeira hora, atida a (pre)conceitos de um amor pátrio que sempre me pareceu partilhado por esses a quem também pareceram repugnar as tramóias que desde a primeira hora, e com a rapidez dos tornados, mas de cravo cínico na botoeira, fez ir pelos ares todo um mundo de estabilidade, de afectos, de ideologias mantidas no sentimento do maior ou menor livre arbítrio de cada um, com espírito crítico, naturalmente, mas sabendo distinguir os esforços equilibristas dos dirigentes de uma nação dependente do exterior ultramarino, que antepassados corajosos lhes tinham deixado de herança e que um piparote repentino dos novos heróis apagou de vez, indiferentes às tragédias provocadas. Mas o povo, politizado à pressa com os lugares-comuns de uma pseudo-igualdade social, desses afectos pela história pátria não entendia e julgou que um maná bíblico, a que tinha pleno direito, lhe ia cair sobre a cabeça, com a generosa intervenção dos libertadores da opressão e o CDS foi esmorecendo no apoio votante a ele prestado. Para governar teria que se coligar com o parceiro a seguir, para tentar segurar ainda a nau proveniente do grande naufrágio. A generosidade de um tratado de União Económica Europeia, felizmente, proporcionou farturas e desenvolvimentos que se demonstram num país mais aberto e bonito, mas os gastos foram excessivos e a corrupção também.

Quando Passos Coelho surgiu em cena, eu julgava-o apenas mais um dos que levianamente se utilizavam dos dinheiros alheios sem pensar em saldar a dívida monstruosa. Não foi assim, contudo. Três anos de exigência e de provação, o Governo de Coligação foi em frente com o seu projecto, mau grado os pruridos dos economistas anunciadores da destruição económica e das perversões altissonantes e desestabilizadoras dos manipuladores dos direitos populares que uma democracia estridente e tacanha ergue como bandeira, indiferente a princípios morais que exigem a remissão das dívidas.

Havendo resultados positivos na governação, esses são ignorados contudo, para, já que não conseguem expulsá-lo da cena, se pesquisarem os “podres” de um homem que talvez tenha algo obscuro no seu passado económico, mas que patrioticamente se tem esforçado por seguir numa linha de honradez e de sacrifício que sabemos indispensável, ao menos para nos erguer o moral. E apesar de tudo, o povo colabora no sacrifício, ajudando filhos e netos, para desfazer em parte as consequências nefastas dessas políticas de rigor obrigatórias para gente formada na honradez de princípios. Mas muitos do próprio partido se lhe opõem, as convicções de desastre económico escondendo a fúria da perda das prebendas, mesmo sabendo-as de empréstimo. E as perguntas dos e das deputadas na assembleia, insistentes sobre o dinheiro ganho por Passos Coelho no tal caso Tecnoforma e a forma como o gastou, não lhe dando uma hipótese de poupança, foram por demais ridículas nessa farsa em que, como sempre, Passos Coelho respondeu com bom timbre e compostura, provavelmente no desprezo pelo pedantismo idiota dos e das questionadoras.

Alberto Gonçalves terá razão, pois, na forma um tanto drástica com que, condenando Passos Coelho, o admite como superior aos outros numa governação para todos os efeitos necessária, minimizando de certa forma a burla num país que protesta mas que alinha no deixa-andar da falcatrua. Eu admiro Passos Coelho e não acho deprimente o seu Governo.

Eis o artigo de Alberto Gonçalves, do DN, 28/9/14

A higiene da casa

À semelhança do que acontece no futebol, em que todos roubam o que podem e só os adversários o fazem com acinte, a moralidade, no país dos partidos e dos fanáticos dos partidos, é questão de perspectiva. Mesmo que se desconfie, ou até se prove, que Fulano desvia fundos comunitários, aceita subornos e nas horas vagas atropela velhinhas por gozo, os seus fiéis estarão sempre prontos a ignorar os deslizes do chefe na medida em que Sicrano, o chefe dos rivais, também escapou a umas multas por estacionamento em 1982 (ou ao atropelamento de velhinhas em 2005).

Vem isto a propósito do "caso" Tecnoforma. A título de esclarecimento, noto que votei nos senhores que nos governam, por exclusão de partes e talvez por incúria. Informo ainda que acho o Governo em funções uma coisa deprimente, se bem que menos nocivo do que os antecessores e os candidatos a sucessores. Se, contas feitas, PSD e CDS não mudaram quase nada do que se impunha e preservaram quase tudo o que se evitava, acredito que Portugal estaria bastante pior se o Eng. Sócrates tivesse continuado a sua senda de "momentos históricos" e voltará a piorar imenso se o Dr. Costa (em princípio) pegar um dia nisto.

As referências ao PS, porém, terminam aqui. Não pretendo evocar o Freeport, a Universidade Independente, os projectos na Guarda, as escutas do Face Oculta, os apartamentos de Lisboa e Paris e, lá está, as violações do regime de exclusividade parlamentar a fim de relativizar o que apenas os ceguinhos, ou os portugueses, se me permitem a redundância, relativizariam. As alhadas de Pedro Passos Coelho não se desculpam através da culpa alheia.

E a alhada em questão, revelada pela revista Sábado e entretanto assaz popular, resume-se aos 150 mil euros que o Dr. Passos Coelho terá recebido indevidamente entre 1995 e 1999 (por causa da exclusividade do deputado que então ele era) e omitido ao exacto fisco que agora nos consome com sofreguidão. Embora a certeza do crime esteja por apurar, não confortam as garantias de honestidade fornecidas pelo próprio, além dos pedidos ao Parlamento e à Procuradoria-Geral da República para que o ajudem a recordar se recebeu ou não uma quantia que, com sorte, o cidadão médio demora dez anos a ganhar. Por incrível que pareça, residir em Massamá e voar em turística não asseguram a honra de um homem.

Se a história se provasse, não importaria a palavra dada à AR, a baixeza da denúncia anónima, a estabilidade, o futuro, o passado de trapalhadas que outros cometeram: o Dr. Passos Coelho deveria demitir-se. Mas não se demitirá, visto que os obstáculos do costume impedem que se saiba a verdade e a verdade não preocupa o eleitorado, que já condenou ou absolveu o primeiro-ministro de acordo com antipatias ou simpatias prévias. Quem hoje exige a queda do Dr. Passos Coelho defendia ontem o radioso currículo do Eng. Sócrates contra a "cabala". E quem ontem atacava o descaramento do Eng. Sócrates apoia hoje a firmeza do Dr. Passos Coelho. A política é suja porque o País não é muito limpo.

 Berta Brás.jpgBerta Brás

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